Tag Archives: Catch-22

Grande Vitória II

Desta vez, convenci um homónimo lá do escritório a ler o Catch-22 de Joseph Heller. Consta-me que ele até já encomendou o livro com base numa outra minha sugestão e vai levantá-lo em breve.

Sinto-me tão influente.

António

(a corromper jovens advogados desde 2008, livro após livro)

PS: Segui um método que me foi ensinado pelo próprio livro e que ficará melhor exemplificado em baixo: duas palavras sussuradas ao telefone, sem aviso. Durante dois dias, o departamento de contencioso entrou em estado de sítio e o departamento de mercado de capitais encarregou dois estagiários de descobrir se “Catch” ou “Heller” eram novos derivados financeiros. Fizeram-se quatro directas e acumularam-se cerca de trezentas horas não facturáveis. Houve um despedimento colectivo e uma licença de maternidade. O servidor teve de ser reiniciado cinco vezes. No final (depois do pó assentar) o meu colega decidiu comprar o livro.

“It takes brains not to make money,” Colonel Cargill wrote in one of the homiletic memoranda he regularly prepared for circulation over General Peckem’s signature. “Any fool can make money these days and most of them do. But what about people with talent and brains? Name, for example, one poet who makes money.”

“T. S. Eliot,” ex-P. F. C. Wintergreen said in his mail-sorting cubicle at Twenty-seventh Air Force Headquarters and slammed down the telephone without identifying himself.

Colonel Cargill, in Rome, was perplexed.

“Who was it?” asked General Peckem.

“I don’t know,” Colonel Cargill replied.

“What did he want?”

“I don’t know.”

“Well, what did he say?”

” ‘T. S. Eliot’,” Colonel Cargill informed him.

“What’s that?”

“‘T. S. Eliot’,” Colonel Cargill repeated.

“Just ‘T. S. -“‘

“Yes, sir. That’s all he said. Just ‘T. S. Eliot’.”

“I wonder what it means,” General Peckem reflected. Colonel Cargill wondered, too. “T. S. Eliot,” General Peckem mused.

“T. S. Eliot,” Colonel Cargill echoed with the same funereal puzzlement.

General Peckem roused himself after a moment with an unctuous and benignant smile. His expression was shrewd and sophisticated. His eyes gleamed maliciously. “Have someone get me General Dreedle,” he requested Colonel Cargill. “Don’t let him know who’s calling.” Colonel Cargill handed him the phone.

“T. S. Eliot,” General Peckem said, and hung up.

“Who was it?” asked Colonel Moodus. General Dreedle, in Corsica, did not reply. Colonel Moodus was General Dreedle’s son-in- law, and General Dreedle, at the insistence of his wife and against his own better judgment, had taken him into the military business. General Dreedle gazed at Colonel Moodus with level hatred. He detested the very sight of his son-in-law, who was his aide and therefore in constant attendance upon him. He had opposed his daughter’s marriage to Colonel Moodus because he disliked attending weddings. Wearing a menacing and pre-occupied scowl, General Dreedle moved to the full-length mirror in his office and stared at his stocky reflection. He had a grizzled, broad-browed head with iron-grey tufts over his eyes and a blunt and belligerent jaw. He brooded in ponderous speculation over the cryptic message he had just received. Slowly his face softened with an idea, and he curled his lips with wicked pleasure.

“Get Peckem,” he told Colonel Moodus. “Don’t let the bastard know who’s calling.”

“Who was it?” asked Colonel Cargill, back in Rome.

“That same person,” General Peckem replied with a definite trace of alarm. “Now he’s after me.”

“What did he want?”

“I don’t know.”

“What did he say?”

“The same thing.”

“‘T.S.Eliot’?”

“Yes, ‘T.S.Eliot’.? That’s all he said.” General Peckem had a hopeful thought. “Perhaps it’s a new code or something, like the colors of the day. Why don’t you have someone check with Communications and see if it’s a new code or something or the colors of the day?” Communications answered that T. S. Eliot was not a new code or the colors of the day.

