Tag Archives: The Screwtape Letters

Preconceitos malévolos

 

The prince of darkness is a gentleman!

King Lear

Acto III, Cena III 

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 A primeira imagem corresponde à edição Vintage de um livro escrito em 1824 por James Hogg, The Private Memoirs and Confessions of a Justified Sinner: Written by Himself. With a detail of curious traditionary facts and other evidence by the editorO título é deliciosamente longo e parodia – como outros no seu tempo já o haviam feito – as fórmulas com que os romances picarescos de aventurosas personagens eram normalmente encabeçados. Neste livro pode-se encontrar um dos mais antigos e bem sucedidos de uma narrador trapaceiro e pouco fiável, que se ocupa de uma história de perdição pecaminosa e de decorrências calvinistas.

A terceira imagem alude a The Monk, livro de Matthew Lewis de 1796, que para além de ter inaugurado a expressão “Oh bravo, Ambrósio! ” afincou decididamente o paradigma de um vilão clerical. Se concebermos um padre Amaro manifestamente mais violento e libidinoso – tramado pelo jugo de uma maquinação diabólica que o visa perder – ficaremos com uma ideia aproximada da escabrosa narrativa que corre num pacato convento de Espanha.

Os restantes livros ou são mais conhecidos ou já foram abordados neste blog (por exemplo, aqui). As imagens estão ali em cima devido a essa personagem mistério que é transversal a todas as narrativas e que podem tentar adivinhar (eu sei, é difícil). Do último livro, The Tragical History of Doctor Faustus de Christopher Marlowe, retiro um preconceito de que apropriei recentemente, e que contrasta a figura de Prospero, na Tempest de Shakespeare, com as deferências obrigacionais do Doktor Faustus. Num ensaio intitulado La Jeunesse des Mythes, Jean-Claude Carrière alinha os sinais gritantes de duas existências literárias (e mitológicas) cujas vidas se afastam quanto mais as narrativas avançam. No final desta Regressão – Progressão, o ex-Duque de Milão renuncia voluntariamente aos seus poderes enquanto o nosso Doktor vai mais longe que todos os homens para obter capacidades sobre-humanas. Prospero será nesse caso o anti-Fausto. Curioso, pois, considerar que uma é uma figura incontornável do nosso imaginário artístico e a outra permanece acantonada numa peça elizabetiana.

Disse há pouco que esta ideia configurava um preconceito porque na verdade é disso mesmo que se trata se a levarei para os Faustos ainda não lidos, bem como para os dois livros acima indicados. Como não poderei deixar de o fazer. Mais do que prefigurar a minha lacuna Goethiana (com “i” soa melhor, Fortie) esta frase clama a atenção pelo óbvio: nenhuma leitura sobrevive num espaço mental desembaraçado das suas irmãs precedentes. Quando chegar a Faust estarei a pensar em Prospero, e quando ler Hogg ficarei meditando sobre Wormwood e Screwtape. Desde o momento em que nascemos que deixamos de pensar por nós próprios.

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Tutores de fortuna e requinte

mailer-book190Por tudo o que escrevi sobre The Castle in The Forest, seria de esperar que o resultado desse exercício literário consubstanciasse uma explicação subjectiva – ainda que educada – dos caminhos de corrupção que o jovem Adolf Hitler tomou na sua infância, numa espécie de “explicação do monstro” aterradora e voyeurista que nos colocasse definitivamente numa confortável orla exterior de observação (havendo mesmo quem insista em criticá-lo quando nisso claudica). Mas no final da sua vida, Norman Mailer reserva-nos uma derradeira lição; a de que a natureza humana não pode ser explicada sem a inclusão auxiliar de forças invisíveis, que a nossa pobre e limitada subsistência então antropomorfizará sob a luz rectora do secularismo ou da religião.

No romance, estas influências externas tomam a forma de um agente do mal chamado Dieter, um diabo menor ao serviço do diabo maior que se encarrega da educação sentimental do nosso conhecido ditador nazi. Sim, diabos, o Demo em pessoa. É uma reviravolta inesperada, mas também uma cartada que surge muito cedo no livro (e que portanto não estraga a vida a ninguém – espero! – se for revelada de chofre como acabei de fazer). Mais tarde, Dieter assume a forma de um soldado das SS e tem de aturar as diatribes eugénicas de Himmler, pelo que é possível concluir que se comportou como um diabinho maroto e que provavelmente fez algo pelo caminho para merecer essa terrível despromoção e castigo.

