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Apreciação diferida

“J’ai passé cinq ans avec lui pour écrire cette biographie. Mais dans la vie, mes rencontres aec lui ont été… sucrées-salées. Un jour des années 1950, j’étais au Café de la Mairie, place Saint-Sulpice, avec ma très jeune femme. Camus arrive, s’installe au zinc et n’arrête pas de la déshabiller des yeux. J’étais furieux!

Furieux! Je me tourne vers mon ami Charles-Roger Leblanc, et je lui dis: «Mais pour qui il se prend, ce con? — Il se prend pour Albert Camus!» La deuxième rencontre a été désagréable aussi. J’étais en uniforme de troufion sur le boulevard Saint-Germain avec Guy Dumur, et je l’ai trouvé horriblement antipathique, en tout cas dans le contexte de l’époque: très «pied-noir», cravate abominable, il m’a tenu des propos très agressifs. Je me souviens toujours de cela, parce que je suis revenu sur beaucoup de mes attitudes vis-à-vis de lui. Aujourd’hui, son personage me plaìt beaucoup. C’était non seulement un honnête homme, mais un homme honnête – et courageux.”

São as palavras de Oliver Todd, em conversa com Alain Finkelkraut e os jornalistas do Magazine Littéraire (Hors-série, Albert Camus). Sem conhecer a obra do escritor em profundidade, este dossier deu-me a conhecer o autor ele-mesmo com algum aproveitamento. Personagens assim não se limitam a existir e impressionar pelo teor das suas páginas; a autenticidade dos seus gestos por vezes está menos no debate ideológico do que numa pose irritante, à porta de um café no 6ème.

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Leitura a prestações

Vou acumulando mensalidades de leituras. Se olvidarmos por um momento os agressivos New Criteria, as encantadoras Literary Reviews e os inconstantes Believers, ainda me resta o hors-série do Magazine Littéraire deste mês,  dedicado ao pensamento de Albert Camus. Importará verdadeiramente que eu ainda não tenha estudado Camus? Poderei sequer confessá-lo? No mês anterior foi a vez de Espinoza — e eu também não o tinha lido a sério antes disso. Nenhuma objecção que não a censura à minha própria ignorância, mas fico pensando qual será o impacto de ler um conjunto de artigos (por muito educados que sejam) sobre uma realidade com a qual ainda não tive contacto directo.

Recordo-me todavia de uma observação (feita por Italo Calvino, talvez? — ah, a maldição da citação indirecta) de que um livro não permaneceria não-lido (precisamos de uma palavra: alido? ilido?) durante muito tempo se o colocássemos numa biblioteca pessoal. Hoje seriam algumas páginas, lidas de pé, ou se calhar debruçado numa cadeira instrumental a alcançar o volume numa prateleira mais troposférica. Amanhã seria uma referência bibliográfica, uma frase perdurante. E dentro de dez anos o livro estaria lido sem ter sido sequer transferido para a mesa de cabeceira ou o bolso da sacola. Uma ideia bonita, mas será que daqui a uma década terei lido esta gente, indirectamente, através de meios secundários?

Uma outra coisa: uma pessoa na minha residência — ainda alheia aos meus hábitos de reserva hebdomadária prévia pelas providenciais Temas desta Lisboa — quis surpreender-me e ofereceu-me a revista em questão. O gesto foi muito apreciado, mas agora fiquei com duas revistas. Podia, por exemplo, ler a segunda assim que acabasse a primeira, mas temo não conseguir aguentar tanto Camus de uma enfiada. Assim, se alguém desejar um exemplar gratuito deste hors-série, basta enviar-me um email ou deixar um comentário lisonjeiro.

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