Colonel Cargill had the next idea. “Maybe I ought to phone Twenty-seventh Air Force Headquarters and see if they know anything about it. They have a clerk up there named Wintergreen I’m pretty close to. He’s the one who tipped me off that our prose was too prolix.”

Ex-P. F. C. Wintergreen told Cargill that there was no record at Twenty-seventh Air Force Headquarters of a T. S. Eliot.

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A abelha perdida de Norman Mailer

Pequena abelhinha que chafurdas na poeira da esburacada alameda, incapaz de encontrares o caminho para casa: fizeste-me lembrar de Norman Mailer. *

A reminiscência é menos descabida do que parece se tivermos em conta que o seu derradeiro livro poderia adequadamente ter recebido o subtítulo de Lições Indecentes de Apicultura Austríaca Para Jovens Ditadores Monotesticulares. Mais abaixo falarei da narrativa; por agora basta avançar que o enredo torneia as vidas de Alois e Klara Hitler e que o autor se detém prolongadamente sobre a criação e nutrição de enxames de abelhas por um antigo funcionário imperial das alfândegas (com uma pequena ajuda de um velho sujo e rebarbado que assedia os filhos do casal). O cuidado que Mailer dedica a esses pequenos bichinhos e ao efeito que o seu labor desesperado exerce sobre a estranha família de Hitler não deve surpreender pela sua inusitada ternura: bastará recordar que o emblemático prosador americano sempre se dividiu – por vezes desigualmente – na caracterização feroz das maldades humanas e no acolhimento dos seus desejos mais puros. Talvez tenha sorvido estas tonalidades de Lev Tolstoi, cuja Guerra e Paz confessou ler todos os dias em jeito de inspiração para o seu The Naked and The Dead, mas em todo o caso é-me impossível – a despeito da sua rochosa prosa – não ver em Mailer um grande humanista e um escritor dotado de enorme compaixão.

Joseph Heller revelou um dia a Kurt Vonnegut que se não tivesse sido pela Segunda Guerra Mundial teria seguido uma carreira na lavandaria a seco. A anedota é comentada por Howard Jacobson num prefácio ao inacreditável, superlativo, genial e tudo o mais Catch-22, em que o britânico se sai com uma frase particularmente feliz: “hard to imagine Philip Roth or Saul Bellow saying that, or even Norman Mailer who surely would have stayed in an aggressive line of work and been a prize-fighter or something similar if the writing hadn’t worked out“.

Mais do que propor a equação “ Norman Mailer = gajo lixado que não convém irritar “, Jacobson chama a atenção para o corpo da obra em que se incluem temas de particular tensão e agressividade como os cenários de guerra no Pacífico, a violenta degradação de um homem que assassina  e encobre a sangue frio ou o fracturante processo de condenação à morte de Gary Gilmore. Mesmo quando praticava mero jornalismo (e o jornalismo da sua geração foi tudo menos mero jornalismo), Mailer abocanhava com raiva e paixão esses factos e ocorrências que outros narravam com o mesmo enfado e rigidez dos comentadores desportivos ou do cansado narrador das actualidades televisivas. Basta vê-lo em 1975 quando, no Zaire, na noite carregada de leões, Muhammad Ali e George Foreman batem-se como dois guerreiros de ébano. Deste musculado confronto nasce The Fight, em que Norman Mailer supera a idolatria juvenil das estatísticas e dos livros de cromos para oferecer ao plano literário um fenómeno dignamente popular, rico em consequências e evidências sociais.

A última tarefa literária da vida de Mailer, e uma que estou convencido que vingará como das suas mais notáveis, consistiu na invulgar abordagem à vida desse “homem mais misterioso do século XX” a partir das suas raízes familiares. Trata-se do livro The Castle in the Forest e trata-se de Adolf Hitler. O título em português – numa manifestação incompreensível dos altos desígnios editoriais – é O Fantasma de Hitler (o que provoca diariamente levantamentos de cenhos em empregados fnacianos e bertrandianos idiotas que julgam que a pessoa está a demandar por uma qualquer versão do Mein Kampf).

