Category Archives: C.S. Lewis

Preconceitos malévolos

 

The prince of darkness is a gentleman!

King Lear

Acto III, Cena III 

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 9780060652937Castle-in-the-Forest-by-NorFaustus-tragedy

 

 

 

 

 

 

 A primeira imagem corresponde à edição Vintage de um livro escrito em 1824 por James Hogg, The Private Memoirs and Confessions of a Justified Sinner: Written by Himself. With a detail of curious traditionary facts and other evidence by the editorO título é deliciosamente longo e parodia – como outros no seu tempo já o haviam feito – as fórmulas com que os romances picarescos de aventurosas personagens eram normalmente encabeçados. Neste livro pode-se encontrar um dos mais antigos e bem sucedidos de uma narrador trapaceiro e pouco fiável, que se ocupa de uma história de perdição pecaminosa e de decorrências calvinistas.

A terceira imagem alude a The Monk, livro de Matthew Lewis de 1796, que para além de ter inaugurado a expressão “Oh bravo, Ambrósio! ” afincou decididamente o paradigma de um vilão clerical. Se concebermos um padre Amaro manifestamente mais violento e libidinoso – tramado pelo jugo de uma maquinação diabólica que o visa perder – ficaremos com uma ideia aproximada da escabrosa narrativa que corre num pacato convento de Espanha.

Os restantes livros ou são mais conhecidos ou já foram abordados neste blog (por exemplo, aqui). As imagens estão ali em cima devido a essa personagem mistério que é transversal a todas as narrativas e que podem tentar adivinhar (eu sei, é difícil). Do último livro, The Tragical History of Doctor Faustus de Christopher Marlowe, retiro um preconceito de que apropriei recentemente, e que contrasta a figura de Prospero, na Tempest de Shakespeare, com as deferências obrigacionais do Doktor Faustus. Num ensaio intitulado La Jeunesse des Mythes, Jean-Claude Carrière alinha os sinais gritantes de duas existências literárias (e mitológicas) cujas vidas se afastam quanto mais as narrativas avançam. No final desta Regressão – Progressão, o ex-Duque de Milão renuncia voluntariamente aos seus poderes enquanto o nosso Doktor vai mais longe que todos os homens para obter capacidades sobre-humanas. Prospero será nesse caso o anti-Fausto. Curioso, pois, considerar que uma é uma figura incontornável do nosso imaginário artístico e a outra permanece acantonada numa peça elizabetiana.

Disse há pouco que esta ideia configurava um preconceito porque na verdade é disso mesmo que se trata se a levarei para os Faustos ainda não lidos, bem como para os dois livros acima indicados. Como não poderei deixar de o fazer. Mais do que prefigurar a minha lacuna Goethiana (com “i” soa melhor, Fortie) esta frase clama a atenção pelo óbvio: nenhuma leitura sobrevive num espaço mental desembaraçado das suas irmãs precedentes. Quando chegar a Faust estarei a pensar em Prospero, e quando ler Hogg ficarei meditando sobre Wormwood e Screwtape. Desde o momento em que nascemos que deixamos de pensar por nós próprios.

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Tutores de fortuna e requinte

mailer-book190Por tudo o que escrevi sobre The Castle in The Forest, seria de esperar que o resultado desse exercício literário consubstanciasse uma explicação subjectiva – ainda que educada – dos caminhos de corrupção que o jovem Adolf Hitler tomou na sua infância, numa espécie de “explicação do monstro” aterradora e voyeurista que nos colocasse definitivamente numa confortável orla exterior de observação (havendo mesmo quem insista em criticá-lo quando nisso claudica). Mas no final da sua vida, Norman Mailer reserva-nos uma derradeira lição; a de que a natureza humana não pode ser explicada sem a inclusão auxiliar de forças invisíveis, que a nossa pobre e limitada subsistência então antropomorfizará sob a luz rectora do secularismo ou da religião.

