Category Archives: Leituras

Acordar com Deus e Marx na mesa de cabeceira

At the same moment as structuralism bracketed off the real object, it bracketted off the human subject. Indeed it is this double movement which defines the structuralist project. The work neither refers to an object, nor is the expression of an individual subject; both of these are blocked out, and what is left hanging in the air between them is a system of rules. This system has its own independent life, and will not stoop to the beck and call of individual intentions. To say that structuralism has a problem with the individual subject is to put it mildly: that subject was effectively liquidated, reduced to the function of an impersonal structure. To put it another way: the new subject was really the system itself, which seemed equipped with all the attributes (autonomy, self correction, unity and so on) of the traditional individual. Structuralism is ‘anti-humanist’, which means not that its devotees rob children of their sweets but that they reject the myth that meaning begins and ends in the individual’s ‘experience’. For the humanist tradition, meaning is something that I create, or that we create together; but how could we create meaning unless the rules which govern it were already there? However far we push, however much we hunt for the origin of meaning, we will always find a structure already in place. This structure could not have been simply the result of speech, for how were we able to speak coherently in the first place without it? We could never discover the ‘first sign’ from which it all began, because, as Saussure makes clear, one sign pressupposes another from which it differs, and that another. If language was ever ‘born’, Lévi-Strauss speculates, it must have been born ‘at a stroke’. Roman Jakobson’s communicative model, the reader will remember, starts from an addresser who is the source of the transmitted message; but where did this addresser come from? To be able to transmit a message at all, he or she must already be caught up in and constituted by language. In the beginning was the Word.

Terry Eagleton

Literary Theory: An Introduction (Structuralism and Semiotics)

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Máscula lisonja

The absurdity of this male flattery reached its peak in the public academic art of the nineteenth century.

Men of state, of business, discussed under paintings like this. When one of them felt he had been outwitted, he looked up for consolation. What he saw reminded him that he was a man.

John Berger, Ways of Seeing

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Schadenfreude

A inoperância de um prazer tão culposo como a Schadenfreude torna-se desagradavelmente óbvia quando estamos a falar de um poeta como William “Topaz” McGonagall (1825-1902). Este homem,  escocês nascido em Dundee, veraz amante de alta cultura e admirável auto-didacta considerando o meio em que nasceu, é hoje tido como o pior poeta que a língua inglesa já conheceu. Em vida, foi ridicularizado e enxovalhado por todos os que entraram em contacto com a sua obra ou as suas entusiásticas declamações. Em morte, adquiriu um estatuto de peça curiosa, de ave rara, ou de simples curiosidade domingueira que, nos triclínios de uma poltrona chuvosa, arranca sonoras gargalhadas à divertida alma que folheia um dos seus livros.

Quase apetece dizer que há limites — ou pelo menos balizas — para a prática da chacota e o saudável exercício da crueldade. Afinal de contas, é importante recordar, seus bois, que vocês são seres humanos. Peço desculpa, estou a citar Jaroslav Hašek. O que eu quero dizer é que a crueldade só tem piada quando o objecto do nosso veneno é vulnerável às vituperiosas investivadas. Agora quando as nossas melhores invectivas resvalam na couraça da indiferença o praticante da chacota fica com a impressão de estar a ser realmente insensível e javardo. É a esta conspurcação moral que tão frequentemente se acoplam as convicções do género “eu vou parar ao inferno por causa disto“.

Esquematicamente, a coisa processa-se assim:

  1. -> Sabemos que rir de X é errado;
  2. -> Queremos rir a todo o custo;
  3. -> Recordamos que rir de X está errado;
  4. -> Rimos animalescamente;
  5. -> Depois acendemos um cigarro;
  6. -> Começamos a sentirmo-nos mal;
  7. -> Tentamos esquecer que afinal estivémos a tomar prazer na antecipação do nosso desconforto futuro (naquilo que é uma modalidade extremamente masoquista e reflexa de Schadenfreude).

É que estamos a falar de um homem que era abertamente gozado pelos “publicants” das tavernas de Dundee. Que foi recusado pela Rainha e julgou estar recebendo uma menção honrosa. Em suma, e inacreditavelmente, num “Poet and Tragedian” que nunca deixou de acreditar em si próprio e que sempre conseguiu arranjar justificações para o facto de o mundo não gostar dele, o que acarta duas consequências muito importantes para a filosofia contemporânea: (i) gozar com ele torna-se menos divertido, e até bastante porco, a partir do momento em que percebemos que ele estava a falar a sério; e (ii) da próxima vez que alguém vos disser que “o importante é acreditarem em vocês próprios“, façam uma cara séria e recitem o seguinte poema, essa magnum opus do Topázio MacGonagall, sobre a mítica ponte férrea sobre o rio Tay:

“The Railway Bridge of the Silvery Tay”

BEAUTIFUL Railway Bridge of the Silvery Tay !
With your numerous arches and pillars in so grand array
And your central girders, which seem to the eye
To be almost towering to the sky.
The greatest wonder of the day,
And a great beautification to the River Tay,
Most beautiful to be seen,
Near by Dundee and the Magdalen Green.

Beautiful Railway Bridge of the Silvery Tay !
That has caused the Emperor of Brazil to leave
His home far away, incognito in his dress,
And view thee ere he passed along en route to Inverness.

Beautiful Railway Bridge of the Silvery Tay !
The longest of the present day
That has ever crossed o’er a tidal river stream,
Most gigantic to be seen,
Near by Dundee and the Magdalen Green.

Beautiful Railway Bridge of the Silvery Tay !
Which will cause great rejoicing on the opening day
And hundreds of people will come from far away,
Also the Queen, most gorgeous to be seen,
Near by Dundee and the Magdalen Green.

Beautiful Railway Bridge of the Silvery Tay !
And prosperity to Provost Cox, who has given
Thirty thousand pounds and upwards away
In helping to erect the Bridge of the Tay,
Most handsome to be seen,
Near by Dundee and the Magdalen Green.

Beautiful Railway Bridge of the Silvery Tay !
I hope that God will protect all passengers
By night and by day,
And that no accident will befall them while crossing
The Bridge of the Silvery Tay,
For that would be most awful to be seen
Near by Dundee and the Magdalen Green.

Beautiful Railway Bridge of the Silvery Tay !
And prosperity to Messrs Bouche and Grothe,
The famous engineers of the present day,
Who have succeeded in erecting the Railway
Bridge of the Silvery Tay,
Which stands unequalled to be seen
Near by Dundee and the Magdalen Green.

Lindo! Bravo, Topázio! Que Whitman das Escócias! Que elegia à complexidade inoxidável da engenharia moderna!

Só é pena que a Ponte Sobre o Rio Tay tenha caído alguns dias mais tarde:

Beautiful Railway Bridge of the Silv’ry Tay!
Alas! I am very sorry to say
That ninety lives have been taken away
On the last Sabbath day of 1879,
Which will be remember’d for a very long time.

E parecia estar a ir tão bem…

Não sei o que é mais cómico: se as rimas, se o facto da ponte ter mesmo caído. Se calhar deveria estar zangado com McGonagall, visto que a sua poesia é tão má que transmogrificou a morte de algumas pobres dezenas de almas numa belíssima ampola de humor negro. E há muito humor no facto do poema estar escrito num tom irresistivelmente factual, com a pronúncia nivelada de uma notícia financeira, em tudo não muito diferente do tipificado “we interrupt this program to bring you a special announcement: the Railway Bridge over the River Tay has just collapsed. More on this at 9. We now resume our regular programing“.

