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Repères pour un monde sans pères

Fosse publicado hoje e The Naked and the Dead não teria o mesmo impacto comercial ou a relevância literária que normalmente se lhe aponta. Digo isto a cargo de uma evidência: há alguns anos que deixámos para trás a tendência de pintar os soldados, partes fronteiras na guerra militar, como verdadeiros heróis. Do mesmo modo, é fácil, e quase impulsivo, denunciar o jingoísmo ou a manipulação nacionalista dos valores que se protegem a custo de vidas (e por vezes se impõem com igual custo). Mas no final da década de 40 do século passado, os Estados unidos da América, mais do que uma Europa destroçada, ainda seguravam em mãos quentes o ídolo do heróico GI.

Norman Mailer prestou serviço militar no palco de guerra das Filipinas e algumas das suas experiências encontram-se transcritas neste livro, dispersas pelas diferentes personagens e suas vozes distintas. Como escritor e jornalista, este era um homem desinteressado em glorificar as campanhas experiências militares, e a sua especial sensibilidade e compaixão impediram-no, à partida, de se embriagar com a alegria de um adeus às armas.

Nem as vozes mais pessimistas que se encontram neste livro, como aquele soldado que entra no conflito ciente das suas dificuldades inglórias, conseguem prever a dura realidade do flagelo bélico. Os obstáculos que são capazes de antever enquadram-se numa ordem abstracta, categorias genéricas de dor e sofrimento encabeçadas pela mancha permanente de uma morte provável. O soldado nunca antevê a dor de burro que fulmina os seus pulmões ao segundo quilómetro de uma marcha de dez milhas, nem respira previamente o ar, pesado com suor, dos compartimentos de navios pesados. Não sente as suas mãos calejadas, ou os pés com pústulas e erupções.

O triunfo de Mailer consiste na depuração desta qualidade instintiva de cada um dos homens: a sua obstinação em construir um mundo paralelo que lhe assegure a sobrevivência mental à adversidade. Para cada uma destas personagens, as suas vidas acessórias continuam a desenrolar-se. Desta intelectualização da guerra como uma interrupção de vida surgem dois pontos de inegável interesse, o primeiro dos quais reside na atitude dos homens, levados a considerar o conflito, em última instância, absurdo e inconsequente para a prossecução dos seus desejos pessoais (ou não seria a guerra um intruso no dealbar da sua existência). Por outro lado, ao insistirem que aqueles anos representam um constrangimento obrigatório dos seus movimentos e paixões, acabam por inevitavelmente chegar à perturbante conclusão de que, não sendo a guerra importante para as suas vidas, também não o será para aqueles que se encontram a milhares de quilómetros, nas casas que outrora ocuparam.

A partir deste ponto, as vozes de Mailer condenam-se a uma existência de fúria e raiva, de tristeza e frustração. De modo a preservar a sanidade, o único reduto ao seu alcance é a representação activa das realidades de uma família que continua a viver, de um filho que continua a crescer e que em breve o repudiará enquanto pai, ou de uma linda esposa que acaba por trazer um novo homem, mais jovem, belo e rico, para o leito conjugal. Traição, esquecimento, mudança; eis os produtos de um mundo necessário à sua sobrevivência, tão humano que escapa ao seu controlo, tão irreal que é populado pelos seus receios íntimos. E, no final, resta apenas o sentimento de que as acções do melhor dos soldados estão fatalmente subtraídas à admiração subconsciente de uma nação que afinal não identifica dever com heroísmo. O desespero é completo quando se aceita que esta conclusão é válida para ambos os mundos que eles atravessam.

Nesta dicotomia entre o plano de acção real e o plano de acção verosímil (tão verosímil, de facto, que adquire a legitimidade de uma certeza distante), as personagens deste romance caminham numa dimensão em que não existem heróis. Nem aqueles que procuram a guerra de livre vontade o fazem como manifestação de uma volição última e pura, liberta dos condicionalismos de uma vida terrena a cujos contratempos se impunha escapar. É apreciável a ironia; Mailer descreve-a a partir de homens conscientes da sua existência, e agonizantes perante o paradoxo de combater um infortúnio com um flagelo. Doc Daneeka, nessa monumental obra de Joseph Heller, é por isso mesmo tão mais hilariante e trágico (“Felizmente, nesse momento rebentou a guerra”‘).

Este quadro de sensibilidades é ainda o que distingue o livro de outras criações que entretanto foram surgindo, e que hoje nos inundam como entretenimento. Sempre achei curioso o esquizofrenismo dos modernos filmes de guerra que, ao deplorarem os horrores do conflito, procuram inculcar um sentido de remorso e de culpa ao espectador ou leitor. Mas não em demasia, note-se, porque é imperativo que esse mesmo espectador aprecie e se divirta com as mesmas realidades que o devem perturbar.