No romance, estas influências externas tomam a forma de um agente do mal chamado Dieter, um diabo menor ao serviço do diabo maior que se encarrega da educação sentimental do nosso conhecido ditador nazi. Sim, diabos, o Demo em pessoa. É uma reviravolta inesperada, mas também uma cartada que surge muito cedo no livro (e que portanto não estraga a vida a ninguém – espero! – se for revelada de chofre como acabei de fazer). Mais tarde, Dieter assume a forma de um soldado das SS e tem de aturar as diatribes eugénicas de Himmler, pelo que é possível concluir que se comportou como um diabinho maroto e que provavelmente fez algo pelo caminho para merecer essa terrível despromoção e castigo.

Evidentemente, examinar a conduta humana sob a perspectiva das influências externas que anjos e demónios lançam sobre a sua alma não é tarefa nova. Só dentro do cânone ocidental, temos uma linha bem definida desde Baudelaire até aos tempos modernos, quando o tema adquire uma admirável sofisticação através de pelo menos duas obras imemoriais: o monumental Margarita e o Mestre, de Mikhail Bulgakov, e o inteligentíssimo The Screwtape Letters, de C.S. Lewis.

Confessemo-lo à partida; não podiam tratar-se de obras mais diferentes. Se me surgiu a ideia de contrastar as caracterizações teologico-transcendentais de Norman Mailer contra as de C.S. Lewis foi apenas porque a presença de anjos e demónios é uma ténue linha comum entre as duas narrativas.

screwtape51o-6kjiaol_ss500_Mas onde estão as minhas maneiras? Ainda não apresentei The Screwtape Letters. Este livro de 1942 consiste num conjunto de cartas dirigidas a um diabo-estagiário (Wormwood), por parte do seu tio Screwtape (um diabo-sócio com uma pensão brutal e regalias obscenas), escrito num registo de precisão magistral e por vezes gravemente hilariante. O popular livro conheceu uma pequena sequela em 1959, intitulada Screwtape Proposes A Toast. Ambos representam um triunfo da inteligência lúcida e observadora de Lewis.

Como o ponto de partida do inglês e do americano varia consideravelmente, não é de admirar que ambos guardem perspectivas quase inconciliáveis quanto à condição da alma humana e a sua porosidade às tentações da carne e do espírito. Se os agentes de Lewis trabalham por distorção e subtileza – nunca se manifestando, sussurrando eternamente – os diabos de Mailer obram continuamente mediante empurrões e safanões (chegando até a dar umas pauladas bem afinfadas naqueles Anjos metediços quando os apanham a jeito).

Em qualquer confronto directo, naturalmente que C.S. Lewis emerge como o escritor mais elegante e hábil. A atribulada vida do inglês e das centrífugas discussões, debates, regressões e revelações de fé que veio a suportar acrescem ao seu olhar límpido sobre as questões do cristianismo. Assim, por exemplo, Screwtape manifesta numa das suas cartas uma imensa alegria por constatar que um determinado humano está a afastar-se do cristianismo, reduzindo o seu culto regular a um vago e inócuo sentimento de religiosidade (de resto, como praticamente todos os cristãos modernos o fazem). Se não bastasse a sagacidade da observação, teríamos ainda o deleite de assistir a uma argumentação baseada em escritos de Coleridge! Isto, repito, só Lewis consegue fazer com naturalidade.

Norman Mailer é bastante mais violento, urdindo uma cosmogonia transcendental em que os poderes dos seus demónios impressionam quase tanto quanto as transgressões que estão autorizados a praticar. Dieter pode assumir formas humanas, controlar alguns pensamentos, manipular o mundo físico. Dieter consegue ainda criar sonhos e ideias, e introduzi-los na mente do petiz Adi Hitler. O conjunto destas moções prefigura o esbatimento dos limites do livre-arbítrio e um ataque cerrado à individualidade humana enquanto método elementar de corrupção demoníaca. Screwtape, pelo outro lado, gosta de exaltar a individualidade e com isso estimular o orgulho pessoal que exacerba o sentido de propriedade. Que é a propriedade privada senão a consequência final de um livre arbítrio desbragado; que será a expressão “meu Deus” se não uma deliciosa manifestação involuntária dessa propensão pecaminosa?

A sério, às vezes chega a ser irritante ler Screwtape, de tão brilhante que é em algumas observações.

