Category Archives: Lev Tolstoi

A abelha perdida de Norman Mailer

Pequena abelhinha que chafurdas na poeira da esburacada alameda, incapaz de encontrares o caminho para casa: fizeste-me lembrar de Norman Mailer. *

A reminiscência é menos descabida do que parece se tivermos em conta que o seu derradeiro livro poderia adequadamente ter recebido o subtítulo de Lições Indecentes de Apicultura Austríaca Para Jovens Ditadores Monotesticulares. Mais abaixo falarei da narrativa; por agora basta avançar que o enredo torneia as vidas de Alois e Klara Hitler e que o autor se detém prolongadamente sobre a criação e nutrição de enxames de abelhas por um antigo funcionário imperial das alfândegas (com uma pequena ajuda de um velho sujo e rebarbado que assedia os filhos do casal). O cuidado que Mailer dedica a esses pequenos bichinhos e ao efeito que o seu labor desesperado exerce sobre a estranha família de Hitler não deve surpreender pela sua inusitada ternura: bastará recordar que o emblemático prosador americano sempre se dividiu – por vezes desigualmente – na caracterização feroz das maldades humanas e no acolhimento dos seus desejos mais puros. Talvez tenha sorvido estas tonalidades de Lev Tolstoi, cuja Guerra e Paz confessou ler todos os dias em jeito de inspiração para o seu The Naked and The Dead, mas em todo o caso é-me impossível – a despeito da sua rochosa prosa – não ver em Mailer um grande humanista e um escritor dotado de enorme compaixão.

Joseph Heller revelou um dia a Kurt Vonnegut que se não tivesse sido pela Segunda Guerra Mundial teria seguido uma carreira na lavandaria a seco. A anedota é comentada por Howard Jacobson num prefácio ao inacreditável, superlativo, genial e tudo o mais Catch-22, em que o britânico se sai com uma frase particularmente feliz: “hard to imagine Philip Roth or Saul Bellow saying that, or even Norman Mailer who surely would have stayed in an aggressive line of work and been a prize-fighter or something similar if the writing hadn’t worked out“.

Mais do que propor a equação “ Norman Mailer = gajo lixado que não convém irritar “, Jacobson chama a atenção para o corpo da obra em que se incluem temas de particular tensão e agressividade como os cenários de guerra no Pacífico, a violenta degradação de um homem que assassina  e encobre a sangue frio ou o fracturante processo de condenação à morte de Gary Gilmore. Mesmo quando praticava mero jornalismo (e o jornalismo da sua geração foi tudo menos mero jornalismo), Mailer abocanhava com raiva e paixão esses factos e ocorrências que outros narravam com o mesmo enfado e rigidez dos comentadores desportivos ou do cansado narrador das actualidades televisivas. Basta vê-lo em 1975 quando, no Zaire, na noite carregada de leões, Muhammad Ali e George Foreman batem-se como dois guerreiros de ébano. Deste musculado confronto nasce The Fight, em que Norman Mailer supera a idolatria juvenil das estatísticas e dos livros de cromos para oferecer ao plano literário um fenómeno dignamente popular, rico em consequências e evidências sociais.

A última tarefa literária da vida de Mailer, e uma que estou convencido que vingará como das suas mais notáveis, consistiu na invulgar abordagem à vida desse “homem mais misterioso do século XX” a partir das suas raízes familiares. Trata-se do livro The Castle in the Forest e trata-se de Adolf Hitler. O título em português – numa manifestação incompreensível dos altos desígnios editoriais – é O Fantasma de Hitler (o que provoca diariamente levantamentos de cenhos em empregados fnacianos e bertrandianos idiotas que julgam que a pessoa está a demandar por uma qualquer versão do Mein Kampf).

A minha intenção ao começar este texto era o de comentar um artifício muito particular do livro e de o contrastar com uma outra criação predilecta. Mas comecei mal, a falar de abelhas e do Kurt Vonnegut, e por isso terei de deixar os excursos (ou as heresias) literárias para outra altura em que não tenha tanto trabalho acumulado e a reclamar a minha imperiosa atenção (vou ser despedido a este ritmo). De qualquer modo, foi útil adiantar caminho, sublinhando que The Castle in the Forest não versa directamente sobre a vida do futuro ditador nazi, antes se concentrando na sua degeneração moral infantil atracada em episódios da vida conjugal, desventuras da vida campestre e infelicidades da sociedade educativa escolar.

* Prometo que atiço um enxame de abelhas africanas esfomeadas ao primeiro que se lembrar de invocar uma qualquer referência explicativa neurocientífica e de a envolver num título muito engraçado com qualquer uma das seguintes palavras: cérebro, Descartes, neurociência, erro, Proust, qualia, cognição.

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Ciúme

A explicação de um dia cabe em palavras soltas e disconexas que recolhi numa livraria ao cair da noite. Através do véu cansado do meu olhar conseguiram penetrar algumas frases que não deflagraram imediatamente, tão cansado me encontrava. A minha cabeça latejava com os zumbidos quentes de uma dor vaga; percebo agora que lia trechos soltos da Sonata Kreutzer.

