Category Archives: Leituras

De Vita Gallinacia

I

Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã.

Parecia calma. Desde sábado encolhera-se num canto da cozinha. Não olhava para ninguém, ninguém olhava para ela. Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio.

Foi pois uma surpresa quando a viram abrir as asas de curto vôo, inchar o peito e, em dois ou três lances, alcançar a murada do terraço.

Clarice Lispector, Laços de Família (“A Galinha”)

II

Ao chegar da escola, dei com a novidade: uma galinha no quintal (…) toda folgada, ciscando na caixa de areia. Havia sido comprada por minha mãe para o almoço de domingo: Dr. Junqueira ia almoçar em casa e ela resolveu fazer galinha ao molho pardo.

Eu já tinha visto a Alzira matar galinha, uma coisa horrível. Agarrava a coitada pelo pescoço, agachava, apertava o corpo dela entre os joelhos, torcia com a mão esquerda a cabecinha assim para um lado, e com a direita, zapt! passava o facão afiado, abrindo um talho no gogó.

(…) Como se fosse a coisa mais natural deste mundo, a Alzira me contou o que ia acontecer com a nova galinha.

Revoltado, resolvi salvá-la.

(…) Era uma galinha branca e gorda, que não me deu muito trabalho para pegar. Foi só correr atrás dela um pouco, ficou logo cansada. Agachou-se no canto do muro, me olhou de lado como as galinhas olham e se deixou apanhar. (…)

— O seu nome é Fernanda — falei então. E joguei um pouquinho de água na cabecinha dela:  — Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amén.

Fernando Sabino, O menino no espelho (“Galinha ao molho pardo”)

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Imprensa de Março – I

Deixo aqui a recensão dos principais conteúdos do Magazine Littéraire de Março de 2009, edição que surge em capa com o destaque de dois grandes dossiers: um sobre André Gide (que seria motivo bastante para adquirir a revista), e outro sobre a definição e legado da literatura mexicana. Os temas podem parecer disconexos, para não dizer dissonantes, mas os LMLmotivos circunstanciais justificam a eclética selecção de cahiers: por um lado, celebra-se o cententário da Nouvelle Revue Française, autêntico báculo literário que Gide ajudou a fundar. Por outro, decorreu a 17 de Março o Salon du Livre em Paris, com um certo número de escritores mexicanos convidados a participar. Antes de me debruçar sobre os dois dossiers principais, deixo uma lista desenvolvida de outros artigos que me aguçaram o interesse.

  • Gros-plan sobre Magda Szaló, escritora húngara – ao que parece de considerado renome – que me era desconhecida. Apesar de o artigo não conseguir presentear o leitor ignorante com uma panorâmica essencial do conteúdo da sua obra, oferece todavia algumas linhas seguras de estilo que me interessaram. Numa semana em que continuei a adquirir obras magyares (coroadas por uma interessante Antologia da Poesia Húngara), este nome é certamente de investigar.
  • Como também sucede na edição deste mês da Lire, há um artigo sobre Klaus Mann, por ocasião da saída de uma colecção de ensaios intitulada Contre la Barbarie (1925 a 1948). Como se trata do neto de Heinrich Mann e filho de Thomas Mann, a primeira parte do artigo não deixa de evocar discretamente a opressão que tão distinta linhagem pode exercer (a despeito das muitas provas de Klaus Mann, desde A travers le vaste monde ou Le tournant – para utilizar os títulos franceses). Imagine-se só, ser um um escritor filho de Thomas Mann! No caso em apreço, o terceiro Mann arrisca-se sobretudo a ficar para a posteridade como um pensador político lúcido, dos poucos admiráveis que souberam renegar o social-nacionalismo sem resvalar para o estalinismo. Esta colecção de teses – nem todas inéditas – pode muito bem ser uma duradoira demonstração de uma inteligente voz desagregada, que soube manter a sua integridade num momento histórico excepcionalmente conturbado.
  • O pensamento de Michel Foucault ardeu intensamente até ao fim. Do ano da sua morte chega-nos agora a edição da derradeira aula no Collège de France: Le Courage de la verité – Le Gouvernement de soi et des autres II – Cours au Collège de France, 1984. A aliturgia, a forma pela qual a vontade se manifesta, ocupa as dissertações desta publicação que em muito breve terei de adqurir. É fundamental, defende Foucault, compreender pelo menos a importância da conversa-franca e renunciar ao modelo tripartido de divulgação do conhecimento. Se a parèsia encontrava expoente icónoco no discurso unívoco de universal de Sócrates, é no mínimo preemente a necessidade de identificarmos as modalidades estanques que veiculam o conhecimento actual. Abre-se o grande constraste de registos, desde o discurso científico das formas, o discurso político das estruturas ou o discurso moral prescritivo de imperativos de conduta (mas já não mais categóricos, curiosamente). Decididamente a ler.
  • Uma pequena coluna crítica deixa-me com vontade de ler Nullipare, um pequeno romance de Jane Sautière, em que uma prosa contemporânea versa sobre os assuntos de uma actualidade obcecada com o imperativo da descendência, ao mesmo tempo que o espaço de liberdade individual e feminino é crescentemente exacerbado. Sem mais elementos que esta pequena nota crítica, interrogo-me se este é um livro capaz de explorar, ainda que ao de leve, a convergência o estigma social de uma existência sem filhos e o desgosto – não inteiramente lógico, porquanto biológico – de enfrentar os anos vindouros sem a aparência de uma vida que se prolonga para além da carne.
  • Nova edição Pléiade das Obras Completas de Arthur Rimbaud, porque nunca é demais revisitar a chama efémera mas intemporal que animou a curta vida deste vulto literário.
  • Uma perturbadora investigação sobre a subsistência financeira dos muitos escritores franceses. Sobre este ponto, dedicarei algumas linhas autónomas quando tiver algum tempo.

