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O inesperado rigor de Saramago

Toda a gente sabe que José Saramago tem um blog (O Caderno) e que um conjunto dos seus textos foi publicado recentemente (sob o nome imaginativo de O Caderno). Na conferência de imprensa e conversa com o público que rodeou o lançamento do livro, dizia Saramago, como rezam as filmagens do evento, que se a actividade no seu blog lhe tomava uma hora diária, haveria outros que nesse mesmo espaço de tempo capazes seriam de criar vários blogs.

Uma voz, na audiência ou no creditado painel de comentadores que ladeavam o laureado, prontamente corrige o distinto octogenário: “posts”.

Criar vários posts.

[Até agora estive a parafrasear. Tenho a impressão de ter encontrado estas imagens na televisão e não na internet, o que explica não conseguir encontrar um vídeo disponível na rede. Esta entrada está pois sujeita a condição resolutiva própria]

O problema é que, nos blogs, aquilo que se escreve são mesmo logs e não posts. Post é coisa de fórum online, que funciona desde a Telnet como um quadro virtual em que a pessoa afixa ou apostilha uma mensagem, mais tarde comentado em cascata. O esquema, entretanto, mudou pouco, mas vá lá, os interfaces são mais coloridos e já não precisamos de _fazer_isto_para_indicar_que_uma_frase_está_sublinhada.

A palavra Blog deriva da aglutinação de web e log e significa, muito literalmente, diário ou registo online. Um diário de bordo é um log, por exemplo, e foi no domínio marítimo que a palavra mais vingou (marítimo ou estelar, se nos lembrarmos do Captain’s Log Trekkiano). Nesse log inscreviam-se os pormenores diários da viagem: a velocidade média do navio, o percurso, a sua localização corrente, e outros eventos. Como se chamavam esses textos individuais? Logs, ou entradas.

Pois, um dos sentidos autorizados da palavra log é cada uma das entradas em concreto. Assim, cada um destes textos é, muito simplesmente, um weblog. Não se afixam nem “postam” textos num diário, a não ser que alguém tenha o hábito de alfinetar notas nas páginas do moleskine (sabe Deus que já sucedeu).

Evidentemente, nada disto vem à cabeça quando uma pessoa escreve “blogue”. Aportuguesar palavras estrangeiras é zeitgeist vigente: parece que até temos uma Academia de Letras que se dedica ferozmente à consumação destas transposições complexas. O problema é que, enquanto fenómeno cultural nem sempre lógico, nenhuma palavra subsiste por si mesma: interessa _sempre_ a sua etimologia e as suas declinações (como aqui, modernamente, login, logout, logger, keylog, ou outros termos que nos viriam à cabeça com mais facilidade e preveniriam a correcção supra assinalada, se ao menos estivéssemos perante a grafia original).

Ignoro se Saramago pesou cada uma das suas palavras antes de proferir os seus comentários, mas – ao contrário do solícito e insolicitado corrector – não errou.

E já que estamos a falar de logs, para não pensarem que este texto é para levar muito a sério (até porque post já adquiriu um sentido suficientemente lato para englobar weblogs), deixo aqui dois quadradinhos em que um outro tipo de logs (toros, em bom português), infestam o rio Mississipi. Então, dizem-se snags, que é uma palavra linda, linda de se berrar sem aviso no metropolitano de Lisboa.

Snag 1

Snag 2

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