Evidentemente, examinar a conduta humana sob a perspectiva das influências externas que anjos e demónios lançam sobre a sua alma não é tarefa nova. Só dentro do cânone ocidental, temos uma linha bem definida desde Baudelaire até aos tempos modernos, quando o tema adquire uma admirável sofisticação através de pelo menos duas obras imemoriais: o monumental Margarita e o Mestre, de Mikhail Bulgakov, e o inteligentíssimo The Screwtape Letters, de C.S. Lewis.

Confessemo-lo à partida; não podiam tratar-se de obras mais diferentes. Se me surgiu a ideia de contrastar as caracterizações teologico-transcendentais de Norman Mailer contra as de C.S. Lewis foi apenas porque a presença de anjos e demónios é uma ténue linha comum entre as duas narrativas.

screwtape51o-6kjiaol_ss500_Mas onde estão as minhas maneiras? Ainda não apresentei The Screwtape Letters. Este livro de 1942 consiste num conjunto de cartas dirigidas a um diabo-estagiário (Wormwood), por parte do seu tio Screwtape (um diabo-sócio com uma pensão brutal e regalias obscenas), escrito num registo de precisão magistral e por vezes gravemente hilariante. O popular livro conheceu uma pequena sequela em 1959, intitulada Screwtape Proposes A Toast. Ambos representam um triunfo da inteligência lúcida e observadora de Lewis.

Como o ponto de partida do inglês e do americano varia consideravelmente, não é de admirar que ambos guardem perspectivas quase inconciliáveis quanto à condição da alma humana e a sua porosidade às tentações da carne e do espírito. Se os agentes de Lewis trabalham por distorção e subtileza – nunca se manifestando, sussurrando eternamente – os diabos de Mailer obram continuamente mediante empurrões e safanões (chegando até a dar umas pauladas bem afinfadas naqueles Anjos metediços quando os apanham a jeito).

Em qualquer confronto directo, naturalmente que C.S. Lewis emerge como o escritor mais elegante e hábil. A atribulada vida do inglês e das centrífugas discussões, debates, regressões e revelações de fé que veio a suportar acrescem ao seu olhar límpido sobre as questões do cristianismo. Assim, por exemplo, Screwtape manifesta numa das suas cartas uma imensa alegria por constatar que um determinado humano está a afastar-se do cristianismo, reduzindo o seu culto regular a um vago e inócuo sentimento de religiosidade (de resto, como praticamente todos os cristãos modernos o fazem). Se não bastasse a sagacidade da observação, teríamos ainda o deleite de assistir a uma argumentação baseada em escritos de Coleridge! Isto, repito, só Lewis consegue fazer com naturalidade.

Norman Mailer é bastante mais violento, urdindo uma cosmogonia transcendental em que os poderes dos seus demónios impressionam quase tanto quanto as transgressões que estão autorizados a praticar. Dieter pode assumir formas humanas, controlar alguns pensamentos, manipular o mundo físico. Dieter consegue ainda criar sonhos e ideias, e introduzi-los na mente do petiz Adi Hitler. O conjunto destas moções prefigura o esbatimento dos limites do livre-arbítrio e um ataque cerrado à individualidade humana enquanto método elementar de corrupção demoníaca. Screwtape, pelo outro lado, gosta de exaltar a individualidade e com isso estimular o orgulho pessoal que exacerba o sentido de propriedade. Que é a propriedade privada senão a consequência final de um livre arbítrio desbragado; que será a expressão “meu Deus” se não uma deliciosa manifestação involuntária dessa propensão pecaminosa?

A sério, às vezes chega a ser irritante ler Screwtape, de tão brilhante que é em algumas observações.