Bom, regressando agora aos destaques do mês, vejamos então o que se diz dos mexicanos. Não estando no meu ambiente natural (caso ainda não tenham reparado, sou mais francófono do que devoto seguidor da literatura latino-americana) acabei percorrendo esta secção com uma certa frieza. Sinto uma certa vergonha por não me envergonhar da ignorância dos grandes nomes de que o dossier dá conta. De todo o modo, encontra-se um conjunto de artigos merecedores de atenção, abordando traçando o percurso literário do México desde o desembarque de Cortez, através da Revolução Mexicana (belo artigo de Fabrizio Mejía Madrid) até ao final do século XX e o nascimento de uma nova consciência social na literatura e nos estilos poéticos. Para quem esteja familiarizado com Octavio Paz, Carlos Fuentes, Paco Ignacio Taibo II, Álvaro Uribe, Sergio Pitol ou Fabion Morábito, esta é uma leitura recomendada.

Adiante. Ou zurück,  pois do que verdadeiramente aqui se trata é de André Gide, esse mais moderno de todos os clássicos (as vezes os subtítulos das revistas são tão doces que sabem bem repeti-los com um ar grave). Da sua influência dizia-se que era demasiado grande para poder ser confortavelmente partilhada numa França embevecida com Proust. E porque não? A fundação da Nouvelle Revue Française em 1908 iniciou uma época de ouro cujos ecos ainda nos chegam através da casa Gallimard.

Claro que apelidar de moderno um escritor que viveu e trabalhou há mais de um século requer alguma explicação. No caso de Gide, não há nenhuma que se possa oferecer categoricamente. Ele é apenas uma daquelas figuras que escreve tanto sobre o seu tempo como sobre o nosso. Fez algo que poucos outros conseguiram: viveu o que escrevia, viveu como escrevia, e escrevia o que vivia. Os percursos deste homem são indissociáveis das suas palavras. Viajante do  século XX, em 1936 elegiava Gorki na Praça Vermelha, numa das incursões ao Bloco do Leste; correspondeu-se com Sartre, ombreou com Valéry e Gallimard. Foi admirado e admirador de Joyce.

Educado nos quadros classicistas, Gide depressa conheceu a sensibilidade do simbolismo. Contudo, seria na criação de uma linguagem própria em que o francês de destacaria, nesse registo que hoje nos fere de assombro e que nunca desistiu de cultivar as antinomias naturais da existência humana. O Magazin Littéraire não se demora na análise das suas obras, preferindo acompanhar elementos biográficos e sociais da sua vida. É pena, mas material de leitura sobre André Gide não é propriamente um bem precioso e rarefeito. No final, temos apenas que seguir os seus próprios conselhos, na mesma voz em que exorta Nathaniël a deitar fora o seu livro, a se interessar pela maneira de ver e não pelo objecto em revista. Emancipa-te. Deixa-me. Mas antes de o deitares fora, lê-o.

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Uma vida apenas

Kafkas Prag: o carinhoso retrato de uma cidade através dos passos errantes de uma das suas muitas criancinhas. Neste livro, Klaus Wagenbach não faz intenções de explorar o conteúdo de uma figura humana que veio a influenciar, de uma forma ou outra, uma assombrosa parte da literatura contemporânea. Mais do que um puro guia de viagens ou de uma gélida biografia, este livro desempenha ambos os papéis com uma perícia e competência superiores a muitas publicações que se dedicam exclusivamente a um ou a outro destes temas.

Após a sua leitura, reparo que não é improvável que uma pessoa se sinta estranhamente próxima de toda esta gente cujas apressadas e por vezes abruptas vidas acabou de ler. Isto porque o autor realiza admiravelmente a tarefa de desfiar as vidas dissonantes de alemães, checos e judeus, de funcionários públicos, comerciantes e operários, de doutores em direito e escritores em tertúlia, e daqui resulta uma sensação de familiaridade calorosa. Imprecisa e irreal, claro, mas sempre honesta na sua empatia humana.

Ficamos a saber que peças de teatro se encontravam em cena, ou que música se admirava durante esses anos. E encontramos a dolorosa surpresa de encontrar belas mentes literárias debatendo nomes e temas hoje tão esquecidos que só um curioso estudioso – um raivoso estudioso – saberia identificar de antemão. Nomes, pessoas, ideias superiores a todos nós e que o tempo cobriu de areia com o menor dos esforços.

No final, perdura a convicção de que uma cidade, uma fascinante e irredutível velha cidade europeia, não se conhece senão a partir das gentis almas que a habitam. Kafka, neste livro, não é Kafka o escritor, ou Kafka o génio, ou Kafka o Kafkiano, mas apenas um habitante mais, um ser comum cujas sensibilidades especiais entreabrem uma janela privilegiada à observação da urbe. Tal como tantas outras pessoas, Kafka mantém diários e troca correspondência com amigos. Queixa-se do barulho dos vizinhos, ou recorda brigas entre checos e alemães, crianças e adultos. Fala sobre o burburinho do mercado na Praça Velha e refere a escola de natação do Vitava. Lamuria-se quanto às horas de trabalho, fala dos seus exerícios de ginástica, e confessa que adora passear por algumas zonas e jardins da cidade.

