Poderá um homem criar folclore?
Não por definição. Mas em Noites Na Granja Ao Pé de Dikanka assiste-se a uma construção fabular que não sentiria a menor dificuldade em ser absorvida pelas caudalosas tradições populares. Na veia dos melhores contistas do género, o singular produto de um jovem Nikolai Gógol radicado na surreal São Petersburgo vibra com a honestidade dos arquétipos campestres ucranianos, tomando como apoio os seus elementos mais expressivos e calorosos. A narrativa concreta pode variar, como frequentemente influem as personagens e o desenlace individualizado, mas Gógol conserva sempre intacto o seu trunfo, que é o de nunca nos afastar demasiado desse fresco mundo rural de estrita religiosidade pagã, dos seus fabulosos cossacos de Zaporójie, ou das exuberâncias de serões embriagados.
Munido destas tonalidades, o génio de Gógol urde e pincela contos e anedotas, achando ainda tempo para brincar com as figuras de autoridade regional e os costumes na corte czarista de Catarina. E como escreve em terras russas e para russos, os seus contos enumeram as mais deliciosas referências aos velhos costumes ucranianos, com honrarias várias e uma ternura que apenas se poderia esperar de um expatriado voluntário. Corre a metade do livro e o bom prosador já nos falou de grandes feiras, de sabres e arcabuzes, de cantatas natalícias, de delícias culinárias, de cabeleiras cossacas, de superstições sussurradas, de mitos regionais, de partidas de cartas, compondo a traços largos um convidativo quadro de hospitalidade ucraniana.
Qual folhinhas irreverentes, despontam já em alguns parágrafos os primeiros rebentos daquilo que caracterizaria a sua estupenda prosa dos anos tardios. Numa altura em que o seu nascimento é assinalado com 200 anos de existência, até mesmo o seu texto de estreia literária assombra pela sua prosa fácil, rápida, maravilhosamente encadeada e, no final, desarmantemente simples.
Seguimento lógico a estas Noites? Um passeio por Mírgorod, claro!
Uma tentação irresistível? Atacar já O Inspector, comédia em cinco actos recentemente editada pela Assírio e Alvim (com tradução do casal preferido de todos os russófilos). Ainda está quentinho dos rolamentos editoriais, agarrem-no antes que aborde uma caleche em direcção ao estrangeiro! (nunca me farto desse conto).