The Castle in The Forest foi escrito devido à Segunda Guerra Mundial e à sua mais temível figura; The Screwtape Letters foi escrito durante esse mesmo período. Quer um quer outro previnem o leitor dos perigos da dilatação do ego humano: Mailer maneja com perícia essa tendência terrível e natural que é exercer poder sobre os seres que entendemos pensantes, ao passo que Lewis aflora a perigosidade de uma vida religiosa apenas na superfície, em que os maneirismos do culto e da “vida cristã” são assustadoramente deturpados e reordenados até se converterem numa verdadeira auto-estrada para o inferno (tinha de introduzir uma referência rockalheira, e Rolling Stones seria demasiado óbvio). Parafraseando Screwtape, é imprescindível que o pio homem genuflexado entre os fiéis esteja certo que o fulano ao seu lado é de algum modo menos digno, menos casto, menos religioso que ele. Com simplicidade e escassa presunção (o americano utiliza uma narrativa e um enredo admiráveis e autónomos, o inglês inscreve as suas ideias num registo cómico) eis dois livros que nos falam claramente da fragilidade dos nossos rumos e da importância de nunca cessarmos uma reflexão constante sobre as nossas fraquezas e a exploração

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De Chrétien de Troyes ao Pearl Poet; excurso sobre a personificação da moralidade e virtude na poesia arturiana

Onde quer que, entre sombras e dizeres,

Jazas, remoto, sente-te sonhado,

E ergue-te do fundo de não-seres

Para teu novo fado!

Vem, Galaaz com pátria, erguer de novo,

Mas já no auge da suprema prova,

A alma penitente do teu povo

À Eucaristia Nova.

Mestre da Paz, ergue teu gládio ungido,

Excalibur do Fim, em jeito tal

Que sua Luz ao mundo dividido

Revele o Santo Graal!

Fernando Pessoa, Mensagem (Terceiro / O Desejado)

Anteontem, dei por mim a reler despreocupadamente algumas estrofes da eterna Mensagem. Surdindo a referência ao cavaleiro acima enunciado, não foi preciso muito para que a minha mente pulasse para os férteis campos do mito arturiano e das personagens que habitualmente o populam.

Longe de ser um erudito na matéria, nunca me apareceu mais clara do que nesse momento a contraposição entre o registo romântico gaulês (no qual entroncam a maior parte das concepções hoje cultivadas acerca da Távola Redonda) e as origens épicas que o mito conhece em reinos Anglo-saxónicos.

Galahad, ou Galaaz, apresenta-se tradicionalmente com o recorte de um paladino de virtude. Obrando na grande demanda pelo santo Graal, Galahad é, nas correntes caudalosas da tradição romântica francesa, o primeiro dos cavaleiros da Távola, o contraponto virtuoso do adúltero Lancelot. Que não escapem despercebidos, pois, os contornos de Galaaz como um Franj, um templário de entre os cruzados, homem de combate cristão e de espada evangelizadora.

Percorrendo esta tradição, encontramos um outro cavaleiro, Sir Gawain, insistentemente reduzido ao papel de aventureiro. Trata-se de um folião de destreza bélica impressionante, mas mero protagonista de desventuras rocambolescas ou de cortesãs intrigas amorosas.

Dir-se-ia que as duas figuras em nada se assemelham, ou que frutificam a partir de intenções marcadamente díspares naquilo que respeita à encarnação da virtude e moralidade nos membros da corte do rei Artur (foram certamente destinados a ouvintes e leitores diferentes). A fim de prosseguir,torna-se necessário resenhar alguns elementos concretos da tradição literária medieval sobre este ponto.