A minha intenção ao começar este texto era o de comentar um artifício muito particular do livro e de o contrastar com uma outra criação predilecta. Mas comecei mal, a falar de abelhas e do Kurt Vonnegut, e por isso terei de deixar os excursos (ou as heresias) literárias para outra altura em que não tenha tanto trabalho acumulado e a reclamar a minha imperiosa atenção (vou ser despedido a este ritmo). De qualquer modo, foi útil adiantar caminho, sublinhando que The Castle in the Forest não versa directamente sobre a vida do futuro ditador nazi, antes se concentrando na sua degeneração moral infantil atracada em episódios da vida conjugal, desventuras da vida campestre e infelicidades da sociedade educativa escolar.

* Prometo que atiço um enxame de abelhas africanas esfomeadas ao primeiro que se lembrar de invocar uma qualquer referência explicativa neurocientífica e de a envolver num título muito engraçado com qualquer uma das seguintes palavras: cérebro, Descartes, neurociência, erro, Proust, qualia, cognição.

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Os livros de 2009

Para referência pessoal, servirá a presente entrada para registar os livros cuja leitura vou concluindo, bem como os seus autores e os textos que, por determinada ocasião, venha a escrever sobre o assunto. As datas correspondem ao dia em que termino um livro. A lista não distingue entre leituras inéditas e releituras (mantendo-se todavia presente a subtil distinção avançada por Italo Calvino, em que um clássico seria, entre outras coisas, aquele de que ouvíriamos dizer “estou a reler”, em vez de “estou a ler”).

  • The Christmas Books – Charles Dickens, 05.01.2009.

On the first day of Christmas’

  • The Naked and the Dead – Norman Mailer, 11.01.2009.

Repères pour un monde sans pères

  • L’art et la manière d’aborder son chef de service pour lui demander une augmentation – Georges Perec, 13.01.2009.

Gincana Empresarial

  • The Castle in the Forest – Norman Mailer, 18.01.2009.

‘A abelha perdida de Norman Mailer’

  • A Praga de Kafka (Kafkas Prag) – Klaus Wagenbach, 22.01.2009.

Uma vida apenas

  • The Screwtape Letters – C.S. Lewis, 23.01.2009.

Tutores de fortuna e requinte

  • I, Claudius – Robert Graves, 11.02.2009

Um olhar bífido sobre Graves e Suetónio, ou o manual de instruções para o romance histórico

  • O Conde de Abranhos – Eça de Queirós, 16.02.2009.
  • Lord of the Flies – William Golding, 20.02.2009.

Diz-me como reages, e direi quem tu és

  • A Morte de Ivan Ilitch – Lev Tolstoi, 27.02.2009.

‘As muitas mortes de Ivan Ilitch’

  • Catch-22 – Joseph Heller, 05.03.2009.
  • O Aleph (El Aleph) – Jorge Luis Borges, 07.03.2009.
  • Ficções (Ficciones) – Jorge Luis Borges, 11.03.2009.
  • Cisnes Selvagens (Wild Swans) – Jung Chang, 16.03.2009.

O voo dos cisnes

  • História Universal da Infâmia (Historia Universal de la Infamia) – Jorge Luis Borges, 19.03.2009.
  • Laços de Família – Clarice Lispector, 22.03.2009.

O milagre de Clarice Lispector

  • História da Europa do Leste (Histoire de l’Europe de l’Est) – Jean-François Soulet, 23.03.2009

‘Atravessando a Cortina’

  • Noites na Granja ao Pé de Dikanka – Nikolai Gógol, 10.04.2009.

‘Vejam só o que deitou ao mundo um abelheiro qualquer!’

  • Um Dia na Vida de Ivan Denisovich – Alexandr Soljenitsin, 12.04.2009 .
  • The Blade Itself (The First Law: Book One) – Joe Abercrombie, 18.04.2009

Nove dedos de violência

  • A Consciência e o Romance (Consciousness and the Novel) – David Lodge, 22.04.2009.

‘Tal e qualia como um romance’

  • La Voix Perdue des Hommes – Yves Simon, 27.04.2009.

