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Um olhar bífido sobre Graves e Suetónio, ou o manual de instruções para o romance histórico

Dois autores unidos pela História e pela cultura, Robert Graves e Suetónio são figuras separadas por uma distância de quase vinte séculos. O primeiro, poeta e erudito, verteu para a língua inglesa a obra do segundo (numa das mais consideradas traduções dos Doze Césares), bem como algumas grandes obras da Antiguidade Clássica. Suetónio, esse, foi um historiador de peso, tornando-se uma fulcral fonte de conhecimento perante os séculos que apagaram da memória humana os registos das antigas civilizações resplandecentes.

Qualquer um dos homens dispensando grandes apresentações, basta apontar como base para a presente reflexão a leitura da primeira parte do aclamado romance I, Claudius.

Neste livro se examina a vida dos primeiros imperadores de Roma, cujas vidas são narradas pela inteligente voz de Tibério Cláudio César Augusto Germânico ou muito simplesmente Cláudio, que nunca foi tomado a sério e que por isso conseguiu sobreviver a décadas de intrigas, conspirações, e mudanças de poder.

Robert Graves segue Suetónio de perto, adornando os duros factos com a sensibilidade artística do que teria sido uma vida da época. A história destes imperadores é largamente feita de decadência e de descendência, uma espiral tenebrosa que se inicia, altiva, com a sombra das vitórias militares de Júlio César (Suetónio inclui-o na lista de imperadores), a sensata administração do sereno Augusto, e desaba nos excessos de Tibério e na demência cruel de Calígula. No pântano reluzem ainda algumas virtudes, Cláudio é talvez uma delas. Os historiadores ainda opõem algumas dúvidas à sentença que atesta a qualidade do governo deste imperador ou dos pequenos e efémeros governantes que se sucederam em catadupa depois de Nero e antes da benigna era dos Cinco Bons Imperadores iniciados por Nerva, mas Suetónio é claro quando afirma que Cláudio não era um qualquer tontinho.

Verdadeiramente desconcertante em Doze Césares, é assistir à minha involuntária tentativa de conciliação das modernas ideias de poder e governo com a desumanidade de alguns destes governantes (mesmo os mais bondosos, pelos padrões da época). Suplícios e sacrifícios eram moeda corrente no comércio religioso com os deuses. Uma vida humana não tinha qualquer valor residual: nem mesmo as mais altas mentes da política ou filosofia se incomodavam com a brutalidade desta ceifa sucessiva. E contudo, esta gente amava o teatro, a poesia, a oratória e a música. As suas cidades eram patrulhadas pela guarda, as ruas estavam calcetadas. Tinham água corrente, banhos públicos, comerciantes e artífices.

Calígula coloca-me um problema adicional, uma vez que o seu reinado foi tão cruel, tão absurdo e tão inconstante que, passadas tantas gerações, é difícil não lhe achar um valor cómico muito negro. Esta criança mandava matar pessoas e depois, no dia seguinte, chamava-as, diante de convivas, para que se pudesse fingir muito surpreendido quando as infelizes não lhe respondiam (‘Olha… devem ter-se suicidado’). Apanhava uma pessoa a cabecear sonolentamente num leilão e certificava-se que o leiloeiro contabilizava cada aceno como um aumento. E quando um pai alegava dores de estômago e pernas a fim de recusar o convite para ir almoçar ao palácio do imperador (depois de este lhe ter assassinado o filho na véspera) Calígula enviava-lhe uma liteira.

Yourcenar dizia que uma mera distância de vinte velhos nos separava do tempo destes homens, e esta clara evidência continua a mover o meu espírito com a força de uma revelação. Tal é a configuração da memória humana, escondendo-se por detrás de gerações e de traduções até as tragédias não serem mais que representações teatrais de nomes e figuras de vida restrita ao branco e negro do papel.

Para mim, outro muito interessante aspecto desta leitura quasi-conjunta dos dois livros resulta da técnica demonstrada por Robert Graves na criação de um romance histórico. Numa época editorial em que o público leitor demonstra uma enorme ânsia consumista por este género literário, nunca foi tão urgente compreender o que pode ou o que pode ser feito na escrita destes livros, bem como o que deve veementemente ser repudiado se quisermos preservar a autonomia e a nobreza literária destas obras.

As obras de Suetónio/Graves são um óptimo objecto de estudo porque, em alguns aspectos, o historiador romano é a única fonte. Em poucos assuntos podemos pegar numa única obra e ter a soma total do conhecimento humano sobre essa matéria. A vida de Caio Calígula, por exemplo, só nos chegou por Suetónio: o Senado ordena a destruição de todos os seus pertences e documentos pessoais quando morre, numa fantástica demonstração da abominação que a sua vida representara para todos. Por dispormos de um quadro tão restrito de factos é que percebemos como Graves é elegante no seu romance, alterando o que pode ser alterado, adicionando o que não destoa, encorpando o que tem significado. I, Claudius é, para o olho atento e para o punho praticante, um manual de instruções sobre o que fazer e o que se pode fazer na escrita de um romance histórico. Alguns apontamentos.