Comecemos (ainda que não cronologicamente, como abaixo se verá) com Sir Gawain and the Green Knight, o magnífico poema do século XIV. Nesta obra de grande elegância e admirável complexidade temática, reside uma concepção diametralmente oposta do jovem cavaleiro Gawain. Aqui, em terras inglesas e por acção de uma pena inglesa (cuja identidade se perde, ainda hoje, na noite dos tempos, não obstante a troante erudição que prefigura), Gawain é o apogeu da virtude, portador do pentagrama, homem pio e casto que sofre as provações da honra e da compaixão com a rectidão moral do mais santo dos fiéis. Sobre os seus ombros defensores do cristianismo recai a pesada responsabilidade de se comportar como a fonte moral da virtude e bondade em tempos de paz. A Gawain é reservada a mais exigente das tarefas: conjugar a rectidão do cavaleiro com as exigências de um amor cortesão que ditava obediência absoluta aos desejos das damas. Este era um tema recorrente em ambientes de corte: consumada a inflexão cristã nos mores de todos os estratos sociais, o cavaleiro transforma-se numa entidade abstracta e periclitante, que em todos os momentos tem de saber como guerrear e como lidar com as damas da sua companhia que o queiram corromper e a quem jurou obediência completa.

O poema compreende a narração dos seguintes factos: interrompendo um rico banquete da corte do Rei Artur, um desconhecido e cadavérico Cavaleiro Verde desafia um dos ilustres presentes a desferir-lhe um golpe com um machado de guerra. Ele assevera que não se defenderá, mas na hipótese de o golpe não o matar então ser-lhe-á concedido a represália natural de responder ao ataque. Sentindo o incómodo que os tantalizantes desafios do misterioso Cavaleiro Verde lançava por entre os convivas, o jovem Gawain aceita o desafio. Empunhando a grande arma, toma balanço e decapita o Cavaleiro Verde.

O fantasmagórico Cavaleiro Verde (e com esta qualificação recupero um apontamento de C.S. Lewis que reclamava para esta figura espectral a condição de faerie), não é aniquilado pelo fabuloso e mui aplaudido golpe. Sobraçando a sua cabeça, dirige-se gelidamente a Gawain, anunciando-lhe que daí a um ano e um dia aguardaria a sua presença para lhe devolver a fatal estocada!

Já a bordejar o termo deste prazo, Gawain parte ao encontro do demoníaco verdugo, sabendo que vai morrer. A viagem deste condenado assume então os contornos de uma derradeira profissão de fé, em que o cavaleiro errante avança com segurança e serenidade. Nunca se esquece de rezar ou de frequentar a missa, quando possível, e dá graças a Deus por todas as horas em que lhe é permitido viver. Finalmente, avista o castelo de um tal Sir Bertilak, e como levava alguns dias de avanço acede em descansar na companhia dos seus cortesãos.

Na posse destes elementos, estamos agora em condições de regressar com aproveitamento àquilo que é a maior das provações de Gawain, e possivelmente o mais conflituoso dos dilemas internos em todo o mito arturiano. Naquele castelo, o vulnerável cavaleiro resiste castamente à intensa e implacável sedução com que a tenra esposa do seu anfitrião – afinal o próprio Cavaleiro Verde, nas vestes de Sir Bertilak – o atormenta todas as manhãs, enquanto o senhor do castelo e todos os seus cortesãos se ocupam em longínquas actividades de caça. Exaustiva, incansável, a senhora do castelo consegue que Gawain, sucumbindo à sua insustentável sensualidade, aceite como presente uma lasciva cinta durante a terceira manhã. O jovem cavaleiro, ciente da sua suma transgressão, oculta a oferenda dentro da sua armadura e nada diz ao anfitrião mesmo quando este lhe dá a entender que desconfia de algo.

Note-se que a criação arturiana clássica de raiz inglesa nunca sente a necessidade de erguer uma personagem como Galahad como o protagonista de grandes feitos majestosos e redentores. Para isso, já dispunha de Gawain. Ainda assim, Galahad, como abaixo veremos, transformou-se no paradigma social da virtude, e é desse modo que Fernando Pessoa o equipara ao nosso próprio e mui desejado D. Sebastião.

Compreender porque motivo a figura de Galahad foi erguida ao pináculo da pureza implica que analisemos o percurso literário de algumas outras personagens do mito arturiano. E grande parte da resposta reside na maneira como são representados Sir Gawain e Sir Lancelot.