Há algo de muito comovente em ler e sentir, em termos tão claros, as sombras e o ressoar dos passos de figuras de ontem e de sempre, e saber que sobre as lajes duras e entre os muros de uma cidade também nós podemos viver em breve continuidade. As suas vidas foram tão fugazes como serão as nossas, e até a cidade, senhora de uma imutabilidade relativa, um dia desaparecerá. Na confluência desta erosão temporal, no cerne destas avassaladoras forças da natureza humana, é ainda possível atrasar o esquecimento e retardar o vazio da existência, para no seio da mudança encontrar uma vida, um fôlego, uma crepitante centelha de génio e de luz.

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Gincana empresarial

Há alguns anos, discutia com um primo o valor relativo da série de comédia britânica The Office, elogiando a sua marca indelével de humor e exaltando-a perante a ainda limitada congénere ianque.

É claro que não o fiz por estas palavras. O facto de eu sentir a necessidade de o anunciar expressamente também não me favorece particularmente…

Mas adiante. No decurso da conversa, dei-me conta que havíamos experimentado o seu valor cómico de forma diferente. Se eu me rira com o constrangimento abstracto de situações de que todo o ser humano podia socialmente comungar, ele encontrara hilariedade ácida no retrato perspicaz de situações laborais familiares. Nessa altura, eu não passava de um despreocupado estudante, enquanto que ele era já um trabalhador que passara por vários escritórios. Em termos de simples vivência, é fantástico o que cinco anos podem representar (e assustador como em tão curto espaço de tempo duas vidas diametralmente opostas se aproximam fatalmente).

Algumas das mudas peripécias que desfilavam pelo écran já não eram, para ele, simples pantonímias de comédia, ou engenhosos instrumentos de sátira sócio-laboral, mas outrossim representações de amargas realidades, aqui e acolá testemunhadas em primeira ou segunda mão.

Por isso é que me alegro de apenas agora ter encontrado o livro L‘art et la manière d’aborder son chef de service pour lui demander une augmentation. Há alguns meses atrás, o meu contentamento restringir-se-ia à lógica irreverante de Georges Perec. Hoje, aprendiz de feiticeiro jurídico integrado nos “différents services dont l’ensemble constitue tout ou partie de l’organisation qui [m’] emploie“, encontro traços de humor próximo na descrição breve dos maneirismos empresariais que rodeiam a minha vida. Deste modo, desenrola-se, perante o meu divertido olhar, a total amplitude deste pequeno guia imprático que a pena rebelde de Georges Perec fixou para nosso deleite pessoal.

Descendo às particularidades, tenha-se presente o título do livro, exposto com tamanha clareza literal que o objectivo da obra não poderia surdir mais clara. Trata-se de pedir um aumento ao patrão. E, a fim de evitar quaisquer percalços, é também fornecido ao aspirante de remunerações estratosféricas um organigrama de uso indispensável.

Nada de mais transparente, nada de mais inacessível. Pois após reflectir sobre o assunto, após ganhar coragem e dirigir-se ao gabinete do patrão, duas coisas podem acontecer. O chefe pode estar lá dentro, ou pode não estar lá dentro. Não se encontrando no interior, haverá que fazer tempo. Falar com a secretária, fazer uma ronda pelos diversos serviços cujo conjunto constitui a totalidade ou parte da organização que o emprega, ou até, vencidos alguns condicionalismos, regressar acabrunhados ao nosso gabinete, se o tivermos. Esta é a primeira bifurcação, a partir da qual o processo pelo qual o pobre empregado aspira a um mísero aumento surge cada vez mais complicado, variável, improvável.

Neste cômputo entram considerações tão estapafúrdias quanto inegavelmente relevantes, como sejam o género de almoço que o chefe ingeriu (é preciso saber se foi carne ou peixe, e se foi peixe se foi arenque, e se não foi nenhum dos dois se foram ovos, e se sendo ovos os ovos estavam podres, ou se não sendo nada disto se estamos no período de Quaresma), o dia da semana, o facto de alguma das suas filhas ter sido acometida pela rubéola (o patrão tem sempre filhas, e há que perguntar pelas quatro, que podem ter sucumbido ou padecer dos sintomas que o ano de 1966 celebrizou em termos infames na sociedade francesa), os sinais gestuais do patrão, o conteúdo da proposta que lhe fará (porque se for uma pergunta T-4 haverá que errar de secção em secção até não achar uma resposta), enfim, uma miríade de elementos variáveis que se conjugam indefinidamente e que se erguem contra as melhores esperanças do pobre empregado.

O registo é corrido, sem pontos ou vírgulas ou interrupções, como se toda esta odisseia empresarial fosse empresa para um único fôlego apenas. Impagavelmente lógico, Perec descreve e satiriza dezenas de comportamentos e maneirismos que, ainda que de forma atenuada, agora presencio no meu ambiente de trabalho.

