Category Archives: William Faulkner

… E que todos nossos ontens hajam iluminado aos tolos o caminho para a morte poeirenta

FaulknerDyingJá reparei que é vivamente aconselhável, a quem invocar William Faulkner nos dias que correm, encontrar-se devidamente apetrechado para rebater duas ordens de argumentos que invariavelmente são arremessados contra o romancista americano ou os seus emblemáticos romances. A primeira, de que a maior parte dos seus livros evidenciam uma considerável pobreza de imaginação naquilo que respeita ao enredo, que representam histórias muito simples e circulares, sem os proverbiais começos, meios, fins, surpresas e desenlaces. A segunda, de que a carreira literária desta figura academicamente elevada ao pedestal da perfeição teria singrado a partir de caracterizações sulistas erróneas e ofensivas, compondo uma galeria insultuosa de estereótipos lesivos das gentes do sul dos Estados Unidos.

Esta última observação não deixa de ser curiosa se considerarmos que este é o escritor que provavelmente mais contribuiu desde Melville para a formação de um épico genuinamente americano. Daí que ocasionalmente surja uma versão aperfeiçoada desta crítica, que consiste em repudiar o registo de Faulkner com base na desnecessidade ou inconveniência da transcrição vernacular da pronúncia acusada pelas suas personagens. No nosso cantinho, também não ajuda (informou-mo um sabedor livreiro lisboeta) que as traduções em português insistam em transpor o sotaque sulista. Ora, não faço a mínima ideia como se pode imitar um sotaque de um southerner em português, mas confesso que fiquei morbidamente curioso.

De qualquer modo, a maior parte das vozes americanas que batalham contra a incorrecção política ou social que Faulkner brande diante das gentes do sul esquece-se que as pessoas que o escritor tão maltrata são afinal o substrato preliminar da abordagem aos grandes temas que o consagraram enquanto artista. E uma lição, tão transversal quanto inútil (porque em resposta a uma crítica que assenta numa petição de princípio imbecil) poderia ser a de que Faulkner confere-lhes a maior das apoteoses quando implicitamente considera que até o mais poeirento dos campónios americanos tem de lutar contra um mar picado de emoções complexas, ou que qualquer homem é estrutura suficiente para ser varrido por estas vagas tormentosas.

Isto é bonito, mas agora que já agrupei as devidas pedras de sílex, pontas de lança e demais apetrechos rudimentares, posso esboçar algumas linhas sobre As I Lay Dying (que, conforme reza o chavão, é uma das portas de entrada para a prosa americana do século XX).

A sinopse do livro pode ser delineada da seguinte forma. No Mississipi, uma família rural aguarda com ansiedade a morte da acamada e tísica Addie Bundren, mãe de cinco, esposa de Ansen. Um dos filhos – hábil marceneiro – constrói um caixão do outro lado da janela. Enquanto o marido aguarda no alpendre, é revelado que o desejo da moribunda é ser enterrada em Jefferson, onde jaz a sua família. Mas essa viagem é longa e  avizinha-se uma tempestade capaz de aluir pontes e alagar estradas.

A história é narrada pelos intervenientes desta jornada, ao longo de 59 capítulos escritos na primeira pessoa do singular. Os autores vão-se revezando e a sequência temporal nem sempre é linear mas Darl – um dos irmãos – recebe maior tempo de antena por ser o mais sensível, eloquente, e permeável à loucura que no final o consome. A três quartos do livro ouve-se Addie, a defunta, que naquele momento da viagem já apodrece decomposta e destrambelhada num caixão que desliza pela estrada numa parelha de mulas sob o pesado calor. A sua voz é terrível, fria, cheia de ódio: uma detonação de estilhaços forte ao ponto de contaminar o resto da narrativa, suficientemente chocante para redefinir e para derramar novas e horríveis cores sobre tudo aquilo que veio antes.

É através de Darl que Faulkner adorna o livro de paralelos homéricos e é na sua pessoa que as qualidades de narrador omnisciente se encontram mais evidentes. De um ponto  de vista exterior, Darl oferece os momentos mais transcendentes e poéticos do texto. Quando fala do sol, diz que se encontra “poised like a bloody egg upon a crest of thunderheads; the light has turned copper: in the eye portentous, in the nose sulphurous, smelling of lightning”. Quando se refere ao rio selvagem, invoca titãs adormecidos e murmúrios secretos de deidades. O restante elenco conversa de modo rígido e analítico, frequentemente empregando hirtas palavras (como sertorous ou cessation), num contraste notável face às melífluas musicalidades de Darl.