Outras virtudes apresenta ainda The Naked and the Dead. Os diálogos entre Cummings e Hearn, um general e um tenente, revelam a instrumentalização dos recursos humanos a um nível mais consciente e frio do que aquele que seria confortável idealizar.

Diria mesmo que o único grande ponto fraco desta obra reside na apresentação de uma das suas mais emblemáticas personagens: Croft, o perigoso, frio, e profissional assassino que lidera o pelotão de soldados em torno dos quais flui a narrativa. O grande perigo de desmentir a fantasia heróica da guerra é a criar de imediato um vazio facilmente preenchido com a veneração desmesurada do estoicismo sofredor de que padece o soldado miserável (em si, outra forma de idolatria). Mailer supera esta tentação, aliás desastrosa, com a figura de Croft, o sargento imune aos terrores psicológicos dos tiroteios e chacinas.

Mas Croft inquieta-me. Os movimentos deste excepcional soldado representam a concessão mais clara de que nem o realismo prescinde do heroísmo. Ou antes, que o heroísmo necessita de se dissimular de anti-heroísmo para ter um lugar na concepção adulta e imparcial das coisas. A verdade é que, abandonados critérios morais, já não se sabe o que é um herói. Mailer evita a primeira forma de idolatria, mas soçobra perante a segunda. O leitor admira estas máquinas de guerra, estes generais e líderes de sangue frio e perícia bélica. Mailer ainda consegue in extremis destruir o misticismo do general, com referências ao seu monólogo interno durante as últimas páginas do livro. Mas deixa incólume Croft.

Nem um nem outro emergem como partes vitoriosas. O general porque as suas tácticas revelam-se tão erradas como desnecessárias (a derrota do inimigo era inevitável). Croft porque a sua missão falha devido à inépcia do planeamento superior. A parca glória do heroísmo encontra-se reservada a subalternos sortudos ou oficiais que tiveram um ou outro momento de competência invulgar. Por outras palavras, nem aqueles que usurpam o lugar que classicamente seria preenchido pelos pristinos heróis alcançam a glória. É possível que a perigosa idolatria do anti-herói seja uma falha do próprio leitor (que, tal como os camaradas do frio noncom, não resiste a pasmar-se com a sua eficácia daquele sombrio soldado).  De qualquer modo, a lição não é desperdiçada; há que ter em conta a volatilidade moral de uma era de pedestais apressadamente desocupados, e das réplicas negativas das anteriores sensibilidades com que irreflectidamente os preenchemos.

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Os livros de 2009

Para referência pessoal, servirá a presente entrada para registar os livros cuja leitura vou concluindo, bem como os seus autores e os textos que, por determinada ocasião, venha a escrever sobre o assunto. As datas correspondem ao dia em que termino um livro. A lista não distingue entre leituras inéditas e releituras (mantendo-se todavia presente a subtil distinção avançada por Italo Calvino, em que um clássico seria, entre outras coisas, aquele de que ouvíriamos dizer “estou a reler”, em vez de “estou a ler”).

  • The Christmas Books – Charles Dickens, 05.01.2009.

On the first day of Christmas’

  • The Naked and the Dead – Norman Mailer, 11.01.2009.

Repères pour un monde sans pères

  • L’art et la manière d’aborder son chef de service pour lui demander une augmentation – Georges Perec, 13.01.2009.

Gincana Empresarial

  • The Castle in the Forest – Norman Mailer, 18.01.2009.

‘A abelha perdida de Norman Mailer’

  • A Praga de Kafka (Kafkas Prag) – Klaus Wagenbach, 22.01.2009.

Uma vida apenas

  • The Screwtape Letters – C.S. Lewis, 23.01.2009.

Tutores de fortuna e requinte

  • I, Claudius – Robert Graves, 11.02.2009

Um olhar bífido sobre Graves e Suetónio, ou o manual de instruções para o romance histórico

  • O Conde de Abranhos – Eça de Queirós, 16.02.2009.
  • Lord of the Flies – William Golding, 20.02.2009.

Diz-me como reages, e direi quem tu és

  • A Morte de Ivan Ilitch – Lev Tolstoi, 27.02.2009.

‘As muitas mortes de Ivan Ilitch’

  • Catch-22 – Joseph Heller, 05.03.2009.
  • O Aleph (El Aleph) – Jorge Luis Borges, 07.03.2009.
  • Ficções (Ficciones) – Jorge Luis Borges, 11.03.2009.
  • Cisnes Selvagens (Wild Swans) – Jung Chang, 16.03.2009.

O voo dos cisnes

  • História Universal da Infâmia (Historia Universal de la Infamia) – Jorge Luis Borges, 19.03.2009.
  • Laços de Família – Clarice Lispector, 22.03.2009.