  • Diálogos: a primeira linha de enriquecimento do texto. Através deles, surgem claras as opiniões das personagens. Como dos diálogos não reza a história, o escritor tem carte blanche para improvisar conteúdos dentro das caracterizações. Importante é a credibilidade. Robert Graves toma alguns riscos aqui e ali, mas alcança resultados notáveis na humanização da sua narrativa.
  • Factos, eventos, e ocasiões: quando os grande eventos se encontram registados, é possível encontrar outras vias de escape. Por exemplo, é possível que ainda saibamos em que dias romanos se realizaram estas ou aquelas festas em honra deste ou aquele deus, mas saberemos nós o que sucedeu, concretamente, por ocasião destas festividades? Robert Graves descreve alguns eventos que tomam lugar dentro dos coliseus e arenas, falando de confrontos e desfechos, bem como do efeito que isso exerce sobre a disposição das personagens.
  • Caracterizações e pensamentos; nem a mais precisa História pode dar conta do que um homem faz dos seus pensamentos. O escritor tem uma larguíssima margem de manobra no que respeita aos fundamentos lógicos das grandes decisões históricas. Já no plano dos motivos, há que ter cuidado; atribuir-lhes razões inteiramente absurdas pode desvirtuar a cuidadosa caracterização que porventura lhes tenha sido feita (quer pelo próprio escritor ou outra fonte histórica);
  • Opiniões indirectas: escrever sobre o que as pessoas da época pensam das nossas personagens, ou como os membros da sua entourage avaliam as suas decisões é uma forma fácil e segura de colorir qualquer relato. A opinio communis é sempre um óptimo meio para auscultar receios, pensamentos, premonições e desejos.
  • Personagens secundárias. Podem até figurar entre os factos históricos como pequenas notas que do rodapé, uma importância vencida pelo autor de algum modo. Assim, por exemplo, uma personagem pode ser importante no livro e pouco relevante na história: o autor explicá-lo-á pelo seu carácter reservado. Livia não é um mau exemplo: apesar da sua influência sobre Augusto e Tibério ser bem conhecida, Robert Graves desenvolve-a admiravelmente.

Quanto a coisas a evitar, não tenho muito para dizer. Não leio muitos romances históricos, mas parece-me que uma tendência infeliz é a da rescrita. Um autor, perante o juízo que a História veio a consagrar sobre as suas personagens ou épocas, pode sentir-se tentado a explicar esta discordância por meio de artifícios menos elegantes. Por exemplo, se a História diz bem de um monarca, tal deve-se ao facto de ele ter adulterado todos os registos, ou queimado todos os documentos em que se escreviam críticas à sua pessoa. Se um pintor vingou como um mestre, ou um poeta singrou como um génio, pode-se sempre dizer que esbulharam mananciais de património alheio. Não tarda nada, temos grupos de pessoas ocultas a manipularem toda a História apenas porque o escritor pretende, a todo o custo, que aquela sua visão faça um mínimo de sentido canónico. Mais valeria realizar uma profissão de fé e explicitar que tudo se desenrola numa espécie de universo paralelo. Mantém-se a inelegantia, mas ao menos preserva-se a verdade.

Com tudo isto não quero dizer que o trabalho de um escritor de romances históricos consiste exclusivamente em manobrar por entre os baixios factuais do nosso passado, procurando febrilmente a cada passo uma lacuna ocasional da História que lhe permita inserir algures – com sofreguidão e esforço – o seu pensamento. Muitas vezes, a própria História já caracterizou tudo; a principal preocupação torna-se assim a de narrar, mais do que a de inventar. Sobretudo, a ideia não é lutar contra a História, mas interpretá-la e apresentar um fresco que resulte directamente da nossa visão informada.

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Oh, da vida feliz!

Dois pontos digno de nota nesta Da Vida Feliz de Séneca.

Sobressaem, por um lado,  as alegações erigidas contra o epicurismo, uma corrente que actualmente entende como a encarnação de um estado de alma amigavelmente aberto aos sentidos do mundo e às suas saborosas tentações, numa contínua fruição dos seus encantos e numa condição de altivo orgulho e laxismo prazenteiro. Pela minha parte, tenho que as fronteiras entre esta concepção contemporânea e as do hedonismo se encontram demasiado indistintas para o meu gosto. Do confronto com a história das ideias, em que este pequeno texto é uma valiosa janela, fica implícito que o Epicurismo era, na verdade, bem mais severo do que aquilo que as gerações futuras se habituaram a ver no conceito.