Mas esperem. A dada altura, a população de Dundee, superando o seu luto e acreditando na inexorabilidade benigna do progresso ferroviário, foi enfim agraciada com uma segunda ponte sobre o Tay, uma sóbria ponte contra cujos alicerces se empurravam memórias tristes e pressentimentos ominosos, e sob cujos arcos esmorecia o caudal negregado das vítimas inglórias.

Esta seria realmente uma bela oportunidade para meditar sobre a fragilidade da construção humana. Quantos perigos e flagelos da fé inquebrantável na modernidade!

Mas que faz o nosso poeta? Sem a menor hesitação ou lealdade, depois de dois poemas sobre o mesmo assunto, desata a elogiar a nova ponte sobre o Tay!

“An Address to the New Tay Bridge”

BEAUTIFUL new railway bridge of the Silvery Tay,
With your strong brick piers and buttresses in so grand array,
And your thirteen central girders, which seem to my eye
Strong enough all windy storms to defy.
And as I gaze upon thee my heart feels gay,
Because thou are the greatest railway bridge of the present day,
And can be seen for miles away
From North, South, East or West of the Tay
On a beautiful and clear sunshiny day,
And ought to make the hearts of the “Mars” boys feel gay,
Because thine equal nowhere can be seen,
Only near by Dundee and the bonnie Magdalen Green.

Impecável. Não me admire que algumas vozes maioritárias já consideram que McGonagall obrou afinal com propósitos satiristas. Felizmente, acho que estão mesmo errados.

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Teoria da teoria

 

If literary theory presses its own implications too far, then it has argued iself out of existence.

This… is the best possible thing for it to do.

Terry Eagleton

 

Liberta de leões proletários, desonerada de labirínticas considerações pedagógicas, este é um grande, um enorme livro de introdução à “Teoria” [Literária], cujo aturado mérito não é erodido pela inclusão de algumas rúbricas de pertinência mais duvidosa (como o sejam os “estudos” gays & lésbicos ou o “Presentismo“). Sem dúvida, estamos perante uma das exposições mais claras e apaixonantes deste género, com o bónus inesperado de Peter Barry, não se contentando com a produção deste pequeno milagre, vir ainda dar provas de perceber o que raio Derrida andou a escrever durante estes anos todos (ou pelo menos conferir-lhe o benefício da dúvida).

Beginning Theory: An Introduction to Literary and Cultural Theory já vai na terceira edição e ainda ninguém explicou ao editor que esta capa é indutora de vómitos. Mas não sejamos tão descrentes nas meta-narrativas modernas e abracemos, durante alguns momentos, a candura caótica do liberalismo humanista para apreciar a clareza do seu conteúdo.  Barry oferece uma visão cronológica e integrada da Teoria, fornecendo elementos históricos e apontamentos de algumas das conferências mais importantes da história académica recente. Fala-se, e explica-se, as sessões de Lacan, ou a polémica que uma asseveração de Braudillard lançou sobre o hiperrealismo. Contextualiza-se como é que uma afirmação de Habermas na década de oitenta provocou a célebre teorização de Lyotard sobre o que era o pós-modernismo. A fluidez e desmistificação professorial alcançada por este livro mais que compensa a violenta embolia inicial provocada por uma capa com a cara do Derrida, uma maçã, um gato, e a Judith Butler (todos ao alcance dos poderes interpretativos de Barry, com excepção do segundo).

Fortíssimos, os capítulos sobre Narratologia e Estilística, e cristalinas, as explicações sobre a evolução (ou digressão) desde os tempos do estruturalismo até ao pós-modernismo. T.S. Eliot leva muita pancada no campo do liberalismo humanista (mas, falando objectivamente e correlativamente, ele merece). O livro termina com um capítulo chamado Theory after Theory que manifesta uma certa simpatia pelos tempos da pré-Teoria e indica como as modulações e incertezas introduzidas na busca do conhecimento durante o século XX podem, afinal, fornecer uma via para a sua reanimação, sem que todavia se ressuscite o T.S. Eliot por engano.

Há também umas inclusões curiosas nesta última edição. Um capítulo gordinho sobre Ecocriticism deixou-me bastante divertido ao início, mas quando deixei de roflmar como um parvo fiquei bastante surpreendido. Longe de arvorar o mote “epá, baza lá comer relva que os animais são altamente” (obrigado, Casanova), a prática do Ecocriticism coloca em evidência certos fenómenos de apropriação linguística de realidades naturais, numa relação que tanto pode indiciar posturas dominadoras e hubrísticas como melancolismos de aspiração pastoral. Isto é potencialmente muito frutífero porque uma tal perspectiva ainda não foi condignamente explorada no campo da crítica, e sobretudo porque esta nunca se aventurou para além do estudo individual e disconexo de recursos estilísticos ou de vagas considerações sobre géneros literários (desde as pastorais latinas até ao inevitável Thoreau).

Mas depois destas directrizes (e há tanto para ler), sinto-me capaz de compreender a Op. 31, No. 2 de Beethoven (a sonata número 17 para piano, à qual o repelente Schindler fixou o nome de “A Tempestade“). Ficarei mais atento a certos aspectos de Verlaine. Virgílio dir-me-á mais. Não lerei a fúria de Aquiles e as estrebuchações do Escamandro da mesma forma. E de cada vez que um poeta reclamar uma colina para descrever uma silhueta feminina vou pensar duas vezes. O entusiasmo é tão fátuo e intenso que estou a preparar uma série de textos que partem da análise da sonata para piano acima mencionada — a despeito do meu estado civil neófito em termos de teoria musical — para realizar incursões literárias noutras áreas em que uma consciência elevada da relação literária entre o homem e a natureza pode revelar-se particularmente fascinante. Literária e não ecológica ou outra coisa que o valha. “Green Studies” é a pior coisa que se poderia ter chamado a este movimento, e o seu denominativo a grande barreira que impede a maior parte das pessoas de julgar o seu valor (um preconceito compreensível, dada as militantes euforias ecológicas du jour).

Se a coisa correr bem coloco os textos aqui, mas na verdade começo a pensar que devia era haver um curso ou emprego qualquer para este tipo de demência, ou quando muito uma bolsa dedicada àquelas pessoas que desperdiçam o tempo com este género de coisas. Sempre seria mais feliz, e não chateava ninguém.

 

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Leitura a prestações

Vou acumulando mensalidades de leituras. Se olvidarmos por um momento os agressivos New Criteria, as encantadoras Literary Reviews e os inconstantes Believers, ainda me resta o hors-série do Magazine Littéraire deste mês,  dedicado ao pensamento de Albert Camus. Importará verdadeiramente que eu ainda não tenha estudado Camus? Poderei sequer confessá-lo? No mês anterior foi a vez de Espinoza — e eu também não o tinha lido a sério antes disso. Nenhuma objecção que não a censura à minha própria ignorância, mas fico pensando qual será o impacto de ler um conjunto de artigos (por muito educados que sejam) sobre uma realidade com a qual ainda não tive contacto directo.