The Castle in The Forest foi escrito devido à Segunda Guerra Mundial e à sua mais temível figura; The Screwtape Letters foi escrito durante esse mesmo período. Quer um quer outro previnem o leitor dos perigos da dilatação do ego humano: Mailer maneja com perícia essa tendência terrível e natural que é exercer poder sobre os seres que entendemos pensantes, ao passo que Lewis aflora a perigosidade de uma vida religiosa apenas na superfície, em que os maneirismos do culto e da “vida cristã” são assustadoramente deturpados e reordenados até se converterem numa verdadeira auto-estrada para o inferno (tinha de introduzir uma referência rockalheira, e Rolling Stones seria demasiado óbvio). Parafraseando Screwtape, é imprescindível que o pio homem genuflexado entre os fiéis esteja certo que o fulano ao seu lado é de algum modo menos digno, menos casto, menos religioso que ele. Com simplicidade e escassa presunção (o americano utiliza uma narrativa e um enredo admiráveis e autónomos, o inglês inscreve as suas ideias num registo cómico) eis dois livros que nos falam claramente da fragilidade dos nossos rumos e da importância de nunca cessarmos uma reflexão constante sobre as nossas fraquezas e a exploração

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A audiência prossegue!

Under the same influence, those who come, or would come, nearer to a full humanity, actually draw back from it for fear of being undemocratic.

Screwtape in Screwtape Proposes a Toast – C.S. Lewis

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Os livros de 2009

Para referência pessoal, servirá a presente entrada para registar os livros cuja leitura vou concluindo, bem como os seus autores e os textos que, por determinada ocasião, venha a escrever sobre o assunto. As datas correspondem ao dia em que termino um livro. A lista não distingue entre leituras inéditas e releituras (mantendo-se todavia presente a subtil distinção avançada por Italo Calvino, em que um clássico seria, entre outras coisas, aquele de que ouvíriamos dizer “estou a reler”, em vez de “estou a ler”).

  • The Christmas Books – Charles Dickens, 05.01.2009.

On the first day of Christmas’

  • The Naked and the Dead – Norman Mailer, 11.01.2009.

Repères pour un monde sans pères

  • L’art et la manière d’aborder son chef de service pour lui demander une augmentation – Georges Perec, 13.01.2009.

Gincana Empresarial

  • The Castle in the Forest – Norman Mailer, 18.01.2009.

‘A abelha perdida de Norman Mailer’

  • A Praga de Kafka (Kafkas Prag) – Klaus Wagenbach, 22.01.2009.

Uma vida apenas

  • The Screwtape Letters – C.S. Lewis, 23.01.2009.

Tutores de fortuna e requinte

  • I, Claudius – Robert Graves, 11.02.2009

Um olhar bífido sobre Graves e Suetónio, ou o manual de instruções para o romance histórico

  • O Conde de Abranhos – Eça de Queirós, 16.02.2009.
  • Lord of the Flies – William Golding, 20.02.2009.

Diz-me como reages, e direi quem tu és

  • A Morte de Ivan Ilitch – Lev Tolstoi, 27.02.2009.

‘As muitas mortes de Ivan Ilitch’

  • Catch-22 – Joseph Heller, 05.03.2009.
  • O Aleph (El Aleph) – Jorge Luis Borges, 07.03.2009.
  • Ficções (Ficciones) – Jorge Luis Borges, 11.03.2009.
  • Cisnes Selvagens (Wild Swans) – Jung Chang, 16.03.2009.

O voo dos cisnes

  • História Universal da Infâmia (Historia Universal de la Infamia) – Jorge Luis Borges, 19.03.2009.
  • Laços de Família – Clarice Lispector, 22.03.2009.

O milagre de Clarice Lispector

  • História da Europa do Leste (Histoire de l’Europe de l’Est) – Jean-François Soulet, 23.03.2009

‘Atravessando a Cortina’

  • Noites na Granja ao Pé de Dikanka – Nikolai Gógol, 10.04.2009.

‘Vejam só o que deitou ao mundo um abelheiro qualquer!’

  • Um Dia na Vida de Ivan Denisovich – Alexandr Soljenitsin, 12.04.2009 .
  • The Blade Itself (The First Law: Book One) – Joe Abercrombie, 18.04.2009

Nove dedos de violência

  • A Consciência e o Romance (Consciousness and the Novel) – David Lodge, 22.04.2009.

‘Tal e qualia como um romance’

  • La Voix Perdue des Hommes – Yves Simon, 27.04.2009.