O cerne da intangibilidade lógica e circular dos pensamentos de Georges Perec não é tão abstracto quanto poderia resultar à vista desarmada. Observo que, em jeito de brincadeira, frequentemente reproduzia raciocínios similares durante a minha infância, inconscientemente próximos do bloqueio identificado por Perec. É claro que, como ser racional, rapidamente passava por cima dos contratempos. De resto, se planificava as coisas desta forma era por uma simples questão de gozo. A impossibilidade de vencer uma etapa não implicava a rígida imobilização da empresa. Em “L’art et la manière…” o fundamento cómico reside na obstinada persistência lógica a que o empregado tem de obedecer. Pode assalariado, incapaz de franquear as barreiras estanques do acesso ao chefe: bater à sua porta, aguardar por um sinal de confirmação, realizar a travessia pelas diferentes ramificações e departamentos, e finalmente pelas infindáveis ramificações de um diálogo seco e que jamais corre a seu favor.

O segundo pode ser observado em “The Curious Incident of the Dog in the Night-time “, em que Mark Haddon demonstra a parelha de limitações e riqueza de um mundo absorvido pela percepção de um protagonista autista. Teimosamente lógico, o pequeno rapazinho é incapaz de transpor algumas barreiras mentais que saltamos com facilidade. Pequenos estímulos sensoriais assumem as proporções avassaladoras de um tufão imparável (a descrição da ida e vinda das carruagens de metro numa estação londrina é um exemplos que se poderia apontar). Nesta narrativa, uma das dimensões é a conjugação simultânea de tarefas complementares, naquilo que pode resultar num bloqueio mútuo quando nenhuma das presentes actividades e conseguem realizar sem um sinal da outra.

É o mesmo artifício de “L’art et la manière…“, mas aqui invertido:  o registo cómico que tanto nos diverte adquire, para alguns, as proporções de um impedimento cognitivo crónico. Que dizer, pois, de um mundo empresarial, acrílico e compartimentado, que segue estas mesmas regras?

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A dimensão oculta

No final do seu estudo ímpar, a Dimensão Oculta, o antropologista Edward T. Hall elabora a conclusão que prefigurou cada uma das suas linhas. A cultura, explica então, é um dado tão humano que chega a ser um dado animal. Antecede e enforma o ser humano e, ainda que possa ser momentaneamente consciencializada, para sempre actuará fora do alcance das nossas rédeas deterministas. Nada mais importante justificará a atenção que se deve conferir à maneira como o ser humano perspectiva e interage com o seu mundo.

Neste estudo, a dimensão em apreço é o espaço, a cujo estudo se dá o nome aproximado e tenteante de proxemics.

Há um rigor evidente na forma como Hall se aproxima deste tema, uma abordagem a que já me desacostumara neste género de estudos. Lidamos aqui com uma publicação de primeira água, alicerçada em sólidas referências empíricas. Lista-se, descreve-se, e acima de tudo explica-se o sentido e a importância de experiências e observações levados a cabo em diferentes espécies animais (focando sempre a alternatividade de comportamentos perante a alteração de um único elemento: o espaço). Ressalta uma espantosa similitude com a maneira humana de ver as coisas e sentir a realidade, mas Hall não traça, como é evidente, paralelismos grosseiros e atabalhoados. Bastará dizer que, tanto para humanos e para animais, as distâncias de segurança, de intimidade e de perigo, circunferências espaciais de dimensão variável, podem ser medidas com uma assustadora precisão.

O livro é fértil em considerações sobre a maneira humana de encarar o espaço. Hall explora cada um dos cinco sentidos e a forma como são  utilizados como instrumentos de relação perante o espaço que nos circunda. O registo é, por vezes em simultâneo, científico e desarmantemente simples. Ao  traçar uma incursão pelos desenvolvimentos artísticos e históricos dos últimos séculos Hall revela toda a sua perspicácia. Qual foi a primeira referência literária à importância do espaço? Que fez Van Cogh que foi tão extraordinário tendo em conta o funcionamento biológico da retina humana?

Chegamos depois aos estrondosos capítulos sobre o valor que atribuímos ao espaço, apontando-se como esta percepção varia de povo para povo, entre culturas ou idades. Um trabalhador num escritório achará o seu cubículo espaçoso se conseguir, por exemplo, esticar as pernas, ou se, ao recostar-se no seu cadeirão empresarial, não bater com as costas ou os ombros na parede. De facto, o seu espaço de trabalho pode nunca deixar de ser um miserável cubículo de proporções encravadas, mas a percepção que ele fará do seu espaço entretanto alterou-se drasticamente com base em alguns centímetros ou na disposição de uma mesa. Uma dona de casa odiará a cozinha em que labuta se não conseguir alcançar todas as prateleiras ou se, por exemplo, o corredor de passagem não permitir o cruzamento de duas pessoas.

Em países árabes, o espaço entre as pessoas é um dado imediato e importante no relacionamento humano. Em todas as suas facetas: o contacto visual tem outro sentido, respirar para cima das pessoas não é tido como grosseria, e a privação de espaço doméstico e de paisagem é vista como um castigo severo. Do mesmo modo, o espaço público pertence a todos, e por todos deve ser conquistado. O incómodo que um ocidental possa experimentar ao ter alguém sentado muito próximo dele pode ser livremente explorado por um árabe que pretenda ocupar o seu lugar.