Recordo-me todavia de uma observação (feita por Italo Calvino, talvez? — ah, a maldição da citação indirecta) de que um livro não permaneceria não-lido (precisamos de uma palavra: alido? ilido?) durante muito tempo se o colocássemos numa biblioteca pessoal. Hoje seriam algumas páginas, lidas de pé, ou se calhar debruçado numa cadeira instrumental a alcançar o volume numa prateleira mais troposférica. Amanhã seria uma referência bibliográfica, uma frase perdurante. E dentro de dez anos o livro estaria lido sem ter sido sequer transferido para a mesa de cabeceira ou o bolso da sacola. Uma ideia bonita, mas será que daqui a uma década terei lido esta gente, indirectamente, através de meios secundários?

Uma outra coisa: uma pessoa na minha residência — ainda alheia aos meus hábitos de reserva hebdomadária prévia pelas providenciais Temas desta Lisboa — quis surpreender-me e ofereceu-me a revista em questão. O gesto foi muito apreciado, mas agora fiquei com duas revistas. Podia, por exemplo, ler a segunda assim que acabasse a primeira, mas temo não conseguir aguentar tanto Camus de uma enfiada. Assim, se alguém desejar um exemplar gratuito deste hors-série, basta enviar-me um email ou deixar um comentário lisonjeiro.

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Ainda sobre o antigo valor

A propósito de Petrarca e do antiquo valor” nos corações italianos, destaco uma das conversas que Castiglione inscreveu no seu Il Cortegiano. Ao que parece, nem em amena cavaqueira se esqueciam os nobres que a civilização itálica da renascença tinha pretensões de superioridade sobre as suas raízes latinas. Até a exegese de autores clássicos reflectia essa condição mais altiva, como se pode depreender do seguinte trecho:

Então sire Bernardo e todos os outros começaram novamente a insistir para que continuasse, e o Magnífico disse a rir: «Quereis experimentar-me. Todos vós sois muito sabedores das coisas de amor; mas se tendes vontade de saber mais, ide ler Ovídio.» Sire Bernardo disse: «E como poderia eu esperar que os seus preceitos sejam válidos no amor, quando aconselha como um excelente meio que o homem, na presença da mulher amada, finja estar embriagado (vede que boa maneira de obter favores!) e quando, estando num banquete, afirma que uma boa maneira de fazer compreender a uma dama que se está enamorado, é mergulhar o dedo no vinho e escrevê-lo sobre a mesa?» O Magnífico respondeu a rir: «Naquele tempo não era uma falta.» Sire Bernardo disse: «Mas uma vez que uma coisa tão sórdida não desagradava aos homens desse tempo, é de crer que não tivessem maneiras de demonstrar o amor às damas tão corteses como as nossas; mas não abandonemos o nosso propósito inicial, que era ensinar a manter o amor secreto.» (Livro III, LXXII)

Sumariamente: os nobres não hesitam em considerar a época romana “sórdida“, um tempo pretérito em que a maior grosseria maior “não era uma falta“. Há aqui muito por onde pegar, desde a qualificação orgíaca dos tempos de Ovídio (convenhamos que o carácter dissoluto de certos círculos sociais romanos está bem documentado) até à afirmação de um novo conceito de amor (o que novamente nos remeteria para toda a evolução cortesã desde os trovadores).

Para complementar tudo isto, só me restou ir à procura das passagens mencionadas por Sire Bernardo, que penso estarem repartidas pelos Amores e pela Arte de Amar (socorro-me das traduções de Carlos Ascenso André, na Cotovia). A primeira referência que consegui recuperar encontra-se nos Amores (Livro II, V):

Eu mesmo vi, triste de mim, quando julgavas que eu dormia,
a vossa traição; apesar do vinho que fora servido, eu estava sóbrio;
muitas coisas vos vi dizer, com trejeitos das sobrancelhas;
nos vossos acenos havia muita conversa;
não se calaram os teus olhos, palavras foram escritas com vinho
no tampo da mesa, e, nos teus dedos, não deixava de haver algumas letras;
bem reconheci que vossas falas diziam o que não parecia
e que o valor das palavras dependia de um código combinado.

Os Amores são mais enciclopédicos na destilação das vicissitudes do amor do que a Arte de Amar, e é por isso que este poema assume um tinir quase lamurioso, ocasionalmente roçando a tristeza do poeta traído (ou rejeitado). A sua amada, pelos vistos, seguira o conselho da escrita avinhada sobre o tampo da mesa, e o seu conteúdo cifrado deve ter feito subir a mostarda ao nariz de Ovídio (que, ao contrário do de Cleópatra, não devia ser muito bonito).

Os conselhos propriamente ditos podem ser encontrados na Arte de Amar (Livro I, a partir do verso 567):

Aí, muitos segredos poderás dizer, com palavras disfarçadas,
que ela há-de sentir serem-lhe ditos a si,
e escrever palavras de ternura com um pouco de vinho,
para que na mesa ela possa ler que é a tua senhora
e contemplar os olhos com os olhos que denunciam a chama;
muitas vezes, no silêncio, possui o rosto voz e palavras.

Ora cá está. O poeta recomenda a escrita de que os senhores da corte de Urbino tanto zombaram. Daqui se retira que Ovídio ensinou este truque a toda a gente e depois a sua senhora seguiu as suas instruções à risca. Infelizmente para Ovídio, fê-lo com outrem, conforme rezam os Amores, o que muito o terá incomodado. Grande lição latina: manter a boca fechada.

Quanto aos benefícios de uma embriaguez simulada, o poeta ensina, algumas linhas mais abaixo:

Se tens voz, canta; se tens braços elegantes, dança,
e com qualquer arte com que sejas capaz de encantar, encanta;
faz a tua língua murmurar, titubeante, sons balbuciados,
por forma a que o que fizeres ou disseres, mais desbragado que o
normal,
seja tido na conta de vinho a mais;
e exclama: “Ventura a esta dama; ventura a quem com ela dorme!
Mas desventura”, pragueja para os teus botões, “ao seu marido!”

Sem prejuízo do latim original, não se acham referências à obtenção de favores por meio dos prazeres de Baco (vale a pena notar que o Livro do Cortesão contém um grande número de citações indirectas que julgo serem apócrifas). Mas logo se vê que as danças romanas deveriam ser uma linda xaropada se o requisito principal para uma boa performance era a sprezzatura de braços. As pernas, é certo, deviam estar bem deitadinhas nos canapés, ou então debaixo da mesa onde se acotovelavam os sétimos e oitavos pratos. Interrogo-me se era a isto que Adriano se referia quando Yourcenar nele colocou a transitória atracção pela dança, mas parece-me que os cortesãos italianos levam a palma nas lides de salão e que Petrarca estava absolutamente correcto no que versejou.

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Gentilíssimo

Uma amostra do Livro do Cortesão (Il Cortegiano):

Também com uma metáfora, sire Camillo Porcaro elogiou elegantemente o senhor Marc’Antonio Colonna. Este, tendo ouvido dizer que sire Camillo, num discurso, tinha celebrado alguns senhores italianos famosos nas armas e, entre outras coisas, que tinha feito uma menção muito honrosa dele, depois de lhe ter agradecido, disse-lhe: «Sire Camillo, haveis feito com os vossos amigos o que certos mercadores fazem por vezes com o seu dinheiro quando encontram algum ducado falso; para se livrarem dele, metem-no entre um monte de bons e assim o fazem passar; do mesmo modo, vós, para me honrardes, embora eu pouco valha haveis-me posto na companhia de tão virtuosos e excelentes senhores que, graças ao seu mérito, talvez eu passe por bom.»

