Category Archives: Tolkien

Prova de resistência

Conceito indeterminado, “fôlego narrativo” é expressão candidata a adornar uma crítica literária ou um comentário de contracapa. O seu habitat natural é o do romance histórico obeso, mas a sua presença já foi registada em obras que impressionam pelo vigor e confiança que o autor imprime aos seus conteúdos. Há quem a empregue como medida de comprimento do texto, há quem a use como a quantificação de génio prolongado. E dá um ar engraçado, dizer que tal e tal convencem pelo seu fôlego narrativo.

A maior parte dos leitores conhece o “Efeito Maias”. Especialmente temido nas escolas secundárias, ele refere-se à cruel experiência de ler algo que suspeitamos ser bom, mas que irritantemente tarda em arrancar, desbaratando os capítulos iniciais em intróitos e genealogias. Só a perseverança do leitor assegura a descoberta daqueles conteúdos maravilhosos que o unem ao livro. Erguer um dedo néscio ao escritor e acusá-lo de não ter fôlego suficiente para harmonizar os conteúdos do seu livro torna-se, portanto, bastante aliciante.

Os escritores seguramente não ignoram a heterogeneidade rítmica dos seus livros. Alguns aprenderam a brandi-la, abrindo os livros em força e lançando as redes sobre a atenção do leitor para seguidamente amainar a torrente narrativa. Ou então, jogando a sua cartada triunfal num ponto intermédio, permitem que o resto da história definhe, moribunda. Um post recente, referenciado pelo Guardian, salienta o exemplo do pós-pós-pós-epílogo ao The Return of the King (The Scouring of the Shire), e como a sua inclusão deliberadamente contextualiza os eventos anteriores e é essencial à sua interpretação – vejam o ponto 2. Para os não iniciados, o Scouring of the Shire trata das corriqueiras aventuras dos hobbits regressados da guerra, que encontram a sua simpática terriola posta a ferro e fogo por um bando extorsionário de pilantras escaramuçantes. O que é curioso é que tudo isto surge no final da extensa trilogia. Após o embate contra o colossal vilão. Depois da viagem de regresso (já de si invulgar). Após a despedida dos heróis (comum na narrativa épica anglo-saxónica antiga, rara na ficção contemporânea).

Charles Dickens, por exemplo, oferecia-nos narrativas sólidas e convincentes, mesmo quando as suas personagens se chamavam Chuzzlewit, Drood, Scrooge ou Pickwick. O leitor alinha, e olhem que não se trata apenas de suspensão de descrença. Procurem antes o motivo na confiança com que o escritor avança, de passo elegante e cartola empolada, através de parágrafos e capítulos, infalivelmente orientado pelos seus próprios conteúdos: um desfecho, uma revelação, um desenlace. Um líder de olhares. E se me é permitida a salganhada (bem como uma abrupta deslocação temporal), vou apontar também o exemplo de To Kill a Mocking Bird, de Harper Lee, livro de leitura recente e confessadamente fascinante. É uma história bem contada, por parte de uma grande senhora que “escreve do que conhece, de forma genuína”, e um exemplo magnífico de segurança narrativa. Eu rendi-me ao seu registo, que não tardou a convencer-me que sabia precisamente onde queria chegar, e por onde desejava atravessar.

Portanto, e sendo a pessoa optimista e solarenga que sou, assumo sempre o melhor dos mundos, cultivo o meu jardim, e penso sempre nestes grandes escritores quando alguém me recomenda um livro com base no fôlego narrativo do seu autor.

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Nove dedos de violência

Algures durante a passada quadra natalícia, dei por mim a ombrear com um colega de trabalho que se revelou um voraz leitor de fantasy. Não um leitor de literatura fantástica, note-se, não um leitor de fantasia, de mitos, ou até mesmo de faerie. Um indómito leitor de fantasy, sem vergonha de utilizar a palavra numa conversa oral e sem medo de sobraçar um volumoso paperback  no caminho entre o metro e o escritório (e notem que a ilustração de capa desse livro era digna de figurar em qualquer álbum dos Rhapsody).

Para o arreliar um pouco, vai de fingir interesse e lhe pedir algumas recomendações no género que – conhecidos clássicos à parte – me permanece berrante e ignoto. Acabei por descobrir que eu lhe levava o avanço de leitura dos seis estupendos livros de Dune (e que raio de fã de fantasy não lê Frank Herbert?), e que o facto de eu ser um modesto conhecedor das genealogias do Silmarillion me habilitava para além do título de iniciado no género. Eis senão quando ele me promete trazer um livro que reunia os méritos de uma obra recente e de um porta de entrada no disputado mundo de fantasy.

Bem, não esperava tamanha solicitude. Apesar de tudo, esse pequeno advogado fiscal, para além de sonhar com dragões e elfos e realizar auditorias, também é muito simpático. Com a pontualidade de um devedor com a morada de família hipotecada, encontrei na minha mesa, no dia seguinte, The Blade Itself, primeira parte de uma inevitável trilogia por um tal Joe Abercrombie.

