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II – Luxe, calme et volupté

O tempo está miserável. Está quente. Mais quente do que em Lisboa. Calor de trovoada. A humidade grave. O sol cega-me. Os parisienses sofrem ainda mais do que eu, mas sentimo-nos todos como uns imbecis, suando com o menor dos esforços. Ah, não é possível a sprezzatura!

Começo o dia na Concorde, salvando uma francesa que se preparava para levar as suas malas de comboio direcção à Défense. Corto a direito até o cais de Orsay. Quando entro na gare, deixo de existir durante algumas horas, e só o ego dos coleccionadores me enfastia levemente. Para honrar aos seus legados, o museu compartimenta as doações, e obriga-me agora a visitar dois andares e pelo menos quatro recantos distintos se quiser examinar Cézanne.

O sol da saída é estonteante; procuro refúgio nas Tuileries, mas o raio das Tuileries são só relva e veraneantes, a gravilha branca cega-me. Rien au monde n’est beau, admirable, attendrissant comme les paysages anglais (Julien, começo a pensar que tinhas razão). Volto a atravessar o Sena e sigo ao longo da esplanada dos Invalides, a refulgente cúpula dourada guiando os meus passos. Sou atraído pelas formas de Rodin e perco-me no mesmo jardim onde o menir de Balzac e o seu cavo etmóide se sobrepõem aos ínfimos visitantes, e as Portas do Inferno negrejam, ali enterradas num muro de heras. Que terno é o Beijo, que lindíssima era Rose Beuret! E Camille! Teu desgosto não tem nome, mas assumiu para nosso deleite as formas de uma escultura divina.

Metro até Mauberg-Mutualité.

e perco-me pelo quartier

até encontrar o final da rue de la Bûcherie.

Livreiros e bibliotecários, sabem do que falo.

Atravesso a ilhota, certifico-me que Notre-Dame ainda está no seu lugar, trepo em direcção ao Marais para um tout petit verre e alguns momentos de repouso no interior de uma bela hortênsia. No regresso, o Hôtel de Ville rebrilha, incandescente com o orangino sol da tarde, robusto como um colosso teimoso. Ainda vou ler o Arc de Triomphe, e não descortino Junot (que está lá, algures, aguardando uma outra visita).

E no dia seguinte tenho de partir.

Ton adieu?

Je n’y crois pas du tout.

C’est un au-revoir.

Presque un rendez-vous.

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I – Paris sera toujours Paris

Quando me faço à estrada, o sol começa a romper a escuridão do firmamento. Há muito diluiu as estrelas. A alvorada, bem como a partida, faz-se sob uma neblina de luz tépida e macia. Teria preferido partir na noite da véspera, no último voo, mas as malhas da vida do macilento assalariado em perpétua isenção de horários não o permitiram.

Sábado! Metade-prazer, metade-negócios, seria assim que eu justificaria a minha visita ao controlador de alfândegas que hoje já não acosta os viajantes dos aeroportos que provenham de países ditos civilizados. A este monólogo interior segue-se o habitual périplo de RER até Chatêlet, depois a continuação até à Étoile, sempre debaixo do solo. É descer a Wagram, enveredar pela Brey, esbarrar contra o hotel, subir ao quartinho sem incidentes.

De fato e gravata compostos, parto para a parcela de negócios do fim de semana no Hôtel de Gallifet. Zona majestosa de palacetes privados e embaixadas aferrolhadas. O instituto cultural italiano não é excepção, e só as credenciais da minha clique académica me permitem a franquia ao seu pacatíssimo interior. Aí, encontro instalada uma modesta mas proveitosa Biblioteca Italo Calvino, e descubro que, naquele mesmo local, teve lugar um curioso encontro entre a inacreditável Madame de Staël e Bonaparte. Já nem falo do ministério de Tayllerand, que tem o seu nome mais associado às linhas de Varenne do que Haussman ao seu Boulevard.

No salão nobre, e na companhia dos mestres, discute-se as teses que têm de ser discutidas, debate-se a escolha de lei e de foro, distribuem-se as graduações alcançadas. Há troca de cartões. No final, um verre d’honneur, évidemment. Pois não estamos em França, mesdames messieurs?

Cai a noite e procuramos um restaurante de consenso pelos lados de St. Germain. Sentamo-nos, repastamo-nos. Patriarcalmente instalado, o venerando catedrático de Pádua e digníssimo Avvocato do foro de Milão – que algumas horas antes nos citava Dante de memória a propósito da eternidade e dos notários – escolhia agora a sua refeição com interjeições espontâneas e apaixonadas pela fonética culinária gaulesa. Boeuf bourgninon, clamava! L’île flotante, exclamava, con molto gusto e uma entoação musical.

Não há lugar a grandes aventuras depois da refeição. Estou éppuisé. Regresso das profundezas de Odeon, subo ao meu quarto, e preparo-me para a primeira noite de sono em dois dias. Baudelaire está na mesinha de cabeceira.

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