Então Sire Camillo respondeu: «Aqueles que falsificam os ducados têm o hábito de os dourar tão bem que, à vista, parecem melhores do que os bons; é por isso que se encontrássemos alquimistas de homens como encontramos ducados, poderíamos com razão suspeitar que fossem falsos, dado que sois de metal muito mais belo e brilhante do que todos os outros.»

Baldassarre Castiglione

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Salmões reais

Confesso que estava à espera de ficar mais animado com o pateta Švejk. Como isso não sucedeu, virei-me para aquilo que se revelou ser o melhor livro sobre salmões que eu li este mês, do qual retiro uma eloquente troca de impressões entre a Rainha Mãe de Inglaterra e um guarda florestal seu conhecido, a propósito de um dia chuvoso de Inverno em Deeside:

‘Dreadful day, Robertson.’

‘Cuntin’ awful, Ma’am, cuntin’ awful.’

To Sea and Back: The Heroic Life of the Atlantic Salmon

Richard Shelton

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Desmascarados

Não sei que idade tinha quando encontrei as ilustrações de Chris Ware pela primeira vez, mas lembro-me certo que foi no começo de um Verão qualquer antes de ir para a faculdade. Pedira aos meus amigos transatlânticos algumas recomendações de leitura em banda desenhada (ou graphic novels), e eles logo me tinham obsequiado com sugestões de Miller, Moore, Ware, Gaiman, Spiegelman e outros que entretanto se tornaram referências no meu imaginário visual e narrativo.

Já agora, o livro chamava-se Jimmy Corrigan: The Smartest Boy on Earth, e ainda hoje ocupa um lugar privilegiado nas minhas prateleiras (em parte devido ao seu formato irregular, que faz com que ele se sinta desconfortável em todo o sítio). Não percebi logo porque razão aquele livro era tão intenso, mas sei que fiquei deprimido durante alguns dias. O que era estranho: Ware utilizava cores claras, planos confortáveis, espaços livres. Uma história de pessoas normais, sem superheróis ou vilões. Mas tudo era tão perfeitinho, regular, forjando duro contraste com as contendas interiores do irrisório protagonista, que era como se o mundo gritasse continuamente (num tinir alto e inquebrável) a sua indiferença face a Jimmy, e a sua ausência de espaço para os seus dissabores horrorosamente comuns.

Mas para chegar onde eu queria chegar, estou a referir-me a tudo isto porque entretanto o Lines and Colors (belo blog que deverá passar ali para a barra lateral) deu nota da New Yorker de 2 de Novembro, em que Chris Ware desenhou a capa e nos oferece uma pequena história. É clicar em qualquer um dos links.

New Yorker - Chris WareUnmasked 1Unmasked

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O homem comprometido

Em preparação de divagações vindouras, eis três passagens do ensaio Compromisso, de Theodor W. Adorno. Não é muito correcto efectuar este género de citações em bloco, mas penso que qualquer pessoa interessada pelos temas de literatura comprometida e legitimidade da arte perante as atrocidades do nosso tempo sentirá alguma atracção por estas palavras raramente óbvias.

“Não faço tenções de suavizar a afirmação de que escrever poesia lírica depois de Auschwitz é uma barbaridade: ela exprime pela negativa o impulso que inspira a literatura comprometida. A pergunta feita por uma personagem na peça de Sartre Mort Sans Sépultures, “Há algum sentido na vida quando existem homens que espancam pessoas até os ossos se quebrarem no seu corpo?”, é também a indagação sobre o direito que qualquer homem tem agora a existir; sobre se a regressão intelectual não é inerente ao conceito de literatura de compromisso devido à regressão da sociedade. Mas a riposta de Enzenberger também permanece válida, que a literatura tem de resistir a este veredicto, por outras palavras, ser algo em que a sua mera existência depois de Auschwitz não seja uma rendição ao cinismo. A sua situação comporta um paradoxo em si mesmo, e não apenas o problema de como reagir. A abundância de sofrimento real não tolera o esquecimento: a afirmação teológica de Pascal On ne doit plus dormir deve ser secularizada. Todavia, este sofrimento a que Hegel chamou a consciência da adversidade requer igualmente a existência contínua da arte ao mesmo tempo que a proíbe: hoje, é praticamente apenas na arte que o sofrimento ainda consegue encontrar a sua voz, consolação, sem por ela ser imediatamente traído.

(…) Até Um Sobrevivente de Varsóvia de Schönberg permanece encerrado na aporia à qual, figuração autónoma de heteronomia elevada à intensidade do inferno, se rende por completo. Há algo doloroso nas composições de Schönberg – o que suscita fúria na Alemanha não é o facto de elas impedirem as pessoas de reprimir da sua memória aquilo que querem a todo o custo reprimir. É antes a forma através da qual, ao transformar o sofrimento em imagens, a despeito de toda a sua dura implacabilidade, elas ferem a nossa vergonha perante as vítimas. Porque estas são utilizadas para criar algo, obras de arte, que atiramos ao consumo de um mundo que as destruiu. As chamadas representações da dor física pura das pessoas deitadas por terra pelas coronhas de uma espingarda contêm, ainda que remotamente, o poder de suscitar contentamento.

(…) O princípio estético da estilização e até a oração solene do coro fazem com que um fado impensável nos apareça como titular de um certo significado; é transfigurado, e uma parte do seu horror é removida. Só isto representaria uma injustiça perante as vítimas; e no entanto a arte que as evitasse jamais conseguiria comportar-se com firmeza perante a justiça. (…) Quando o genocídio se torna parte integrante da herança cultural da literatura comprometida, torna-se mais fácil manter a cumplicidade com o jogo que deu à luz o homicídio. Há uma característica quase invariável neste género de literatura. Ela sugere, propositadamente ou não, que até nas situações ditas extremas, e de facto na maior parte desses casos, a humanidade floresce. Ocasionalmente, isto origina uma metafísica aberrante que enceta os seus melhores esforços em inserir as atrocidades do homem numa “situação limitadora” que seguidamente aceita na medida em que revela a autenticidade nos homens. Numa semelhante atmosfera existencial tão caseira, a distinção entre carrascos e vítimas torna-se vaga; ambos, afinal, encontram-se suspensos por igual sobre a possibilidade do nada, o que evidentemente não é inteiramente desconfortável aos carrascos.”

Theodor W. AdornoCompromisso (Noten zur Literature III), Frankfurt: Suhrkamp Verlag, 1965.

Leituras no éter

“A sua arte negra é tão poderosa que, repito, nos escangalham o sono e a vida, e nos levam a jurar: que se foda a análise literária. Se te perdes no sobe e desce de Alfama e passou a tua hora de jantar, e a friagenzinha nocturna desta estação de veludo te titila o apetite, jamais dirás, após a leitura de Chmielov sobre a fome na Crimeia nos anos vinte: estou a morrer de fome. Dirás: são horas de comer alguma coisa antes que chegue a guerra civil e a revolução. A sério, evita desrespeitar a fome e a morte.”

(Luís Guerra no Vermelho e o Negro)

Um conto de Atiq Rahimi

Eis um pequeno conto do escritor afegão Atiq Rahimi, distinguido com o Prix Goncourt de 2008 pelo seu romance Syngué Sabor: La pierre de patience  (Pedra-de-Paciência). Foi escrito para o romance de Yves Simon, La Voix Perdue des Hommes (A Voz Perdida dos Homens), que eu comentei noutro lado. Um exemplo condensado de um dos temas mais caros a Rahimi, exactamente como caberia num livro sobre as vozes perdidas de uma multiculturalismo feroz. A tradução é da minha pobre autoria, mas na caixa de comentários encontra-se o original, para comparação e base de insulto à minha pessoa.