A primeira referência ao adultério de Guinevere com Lancelot du Lac inscreve-se nas obras de Chrétien de Troyes. Lancelot, le Chevalier de la Charrette é escrito no final do século XII e contém grande parte dos temas que seriam desenvolvidos por uma miríade de autores ao longo dos séculos seguintes. Aqui, apenas cabe dar conta de Robert de Boron – outro francês –  que escreve, na viragem do século XII para XIII, sobre a demanda do Santo Graal e lhe confere irremediavelmente os contornos e sentidos cristãos que desde então nunca mais desapareceram.

O próximo marco literário é o da Vulgata, sob cujo nome veio a ser conhecido o ciclo de prosa arturiana do século XIII, tributário de extensa secção dedicada a Lancelot. Nela são retomados a maior parte dos temas que os dois autores acima referenciados ensaiaram, com renovada consistência e unificação estilística (os aditamentos aos escritos de Troyes – por parte de subsequentes autores – ascendem aos milhares de linhas). Por volta de 1230, surge o ciclo da Nova Vulgata, em que o adultério de Lancelot é atenuado e outros floreados se ajuntam. No final de todas estas obras, a moral é clara. Lancelot é o adúltero e o pecador; Galahad – seu filho – a semente luminosa da redenção.

Ora, Sir Gawain and the Green Knight data do século XIV. O poeta inglês escolheu arredar – embora decerto não ignorasse – todo o romantismo de Lancelot e da redenção cristão operada pelo seu filho para se focar outrossim numa personagem que a tradição francesa havia sistematicamente corrompido. Gawain é escudado de qualquer tendência pecaminosa: repare-se que o tema central do poema medieval é a fidelidade e a virtude, e Gawain, ainda que soçobrando aos encantos cortesãos, sai ileso na sua rectidão moral. A vitória de Gawain é, como se vê, a derrota literária de Lancelot, e o prenúncio da inutilidade de uma figura como Galahad nos quadros estritamente ingleses.

Acabei de dizer que Gawain sai ileso do conflito moral em que é colocado, mas isso não é inteiramente verdade. Pois se é certo que Gawain não ofendeu o matrimónio ou a castidade de qualquer personagem – e tão fácil teria sido, a um condenado à morte, possuir apaixonadamente a desejosa esposa de um marido distante! Mas aceitou um presente, cuja dádiva era um sinal claro de um adultério menor. Desiludido, Gawain regressa ileso à corte do Rei Artur. O Cavaleiro Verde não o executa, em razão da sua suma castidade, mas o jovem sente que pecou. Repare-se bem no que o poeta consegue fazer: para um leitor do poema – até mesmo um leitor do século XIV temente a Deus – Gawain não deixar de ser considerado um herói tremendo, um paladino irrepreensível da virtude cristã (ia utilizar a palavra “impecável”, mas não me perdoariam a tautologia). Somente o protagonista central do poema se sente desamparado, um perdedor indigno no seio de acolhedores amigos sem motivos para o regozijo com que exultam a sua chegada. O poema exige de Gawain uma virtude superior à alcançada no desfecho das suas desventuras e, de facto, o jovem cavaleiro é tão puro que nunca chega a ser suficientemente puro.

A visão francesa da corte arturiana, mais rica em intrigas e em personagens de colorações humanas, acabou por vingar como a mais popular. A título de exemplo, considere-se como grande série Prince Valiant, de Foster, entronca nesta visão, o que não impede que, aqui e acolá, surjam regressos mais classicistas, mesmo em boas obras de rotação comercial como as de Bernard Cornwell (onde Lancelot é um lâche deliciosamente odioso, e Gawain, numa viragem absolutamente irónica, tão virtuoso e pio que é sacrificado como um cordeirinho expiatório para alimentar os rituais druídicos de Nimue).

Regressando a registos mais acessíveis, gostava apenas de deixar uma nota sobre uma das mais interessantes demonstrações da derradiera consagração adúltera a que Lancelot foi sujeito. Graham Greene, no seu lindíssimo The End of the Affair, tem uma pequena passagem que alude não só ao episódio como à confusão que ainda persiste em algumas mentes. O diálogo é travado, a meio do século XX, entre Maurice Bendrix e Mr. Parkis, este último não mais do que um detective privado que o amante invejoso colocara no rasto de Sarah Miles. Bendrix, num registo que roça o cómico e termina numa desolação muito em linha com o resto do livro, faz notar a Parkis como se enganou quando deu o nome de Lance ao seu rapazinho.

