Tag Archives: Sviatoslav Richter

“Sumptuosos e inovadores trombones melódicos”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Era um jantar de tertúlia que envolvia amigos mais velhos da minha família, e um poeta madeirense acabara de nos brindar com uma breve exposição. A temida pergunta, inevitável, lançada como uma rede aos comensais, surge pouco depois: “Alguém tem alguma questão?

Ninguém tinha. Perante o silêncio, o bom homem resigna-se ao encolher de ombros e diz, genialmente: “Bom, o silêncio depois de Mozart também é Mozart“.

Os silêncios são importantes. Sviatoslav Richter sentava-se ao piano e contava até trinta antes de iniciar o concerto. Assim que as pessoas começavam a ficar alarmadas ou a resfolegarem nos assentos e a NKVD iniciava planos de deportação forçada, a primeira nota soava. Divina e bela. E isso, assegurava Richter, era uma ínfima teatralidade que educava os ouvintes para a importância do silêncio no decurso da peça. Nenhuma pausa seria doravante ignorada.

Pausas e contrastes foram os grandes ausentes na Metropolitana de Lisboa, que no domingo passado nos apresentou um curto mas eclético programa composto pela abertura ao “Rei Estevão” de Beethoven, o Concerto para Violoncelo No. 1 em Mi bemol Maior de Shostakovic, e a Sinfonia n.º 8 (ou n.º 7, ou n.º 9, entendam-se) em Dó Maior de Schubert, dita a “Grande“.

A aspereza inerente a Shostakovic revelava uma escolha ousada. Nos seus termos, deveria permitir apreciar a sinfonia seguinte, a Grande, pela agradável melodia tipicamente arredada das intricadas obras do russo e assim confrontar duas sonoridades distintas. O concerto para violoncelo afirma-se realmente como uma composição passiva-agressiva em que o desenvolvimento isolado de uma variação de quatro notas dá seguimento a três movimentos contínuos, com firme atenção transgressora ao criptograma Ré – Mi bemol – Dó – Si, ou DSCH. Atravessando as regiões escarposas da rudeza e da melancolia, o violoncelo faz-se acompanhar da orquestração incisiva e dramática, marca de mestre do seu compositor. Enquanto solista, o francês Xavier Phillips foi triunfante, absolutamente compenetrado numa das composições mais fracturantes de Shostakovic – e uma das mais exigentes também.

E assim, depois de Dimitri Shostakovic, uma pessoa deveria sentir-se grata por escutar melodia tão angélica quanto aquelas que Schubert soube compor às centenas, bastando recordar as suas lieder para prever que o contraste do programa poderia ser altamente frutífero. Infelizmente, a Grande é uma obra de maturidade complexa, composta num momento da vida de Schubert que o austríaco procurava aproximar-se das exigências da harmonia e do contraponto (o esmagador génio do período tardio de Beethoven cedo provocou crises de criatividade nos seus contemporâneos, o que facilmente se compreende com cartões de visita como a Hammerklavier, as Variações Diabelli ou, evidentemente, a Coral). A Grande não é seguramente um paradigma de nenhuma destas formas mas contém, envolta na sumptuosidade dos inovadores trombones melódicos(tm), uma véritable teia de vozes que se interrompem, cruzam e debatem gentilmente, num diálogo de exortações etéreas que nunca alcançam o desenvolvimento e cortes abruptos que contrariam o límpido encerramento do scherzo e do finale.

A Metropolitana tocou tudo isto admiravelmente, sob a batuta do americano Mark Stringer. As únicas observações críticas seguem o curto da sonoridade demasiado uniforme (contraste, contraste…) e de um ritardando imbecil em duas secções do primeiro Andante. Raros momentos em que a orquestra parecia perdida e em que os violinos se entediavam mutuamente com a sua ligeireza demasiado aveludada (quando é que vão aprender que as cordas autorizam incisão sem volume?). Também o primeiro violinista devia dedicar menos tempo a pentear-se e mais tempo a tentar manter o tempo: a única consistência da sua performance foi ter entrado infalivelmente antes da marcação dos compassos. Não sei se Stringer estava distraído ou se simplesmente se absteve de o empalar com a sua batuta a fim de salvaguardar a inocência da juventude em audiência.

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Flagrantes quinzenais

  1. Os momentos de consolação assistida (ou exterior) são sempre os mais divertidos. Refiro-me às situações em que as circunstâncias do caso parecem pedir algumas palavras de um de nós, ou então quando a nossa atitude faz com que outros se sintam na obrigação de laudar uma qualquer qualidade como forma de distracção dos principais problemas. O potencial para meter a pata na poça é gigante. E esta última modalidade sempre oferece o consolo de me deixar com o sórdido contentamento do ridículo a que me acho submetido durante o próprio processo de consolação. Para concretizar, digamos apenas que uma óptima versão deste género de argumento consiste na exaltação do valor da  companhia. Vamos ignorar que a outra pessoa pode não querer ser boa companhia, mas a ocasião em si mesma. Vamos ignorar que esse é precisamente o problema.
  2. Sobretudo, muito cuidado com a argumentação supra mencionada em dias de S. Valentim. Já me basta ter lido a história de Dafne e Apolo na véspera. O coração humano não aguenta tanto.
  3. Pela primeira vez numa década, participei activamente nas algazarras do carnaval, compondo uma vestimenta improvisada. Infelizmente, ninguém sabia o que era um poeta laureado nem nunca vira uma gravura de Dante ou Petrarca. Passaram o resto da noite a confundirem-me com um gnomo ou um imperador romano. Já alguma viste o Júlio de gorro, estúpido? As coisas descambaram pouco depois.
  4. Tenho feito progressos miseráveis no meu estudo dos clássicos. Queria passar já para os medievalistas ingleses e começar a formar a escoliose associada ao porte do Riverside Chaucer, mas a verdade é que ando distraído. Não ajuda que os meus vizinhos sejam mais barulhentos que uma horda selvagem de estudantes de ciências na biblioteca da FLUL durante a época de exames.
  5. Uma boa experiência: dei a ouvir a Waldstein e a Appassionata a algumas pessoas no decurso do fim-de-semana, enquanto estava atrás do volante e tinha monopólio sobre o programa musical. Um dos animais ficou completamente indiferente. Outros dois comentaram as peças e atribuíram-nas confiantemente a dois artistas completamente diferentes. Para evitar hemorragias cerebrais, apressei-me a trocar os discos. Mas no dia seguinte, uma última passageira disse, muito simplesmente, que estava a apreciar ouvir as sonatas. Não quero saber se as reconheceu: foi tudo o que bastou para me deixar feliz. Prometi-lhe tocar a Pathétique daqui a alguns tempos.
  6. Como a República me começou a dar uma dor de cabeça, interrompi a leitura e virei-me para as Metamorfoses. Já percebi que vou ter de reescrever tudo o que já aqui coloquei sobre Ovídio. Até lá, só posso sublinhar que experimento um inesperado prazer com esta leitura.
  7. Não era nada de extraordinário. Depois a dada altura reparei que os meus olhos se humedeciam: as lágrimas começaram a correr pelo meu rosto.” Foi assim que Arthur Rubinstein descreveu a sua primeira experiência com um concerto de Sviatoslav Richter, e só me apetece transplantar estas palavras para o meu entendimento das últimas três sonatas de Schubert (D958, D959, D960), as crepusculares, as derradeiras, as cíclícas. Mas também as esperançosas. Três dos momentos mais acutilantes de uma existência humana que, diante da sua própria obliteração, conjugou a universalidade da finitude com a elegância terrena da música.
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