Regresso à deriva

  • As I Lay Dying – William Faulkner, 02.05.2009

E que todos os nossos ontens hajam iluminado aos tolos o caminho para a morte poeirenta

  • Before They Are Hanged (The First Law: Book Two) – Joe Abercrombie, 05.05.2009
  • The Last Argument of Kings (The First Law:Book Three) – Joe Abercrombie, 09.05.2009.

Nove dedos de ambivalência

  • A Maravilhosa Viagem de Nils HolgerssonAtravés da Suécia – Selma Lagerlöf, 14.05.2009

Saga?’

  • O Mandarim – Eça de Queirós, 15.05.2009.
  • Waiting for Godot – Samuel Beckett, 05.06.2009.

‘O hábito, esse grande mortificador’

  • As You Like It – William Shakespeare, 08.06.2009.

‘More, I prithee more’

  • Romeo and Juliet – William Shakespeare, 10.06.2009.
  • To Kill a Mockingbird – Harper Lee, 19.06.2009.

‘Um pássaro na mão e um negro a voar’

  • Stalingrad – Antony Beevor, 22.06.2009

Disquiet on the Eastern Front’

  • Mírgorod – Nikolai Gógol, 29.06.2009.

‘É triste viver neste mundo, meus senhores!’

  • A Ilustre Casa de Ramires – Eça de Queirós, 02.07.2009.
  • L’Inutile Beauté et Autres Nouvelles – Guy de Maupassant, 07.07.2009.

‘Da utilidade da beleza’

  • Contos – Volume I – Anton Tchékhov, 20.07.2009.

‘O homem é na verdade um génio’

  • The Rise and Fall of the House of Medici – Christopher Hibbert, 30.07.2009.
  • Promenades dans Rome – Stendhal, 8.08.2009.
  • Il Principe – Niccolò Machiavelli, 10.08.2009.
  • Le Vite de’ più Eccellenti Pittori, Scultori, e Architettori – Giorgio Vasari, 12.08.2009.
  • La Vita Nuova – Dante Alighieri, 15.08.2009.
  • A Travel’s Companion to Florence – Harold Acton, 19.08.2009.
  • The Last Medici – Harold Acton, 21.08.2009.
  • Giuliano Dami, Aiutante di camera del granduca Gian Gastone de’ Medici – Alberto Bruschi, 25.08.2009.
  • Gian Gastone (1671-1737) – Testimonianze e scoperte sull’ultimo Granduca de’ Medici – Monica Bietti, 28.08.2009.
  • The Stones of Florence and Venice Observed – Mary McCarthy, 1.09.2009.
  • The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman – Laurence Sterne, 12.09.2009.

‘Cavalheiros: o Senhor Trismegistus’

  • Le Regard d’Orphée – direcção de Bernardette Bricout, 17.09.2009.
  • Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres – Clarice Lispector, 06.10.2009.

‘Os alimentos terrestres’

  • The Man Who Was Thursday: A Nightmare – G.K. Chesterton, 10.10.2009.

‘Um pesadelo’

  • The Good Soldier Švejk – Jaroslav Hasek, 20.10.2009.
  • Compromisso – Theodor W. Adorno, 21.10.2009.
  • Arte de Amar – Ovídio, 22.10.2009.
  • Amores – Ovídio, 23.10.2009.

‘Da semântica venusiana’ 

  • La Vita Nuova – Dante Alighieri, 7.11.2009.
  • O Inspector – Nikolai Gógol, 15.11.2009.
  • Manhã Submersa – Vergílio Ferreira, 23.11.2009.
  • O Livro do Cortesão (Il libro del Cortegiano) – Baldessarre Castiglione, 7.11.2009.
  • Antígona – Sófocles, 15.12.2009.
  • O Mundo de Homero (Le monde d’Homère) – Pierre Vidal-Naquet, 16.12.2009.
  • The Tragedy of Hamlet, Prince of Denmark – William Shakespeare, 18.12.2009
  • Ilíada – Homero, 22.12.2009.
  • Odisseia – Homero, 25.12.2009.
  • Landmarks of World Literature: the Iliad – Michael S. Silk, 30.12.2009.
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