Já o estoicismo, em que Séneca se integrava, representa uma compressão de sentimentos, contrária à distensão de atitudes epicurista. Inevitável, surge a pergunta:  se você, Séneca O Jovem, professa uma orientação estoicista, como justificar que goze das suas riquezas, refastelado de confortos e subserviências?

Com efeito, este filósofo, orador, político e senador era consideravelmente abastado.  O mais desatento dos seus seguidores podia, por conseguinte, suscitar a legítima questão de saber se esse estado de apaziguamento material quase faustoso era de algum modo contraditório com a essência de uma alma estóica ou se, de outra forma, as duas realidades seriam conciliáveis.

Franqueados os intróitos, inicia-se a verdadeira Da Vitae Beata. E aqui, a técnica retórica de Séneca é clássica e límpida. Pulsando fortemente a sua verve de orador, Séneca começa por alimentar as objecções que os seus inimigos lhe apontam com outros argumentos tão ferozes que nem o mais venenoso dos seus oponentos se lembraria de invocar. De seguida, desfaz o novelo de críticas e invectivas.

Toda a escola de pensamento, e por conseguinte, de vida, é uma via para o alcance de um determinado valor. Séneca busca a razão e a virtude. Ora, quem prossegue, por essa vida fora, quem sobe ou desce por uma íngreme ladeira há de precisar de alguém que o empurre ou segure. A virtude basta-se a si própria, mas porque se alimenta a si própria deve buscar todos os meios que facilitem a sua derradeira tarefa. Ou pelo menos, não deverá ignorar as afortunanças que por essa vida fora surjam para a auxiliar. O enquadramento virtuoso deste raciocínio tendencioso está em que, desaparencendo os confortos e as amenidades, o coração virtuoso não desespera. Nem sequer sente a sua falta (antes sentirá a falta do seu acréscimo, mas como não existe para além da sua própria busca, não pode almejar algo que não a alimenta verdadeiramente).

Já o desventuroso desvirtuoso descobre que, sumidas as benesses providenciais, a sua vida era afinal indissociável desses auxílios materiais. E a ilusão torna-se patente.

Difícil desconstruir esta argumentação desculpabilizante. Séneca conheceu uma morte digna das ideias que fixou para a posteridade atenta. É certo, todavia, que os seus bens materiais nunca chegaram a ser confiscados, mesmo quando Nero ordenou que tirasse a sua própria vida.

Pode pensar-se que, por ter aceite o fim da vida com serenidade, Séneca teria caminhado para um desfecho pugnante em estoicismo. Todavia, sinto-me tentado a chamar a atenção para o facto de romanos da sua época com filiações em escolas de pensamento opostas reagirem frequentemente com o mesmo modicum de resignação e tranquilidade. Haverá alguma simplificação em dizer que a morte e a vida eram simplesmente encaradas de forma diferente, nesses tempos, mas todavia é fácil relembrar Suetónio e as palavras que coloca nos gestos de Augusto, que ao sacrificar escravos e prisioneiros limitava-se a proferir com paciência e solenidade ‘É necessário morrer’.

Não teria Séneca, o Santo Séneca, experimentado até o mais pequeno dos frémitos de terror se acaso tivesse sido despojado da sua propriedade, privado de comércio (deliciosa expressão) com a sua esposa, dos seus escravos, numa palavra; das suas riquezas que tanto o empurravam ou seguravam nas ladeiras perigosas da virtude? Ao aceitar que a virtude comporta esta contribuições, estes ímpetos ou refreios instrumentais, o filósofo entreabre os portões da sua moradia a um óbice não despiciendo de importância. Ao aceitar que se pode auxiliar a virtude, do mesmo modo que se a pode toldar por diferentes meios, não acaba então por conceder que a sua força se encontra dependente destes esforços exteriores? Como pode algo que é inteiramente puro beneficiar de elementos exteriores à pureza que a enforma? Para empurrar algo é necessário que o objecto dos nossos esforços tolerem o embalo.

Por infantil que seja este exercício intelectual, gostaria que alguém lhe tivesse dirigido esta pergunta. Ou que ele a tivesse aposto ao conjunto de objecções a que responde.

Arrisco-me a antever uma resposta? Séneca não aspirava a uma condição espiritualmente plena, nem procurava, ao passear através dos jardins da sua virtude, existir sem mácula. O epicurismo é apenas uma escola para a descoberta da virtude, agindo por mecanismos de sucessiva depuração, sem nunca atingir o derradeiro estado de absoluta pureza. Durante a vida de Séneca nasce Cristo e iniciam-se os grandes movimentos evangelizadores (que os pensamentos medievais ousaram considerar ter convertido o próprio filósofo!). A condição humana nunca antes fora tão agudamente incompleta, tão consciente das suas limitações. Neste novo plano, é possível conceber uma pureza absoluta da virtude: esta pertence a realidades celestes ou espirituais. A demanda por essa qualidade, todavia, permanece fatalmente humana.

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