Há exemplos mais simples. Um alemão trabalha com a porta fechada, um americano com a porta aberta. Para o primeiro, é uma questão de sossego e privacidade. Para o segundo, porta fechada é sentido como uma amputação de um espaço partilhado, e portanto uma falta de educação. Hall lista com habilidade alguns exemplos de discórdia célebres que se começaram a registar em sucursais de empresas americanas instaladas na Alemanha, e em que trabalhadores de ambas as nacionalidades coexistiam não muito pacificamente por causa do “simples problema das portas”. Como fazer com que os alemães das nossas sucursais trabalhem de porta aberta, era a pergunta muitas vezes repetida perante cultores americanos de corporate governance.

De igual modo, entrar no estabelecimento comercial de um alemão é, já de si, uma intrusão no seu espaço. Pelo que será de bom tom dirigir-lhe uma saudação ou cumprimento. Aprendi isto na pele muito antes de ler este livro, que finalmente me explicou o fenómeno. Nas horas moribundas de um começo de tarde em Viena, não longe da WestBanhoff onde os meus amigos terminavam de arrumar as malas em fortes cacifos antes de invadirmos o Schönbrun, entrei numa pequena pastelaria para me aproveitar de algumas iguarias. Havíamos zarpado de Budapeste a horas insanas e era necessário improvisar uma refeição. O estabelecimento era pequeno e familiar, e no seu interior encontravam-se um ou dois clientes prestes a serem aviados.

Entrei sem nada dizer. De facto, tenho por hábito – e estou certo que esse será o costume da maior parte dos lusitanos – apenas dirigir uma saudação ao dono do estabelecimento no momento preciso do aviamento. Foi o que sucedeu; cumprimentei cordialmente a senhora apenas quando chegou a minha vez. Por essa altura, as suas feições já se encontravam duramente antipáticas e inimigas. A despeito da minha conversa ligeira, serviu-me o mais brevemente possível e seguiu, sorridente, para o cliente seguinte.

O cliente seguinte era um transeunte normalíssimo. Mas tinha entrado alguns momentos depois de mim e imediatamente dirigido um ‘ßGott! à pasteleira. Já relativamente às bancadas de rua, não havia um geschaftraum propriamente dito, um espaço imputável ao dono da bancada. Por esse motivo, podiam formar-se filas para comprar um wienerschnietzel – numa situação em tudo semelhante à configuração da clientela na pastelaria – sem que fosse necessário dirigir um cumprimento ao dono.

Começo a perder-me em parágrafos descritivos, o que é sinal que não tenho nada a acrescentar ao conteúdo do livro. Normalmente consideraria essa falha uma lacuna da minha capacidade crítica, mas creio que, em algumas instâncias como esta, isso se deve antes ao primoroso valor deste estudo. Dou-me agora conta da banalidade e irredutível inutilidade das palavras que aqui deixo, e que no limite constituem um grave desfavor às ideias deste autor. Mas este livro modificou a minha maneira de encarar o mundo em algumas vertentes e, como experiência visceral que a percepção do espaço é, afigura-se para além das minhas capacidades dar a conhecer a amplitude dos meus pensamentos sobre a matéria.

Os Estados falhados de Chomsky

Conclusão da leitura de um recente livro do persuasivo Noam Chomsky, cuja reputação de intelectual e activista político encontra poucos paralelos no Ocidente. Com toda a sinceridade, e no que diz respeito à sua vertente de comentador, não me posso considerar um devoto leitor dos seus comentários políticos. Simplesmente, e embora acompanhe de tempos em tempos as suas severas críticas à política externa dos Estados Unidos, nunca separei um pouco de tempo para me familiarizar com algumas das suas ideias correntes, exceptuando uns breves encontros com as suas teorias de geração gramatical. Aí, os nossos congéneres brasileiros utilizam indistintamente as expressões gramática ‘gerativa’ ou ‘generativa’, locuções correctas, suponho, mas enfadonhamente anglicizadas.

Failed States: The Abuse of Power and the Assault on Democracy pode ser resumido como uma certeira rajada de metralhadora em que o eminente crítico, apoiado numa bibliografia e documentação tão extensa e rigorosa que chega a ameaçar o ritmo e fluidez da sua escrita, desfere rudes e troantes golpes contra a política externa do governo americano durante as últimas décadas. Ainda como nota preliminar, noto como os académicos de filiação anglo-saxónica parecem nutrir um estranhíssimo ódio a qualquer manifestação de  notas de rodapé, preferindo empurrar qualquer indicação bibliográfica ou a menor das citações para as secções finais das suas obras. Ao fim de duzentas páginas, uma pessoa farta-se de equilibrar e conjugar dois marcadores. De uma forma ou outra, o estudo encontra-se impecavelmente fundamentado. A força do seu trabalho reside sobretudo na conjugação da miríade de factores geo-políticos com o tema abordado. Esta depuração permite-nos ignorar algumas das suas interjeições ou conclusões prévias que espaçam os parágrafos mais expositivos, e que desde os anos sessenta têm sido progressivamente identificadas com posições de acentuada esquerda. Diriam os nossos amigos americanos, liberais.

