Category Archives: Baldassarre Castiglione

Cortigiani, vil razza dannata

De entre as muitas qualidades do Livro do Cortesão, é provável que admire a casualidade do seu estilo dialéctico acima de todas. Baldassarre Castiglione intentou escrever um manual de condutas e costumes acerca da natureza ideal de um cortesão – cujo objectivo nesta vida transiente seria certamente muito pouco apelativo se não tivesse este género de padrões a que obedecer – mas, pelo caminho, foi também pintando as peripécias mais quotidianas de uma corte renascentista italiana. Por esse motivo, Il Cortegiano tornou-se um importante documento histórico e uma obra única, ainda que fundada numa petição de princípio um tanto cómica, e sobretudo sem nunca se colocar a incontornável indagação: mas afinal para que serve um menir? – peço desculpa – um cortesão?

É  esse o elemento que, em última instância, permite distanciar o leitor do mundo vigente no Cortegiano. Irreais, imobilizadas nos anos dourados da corte de Urbino, vão desfilando as personagens pretéritas de duques, condes e condottieri variegados, todos participando nas amenas conversas que se misturam com o calor dos indolentes serões. Alegremente, trocam cincadas e gracejos, flutuando sobre qualquer tema indiscriminado que tenha porvido naturalmente à conversa do momento. Nada parece demasiado difícil, sobejamente arcano, ou excessivamente complexo para que estes senhores sobre ele parlapiem, e a ligeireza e elegância das suas opiniões assombra o leitor com a versatilidade destes cortesãos – bem como da sprezzatura que eles exibem.

Falemos um bocadinho desta sprezzatura, que é verdadeiramente um dos conceitos mais fascinantes que Castiglione poderia ter concebido. Sprezzatura denota a elegância e a facilidade, a qualidade de um gesto ou acção que faz com que ela pareça fácil ao seu autor e que, a despeito da sua acabada perfeição, não exerça sobre ele qualquer dispêndio significativo de esforço.  É um fingimento gracioso que pode elevar ou condenar um fidalgo, pois tanto o enaltece aos olhos dos restantes como o candidata ao desempenho de tarefas futuras que estão bem acima da sua capacidade real.

O próprio livro é um exemplo perfeito de sprezzatura: dir-se-ia que a sua feitura não consumiu qualquer esforço ao autor – a despeito de se encontrar repleto de passagens admiráveis e de um nível de prosa extraordinário. Isto porque Castiglione estruturou o livro como uma recolha de discursos directos, em diálogos de permanente petição -> contestação -> réplica -> tréplica -> hora-de-ir-para-a-cama. Quando na verdade, conforme se verificou acima, a amplitude dos temas abordados, o nível de discurso, a clareza de ideias e a força da linguagem constituem ornamentações que muito provavelmente nunca vicejaram nos lábios verídicos daqueles grandes cortigiani.

Mas não interessa. O que é necessário é acreditar que estas pessoas nunca existiram (apesar de ter sido o caso) e que por força do seu nascimento não passaram o resto da sua vida num idílio despreocupado a esgaramantear laustríbias (embora o tenham feito). Benefícios da nobreza, é certo (ou dos gentis-homens, numa expressão mais cara ao maravilhoso troar do som italiano), mas a realidade fáctica de onde provém foi precisamente aquilo que fez os séculos roubarem notoriedade ao Cortegiano. Pode-se dizer que Machiavelli escreveu sobre realidades políticas imutáveis, e que por isso merece ainda estudo atento nas arenas contemporâneas. Mas discordaria que Castiglione não tenha escrito sobre tão imorredoiros assuntos. O seu único problema foi ter construído as suas reflexões na base subjectiva de uma corte ducal, fragmentando por várias personagens as suas considerações (possivelmente numa lógica mais próxima da dialéctica descomprometedora do que da heteronomia). Desaparecidos esses tempos complacentes, torna-se um pouco repulsivo ler as divagações de uma tal manada anódina: Il Cortegiano torna-se assim uma revêrie fantasiosa, cheia de grandes ideias e observações geniais, mas um produto de outros tempos.

E com isto, encerro o ciclo itálico. Longas leituras inglesas me aguardam.

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Ainda sobre o antigo valor

A propósito de Petrarca e do antiquo valor” nos corações italianos, destaco uma das conversas que Castiglione inscreveu no seu Il Cortegiano. Ao que parece, nem em amena cavaqueira se esqueciam os nobres que a civilização itálica da renascença tinha pretensões de superioridade sobre as suas raízes latinas. Até a exegese de autores clássicos reflectia essa condição mais altiva, como se pode depreender do seguinte trecho:

Então sire Bernardo e todos os outros começaram novamente a insistir para que continuasse, e o Magnífico disse a rir: «Quereis experimentar-me. Todos vós sois muito sabedores das coisas de amor; mas se tendes vontade de saber mais, ide ler Ovídio.» Sire Bernardo disse: «E como poderia eu esperar que os seus preceitos sejam válidos no amor, quando aconselha como um excelente meio que o homem, na presença da mulher amada, finja estar embriagado (vede que boa maneira de obter favores!) e quando, estando num banquete, afirma que uma boa maneira de fazer compreender a uma dama que se está enamorado, é mergulhar o dedo no vinho e escrevê-lo sobre a mesa?» O Magnífico respondeu a rir: «Naquele tempo não era uma falta.» Sire Bernardo disse: «Mas uma vez que uma coisa tão sórdida não desagradava aos homens desse tempo, é de crer que não tivessem maneiras de demonstrar o amor às damas tão corteses como as nossas; mas não abandonemos o nosso propósito inicial, que era ensinar a manter o amor secreto.» (Livro III, LXXII)

Sumariamente: os nobres não hesitam em considerar a época romana “sórdida“, um tempo pretérito em que a maior grosseria maior “não era uma falta“. Há aqui muito por onde pegar, desde a qualificação orgíaca dos tempos de Ovídio (convenhamos que o carácter dissoluto de certos círculos sociais romanos está bem documentado) até à afirmação de um novo conceito de amor (o que novamente nos remeteria para toda a evolução cortesã desde os trovadores).