Mas a sublime prosa de As I Lay Dying não é a sua única maravilha. Há uma intensidade em Na Minha Morte que é como um enorme e sufocante peso sobre o peito do leitor comprometido, uma crueldade traçada desde o título da obra – inconfundível em soturnidade – ou o primeiro capítulo (“Addie Bundren não poderia desejar uma melhor, uma caixa melhor onde se estender. Isso vai dar-lhe confiança e conforto”, que é verdadeiramente um dos mais impressionantes incipits da literatura moderna). Benvindos a uma odisseia que também é uma tragédia, e a uma comédia que também é uma crónica. Não é claro porque motivo a família persiste na viagem; se por respeito à mãe, se por vontade do pai em fechar um negócio em Jefferson ou aí buscar uma nova esposa. Mas se a força impulsionadora desta epopeia americana é Addie então teremos de lhe imputar uma camada adicional consequências, pois a desintegração familiar não consente que fique ileso o seu próprio filho predilecto, Jewel. Esse é um rapaz orgulhoso e despachado, de todos o que menos se assemelha ao resto da linha paternal. Ironicamente, Jewel tem de renunciar a  tudo aquilo que o distingue a fim de sepultar a mãe. Vende o cavalo que comprou após meses de trabalho árduo, submete-se à vontade férrea e abusiva do pai, e por mais de uma vez prolonga aquela fantochada de procissão contra os clamores de Darl ou das pessoas que os encontram na estrada e quase não conseguem conter a sua repulsa.

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Compreendo agora, anos após as minhas abordagens iniciais, que em muitos aspectos a minha aprendizagem de Faulkner também foi uma viagem sem enredo, cujo humilde prenúncio nasceu de  uma antiga edição do Som e a Fúria, esse livro arcano e irritante aos meus olhos que então clamavam contra a quebra de protocolo gramatical e sintáctico.

Mas talvez Faulkner seja como Bruckner e a cerveja: poucos gostam do seu sabor à primeira, e ainda assim muitos são os que deles acabam extraindo um conforto e uma satisfação quase imprescindíveis em virtude desses ignotos e eternos báculos que são a constância e a familiaridade. Bruckner encerra uma era, Faulkner inaugura outra – e a cerveja afinal não é para aqui chamada – mas ambos os artistas exigem uma certa perseverância, atenção, e respeito. No fim, se o leitor achar justificada a violenta tarefa que lhe foi imposta – não sendo preciso ir tão longe como Bloom e afirmar que As I lay Dying tem o direito a ser difícil – então tudo estará perdoado.

E no meu caso, já fiz as pazes com Faulkner.

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Os livros de 2009

Para referência pessoal, servirá a presente entrada para registar os livros cuja leitura vou concluindo, bem como os seus autores e os textos que, por determinada ocasião, venha a escrever sobre o assunto. As datas correspondem ao dia em que termino um livro. A lista não distingue entre leituras inéditas e releituras (mantendo-se todavia presente a subtil distinção avançada por Italo Calvino, em que um clássico seria, entre outras coisas, aquele de que ouvíriamos dizer “estou a reler”, em vez de “estou a ler”).

  • The Christmas Books – Charles Dickens, 05.01.2009.

On the first day of Christmas’

  • The Naked and the Dead – Norman Mailer, 11.01.2009.

Repères pour un monde sans pères

  • L’art et la manière d’aborder son chef de service pour lui demander une augmentation – Georges Perec, 13.01.2009.

Gincana Empresarial

  • The Castle in the Forest – Norman Mailer, 18.01.2009.

‘A abelha perdida de Norman Mailer’

  • A Praga de Kafka (Kafkas Prag) – Klaus Wagenbach, 22.01.2009.

Uma vida apenas

  • The Screwtape Letters – C.S. Lewis, 23.01.2009.

Tutores de fortuna e requinte

  • I, Claudius – Robert Graves, 11.02.2009

Um olhar bífido sobre Graves e Suetónio, ou o manual de instruções para o romance histórico

  • O Conde de Abranhos – Eça de Queirós, 16.02.2009.
  • Lord of the Flies – William Golding, 20.02.2009.

Diz-me como reages, e direi quem tu és

  • A Morte de Ivan Ilitch – Lev Tolstoi, 27.02.2009.

‘As muitas mortes de Ivan Ilitch’

  • Catch-22 – Joseph Heller, 05.03.2009.
  • O Aleph (El Aleph) – Jorge Luis Borges, 07.03.2009.
  • Ficções (Ficciones) – Jorge Luis Borges, 11.03.2009.
  • Cisnes Selvagens (Wild Swans) – Jung Chang, 16.03.2009.

O voo dos cisnes

  • História Universal da Infâmia (Historia Universal de la Infamia) – Jorge Luis Borges, 19.03.2009.
  • Laços de Família – Clarice Lispector, 22.03.2009.

O milagre de Clarice Lispector

  • História da Europa do Leste (Histoire de l’Europe de l’Est) – Jean-François Soulet, 23.03.2009

‘Atravessando a Cortina’

  • Noites na Granja ao Pé de Dikanka – Nikolai Gógol, 10.04.2009.

