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No sofá com Aristófanes

Sobre os ombros reclinados de Aristófanes — que não é certamente o mais feliz contemplado do discurso platónico presente no Simpósio (ou no Banquete, se preferirem) — recai a tarefa de expor algumas das teorias mais bizarras, arcanas e hesiódicas sobre a concepção e o procedimento do amor. A mera técnica narrativa já seria, por si, suficientemente admirável, mas é o sub-contexto que me permite interpretar a tão espalhafatosa intervenção do dramaturgo cómico.

Naquele semi-círculo de amigos recostados, a ordem dos sofás faria de Aristófanes o terceiro orador da noite. Infelizmente, o pobre homem foi acometido por um violento ataque de soluços e teve de ceder o seu lugar a Erixímaco, um médico. Esta vicária figura sugere ainda três medicamentos a Aristófanes: que susta a respiração, que gargareje em água, ou então que espirre provocadamente.

Antes mesmo de Aristófanes começar, já se nos alojou uma imagem rocambolesca do futuro interveniente. A sua eulogia, que noutras circunstâncias poderia receber um tratamento mais sério e uma refutação socraticamente metódica, é ao invés acolhida como um conjunto de concepções ultrapassadas. Que nos diz o ateniense? Que no início dos tempos todos os seres humanos estavam ligados a outro, que eram seres duplos cujas faces olhavam em direcções diferentes e que possuíam dois sexos ao mesmo tempo. Que havia monstrengos destes que eram duplamente homens, outros que eram duplamente mulheres, e ainda outros que eram literalmente andróginos. Como se portaram todos muito mal e começaram a tentar suplantar os domínios do céu, o Crónida ponderou a sua destruição. Mas não desejando privar-se das suas libações, optou antes por enfraquecê-los: dividiu os corpos em metade e espalhou-os pela terra. Tal o sentido do amor, tal a explicação para a sensação de integralidade que os enamorados exprimem quando encontram o seu par há muito perdido.

Seja sátira, eulogia do absurdo ou mera contextualização, o discurso de Aristófanes é fascinante. Ao nível mais básico, desvenda o amor como uma busca meta-humana de globalidade, de completude. Na demanda pela integralidade, suportada por uma paráfrase do sentido acrescido que uma vida a dois proporciona, a alegoria não desculpa a homossexualidade: justifica-a. É uma teoria pura: amamos por que isso nos torna completos. Mas os alicerces bizarros de toda esta confusão mitológica, intercalada pelos soluços e o tom de Aristófanes, impedem qualquer análise mais demorada.

Penso que poucas pessoas hoje defenderiam, com Sócrates e a tal Diotima que lhe ensinou “tudo o que ele sabia sobre o amor” (ah, safado!), que o amor pode ser reconduzido a uma via para a imortalidade, nisto implicando forçosamente a possibilidade da procriação. Mesmo que isso esteja correcto, já deixámos de ser sensíveis ao ponto há algumas décadas, e nem sequer a legislação civil o reflecte. Predispostos à brecha do isolamento, empedernidos face ao clamor pela perpetuação da nossa carne, aproximamo-nos novamente dos argumentos de Aristófanes, embora obviamente despidos de toda a mitologia bacoca circundante.

Há outro pormenor. No simpósio, todos os convivas partilhavam um divã com outro homem. Até no caso de Fedro e Pausânias fica a impressão de que outros convidados — cuja notoriedade não chegava para lhes comprar um discurso ou um nome —  refastelavam-se no mesmo espaço que eles. Outros, como Sócrates, acabaram mesmo num divã com três pessoas (ah, safado!).