Regresso à deriva

  • As I Lay Dying – William Faulkner, 02.05.2009

E que todos os nossos ontens hajam iluminado aos tolos o caminho para a morte poeirenta

  • Before They Are Hanged (The First Law: Book Two) – Joe Abercrombie, 05.05.2009
  • The Last Argument of Kings (The First Law:Book Three) – Joe Abercrombie, 09.05.2009.

Nove dedos de ambivalência

  • A Maravilhosa Viagem de Nils HolgerssonAtravés da Suécia – Selma Lagerlöf, 14.05.2009

Saga?’

  • O Mandarim – Eça de Queirós, 15.05.2009.
  • Waiting for Godot – Samuel Beckett, 05.06.2009.

‘O hábito, esse grande mortificador’

  • As You Like It – William Shakespeare, 08.06.2009.

‘More, I prithee more’

  • Romeo and Juliet – William Shakespeare, 10.06.2009.
  • To Kill a Mockingbird – Harper Lee, 19.06.2009.

‘Um pássaro na mão e um negro a voar’

  • Stalingrad – Antony Beevor, 22.06.2009

Disquiet on the Eastern Front’

  • Mírgorod – Nikolai Gógol, 29.06.2009.

‘É triste viver neste mundo, meus senhores!’

  • A Ilustre Casa de Ramires – Eça de Queirós, 02.07.2009.
  • L’Inutile Beauté et Autres Nouvelles – Guy de Maupassant, 07.07.2009.

‘Da utilidade da beleza’

  • Contos – Volume I – Anton Tchékhov, 20.07.2009.

‘O homem é na verdade um génio’

  • The Rise and Fall of the House of Medici – Christopher Hibbert, 30.07.2009.
  • Promenades dans Rome – Stendhal, 8.08.2009.
  • Il Principe – Niccolò Machiavelli, 10.08.2009.
  • Le Vite de’ più Eccellenti Pittori, Scultori, e Architettori – Giorgio Vasari, 12.08.2009.
  • La Vita Nuova – Dante Alighieri, 15.08.2009.
  • A Travel’s Companion to Florence – Harold Acton, 19.08.2009.
  • The Last Medici – Harold Acton, 21.08.2009.
  • Giuliano Dami, Aiutante di camera del granduca Gian Gastone de’ Medici – Alberto Bruschi, 25.08.2009.
  • Gian Gastone (1671-1737) – Testimonianze e scoperte sull’ultimo Granduca de’ Medici – Monica Bietti, 28.08.2009.
  • The Stones of Florence and Venice Observed – Mary McCarthy, 1.09.2009.
  • The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman – Laurence Sterne, 12.09.2009.

‘Cavalheiros: o Senhor Trismegistus’

  • Le Regard d’Orphée – direcção de Bernardette Bricout, 17.09.2009.
  • Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres – Clarice Lispector, 06.10.2009.

‘Os alimentos terrestres’

  • The Man Who Was Thursday: A Nightmare – G.K. Chesterton, 10.10.2009.

‘Um pesadelo’

  • The Good Soldier Švejk – Jaroslav Hasek, 20.10.2009.
  • Compromisso – Theodor W. Adorno, 21.10.2009.
  • Arte de Amar – Ovídio, 22.10.2009.
  • Amores – Ovídio, 23.10.2009.

‘Da semântica venusiana’ 

  • La Vita Nuova – Dante Alighieri, 7.11.2009.
  • O Inspector – Nikolai Gógol, 15.11.2009.
  • Manhã Submersa – Vergílio Ferreira, 23.11.2009.
  • O Livro do Cortesão (Il libro del Cortegiano) – Baldessarre Castiglione, 7.11.2009.
  • Antígona – Sófocles, 15.12.2009.
  • O Mundo de Homero (Le monde d’Homère) – Pierre Vidal-Naquet, 16.12.2009.
  • The Tragedy of Hamlet, Prince of Denmark – William Shakespeare, 18.12.2009
  • Ilíada – Homero, 22.12.2009.
  • Odisseia – Homero, 25.12.2009.
  • Landmarks of World Literature: the Iliad – Michael S. Silk, 30.12.2009.
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