‘Vejam só o que deitou ao mundo um abelheiro qualquer!’

  • Um Dia na Vida de Ivan Denisovich – Alexandr Soljenitsin, 12.04.2009 .
  • The Blade Itself (The First Law: Book One) – Joe Abercrombie, 18.04.2009

Nove dedos de violência

  • A Consciência e o Romance (Consciousness and the Novel) – David Lodge, 22.04.2009.

‘Tal e qualia como um romance’

  • La Voix Perdue des Hommes – Yves Simon, 27.04.2009.

Regresso à deriva

  • As I Lay Dying – William Faulkner, 02.05.2009

E que todos os nossos ontens hajam iluminado aos tolos o caminho para a morte poeirenta

  • Before They Are Hanged (The First Law: Book Two) – Joe Abercrombie, 05.05.2009
  • The Last Argument of Kings (The First Law:Book Three) – Joe Abercrombie, 09.05.2009.

Nove dedos de ambivalência

  • A Maravilhosa Viagem de Nils HolgerssonAtravés da Suécia – Selma Lagerlöf, 14.05.2009

Saga?’

  • O Mandarim – Eça de Queirós, 15.05.2009.
  • Waiting for Godot – Samuel Beckett, 05.06.2009.

‘O hábito, esse grande mortificador’

  • As You Like It – William Shakespeare, 08.06.2009.

‘More, I prithee more’

  • Romeo and Juliet – William Shakespeare, 10.06.2009.
  • To Kill a Mockingbird – Harper Lee, 19.06.2009.

‘Um pássaro na mão e um negro a voar’

  • Stalingrad – Antony Beevor, 22.06.2009

Disquiet on the Eastern Front’

  • Mírgorod – Nikolai Gógol, 29.06.2009.

‘É triste viver neste mundo, meus senhores!’

  • A Ilustre Casa de Ramires – Eça de Queirós, 02.07.2009.
  • L’Inutile Beauté et Autres Nouvelles – Guy de Maupassant, 07.07.2009.

‘Da utilidade da beleza’

  • Contos – Volume I – Anton Tchékhov, 20.07.2009.

‘O homem é na verdade um génio’

  • The Rise and Fall of the House of Medici – Christopher Hibbert, 30.07.2009.
  • Promenades dans Rome – Stendhal, 8.08.2009.
  • Il Principe – Niccolò Machiavelli, 10.08.2009.
  • Le Vite de’ più Eccellenti Pittori, Scultori, e Architettori – Giorgio Vasari, 12.08.2009.
  • La Vita Nuova – Dante Alighieri, 15.08.2009.
  • A Travel’s Companion to Florence – Harold Acton, 19.08.2009.
  • The Last Medici – Harold Acton, 21.08.2009.
  • Giuliano Dami, Aiutante di camera del granduca Gian Gastone de’ Medici – Alberto Bruschi, 25.08.2009.
  • Gian Gastone (1671-1737) – Testimonianze e scoperte sull’ultimo Granduca de’ Medici – Monica Bietti, 28.08.2009.
  • The Stones of Florence and Venice Observed – Mary McCarthy, 1.09.2009.
  • The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman – Laurence Sterne, 12.09.2009.

‘Cavalheiros: o Senhor Trismegistus’

  • Le Regard d’Orphée – direcção de Bernardette Bricout, 17.09.2009.
  • Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres – Clarice Lispector, 06.10.2009.

‘Os alimentos terrestres’

  • The Man Who Was Thursday: A Nightmare – G.K. Chesterton, 10.10.2009.

‘Um pesadelo’

  • The Good Soldier Švejk – Jaroslav Hasek, 20.10.2009.
  • Compromisso – Theodor W. Adorno, 21.10.2009.
  • Arte de Amar – Ovídio, 22.10.2009.
  • Amores – Ovídio, 23.10.2009.

‘Da semântica venusiana’ 

  • La Vita Nuova – Dante Alighieri, 7.11.2009.
  • O Inspector – Nikolai Gógol, 15.11.2009.
  • Manhã Submersa – Vergílio Ferreira, 23.11.2009.
  • O Livro do Cortesão (Il libro del Cortegiano) – Baldessarre Castiglione, 7.11.2009.
  • Antígona – Sófocles, 15.12.2009.
  • O Mundo de Homero (Le monde d’Homère) – Pierre Vidal-Naquet, 16.12.2009.
  • The Tragedy of Hamlet, Prince of Denmark – William Shakespeare, 18.12.2009
  • Ilíada – Homero, 22.12.2009.
  • Odisseia – Homero, 25.12.2009.
  • Landmarks of World Literature: the Iliad – Michael S. Silk, 30.12.2009.
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