O milagre de Clarice Lispector

  • História da Europa do Leste (Histoire de l’Europe de l’Est) – Jean-François Soulet, 23.03.2009

‘Atravessando a Cortina’

  • Noites na Granja ao Pé de Dikanka – Nikolai Gógol, 10.04.2009.

‘Vejam só o que deitou ao mundo um abelheiro qualquer!’

  • Um Dia na Vida de Ivan Denisovich – Alexandr Soljenitsin, 12.04.2009 .
  • The Blade Itself (The First Law: Book One) – Joe Abercrombie, 18.04.2009

Nove dedos de violência

  • A Consciência e o Romance (Consciousness and the Novel) – David Lodge, 22.04.2009.

‘Tal e qualia como um romance’

  • La Voix Perdue des Hommes – Yves Simon, 27.04.2009.

Regresso à deriva

  • As I Lay Dying – William Faulkner, 02.05.2009

E que todos os nossos ontens hajam iluminado aos tolos o caminho para a morte poeirenta

  • Before They Are Hanged (The First Law: Book Two) – Joe Abercrombie, 05.05.2009
  • The Last Argument of Kings (The First Law:Book Three) – Joe Abercrombie, 09.05.2009.

Nove dedos de ambivalência

  • A Maravilhosa Viagem de Nils HolgerssonAtravés da Suécia – Selma Lagerlöf, 14.05.2009

Saga?’

  • O Mandarim – Eça de Queirós, 15.05.2009.
  • Waiting for Godot – Samuel Beckett, 05.06.2009.

‘O hábito, esse grande mortificador’

  • As You Like It – William Shakespeare, 08.06.2009.

‘More, I prithee more’

  • Romeo and Juliet – William Shakespeare, 10.06.2009.
  • To Kill a Mockingbird – Harper Lee, 19.06.2009.

‘Um pássaro na mão e um negro a voar’

  • Stalingrad – Antony Beevor, 22.06.2009

Disquiet on the Eastern Front’

  • Mírgorod – Nikolai Gógol, 29.06.2009.

‘É triste viver neste mundo, meus senhores!’

  • A Ilustre Casa de Ramires – Eça de Queirós, 02.07.2009.
  • L’Inutile Beauté et Autres Nouvelles – Guy de Maupassant, 07.07.2009.

‘Da utilidade da beleza’

  • Contos – Volume I – Anton Tchékhov, 20.07.2009.

‘O homem é na verdade um génio’

  • The Rise and Fall of the House of Medici – Christopher Hibbert, 30.07.2009.
  • Promenades dans Rome – Stendhal, 8.08.2009.
  • Il Principe – Niccolò Machiavelli, 10.08.2009.
  • Le Vite de’ più Eccellenti Pittori, Scultori, e Architettori – Giorgio Vasari, 12.08.2009.
  • La Vita Nuova – Dante Alighieri, 15.08.2009.
  • A Travel’s Companion to Florence – Harold Acton, 19.08.2009.
  • The Last Medici – Harold Acton, 21.08.2009.
  • Giuliano Dami, Aiutante di camera del granduca Gian Gastone de’ Medici – Alberto Bruschi, 25.08.2009.
  • Gian Gastone (1671-1737) – Testimonianze e scoperte sull’ultimo Granduca de’ Medici – Monica Bietti, 28.08.2009.
  • The Stones of Florence and Venice Observed – Mary McCarthy, 1.09.2009.
  • The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman – Laurence Sterne, 12.09.2009.

‘Cavalheiros: o Senhor Trismegistus’

  • Le Regard d’Orphée – direcção de Bernardette Bricout, 17.09.2009.
  • Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres – Clarice Lispector, 06.10.2009.

‘Os alimentos terrestres’

  • The Man Who Was Thursday: A Nightmare – G.K. Chesterton, 10.10.2009.

‘Um pesadelo’

  • The Good Soldier Švejk – Jaroslav Hasek, 20.10.2009.
  • Compromisso – Theodor W. Adorno, 21.10.2009.
  • Arte de Amar – Ovídio, 22.10.2009.
  • Amores – Ovídio, 23.10.2009.

‘Da semântica venusiana’ 

  • La Vita Nuova – Dante Alighieri, 7.11.2009.
  • O Inspector – Nikolai Gógol, 15.11.2009.
  • Manhã Submersa – Vergílio Ferreira, 23.11.2009.
  • O Livro do Cortesão (Il libro del Cortegiano) – Baldessarre Castiglione, 7.11.2009.
  • Antígona – Sófocles, 15.12.2009.
  • O Mundo de Homero (Le monde d’Homère) – Pierre Vidal-Naquet, 16.12.2009.
  • The Tragedy of Hamlet, Prince of Denmark – William Shakespeare, 18.12.2009
  • Ilíada – Homero, 22.12.2009.
  • Odisseia – Homero, 25.12.2009.
  • Landmarks of World Literature: the Iliad – Michael S. Silk, 30.12.2009.
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