Não duvido que o conteúdo do livro surja cansado e repetido aos que acompanham o teórico desde as mais tenras datas. Todavia, é difícil argumentar contra a certeira salva de pessimistas observações que aqui se desenrola. Quase ouso considerar alguns destes capítulos, ou pelo menos algumas secções agrupadas de uma obra que ainda não conheço, como elementos fulcrais para a compreensão da história contemporânea. Por mais falhas que se queiram apontar à verve ácida de Chomsky, a verdade é que a sua pesquisa desvenda com frequência planos alternativos e perspectivas diferenciadas que o primeiro olhar não revela.

Especialmente caro à minha consideração é o tema do défice democrático interno. Chomsky demonstra, a cada turno, que a opinião pública, que é crescentemente mais fácil de auscultar, encontra-se cada vez em maior desacordo com a public policy de um governo que a contraria em aspectos tão essenciais como a segurança social, os sistemas de saúde, a educação, a segurança interna. Em todo o mundo parece um dado assente – ao mesmo tempo que se proclama o fausto brilho de democracia que praticamos – que os políticos que elegemos num dia são velhacos trapaceiros no seguinte, com quem afinal já não podemos contar. Só um homem da nossa era não acharia isto absurdamente extraordinário. É frequente escutar diatribes mediáticas que honram os nossos antepassados pela conquista do direito ao voto e pela vitória sobre as hordas bárbaras que repudiaram a democracia, mas poucos se atrevem a retirar as devidas consequências do estado de coisas actual. O que vale um voto, o que vale uma opinião?

Talvez nem seja essa a verdadeira questão. Verdadeiramente preocupante é a instrumentalização do pristino ideal democrático à prosecução de interesses que largamente ultrapassam a vontade do corpo eleitor.

Algumas notas soltas mais. Outro tema aflorado acaba por ser a legimitização de um elevado número de actos por parte da administração. O que equivale a dizer, desculpabilização. Há que rever a ideia que temos da Vox Populi. Assiste-se a um desinteresse completo por promessas eleitorais ou planos de reforma. O político mente. Toda a gente o sabe, ninguém deve ser apanhado desprevenido por esta realidade e, assim, ela torna-se aceitável. Isto leva ao abrandamento da criação de uma estrutura judicial que fiscalize e puna as infracções dos órgãos de soberania, cada vez mais arrumadas com primor em campos que não chegam a ser considerados ilegais, ilícitos, inadmissíveis, ou muito simplesmente indecorosos. O hábito da mentira faz de todos nós monges devotos.

Segunda nota: a formação de núcleos sócio-políticos distintos e opostos, numa estrutura tripartida em que a Administração, o eleitorado e os interesses económicos, medem as suas forças numa arena em que os media participam e se inserem, dependendo da sua origem ou financiamento, num dos grupos acima referidos. Não há acesso à Verdade. Filosoficamente, a verdade é cada vez mais uma questão de ponto de vista.

Terceira nota: o esvaziamento do conteúdo democrático. O voto desacredita-se, a opinião pública crê-se impotente e insignificante. Quando isto sucede – Chomsky é especialmente hábil neste ponto – assiste-se a um empolamento sem precedentes dos valores democráticos nos nossos países, com a consequente cruzada política que insiste em empurrá-los pelas goelas abaixo dos povos menos civilizados.

Nenhum livro deste autor ficaria completo sem uma referência a Israel e aos dilemas do Médio Oriente. Desmascara-se, por exemplo, o teatro televiso da retirada da faixa de Gaza. Recordo-me muito bem das imagens que, num verão despreocupado, bombardearam os nossos écrans, explorando ao máximo a miséria de um povo que, na sua terra, era forçado a exilar-se uma centena de metros para casas modernas, com jardins servidos por modernos serviços de irrigação e urbanizações funcionais criadas de raiz. A presente leitura torna ainda mais difícil não sentir a minha inteligência insultada.

Adoptando uma posição intermédia, Chomsky desfere novamente duras críticas ao radicalismo sionista, citando o conteúdo de alguns assustadores acórdãos do Supremo Tribunal de Israel. Há que conceder razão num ponto: um tribunal que julga a morte de uma esposa como uma dado favorável ao marido – porque este passou a ter menos encargos financeiros com a sua subsistência – e que portanto não há lugar a qualquer indemnização por dano-morte ou por danos morais, é um órgão jurisdicional que, para além de não poder ser tomado a sério, acaba de emitir um atentado ao mais básico sentido de moralidade humana. Muito francamente, esta linha de jurisprudência é mais chocante que a célebre decisão da Coutada do Macho Ibérico – sem, infelizmente, não ser tão divertida, sobretudo para um Estado que exige ser reconhecido como uma construção moderna e civilizada de direito.

Como se vê, este livro de intervenção não é propriamente neutro, quer na sua carga valorativa quer no conjunto de assuntos que aborda. É, todavia, uma abordagem à política externa norte-americana que provoca intensa reflexão e que deverá constituir um ponto de apoio sólido a qualquer pensamento organizado que se faça sobre o papel da democracia no mundo contemporâneo.

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Percurso pela abstracção de uma etimologia: a euforia e o ser.

A hora é tardia e os meus afazeres acumulam-se, mas nem todas as obrigações deste mundo conseguem extinguir a minha curiosidade e o meu interesse pelos limites do meu mundo, no dizer de Wittgenstein: a linguagem.

