— Oh, mas é Anton Tchékhov! Por favor, meu amigo, sente-se um pouco. Está de saída?
— Não sabia que frequentava este restaurante, António. Faço-lhe companhia durante alguns minutos.
— E a família, Anton?
— Está tudo bem, muito obrigado. E os seus?
— Todos de óptima saúde, Deus os tenha. Mas sabe… na verdade eu tinha um favor a pedir-lhe. Compreendo que não nos conhecemos há muito tempo, e que portanto pode ser um pouco ousado da minha parte avançar com semelhante pedido. Mas ainda assim…
— Não tenha receio, António. Em que posso ajudá-lo?
— Acabei de ler alguns dos seus Contos e tenho um pedido. Empreste-me um pouco do seu humanismo.
— Perdão? Do meu humanismo? Explique-se, por favor.
— Ou do seu olhar. Tenho dificuldades em decidir-me, Anton. Mas você consegue escrever sobre cinzeiros e potros, sobre jovens apaixonados ou militares reformados, e extrair de tudo isso uma lição bela e simples, tão quente e brilhante!
— Lições? Meu caro, peço-lhe que não vá tão longe. Não é minha intenção doutrinar os meus leitores. E de resto, como saberá, eu escrevo por prazer e por profissão, a par dos meus deveres médicos. A literatura, como certamente já percebeu, é a minha amante.
— Claro, Anton Tchékhov, as minhas desculpas pela fraqueza de expressão. Nem quis insinuar que escreve os seus contos armado de um propósito programático. Sabe Deus que temos muito disso após a Revolução.
— Não lhe falta razão. Tem lume?
— Mas evidentemente, Anton, queira fazer o favor. Mas olhe que insisto na minha admiração. Quando termino os seus contos, fico muito pensativo, muito impressionado, é como se para cada situação houvesse algo que nos falasse ao íntimo, sem explicar ou organizar. Você fala das pessoas, descreve-as. Nunca pensara nisto, mas você vê coisas que escapam ao meu olhar. E ao olhar dos outros.
— Já há muita tragédia nas vidas simples sobre as quais escrevo. Não é preciso de inventar artíficios ou trabalhar sobre os signos simbólicos do sofrimento ou do amor. Basta olhar para as pessoas e perceber que existe sofrimento e amor em cada um dos seus gestos.
— Tem razão, e é por isso mesmo que os seus contos nunca chegam a ser tristes ou melancólicos. Você tem mesmo um dom admirável. Nunca subjuga os leitores.
— É muito gentil.
— Mas ainda assim, é preciso saber olhar, Anton. E eu não sei fazê-lo senão através das suas palavras.
— Estimo em ouvi-lo. Agora peço desculpa, mas estou atrasado para uma consulta e a casa do paciente ainda fica a cinco verstás daqui.
— Mas evidentemente, Anton Tchékhov, não se prenda por minha causa. Posso dar-lhe boleia, se desejar.
— Obrigado, mas tenho a minha caleche lá fora. Continuaremos esta conversa um dia, meu caro. Ainda tenho coisas a mostrar-lhe.
— Muito obrigado, Anton. Não duvido disso.