‘I’ll say he’s feeling ill. We’ve come to the wrong address. They couldn’t help letting him sit down for a while.’

‘It’s in the boy’s capacity,’ Mr Parkis said with pride, ‘and nobody can resist Lance.’

‘He’s called Lance, is he?’

‘After Sir Lancelot, sir. Of the Round Table.’

‘I’m surprised. That was a rather unpleasant episode, surely.’

‘He found the Holy Grail,’ Mr Parkis said.

‘That was Galahad. Lancelot was found in bed with Guinevere.’ Why do we have this desire to tease the innocent? Is it envy? Mr Parkis said sadly, looking across at his boy as though he had betrayed him, ‘I hadn’t heard.’

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A audiência prossegue!

Under the same influence, those who come, or would come, nearer to a full humanity, actually draw back from it for fear of being undemocratic.

Screwtape in Screwtape Proposes a Toast – C.S. Lewis

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Os livros de 2009

Para referência pessoal, servirá a presente entrada para registar os livros cuja leitura vou concluindo, bem como os seus autores e os textos que, por determinada ocasião, venha a escrever sobre o assunto. As datas correspondem ao dia em que termino um livro. A lista não distingue entre leituras inéditas e releituras (mantendo-se todavia presente a subtil distinção avançada por Italo Calvino, em que um clássico seria, entre outras coisas, aquele de que ouvíriamos dizer “estou a reler”, em vez de “estou a ler”).

  • The Christmas Books – Charles Dickens, 05.01.2009.

On the first day of Christmas’

  • The Naked and the Dead – Norman Mailer, 11.01.2009.

Repères pour un monde sans pères

  • L’art et la manière d’aborder son chef de service pour lui demander une augmentation – Georges Perec, 13.01.2009.

Gincana Empresarial

  • The Castle in the Forest – Norman Mailer, 18.01.2009.

‘A abelha perdida de Norman Mailer’

  • A Praga de Kafka (Kafkas Prag) – Klaus Wagenbach, 22.01.2009.

Uma vida apenas

  • The Screwtape Letters – C.S. Lewis, 23.01.2009.

Tutores de fortuna e requinte

  • I, Claudius – Robert Graves, 11.02.2009

Um olhar bífido sobre Graves e Suetónio, ou o manual de instruções para o romance histórico

  • O Conde de Abranhos – Eça de Queirós, 16.02.2009.
  • Lord of the Flies – William Golding, 20.02.2009.

Diz-me como reages, e direi quem tu és

  • A Morte de Ivan Ilitch – Lev Tolstoi, 27.02.2009.

‘As muitas mortes de Ivan Ilitch’

  • Catch-22 – Joseph Heller, 05.03.2009.
  • O Aleph (El Aleph) – Jorge Luis Borges, 07.03.2009.
  • Ficções (Ficciones) – Jorge Luis Borges, 11.03.2009.
  • Cisnes Selvagens (Wild Swans) – Jung Chang, 16.03.2009.

O voo dos cisnes

  • História Universal da Infâmia (Historia Universal de la Infamia) – Jorge Luis Borges, 19.03.2009.
  • Laços de Família – Clarice Lispector, 22.03.2009.

O milagre de Clarice Lispector

  • História da Europa do Leste (Histoire de l’Europe de l’Est) – Jean-François Soulet, 23.03.2009

‘Atravessando a Cortina’

  • Noites na Granja ao Pé de Dikanka – Nikolai Gógol, 10.04.2009.

‘Vejam só o que deitou ao mundo um abelheiro qualquer!’

  • Um Dia na Vida de Ivan Denisovich – Alexandr Soljenitsin, 12.04.2009 .
  • The Blade Itself (The First Law: Book One) – Joe Abercrombie, 18.04.2009

Nove dedos de violência

  • A Consciência e o Romance (Consciousness and the Novel) – David Lodge, 22.04.2009.

‘Tal e qualia como um romance’

  • La Voix Perdue des Hommes – Yves Simon, 27.04.2009.