E agora, a euforia. Todos nós sentimos que a conhecemos, que a conseguimos definir e que a sua sensação nos é tão familiar quanto os surtos de alegria que vivemos de tempos a tempos. E nem estaremos errados, pois a palavra assume um significado preciso e corrente nos nossos dias. Mais do que sedimentado, o seu alcance tem sido construído por alegorias e sucessões de eras de pensamentos.

Visitemos a etimologia clássica por um momento, εὐφορία em grego.  εὐ significa algo de bom. Um bem, um valor, uma sensação de bem. φορία refere-se, e aqui começa o fascínio, significa levar, carregar, transportar.

Euforia é o estado daquele que transporta o bem, mas um bem que existe dentro do próprio ser, num equilíbrio maravilhoso entre o indivíduo e o mundo exterior. Não chega a afirmar-se como uma condição de êxtase, que é uma existência completamente exterior ao ser. Aí, deparamo-nos com o mundo e a sua imensidão que ameaçam as fronteiras do ser e com a conquista de fora para dentro. Aquele que está extasiado não existe verdadeiramente; foi tomado por uma realidade avassaladora que confundiu as suas fronteiras e o roubou de limites.

É por esta ocasião que me deparo com os textos de Michel Tournier.

Não será este autor a derradeira referência etimológica para a compreensão da euforia? Tournier utiliza o conto de São Cristóvão e a sua travessia com Cristo como ponto de partida das suas reflexões. Vale a pena recordar esta pequena história, que começa muito antes de um menino pedir a um gigante que o ajude a atravessar o rio. Cristóvão fá-lo, mas depressa se apercebe de que a cada passada se afunda, que o menino pesa-lhe como o mundo. Teme pela sua vida, julga vacilar, mas transporta o rapaz até à outra margem, salvo e enxuto. “Pesaste-me tanto que eu julguei ter o peso do mundo nas minhas costas“, revela o gigante. “Não te surpreendas, Cristóvão, não tiveste apenas o peso do mundo nas tuas costas, mas o peso daquele que tomou sobre si todos os pecados do mundo, pois eu sou Cristo, teu rei”.

Cristóvão, prossegue Tournier, leva às costas algo de bom. Ele é um phorien para um εὐ. Ele transporta a alegria. Ele é euforia.

Il est donc un Euphore, e todavia ele tanto transporta como comporta, tanto serve como encerra. É aqui que o recurso ao texto original francês se revela mais útil, pois não há como igualar a poesia do contraste entre porter e emporter, entre servir e enserrer. Perante este confronto de palavras finalmente percebemos. Aquele que transporta a foria comporta também em si essa alegria. Aquele que se dedica a servir a alegria acaba por encerrá-la também, com todos os contornos e linhas da sua felicidade.

Justamente, esta ideia de alegria transportada e encerrada a partir de grande esforço, quasi penitência (faltou pouco para que o nobre Réprobo praticamente vacilasse e perecesse no rio sem nome) desapareceu por completo. Aqui termina a exposição de Tournier e se inicia a evolução da História.

Actualmente, a euforia não surge associada a uma provação ou qualquer dificuldade, antes aparecendo inequivocamente associada a uma sensação geral de bem estar leve e estonteante. A fronteira clássica entre o eufórico e o extasiado encontra-se enlameada, extinta, e isto já vem sucedendo desde há alguns séculos. O processo ter-se-á iniciado na noite dos tempos, algures na Idade Média, ou mesmo em tempos que a antecederam. Decisivo é o triunfo do Cristianismo no mundo ocidental e herdeiro de uma cultura helénica. Então, o homem deixa de ser o Homem da era de Adriano, o ser humano que Flaubert colocava depois da morte do paganismo e antes da era de Cristo. Cito a sua frase, que grande fascínio já exerceu sobre mim e outras almas superiores no passado. ‘Les dieux n’étant plus, et le Christ n’étant pas encore, il y a eu, de Cicéron à Marc Aurèle, un moment unique où l’homme seul a été.’

Pois bem, este Homem, esta ideia de um ser que existe em si e para si, morre com o Cristianismo ao mesmo tempo que se convola numa passividade perante uma divindade. Quando finalmente surgem os primeiros arautos do Calvinismo a evolução já se encontrava inteiramente consumada: o homem já tinha o seu destino traçado desde o momento do seu nascimento, e toda a alegria que alguma vez pudesse vir a transportar não seria ganha pelo seu esforço ou suor, mas antes porque assim se entendia o propósito divino.

Nem os tempos recentes, tão repletos de conhecimento, puseram cobro à confusão. Encontramos ainda a subversão patente em termos médicos. A euforia como um estado de emoções desmesurado ou desconcertado para com a realidade que o rodeia, uma elevação do ser a píncaros de alegria que usualmente não são normais.

Todos estes pensamentos soltos não terminam aqui. Sem dúvida, poderia explorar outras ideias que me ocorreram durante o tempo que tomei a me familiarizar com este tema. Talvez amanhã regresse a Tournier e à sua impressiva construção da euforia como o momento que precede a morte, num plano finito da existência (se o nascimento é a violência da inserção na vida e na mortalidade, a morte é o seu mais perfeito contrário; a euforia é o estado natural daquele que se distancia do seu momento de origem e se aproxima do final dos seus dias).