Era a noite, a nona noite.

O guia de homens dissera: A nona noite será a última noite passada na vossa terra.

Silenciosos, caminhávamos clandestinamente em direcção às fronteiras. Estávamos a fugir da nossa terra. Cada um com a sua razão…

Era noite. A nona noite. Chegámos ao cume de uma montanha. O guia de homens gritou: Alto! Olhem uma última vez para a vossa terra!

Olhámos para trás. Na escuridão do tempo, a terra perdia-se aos nossos olhos. Chorámos. Depois começámos a correr em direcção ao outro lado da fronteira. Um de nós afrouxou os seus passos. Era um pequeno homem sem bagagens. Durante a viagem, ele fora o mais lento, o mais cansado e o mais nervoso de todos nós. Afastou-se para se sentar contra um rochedo. Fui ao seu encontro para o ajudar a caminhar.

— Onde poderia eu ir? disse.
— Para o outro lado da fronteira.
— Isso já não faz qualquer sentido!
— Então e toda esta viagem… ?
— Eu parti para salvar as minhas palavras. Queria trazê-las do outro lado da fronteira…

Palavras? Que palavras? Sob o meu olhar perplexo, respondeu:

— Tinha-as escondido nos meus olhos. E assim que toda a gente se pôs a chorar, eu também chorei. As lágrimas levaram as minhas palavras… Caíram por terra, na terra… Sem as palavras, em qualquer lado, serei estrangeiro… Mais estrangeiro que um estrangeiro. Ali, sem a minha terra, poderia ter vivido com eles.

Pus-me a remexer o solo. A terra e as palavras tinham misturado-se. Tomei alguns punhados de terra e coloquei-os na minha sacola. O homem ria. Um riso macabro. Ele disse:

— Como poderei agora separar as palavras da terra? O exílio será como uma folha branca que não poderei encher senão com o passado. O presente do exilado só pode ser escrito nas margens, e em rodapé.

Encostou-se ao rochedo e pedia-me para o deixar sozinho quando o ouvi rir-se novamente, um riso amargo.

— O meu nome é Atiq, disse-me.
— Atiq?! Somos homónimos ou duplos?
— Nem um, nem outro. Tu és apenas o meu nome.

Meteu-me medo. Abandonei-o.

Após alguns passos hesitantes, desatei a correr e desapareci na penumbra, do outro lado da fronteira.

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Preconceitos malévolos

 

The prince of darkness is a gentleman!

King Lear

Acto III, Cena III 

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 A primeira imagem corresponde à edição Vintage de um livro escrito em 1824 por James Hogg, The Private Memoirs and Confessions of a Justified Sinner: Written by Himself. With a detail of curious traditionary facts and other evidence by the editorO título é deliciosamente longo e parodia – como outros no seu tempo já o haviam feito – as fórmulas com que os romances picarescos de aventurosas personagens eram normalmente encabeçados. Neste livro pode-se encontrar um dos mais antigos e bem sucedidos de uma narrador trapaceiro e pouco fiável, que se ocupa de uma história de perdição pecaminosa e de decorrências calvinistas.

A terceira imagem alude a The Monk, livro de Matthew Lewis de 1796, que para além de ter inaugurado a expressão “Oh bravo, Ambrósio! ” afincou decididamente o paradigma de um vilão clerical. Se concebermos um padre Amaro manifestamente mais violento e libidinoso – tramado pelo jugo de uma maquinação diabólica que o visa perder – ficaremos com uma ideia aproximada da escabrosa narrativa que corre num pacato convento de Espanha.

Os restantes livros ou são mais conhecidos ou já foram abordados neste blog (por exemplo, aqui). As imagens estão ali em cima devido a essa personagem mistério que é transversal a todas as narrativas e que podem tentar adivinhar (eu sei, é difícil). Do último livro, The Tragical History of Doctor Faustus de Christopher Marlowe, retiro um preconceito de que apropriei recentemente, e que contrasta a figura de Prospero, na Tempest de Shakespeare, com as deferências obrigacionais do Doktor Faustus. Num ensaio intitulado La Jeunesse des Mythes, Jean-Claude Carrière alinha os sinais gritantes de duas existências literárias (e mitológicas) cujas vidas se afastam quanto mais as narrativas avançam. No final desta Regressão – Progressão, o ex-Duque de Milão renuncia voluntariamente aos seus poderes enquanto o nosso Doktor vai mais longe que todos os homens para obter capacidades sobre-humanas. Prospero será nesse caso o anti-Fausto. Curioso, pois, considerar que uma é uma figura incontornável do nosso imaginário artístico e a outra permanece acantonada numa peça elizabetiana.

Disse há pouco que esta ideia configurava um preconceito porque na verdade é disso mesmo que se trata se a levarei para os Faustos ainda não lidos, bem como para os dois livros acima indicados. Como não poderei deixar de o fazer. Mais do que prefigurar a minha lacuna Goethiana (com “i” soa melhor, Fortie) esta frase clama a atenção pelo óbvio: nenhuma leitura sobrevive num espaço mental desembaraçado das suas irmãs precedentes. Quando chegar a Faust estarei a pensar em Prospero, e quando ler Hogg ficarei meditando sobre Wormwood e Screwtape. Desde o momento em que nascemos que deixamos de pensar por nós próprios.

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Horizontes

Gosto tanto de ler isto. Gosto tanto que nem sei como escrever estas linhas, ou como justificar um segundo link. Gosto tanto que tenho medo que ela leia isto e me deteste. Gosto tanto que me apetece escrever-lhe, desejar-lhe algo. Como um imbecil. Gosto daquelas palavras, daquele fogo de vida nem sempre feliz, daquela constante falta de indiferença face ao pequeno mundo dos nossos dias, das ideias que reagem com tudo, do cansaço e da consciência. Há apatias personificadas, irrelevantes como eu, e depois  há quem escreva isto.

Ficções atlânticas de 2009

image74_detailsNa minha mente, deparo-me com um viajante temporal que por acidente é projectado contra o asfalto moderno da nossa era. Tresloucado, com os olhos inflamados pela demência, arromba e assalta o primeiro transeunte que vislumbra com um jornal nas suas mãos, ávido por descobrir a data oficiosamente inscrita na publicação.

Soltando um urro de satisfação primordial, aprende que corre o ano de 2006. Ainda vai a tempo de aplicar todas as suas poupanças numa imperdível oportunidade de investimento imobiliário que só implodirá em finais de 2008. Dois anos, portanto, para lavrar uma fortuna e regressar ao seu tempo com os meios financeiros para salvar a sua mulher acamada com leucemia. E duas filhas – acamadas com tuberculose. E um filho (acamado com coma). E um gato coxo. E libertar a tripla hipoteca sobre a sua casa. Já agora, um Mercedes.

Infelizmente para o nosso desgrenhado viajante, o meu método de leitura de revistas e periódicos é completamente caótico, ainda que a sua reiterada compra lamentavelmente não o seja. Há apenas uma minúscula probabilidade cósmica do que ele agora segura nas suas trémulas manápulas apresentar a menor correspondência com as publicações que se encontram nas bancas, tendo em conta que ainda tenho na minha mesa de trabalho revistas de 2005 sobre as quais não deitei um olhar (mas que TINHA ABSOLUTAMENTE DE COMPRAR, evidentemente).