Um inconveniente de se seguir uma leitura programada que assenta em grandes clássicos, grandes obras, grandes autores, grandes narrativas, grandes ideias, grandes instruções, grandes marcos, grandes personagens – o problema com tudo isto, dizia, é que nos esquecemos facilmente de como existem bons escritores que não querem saber da condição humana ou seus conflitos interiores num mundo de convergências emocionais e religiosas, nem estão interessados em desenvolver escolas de pensamento sistemático a partir de belas narrativas existencialistas. Há quem escreva somente por gosto e com gosto, desejando urdir histórias e enredos que apelem directamente ao mais jovial sentido de diversão e escapismo (aqui entendido na esteira deste histórico ensaio) e inflamem a imaginação do leitor. É uma maravilha lê-los.

The Blade Itself não é um mau livro mas chega a entreter o leitor como se o fosse, narrando a história de três reinos em guerra, e de alguns heróis (um bruto, um mago, um cavaleiro e um inquisidor sádico) que aí viajam e batalham. De Abercrombie pode-se dizer que é um escritor competente: por mais de uma vez quedei-me, um tanto incrédulo, perante a força da sua narrativa sincopada e o ritmo que ele imprime a determinadas cenas. A capacidade de delinear os movimentos concretos de uma bagarre sem esmagar o leitor com pormenores supérfluos que afectem a ligeireza do registo permanece uma qualidade invejável nesta linha de ficção.

No seu cadastro fica apenas a inclinação para tingir tudo com demasiada hemoglobina espirrante (quando o bárbaro Logen “Nove-Dedos” entra em cena) e engordar alguns capítulos para além do razoável (quando o inquisidor Glokta começa a divagar). O pecado capital de encetar uma balofa trilogia – quando um livro chegaria perfeitamente – também não é algo que eu consiga facilmente perdoar.

Deparamo-nos assim com um género de incontinência soliloqual que se esperaria de um God Emperor of Dune, com direito a toda a verbosidade de um Leto mas sem um décimo da sua beleza filosófica e política. Quando isto não sucede e a narrativa prossegue desimpedida, o leitor defronta-se ainda com um uso liberal de profanidades que, despido de critérios judiciosos de aplicação, causa grande perplexidade e transforma o que poderia ser uma ferramenta útil de caracterização num artifício juvenil.

O seu registo – que tão bem serve a acção – revela-se seco e atabalhoado quando se trata de enveredar por cenas amorosas ou descrições mais íntimas. A verdade é que a galeria de figuras femininas também não ajuda: Abercrombie parece incapaz de densificar as escassas donzelas que nos poderiam agraciar mas que se vêem esquadrinhadas em papéis cansados (como a “menina-burguesa-que-não-pode-casar-com-o-bonzão-de-sangue-nobre”, a “menina-selvagem-guerreira-que-quer-matar-toda-a-gente”, ou até a “bruxa-de-proporções-amazónicas-ao-serviço-do-mauzão”).

Não sendo o livro um monumento à originalidade (está ainda por escrever a nova matriz da literatura fantástica), consegue-se aqui algo claramente superior à soma das partes individualizadas. As personagens são amigáveis, o enredo interessa, e a meio do livro é possível que o leitor se ache – como eu me achei – genuinamente interessado no desfecho, com o género de atenção que dedicaria a um gostoso policial. Mesmo que para isso tenha de suportar umas tantas páginas supérfluas.

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Civilização

Não são apenas as leituras históricas que provocam uma certa reflexão sobre a ascensão e a queda de impérios. Existem, nessa ficção da prosa e poesia universais, passagens tão cristalinas e verdadeiras que ressoam longamente mesmo depois de serem consumidas pela leitura. E, nesta hora, recordo-me da seguinte:

(…) Death was ever present, because the Numenoreans still, as they had in their own kingdom and so lost it, hungered after endless life unchanging. Kings made tombs more splendid than houses of the living, and counted old names in the rolls of their descent dearer than the names of sons. Childless lords sat in aged halls musing on heraldry; in secret chambers withered old men compounded strong elixirs, or in high cold towers asked questions of the stars. And the last king of the line of Anorien had no heir. (…)

The Two Towers, Book IV, Chapter Five (“The Window on the West”).

Superação de simples imagética de estilo para obtenção de um significado próximo do coração da humanidade. A compreensão do sentido desta passagem é imediata; compreendemo-lo como se de uma velha, desconhecida, e familiar melodia se tratasse.

Com esta reflexão conduzi a atenção para o próximo livro na minha prateleira: The Monsters & the Critics and Other Essays, pelo mesmo autor (Tolkien, enquanto professor e autoridade literária, encontra-se um tanto esquecido ou ofuscado pela popularidade das suas fabulosas mitologias). Sempre decidi deixar este livro sossegado até me ter familiarizado com as grandes obras de literatura medievais sobre as quais os seus ensaios se desenvolvem (entre as quais se destacam o eterno Beowulf e Sir Gawain and the Green Knight). Todavia, já as ataquei este Verão, com muito gosto e assombro. É possível que tenha chegado a hora de desafiar estes densos estudos.

Como sempre, só falta tempo.

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