Para complementar tudo isto, só me restou ir à procura das passagens mencionadas por Sire Bernardo, que penso estarem repartidas pelos Amores e pela Arte de Amar (socorro-me das traduções de Carlos Ascenso André, na Cotovia). A primeira referência que consegui recuperar encontra-se nos Amores (Livro II, V):

Eu mesmo vi, triste de mim, quando julgavas que eu dormia,
a vossa traição; apesar do vinho que fora servido, eu estava sóbrio;
muitas coisas vos vi dizer, com trejeitos das sobrancelhas;
nos vossos acenos havia muita conversa;
não se calaram os teus olhos, palavras foram escritas com vinho
no tampo da mesa, e, nos teus dedos, não deixava de haver algumas letras;
bem reconheci que vossas falas diziam o que não parecia
e que o valor das palavras dependia de um código combinado.

Os Amores são mais enciclopédicos na destilação das vicissitudes do amor do que a Arte de Amar, e é por isso que este poema assume um tinir quase lamurioso, ocasionalmente roçando a tristeza do poeta traído (ou rejeitado). A sua amada, pelos vistos, seguira o conselho da escrita avinhada sobre o tampo da mesa, e o seu conteúdo cifrado deve ter feito subir a mostarda ao nariz de Ovídio (que, ao contrário do de Cleópatra, não devia ser muito bonito).

Os conselhos propriamente ditos podem ser encontrados na Arte de Amar (Livro I, a partir do verso 567):

Aí, muitos segredos poderás dizer, com palavras disfarçadas,
que ela há-de sentir serem-lhe ditos a si,
e escrever palavras de ternura com um pouco de vinho,
para que na mesa ela possa ler que é a tua senhora
e contemplar os olhos com os olhos que denunciam a chama;
muitas vezes, no silêncio, possui o rosto voz e palavras.

Ora cá está. O poeta recomenda a escrita de que os senhores da corte de Urbino tanto zombaram. Daqui se retira que Ovídio ensinou este truque a toda a gente e depois a sua senhora seguiu as suas instruções à risca. Infelizmente para Ovídio, fê-lo com outrem, conforme rezam os Amores, o que muito o terá incomodado. Grande lição latina: manter a boca fechada.

Quanto aos benefícios de uma embriaguez simulada, o poeta ensina, algumas linhas mais abaixo:

Se tens voz, canta; se tens braços elegantes, dança,
e com qualquer arte com que sejas capaz de encantar, encanta;
faz a tua língua murmurar, titubeante, sons balbuciados,
por forma a que o que fizeres ou disseres, mais desbragado que o
normal,
seja tido na conta de vinho a mais;
e exclama: “Ventura a esta dama; ventura a quem com ela dorme!
Mas desventura”, pragueja para os teus botões, “ao seu marido!”

Sem prejuízo do latim original, não se acham referências à obtenção de favores por meio dos prazeres de Baco (vale a pena notar que o Livro do Cortesão contém um grande número de citações indirectas que julgo serem apócrifas). Mas logo se vê que as danças romanas deveriam ser uma linda xaropada se o requisito principal para uma boa performance era a sprezzatura de braços. As pernas, é certo, deviam estar bem deitadinhas nos canapés, ou então debaixo da mesa onde se acotovelavam os sétimos e oitavos pratos. Interrogo-me se era a isto que Adriano se referia quando Yourcenar nele colocou a transitória atracção pela dança, mas parece-me que os cortesãos italianos levam a palma nas lides de salão e que Petrarca estava absolutamente correcto no que versejou.

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Gentilíssimo

Uma amostra do Livro do Cortesão (Il Cortegiano):

Também com uma metáfora, sire Camillo Porcaro elogiou elegantemente o senhor Marc’Antonio Colonna. Este, tendo ouvido dizer que sire Camillo, num discurso, tinha celebrado alguns senhores italianos famosos nas armas e, entre outras coisas, que tinha feito uma menção muito honrosa dele, depois de lhe ter agradecido, disse-lhe: «Sire Camillo, haveis feito com os vossos amigos o que certos mercadores fazem por vezes com o seu dinheiro quando encontram algum ducado falso; para se livrarem dele, metem-no entre um monte de bons e assim o fazem passar; do mesmo modo, vós, para me honrardes, embora eu pouco valha haveis-me posto na companhia de tão virtuosos e excelentes senhores que, graças ao seu mérito, talvez eu passe por bom.»

Então Sire Camillo respondeu: «Aqueles que falsificam os ducados têm o hábito de os dourar tão bem que, à vista, parecem melhores do que os bons; é por isso que se encontrássemos alquimistas de homens como encontramos ducados, poderíamos com razão suspeitar que fossem falsos, dado que sois de metal muito mais belo e brilhante do que todos os outros.»

Baldassarre Castiglione

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