A explicação de um homem cabe no despoletar da sua consciência, quando um punhado de doces palavras colocam em andamento o assustador processo da introspecção. Sementes da discórdia implantadas num ventre demasiado inseguro, demasiado incerto, perenemente indefinido.

Quando germinam, temos a tempestade: percebo que é também o ciúme que me domina, é também essa violenta ferocidade interior que me gera o ódio e o escárnio pelos arredores daquela que amo. O livro há de me dizer pouco – quando e se finalmente o ler; lida com pessoas que não sou eu, e com veleidades que jamais serão as minhas.

Mas ao menos tenho a minha explicação. Vi-me explicado por uma pena invisível que escrevia sentenças na minha mente. Este foi o meu dia, como tem sido a minha semana e como tem sido o meu amor. É tantas vezes daqui que surge a minha energia que eu não concebo existir ou doer de outro modo. É a partir daqui que eu construo o altruísmo, aprendo a amar sozinho, a pensar nas coisas e a colocar senão as rédeas mais necessárias nos meus sentimentos.

É daqui, em suma, que nasce a antinomia que me deixa feliz.

As muitas mortes de Ivan Ilitch

Num mundo perfeito, perguntaríamos ao transeunte o que pensa da Morte de Ivan Ilitch.

E ele talvez nos dissesse que se sente despido de cada vez que lê este livro, que se arrepia com a frieza que acompanha a impotência de se saber examinado com a mesma lucidez clínica que acompanha a degeneração física de Ivan Ilitch.

Um outro falaria na simplicidade do livro e da vida que ele encerra. Da forma como Tolstoi, em magníficas linhas claras, percorre a banalidade de uma vida e os seus automatismos sociais.

Se interrogássemos uma senhora, talvez obtivéssemos alguma referência à mágoa complexa da mulher de Ivan Ilitch, Praskóvia Fiódorovna, que pela doença do marido é atirada para um estado de fúria, interesse e perturbação ambivalentes.

O senhor seguinte poderia chamar a atenção para os momentos finais do livro, em que a consciência de Ivan Ilitch se ilumina com a força de um clarão e se prepara para ajuizar o valor de uma vida que tanto lutara por conservar.

Um homem espiritual poderia indicar como essas últimas semanas da vida de Ivan Ilitch representam a catarse religiosa que antecede o seu preenchimento espiritual.

E um conhecedor da vida de Tolstoi recordaria que na sua maturidade o autor se converteu a alguns ensinamentos do Cristianismo.

O próximo entrevistado tem ar de quem mantém um blog e o enche de arrogâncias e ignorâncias; para ele, há grande interesse no modo como Ivan Ilitch reconhece que a sua morte libertaria a família de um constrangimento terrível, do mesmo modo que a morte de Gregor Samsa devolve a vitalidade aos seus entes próximos. De quem, afinal, é a tragédia?

Outras pessoas diriam outras coisas, porque num mundo perfeito todos teriam lido esta sublime obra, e porque dela tudo o que é humano se poderia dizer.

E assim, num mundo perfeito, eu não teria precisado de escrever estas linhas.

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Os livros de 2009

Para referência pessoal, servirá a presente entrada para registar os livros cuja leitura vou concluindo, bem como os seus autores e os textos que, por determinada ocasião, venha a escrever sobre o assunto. As datas correspondem ao dia em que termino um livro. A lista não distingue entre leituras inéditas e releituras (mantendo-se todavia presente a subtil distinção avançada por Italo Calvino, em que um clássico seria, entre outras coisas, aquele de que ouvíriamos dizer “estou a reler”, em vez de “estou a ler”).

  • The Christmas Books – Charles Dickens, 05.01.2009.

On the first day of Christmas’

  • The Naked and the Dead – Norman Mailer, 11.01.2009.

Repères pour un monde sans pères

  • L’art et la manière d’aborder son chef de service pour lui demander une augmentation – Georges Perec, 13.01.2009.

Gincana Empresarial

  • The Castle in the Forest – Norman Mailer, 18.01.2009.

‘A abelha perdida de Norman Mailer’

  • A Praga de Kafka (Kafkas Prag) – Klaus Wagenbach, 22.01.2009.

Uma vida apenas

  • The Screwtape Letters – C.S. Lewis, 23.01.2009.

Tutores de fortuna e requinte

  • I, Claudius – Robert Graves, 11.02.2009

Um olhar bífido sobre Graves e Suetónio, ou o manual de instruções para o romance histórico

  • O Conde de Abranhos – Eça de Queirós, 16.02.2009.
  • Lord of the Flies – William Golding, 20.02.2009.

Diz-me como reages, e direi quem tu és

  • A Morte de Ivan Ilitch – Lev Tolstoi, 27.02.2009.

‘As muitas mortes de Ivan Ilitch’

  • Catch-22 – Joseph Heller, 05.03.2009.
  • O Aleph (El Aleph) – Jorge Luis Borges, 07.03.2009.
  • Ficções (Ficciones) – Jorge Luis Borges, 11.03.2009.
  • Cisnes Selvagens (Wild Swans) – Jung Chang, 16.03.2009.