Mas há fortes indícios de que Aristófanes estava sozinho no seu sofá enquanto compunha a eulogia.  Tanta palavra, tanta explicação sobre o ardente sentimento de integralidade oferecido pelo amor, e afinal Aristófanes estava sozinho. A figura do cómico atravessa a eulogia do absurdo para desaguar numa figuração quase trágica. Segundo a sua própria lição, ele ainda não encontrara a essencialidade de uma vida partilhada; ainda não encontrara o amor. E é demasiado fácil imaginar aquele homem encolhido no sofá, gesticulando, recorrendo a historietas de contornos arcaicos, esforçando-se por compreender e aceitar uma realidade que lhe é afinal estranha e ilusória.  Não percebo porque dizem que a tragédia humana, entendida nas pequenas coisas do sentimento, só foi inventada séculos mais tarde. Platão surpreendeu-me com um Aristófanes humanamente iludido e, embora ande a abusar muito da palavra, também comovente, sim.

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Flagrantes quinzenais

  1. Os momentos de consolação assistida (ou exterior) são sempre os mais divertidos. Refiro-me às situações em que as circunstâncias do caso parecem pedir algumas palavras de um de nós, ou então quando a nossa atitude faz com que outros se sintam na obrigação de laudar uma qualquer qualidade como forma de distracção dos principais problemas. O potencial para meter a pata na poça é gigante. E esta última modalidade sempre oferece o consolo de me deixar com o sórdido contentamento do ridículo a que me acho submetido durante o próprio processo de consolação. Para concretizar, digamos apenas que uma óptima versão deste género de argumento consiste na exaltação do valor da  companhia. Vamos ignorar que a outra pessoa pode não querer ser boa companhia, mas a ocasião em si mesma. Vamos ignorar que esse é precisamente o problema.
  2. Sobretudo, muito cuidado com a argumentação supra mencionada em dias de S. Valentim. Já me basta ter lido a história de Dafne e Apolo na véspera. O coração humano não aguenta tanto.
  3. Pela primeira vez numa década, participei activamente nas algazarras do carnaval, compondo uma vestimenta improvisada. Infelizmente, ninguém sabia o que era um poeta laureado nem nunca vira uma gravura de Dante ou Petrarca. Passaram o resto da noite a confundirem-me com um gnomo ou um imperador romano. Já alguma viste o Júlio de gorro, estúpido? As coisas descambaram pouco depois.
  4. Tenho feito progressos miseráveis no meu estudo dos clássicos. Queria passar já para os medievalistas ingleses e começar a formar a escoliose associada ao porte do Riverside Chaucer, mas a verdade é que ando distraído. Não ajuda que os meus vizinhos sejam mais barulhentos que uma horda selvagem de estudantes de ciências na biblioteca da FLUL durante a época de exames.
  5. Uma boa experiência: dei a ouvir a Waldstein e a Appassionata a algumas pessoas no decurso do fim-de-semana, enquanto estava atrás do volante e tinha monopólio sobre o programa musical. Um dos animais ficou completamente indiferente. Outros dois comentaram as peças e atribuíram-nas confiantemente a dois artistas completamente diferentes. Para evitar hemorragias cerebrais, apressei-me a trocar os discos. Mas no dia seguinte, uma última passageira disse, muito simplesmente, que estava a apreciar ouvir as sonatas. Não quero saber se as reconheceu: foi tudo o que bastou para me deixar feliz. Prometi-lhe tocar a Pathétique daqui a alguns tempos.
  6. Como a República me começou a dar uma dor de cabeça, interrompi a leitura e virei-me para as Metamorfoses. Já percebi que vou ter de reescrever tudo o que já aqui coloquei sobre Ovídio. Até lá, só posso sublinhar que experimento um inesperado prazer com esta leitura.
  7. Não era nada de extraordinário. Depois a dada altura reparei que os meus olhos se humedeciam: as lágrimas começaram a correr pelo meu rosto.” Foi assim que Arthur Rubinstein descreveu a sua primeira experiência com um concerto de Sviatoslav Richter, e só me apetece transplantar estas palavras para o meu entendimento das últimas três sonatas de Schubert (D958, D959, D960), as crepusculares, as derradeiras, as cíclícas. Mas também as esperançosas. Três dos momentos mais acutilantes de uma existência humana que, diante da sua própria obliteração, conjugou a universalidade da finitude com a elegância terrena da música.
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