Muito impressionado com a noção de que poderia estar a condenar um infeliz e a sua família à morte ou a um mês de campanha eleitoral, saí à rua com a edição especial de ficção da Atlantic, impecavelmente actualizada para o trimestre em curso. Pavoneei-me demoradamente, mas ninguém apareceu surgido de um rasgão no tecido espácio-temporal das calçadas lisboetas e não me restou senão acabar por ler a revista que – e agora chegamos onde eu queria começar – até tinha algumas coisas interessantes.

Paul Theroux, por exemplo, assina catorze textos (Voices of Love) que nos dias de hoje se classificariam preferencialmente de microcontos, embora a rotulagem dentro da categoria “Concentrado de Lugares-Comuns sobre a Infidelidade Sexual” também não lhes assentaria despropositadamente. Por muito previsíveis que os contos me apareçam, a participação de um escritor experimentado como Theroux coloca em evidência as pequenas lacunas de técnica com que os restantes candidatos nas páginas vizinhas ainda se debatem. O decorrer do tempo ou a descrição sumária de uma personagem, só para dar um exemplo, podem colocar dificuldades a neófitos e veteranos, mas Theroux encaixa instintivamente a passagem de uma década entre duas frases dinâmicas ou finaliza o retrato de uma personagem com um único e simples traço. Tudo boas técnicas que por vezes se confundem como autóctones do género do conto microscópico ou cristalizações de minimalismo literário mas que na verdade são manifestações universais de inteligência narrativa (consideravelmente mais difíceis de se executar e aperfeiçoar). À faceta pedagógica dos trechos de Theroux apenas decresce a necessidade de ler o grosso da revista para apreciar aspectos puramente formais daquele que deveria ter sido um contributo mais corpulento do ponto de vista substantivo (afinal, e lealdades à parte, o nome de Theroux ajudou certamente a mover muitos exemplares desta revista).

Mais neurótica é Jill McCorkle, com um conto intitulado PS, semi-actualização para o decénio da psicanálise banalizada das peripécias conjugais de uma Miss Lonelyhearts que aqui se encontra no lugar do paciente, é feminina, e discursa numa linguagem mais libertina, bamboleando entre o nervosismo e a satisfação. A grande matriz existencial de desencantos com a Nova Iorque ou outra metrópole é abandonada para dar espaço a todos os comezinhos conflitos de uma vida que só em aparência se poderia dizer simples ou plena de sentido. E apesar de não parecer inspirar-se numa fonte de vivência pessoal, a autora consegue escrever com a autoridade de uma biografia ao mesmo tempo que despe qualquer traço de presunção do seu registo (por vezes mesmo pobre). O resultado é um conto crescente e um canto honesto que se repete tantas vezes nos apartamentos das nossas convivências.

Deixando a ficção de lado, por um momento, é possível encontrar nesta edição especial da Atlantic uma sondagem educada sobre o papel e o valor do conceito de Literatura Nacional, uma noção em notável falência desde que a globalização se instalou em termos reais. Sobretudo no campo de literatura anglófona, afirmar que um livro é determinantemente influenciado pela raiz nacional do seu autor, e que portanto lhe deve ser atribuída esta ou outra etiqueta, é um procedimento especialmente desprovido de sentido. “You swiftly realize you’re in the realm of taxonomy informa Margaret Atwood – “a discipline that has befuddled greater minds than yours“.

Perseguindo este raciocínio, só Joseph O’Neill tem a força de uma opinião mais sólida, se não mesmo controversa, acerca do papel legitimador do substrato nacional a partir de onde se escreve:

Because Milan Kundera, say, no longer writes in Czech as an autochthonous Czech (oslovak) about matters Czech (oslovakian), but rather in French as a naturalized French citoyen du monde, his moral authority qua writer is put in doubt, because he is perceived as writing for no legitimizing comunity. (Beckett transcended this problem but, as with Kafka, see under: Genius, nonapplicability of rules to. )

Interrogo-me se não há um aqui juízo transponível para a literatura de viagem que possa mais tarde manietar com fitos maldosos de desvalorização desse subgénero. Suspeito que sim, pelo menos quando o seu hipotético autor insiste em sair do círculo externo de observador escrevente e começa a tentar interagir com a realidade observada (oh Theroux, por que me fazes destas coisas?). É uma questão para outras calendas.

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É urgente o contentamento

You are a philosopher, Dr. Johnson.

I have tried in my time to be a philosopher; but, I don’t know how, cheerfulness was always breaking in.

Não, a frase não é do Leonard Cohen mas sim de Oliver Edwards, um amigo do Dr. Samuel Johnson a quem James Boswell nos assegura ter confiado esta pequena blague.

Deslustres e desdouros

Um artigo na New Yorker – escrito por Malcom Gladwell e disponível aqui – analisa a figura de Atticus Finch no contexto mais lato do activismo racial durante a era das leis Jim Crow. É uma leitura interessante para quem está familiarizado com a história de To Kill a Mocking Bird, mas assenta num ponto de partida um tanto falacioso: o de segurar Atticus Finch contra o escrutínio (necessariamente contemporâneo) do paradigma anti-racista. O processo é naturalmente injusto numa matéria delicada sobre a qual o espírito da nossa era pratica uma exegese contínua a que nem os mais cuidadosos ou interessados sobrevivem sem mácula. Tais acontecimentos podem ser de notável surpresa para os mais tolerantes – ou ingénuos – de entre nós. Para um exemplo recente, bastará apontar as ilacções raciais que foram retiradas das leituras de Verão de um desses homens muito cuidadosos, o presidente dos Estados Unidos da América (o artigo está notoriamente cônscio do proverbial tongue-in-cheek, mas há verdades que são melhor ditas em tom ligeiro).

Uma das cenas mais importantes do livro é o final do julgamento em que Tom Robbinson (o negro acusado de agredir e violar uma jovem branca) é condenado pelo júri local, muito a despeito da sóbria defesa de Atticus Finch, o único advogado que aceitara representar o acusado da sua livre volição. Gladwell faz uma leitura das reacções de Finch que me parece ignorar o aspecto puramente narrativo de To Kill a Mockingbird, uma dimensão seguramente não despicienda dentro do género de livro que Harper Lee acabou por escrever. Na verdade, entender que a ausência de uma reacção violenta ou de um rosto vociferante imediatamente reconfigura Finch como uma pessoa desinteressada da causa parece-me um tanto rebuscado.

Dificlmente poderia a saída de cena de Atticus Finch comportar maior gravidade dramática, construída como está pela autora. Há ali de tudo um pouco, desde a figura do homem lógico e dialéctico por excelência, reduzido ao silêncio pela ignorância alheia, até à comitiva de negros que – qual coro grego mudo – se ergue premonitoriamente em sinal de respeito pelo homem que defendera um dos seus. Também lá se encontram os filhos de Atticus Finch, e em especial um rapazinho muito jovem, sobre quem a narrativa transfere a indignação emocional que o pai não pode sentir. É um notável fresco impressionista do homem derrotado, pintado com fôlego ímpar em tons oranginos e solares como convém aos finais da tarde no Sul.