O voo dos cisnes

  • História Universal da Infâmia (Historia Universal de la Infamia) – Jorge Luis Borges, 19.03.2009.
  • Laços de Família – Clarice Lispector, 22.03.2009.

O milagre de Clarice Lispector

  • História da Europa do Leste (Histoire de l’Europe de l’Est) – Jean-François Soulet, 23.03.2009

‘Atravessando a Cortina’

  • Noites na Granja ao Pé de Dikanka – Nikolai Gógol, 10.04.2009.

‘Vejam só o que deitou ao mundo um abelheiro qualquer!’

  • Um Dia na Vida de Ivan Denisovich – Alexandr Soljenitsin, 12.04.2009 .
  • The Blade Itself (The First Law: Book One) – Joe Abercrombie, 18.04.2009

Nove dedos de violência

  • A Consciência e o Romance (Consciousness and the Novel) – David Lodge, 22.04.2009.

‘Tal e qualia como um romance’

  • La Voix Perdue des Hommes – Yves Simon, 27.04.2009.

Regresso à deriva

  • As I Lay Dying – William Faulkner, 02.05.2009

E que todos os nossos ontens hajam iluminado aos tolos o caminho para a morte poeirenta

  • Before They Are Hanged (The First Law: Book Two) – Joe Abercrombie, 05.05.2009
  • The Last Argument of Kings (The First Law:Book Three) – Joe Abercrombie, 09.05.2009.

Nove dedos de ambivalência

  • A Maravilhosa Viagem de Nils HolgerssonAtravés da Suécia – Selma Lagerlöf, 14.05.2009

Saga?’

  • O Mandarim – Eça de Queirós, 15.05.2009.
  • Waiting for Godot – Samuel Beckett, 05.06.2009.

‘O hábito, esse grande mortificador’

  • As You Like It – William Shakespeare, 08.06.2009.

‘More, I prithee more’

  • Romeo and Juliet – William Shakespeare, 10.06.2009.
  • To Kill a Mockingbird – Harper Lee, 19.06.2009.

‘Um pássaro na mão e um negro a voar’

  • Stalingrad – Antony Beevor, 22.06.2009

Disquiet on the Eastern Front’

  • Mírgorod – Nikolai Gógol, 29.06.2009.

‘É triste viver neste mundo, meus senhores!’

  • A Ilustre Casa de Ramires – Eça de Queirós, 02.07.2009.
  • L’Inutile Beauté et Autres Nouvelles – Guy de Maupassant, 07.07.2009.

‘Da utilidade da beleza’

  • Contos – Volume I – Anton Tchékhov, 20.07.2009.

‘O homem é na verdade um génio’

  • The Rise and Fall of the House of Medici – Christopher Hibbert, 30.07.2009.
  • Promenades dans Rome – Stendhal, 8.08.2009.
  • Il Principe – Niccolò Machiavelli, 10.08.2009.
  • Le Vite de’ più Eccellenti Pittori, Scultori, e Architettori – Giorgio Vasari, 12.08.2009.
  • La Vita Nuova – Dante Alighieri, 15.08.2009.
  • A Travel’s Companion to Florence – Harold Acton, 19.08.2009.
  • The Last Medici – Harold Acton, 21.08.2009.
  • Giuliano Dami, Aiutante di camera del granduca Gian Gastone de’ Medici – Alberto Bruschi, 25.08.2009.
  • Gian Gastone (1671-1737) – Testimonianze e scoperte sull’ultimo Granduca de’ Medici – Monica Bietti, 28.08.2009.
  • The Stones of Florence and Venice Observed – Mary McCarthy, 1.09.2009.
  • The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman – Laurence Sterne, 12.09.2009.

‘Cavalheiros: o Senhor Trismegistus’

  • Le Regard d’Orphée – direcção de Bernardette Bricout, 17.09.2009.
  • Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres – Clarice Lispector, 06.10.2009.

‘Os alimentos terrestres’

  • The Man Who Was Thursday: A Nightmare – G.K. Chesterton, 10.10.2009.

‘Um pesadelo’

  • The Good Soldier Švejk – Jaroslav Hasek, 20.10.2009.
  • Compromisso – Theodor W. Adorno, 21.10.2009.
  • Arte de Amar – Ovídio, 22.10.2009.
  • Amores – Ovídio, 23.10.2009.

‘Da semântica venusiana’ 

  • La Vita Nuova – Dante Alighieri, 7.11.2009.
  • O Inspector – Nikolai Gógol, 15.11.2009.
  • Manhã Submersa – Vergílio Ferreira, 23.11.2009.
  • O Livro do Cortesão (Il libro del Cortegiano) – Baldessarre Castiglione, 7.11.2009.
  • Antígona – Sófocles, 15.12.2009.
  • O Mundo de Homero (Le monde d’Homère) – Pierre Vidal-Naquet, 16.12.2009.
  • The Tragedy of Hamlet, Prince of Denmark – William Shakespeare, 18.12.2009
  • Ilíada – Homero, 22.12.2009.
  • Odisseia – Homero, 25.12.2009.
  • Landmarks of World Literature: the Iliad – Michael S. Silk, 30.12.2009.
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