Algo surpreendentemente, a Relógio d’Água vai editar uma nova tradução de Crime e Castigo, da autoria de António Pescada.
Considerando que uma quantidade não despicienda de importantes obras russas ainda não tem tradução directa em português; considerando que Filipe e Nina Guerra já assinaram uma autorizada (e, quase me atrevo a dizer, lapidar) tradução da mesma obra (Editorial Presença) que não se encontra sequer esgotada na editora; considerando ainda que a nova edição da RA provavelmente não será bilingue (o que poderia sempre legitimar a duplicação de traduções através da comparação com o original – a começar pela transcrição divergente do nome do autor), dificilmente consigo compreender esta decisão editorial. Dostoiévski é sempre bem-vindo, isso não se questiona, mas ainda assim – num meio cultural em que escasseiam os recursos humanos capazes de nos ofertarem as importantes criações russófilas – isto parece-me simplesmente aburdo.
Tão absurdo de per si que nem apontarei com muita veemência o caso da tri-edição quase simultânea de obras de Luigi Pirandello em mercados portugueses, há alguns meses atrás.
Tenho grande respeito por António Pescada e um admiração ainda maior pelo seu trabalho, mas isto parece-me um desperdício enorme de tempo e potencial, bem como a deturpação daquilo que deveria ser a matriz rectora de qualquer tradutor; a abertura de obras formalmente inacessíveis ou inóspitas ao público interessado. Diagnóstico? Incontinência editorial aguda com um custo de oportunidade assinalável. E ainda há quem tenha o desplante garboso de defender que não senhor, não se publicam demasiado livros no nosso mercado.