E porque não pode ele sentir o rubor da afronta? Porque Atticus Finch é a idealização da justiça processual, e uma única preocupação ilumina a mente calma de um tal homem: garantir uma defesa tão justa quanto a que for constitucionalmente concedida. Nesse aspecto, reconheça-se que Harper Lee compreendeu melhor a deontologia da sua personagem do que a maior parte dos romancistas ou guionistas da sua época, preocupados em oferecer uma imagem do advogado-cruzado ou do advogado-activista em consonância com as novelas de sala de audiências que começavam a pulular nos écrans e raros monitores. Quando no fundo, para Atticus, o facto de Tom Robbinson ser um negro socialmente indefensável era uma dificuldade de grau e não de natureza.

Logo se compreende que o alcance ideológico de To Kill a Mocking Bird e do seu pequeno cruzado Finch é mais reduzido do que o panorama de combate ao ódio racial (apesar de ficar claro que um homem inteligente e racional como Atticus não poderia deixar de pensar de outra forma, no plano substantivo). As limitações de que padece o romance – há algumas, claro – não se concentram na sua mais carismática personagem, mas antes na occasio legis (cof-cof) em que foi escrito, circunstâncias que fatalmente lhe enformam uma parte da sua linguagem e atitudes.

Nesse sentido, e desculpando aquilo que pode ser perdoado, parece-me razoável entender To Kill a Mockingbird como um trabalho que nasceu durante uma fase intermédia de liberalismo racial, e que por isso mesmo sente enormes dificuldades em aplicar um padrão de julgamento valorativo verdadeiramente universal. O Atticus Finch de Harper Lee apenas consegue erguer armas contra a segregação e discriminação precisamente porque adopta um padrão de comportamento que é redutoramente contrário ao ditâme racista prevalente. Por isso é tão importante o desfecho da narrativa, e a dúvida sobre a integridade de Finch que, chamado a aplicar a implacável pureza do due process of law à sua família, consente que a Justiça abra os seus olhos por uma ocasião.

Padrões morais inconsistentes ou fraqueza patriarcal? Melhor será dizer que a redutibilidade na bilateralização rigorosa dos seus imperativos morais se deve ao facto de – para certas causas – Atticus desejar flexibilidade, bom senso, e rapidez na resolução de uma disputa. Talvez na sua mente isto seja consistente com a ideia de uma forma de justiça humana. Mas se admirarmos Atticus Finch por aquilo que ele deve ser efectivamente admirado – enquanto defensor da justiça processual – então esta conclusão é muito mais devastadora do que a simples implicação de que o homem não lutou adequadamente contra o racismo durante a era da segregação.

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O tremor das rosas

 

Fruit is low on drama, and I miss

Passion, flying, falling, being chased,

Crashing, panic – trauma – and I miss,

Small and quick, a movement in the grapes,

And the shiver of a petal in the vase.

Deborah Warren

 Dream with Flowers and Bowl of Fruit, 2008

Disquiet on the Eastern Front

Do denso – mas vorazmente legível – bestseller do britânico Antony Beevor (Stalingrad), sobre os conflitos armados da Segunda Guerra Mundial em torno dessa cintilante e propagandística cidade das margens do Volga, podem retirar-se registos muito pessoais que compensam o entusiasmo militar do autor – infatigavelmente dedicado a descrever as operações e movimentações dos contigentes militares da Wehrmacht ou da Krasnaya Armiya.

Acho que são os pontos altos do livro. Pois se este não consegue transmitir o horror daquele espaço de desumanização colectiva – e haverá algum que o consiga? – o industrioso autor percorre arquivos recentemente abertos pelas poeirentas antigas autoridades soviéticas e resgata cartas e mensagens fascinantes.

Deixo aqui dois exemplos, duas cartas escritas por soldados alemães durante o primeiro ano da ofensiva oriental (1941), naqueles meses que bordejaram o violento inverno russo e congelaram a Wehrmacht às portas de Moscovo. No ano seguinte viria Estalinegrado, a “vala-comum da Wehrmacht“, e a maior demonstração de perda de vida humana a que a história tristemente já assistiu.

Vale a pena manter presente estas duras realidades, enquanto se lê dois perturbantes exemplos de humor negro alemão.

Notas para Aqueles em Licença Militar

Nunca se esqueça que está a entrar num país Nacional Socialista cujas condições de vida são muito diferentes daquilo a que está acostumado. Deve ser cordial para com os seus habitantes, adaptando-se aos seus costumes e evitando os hábitos a que se tem afeiçoado tanto.

Comida: Não deve arrancar a madeira do soalho em busca das batatas, porque estas normalmente estão guardadas numa divisão própria.

Recolher Obrigatório: Se se esquecer da sua chave, tente abrir a porta recorrendo ao objecto circular e protuberante. Só em casos de extrema urgência deverá utilizar uma granada.

Defesa contra Resistentes [Partisans, no original]: Não é necessário andar a perguntar aos civis qual é a palavra-chave, nem abrir fogo sempre que receber uma resposta insatisfatória.

Defesa contra Animais: Os cães com minas amarradas são um aspecto específico da União Soviética. Os cães alemães, no máximo, mordem, mas não explodem. Disparar sobre todos os cães à vista, embora recomendável na União Soviética, poderá criar uma má impressão.

Relações com a População Civil: Na Alemanha, se alguém estiver vestido com roupas de mulher isso não significa forçosamente que sejam partisans. Apesar disso,  são muito perigosas para qualquer pessoa de licença.

Geral: Enquanto estiver de licença na Pátria, tome cuidado para não mencionar a existência paradisíaca na frente oriental da União Soviética, ou toda a gente quererá vir para aqui e estragar o nosso conforto idílico.

Isto era a frente oriental. A frente de horizontes sem fim, de aldeias queimadas, campos incendiados, fome para soldado e civil. A frente de cães armadilhados, de investidas suicidas, de ataques traiçoeiros, da degradação moral constante. De lama, depois de gelo. A Grande Armée já a conhecia de 1812, mas a loucura humana aparentemente achou que ainda faltava algum sangue nas estepes.

Os alemães passaram dois Natais nas frentes russas, em 1941 e em 1942. Não foram ocasiões muito festivas, e o primeiro ano foi especialmente desolador para todos aqueles jovens que comungavam a crença de uma vitória rápida. Alguns perceberam que um regresso às velhas tradições era impossível, destruídas que estavam pelo modo de vida social-nacionalista em que tinham embarcado com ardor. Um deles escreveu a seguinte paródia.

Não haverá Natal este ano, pelas seguintes razões:

José foi recrutado pelo exército; Maria alistou-se junto da Cruz Vermelha; o Menino Jesus foi enviado para o campo juntamente com as outras crianças para evitar os bombardeamentos; os Três Reis Magos não puderam arranjar vistos porque não conseguiram provar a sua origem Ariana; não haverá estrela de Belém devido ao apagão obrigatório; os pastorinhos foram transformados em sentinelas e os anjos tornaram-se operadoras de telefone (Blitzmädeln).

Só resta o burro, e não se pode ter um Natal apenas com um burro.

Esta carta foi interceptada pelo Exército Vermelho. ‘Não percebo‘, escreveu um oficial no final da tradução. ‘De onde é que isto vem?

O Sexto Exército da Wehrmacht passou um Natal em Estalinegrado. Encurralados,  conscientes do seu fim próximo, os soldados ofereciam os últimos mantimentos ao amigo que estava a seu lado. Muitos morreram à fome nos dias seguintes, felizes por ter oferecido uma côdea regelada ao seu semelhante. Esta comovente ocasião, berço da Stalingrad-Madonna, é um impressionante tributo à chama de humanidade que rebrilhava timidamente no interior daqueles crâneos condenados.