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Leitura para a semana do armistício

A noção de que a memória previne a reincidência do erro e das irreflexões sempre foi fulcral nos contextos do pós-guerra e nunca tardou a ser assinalada até pelos primeiríssimos historiadores helénicos. Se há um tema comum em todas as magníficas paradas que, todos os anos a 11 de Novembro, ainda se fazem no Reino Unido e com especial fulgor em Londres, é um tema de honra e de memória. Prestar homenagem aos que lutaram pelo nosso mundo de hoje, e recordar-nos, não deixar o passado cair em profundo e letárgico esquecimento.

Para a minha geração, um perigo adicional. As duas Guerras Mundiais surgem demasiado longínquas, tanto mais que a minha pátria nem participou activamente na segunda. Como compreender as motivações do início do século, o horror de uma guerra subitamente prolongada, as cicatrizes irreparáveis de Versailles, a subida ao poder de um partido nacionalista, e depois, a segunda e terrível parte da guerra?

Ainda me recordo quando, durante o secundário, me pediram para realizar uma apresentação sobre a Primeira Guerra Mundial. E lá comecei eu a escrevinhar com base em datas, factos, intervenientes. Depois, tive a sorte de ver um documentário, uma secção do Século do Povo dedicada a este confronto. Não era um registo particularmente bem feito, mas nem a mais desleixada das realizações conseguiria mascarar a intensidade e a tragédia de alguns dos seus episódios. Em particular um, o de Verdun.

Ils ne passeront pas. Trezentos mil combatentes também não passaram.

Foi aqui que, pela primeira vez, me senti grato. Grato por todos os que vieram antes de mim, grato por viver em paz. Profundamente agradecido e mesmo assustado com a ideia de que, noventa anos antes, pessoas mais jovens do que eu tinham deixado tudo para ir morrer nos campos de batalha varridos por metralhadores e bombardeamentos.

Verdun, Somme, Gallipoli. Barbarossa, Dnieper, a ofensiva Brusilov ou a batalha de Kursk. Stalingrad!

Com isto chego ao tema a que aludi no título. Esbarrei com um curioso livro, The World at War: The Landmark Oral History from the Previously Unpublished Archives. Para os mais atentos, trata-se de um registo documental e de um conjunto de testemunhos dos participantes na monumental e célebre série de documentários com o mesmo nome, mas desta feita sobre a Segunda Grande Guerra. Há coisa de um ou dois anos, o Jornal Público prestou um admirável serviço ao disponibilizar a série completa ao longo de algumas semanas, um gesto tanto mais apreciado tendo em conta a então relativa raridade da publicação.

Narrada por Sir Laurence Olivier, The World at War é uma série documental complexa, minuciosa. Detalha as operações militares, e depois demora-se na vida das populações em guerra. Descreve os cenários de batalha, e de seguida aborda a desoladora atrocidade do vazio. Um cuidado fascinante é apontado aos primórdios do conflitos, os primeiros passos, a batalha diplomática, o Apaziguamento. O moderno espectador vibra perante o heroísmo da RAF, a batalha táctica do astuto Rommel contra Montgomery no deserto, a entrada das forças americanas no conflito, as matilhas de U-Boats, a resistência japonesa. Pouco depois, por vezes ao mesmo tempo, chega o horror e a repulsa. As imagens são vivas. Respeitosas, mas violentas. A brutalidade é inacreditável mesmo nesta época de banalidades.

Em suma, é um trabalho que gostaria de recomendar se conhecesse alguém que o apreciasse. A alguns, faria recordar. A outros, ensinaria. Conto agora com a leitura complementar deste livro, que desde logo se afirma interessante por ser um registo ipsis verbis de muitos testemunhos que me recordo ver na série. Conta igualmente com alguns materiais adicionais, de publicação inédita.

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Sobre as Cruzadas

Leitura preliminar das Cruzadas vistas pelos Árabes, Amin Malouf. Primeiros capítulos. Obra que começa vorazmente a merecer a qualificação de fascinante.

Um relato de considerável solidez factual e colorido histórico, duas características que não se querem necessariamente inimigas numa obra deste género.

De um lado, uma aliança de fervorosos Franj e Basileus imperialistas, minada posteriormente por um Papado encorajador e intriguista. Do outro, um colosso de pés de barro, exércitos incontáveis de muçulmanos fiéis a diferentes princípes, cada um com os seus interesses, maquinações e querelas internas. No plano de fundo, os cismas internos do Islão.

E é certamente uuma perspectiva diferente. Esquecemo-nos de como éramos bárbaros nesta altura. Ignoramos a superioridade cultural dos àrabes de então, que tal como todos os impérios do Homem encontraram enfraquecimento e desorientação do alto dos seus séculos pacíficos. A minha educação histórica já tinha sido completa ao ponto de desmistificar estes paladinos santificados da fé cristã que protagonizaram os palcos sangrentos desde Bizâncio a Egipto, mas continua a ser muito proveitoso aceder às impressões dos conquistados.

De sobejo interesse é igualmente o capítulo final, dedicado a algumas conclusões histórico-culturais que, sem querer desbravar inacessíveis caminhos através de considerações fáceis e redutores, consegue todavia delinear as grandes questões que ainda hoje se nos suscitam. Que papel tiveram as Cruzadas na fundação da inimizade entre o Ocidente e o Oriente? Foram estas o ponto de ruptura de uma sociedade que mergulharia, em tantos pontos, numa profunda decadência de séculos vindouros? Teriam sido a sua causa?

Há, sem dúvida, material profícuo a reflexão neste livro.

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