Regresso à deriva

  • As I Lay Dying – William Faulkner, 02.05.2009

E que todos os nossos ontens hajam iluminado aos tolos o caminho para a morte poeirenta

  • Before They Are Hanged (The First Law: Book Two) – Joe Abercrombie, 05.05.2009
  • The Last Argument of Kings (The First Law:Book Three) – Joe Abercrombie, 09.05.2009.

Nove dedos de ambivalência

  • A Maravilhosa Viagem de Nils HolgerssonAtravés da Suécia – Selma Lagerlöf, 14.05.2009

Saga?’

  • O Mandarim – Eça de Queirós, 15.05.2009.
  • Waiting for Godot – Samuel Beckett, 05.06.2009.

‘O hábito, esse grande mortificador’

  • As You Like It – William Shakespeare, 08.06.2009.

‘More, I prithee more’

  • Romeo and Juliet – William Shakespeare, 10.06.2009.
  • To Kill a Mockingbird – Harper Lee, 19.06.2009.

‘Um pássaro na mão e um negro a voar’

  • Stalingrad – Antony Beevor, 22.06.2009

Disquiet on the Eastern Front’

  • Mírgorod – Nikolai Gógol, 29.06.2009.

‘É triste viver neste mundo, meus senhores!’

  • A Ilustre Casa de Ramires – Eça de Queirós, 02.07.2009.
  • L’Inutile Beauté et Autres Nouvelles – Guy de Maupassant, 07.07.2009.

‘Da utilidade da beleza’

  • Contos – Volume I – Anton Tchékhov, 20.07.2009.

‘O homem é na verdade um génio’

  • The Rise and Fall of the House of Medici – Christopher Hibbert, 30.07.2009.
  • Promenades dans Rome – Stendhal, 8.08.2009.
  • Il Principe – Niccolò Machiavelli, 10.08.2009.
  • Le Vite de’ più Eccellenti Pittori, Scultori, e Architettori – Giorgio Vasari, 12.08.2009.
  • La Vita Nuova – Dante Alighieri, 15.08.2009.
  • A Travel’s Companion to Florence – Harold Acton, 19.08.2009.
  • The Last Medici – Harold Acton, 21.08.2009.
  • Giuliano Dami, Aiutante di camera del granduca Gian Gastone de’ Medici – Alberto Bruschi, 25.08.2009.
  • Gian Gastone (1671-1737) – Testimonianze e scoperte sull’ultimo Granduca de’ Medici – Monica Bietti, 28.08.2009.
  • The Stones of Florence and Venice Observed – Mary McCarthy, 1.09.2009.
  • The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman – Laurence Sterne, 12.09.2009.

‘Cavalheiros: o Senhor Trismegistus’

  • Le Regard d’Orphée – direcção de Bernardette Bricout, 17.09.2009.
  • Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres – Clarice Lispector, 06.10.2009.

‘Os alimentos terrestres’

  • The Man Who Was Thursday: A Nightmare – G.K. Chesterton, 10.10.2009.

‘Um pesadelo’

  • The Good Soldier Švejk – Jaroslav Hasek, 20.10.2009.
  • Compromisso – Theodor W. Adorno, 21.10.2009.
  • Arte de Amar – Ovídio, 22.10.2009.
  • Amores – Ovídio, 23.10.2009.

‘Da semântica venusiana’ 

  • La Vita Nuova – Dante Alighieri, 7.11.2009.
  • O Inspector – Nikolai Gógol, 15.11.2009.
  • Manhã Submersa – Vergílio Ferreira, 23.11.2009.
  • O Livro do Cortesão (Il libro del Cortegiano) – Baldessarre Castiglione, 7.11.2009.
  • Antígona – Sófocles, 15.12.2009.
  • O Mundo de Homero (Le monde d’Homère) – Pierre Vidal-Naquet, 16.12.2009.
  • The Tragedy of Hamlet, Prince of Denmark – William Shakespeare, 18.12.2009
  • Ilíada – Homero, 22.12.2009.
  • Odisseia – Homero, 25.12.2009.
  • Landmarks of World Literature: the Iliad – Michael S. Silk, 30.12.2009.
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