Cartas e registos recolhidos do Tsentralnyy Arkhiv Ministerstva Oborony – Podolsk (Arquivo Central do Ministério da Defesa – Podolsk) por Antony Beevor, em Stalingrad.

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Nove dedos de ambivalência

Em matéria de leituras contemporâneas do fantástico, dou por encerrada a leitura do segundo e terceiro livro da trilogia de Joe Abercrombie, The First Law. Sobre esta história já escrevinhei algumas notas que permanecem válidas (ainda que um tanto benevolentes face à aridez das 1077 páginas que se lhes acabaram por seguir).

Do segundo trambolho (Before They Are Hanged) não rezará certamente a história literária da ficção fantástica, já que os seus pontos altos se resumem a uma descrição prolongada, divertida, mas em todo o caso previsível de um cerco a uma cidade e das suas intrigas institucionais. O resto é enfadonho, pouco memorável, acudido apenas pelo oportuno humor negro. Sobre esse ponto, digamos que não é vulgar encontrar num romance, por exemplo, uma cena de tortura a imunes emissários diplomáticos, após os seus termos de rendição terem sido protocolarmente declinados e de lhes ter sido solenemente concedido um salvo-conduto até casa. Não quando as gerações de hoje só os sabem atirar para um ignoto poço espartano com um urro de masculinidade barbuda, tut tut.

Como no primeiro livro, Abercrombie faz amplo uso da intercalação cinematográfica de capítulos. É uma técnica justamente reputada poderosa, porque condiciona o leitor ao processamento paralelo de várias personagens, estimula a percepção de acontecimentos simultâneos, e conduz a uma culminação visceral em que os intervenientes da narrativa – até então separados – cohabitam impressivamente no mesmo invólucro de texto. Mas aqui, o engenho é usado gratuitamente e alcança um resultado contrário ao pretendido. É difícil empolgar aquilo que é naturalmente entediante, e a mistura de capítulos apenas coloca em evidência que uma das linhas narrativas é muito mais forte que as restantes.

Também já não são apenas as profanidades indiscriminadas que conferem uma mesquinhez irremediável ao corpo da trilogia. Before They Are Hanged é mesmo um fortíssimo candidato aos prestigiados Bad Sex in Fiction Awards. E se criassem um Best of the Bad Sex in Fiction Awards – à maneira do Booker – estou seguro que teríamos neste menino um cabeça de lista formidável (redutível apenas por um certo e determinado autor nacional). A desconfortável artificialidade das suas incursões pelos relacionamentos sexuais das personagens é simplesmente inenarrável (e rudemente inesperada). Ora assisto, feliz e pimpão, à dança de espadas entre cavaleiros e brutos, ora – no momento seguinte e sem a cortesia de um aviso – esbarro de nariz contra as cruas moções de um acasalamento sem sentido (a que se juntam as mui interessantes e pertinentes considerações sobre a duração do período refractário de um homem que involuntariamente pratica a abstinência). Difícil de acreditar que o mesmo autor que descreve tão facilmente a topografia dos campos de batalha ou a troca de argúcia entre inquisidores e políticos seja capaz de falhar este alvo mais escandalosamente que um bêbado num casamento em vésperas de Quaresma.

The Last Argument of Kings (o último tijolo), retoma o bom caminho e proporciona os habituais desenlaces satisfatórios: grandes batalhas, um inesquecível duelo até à morte, finais gloriosos para heróis cansados, e o prenúncio da queda de impérios. Digamos uma coisa da escrita de Abercrombie, digamos que ela é eficaz. Impossível não fremir comprometidamente quando a mais simpática das personagens, o bom selvagem Logen, perde a cabeça e embarca em carnificinas delirantes, teatrais e sombrias, cortando pessoas indiscriminadamente no auge de uma loucura escarlate. No equivalente a uma arma de destruição maciça dos tempos fantásticos, o homem mata tudo: uma distracção e um espirro, e já vinte homens perderam a vida da forma mais violenta e espalhafatosa que se possa conceber. Post actum finit, é claro que o bom selvagem não se recorda de nada (só faltando o inocente “it’s not me” para a comédia ficar completa). Também o registo narrativo não se faz rogado em acompanhar estas extravagâncias com frases exageradamente inflamatórias e dramáticas. Se estão a pensar como é possível que um gajo que ainda na semana passada andou a discorrer com prosápia sobre a condição humana na jornada metafísica de um romance de William Faulkner pode agora vir a apreciar estas escaramuças corriqueiras de emoções baratas, o mais inacreditável é que o autor consegue fazer com que eu não sinta um prazer culposo ou um remorso latente quando leio essas passagens. Há algo no seu tom que legitima a diversão e não me deixa sentindo sujo e juvenil por ter lido algo tão empolgante como desnecessário. É a Série B dos livros, meus caros – mas da boa.

O grande mérito destas histórias – que não é imediatamente óbvio – é o de trilharem equilibradamente no seio de uma pequenez calculada. Isto parece-me bastante raro num género em que todos tentam elevar as desventuras patéticas de um grupo de elfos e anões ao nível do verdadeiro mito. Abercrombie não anseia voos tão olímpicos. Concomitantemente, as inconsequências do seu do fôlego narrativo formam uma simbiose enrobustecedora da galeria de personagens, aproximando-as do leitor pela simplicidade. Chega uma altura na vida de um homem (normalmente em Maio) em que uma pessoa fica farta de ler bovarismos ou encenações pançudas de simbolismo e de pathos. Às vezes é preciso uma cerveja e uma história com espadas e muitos glóbulos vermelhos para coroar o final daqueles longos dias de trabalho que o calor já começa a amolecer.

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Nove dedos de violência

Algures durante a passada quadra natalícia, dei por mim a ombrear com um colega de trabalho que se revelou um voraz leitor de fantasy. Não um leitor de literatura fantástica, note-se, não um leitor de fantasia, de mitos, ou até mesmo de faerie. Um indómito leitor de fantasy, sem vergonha de utilizar a palavra numa conversa oral e sem medo de sobraçar um volumoso paperback  no caminho entre o metro e o escritório (e notem que a ilustração de capa desse livro era digna de figurar em qualquer álbum dos Rhapsody).

Para o arreliar um pouco, vai de fingir interesse e lhe pedir algumas recomendações no género que – conhecidos clássicos à parte – me permanece berrante e ignoto. Acabei por descobrir que eu lhe levava o avanço de leitura dos seis estupendos livros de Dune (e que raio de fã de fantasy não lê Frank Herbert?), e que o facto de eu ser um modesto conhecedor das genealogias do Silmarillion me habilitava para além do título de iniciado no género. Eis senão quando ele me promete trazer um livro que reunia os méritos de uma obra recente e de um porta de entrada no disputado mundo de fantasy.

Bem, não esperava tamanha solicitude. Apesar de tudo, esse pequeno advogado fiscal, para além de sonhar com dragões e elfos e realizar auditorias, também é muito simpático. Com a pontualidade de um devedor com a morada de família hipotecada, encontrei na minha mesa, no dia seguinte, The Blade Itself, primeira parte de uma inevitável trilogia por um tal Joe Abercrombie.

Um inconveniente de se seguir uma leitura programada que assenta em grandes clássicos, grandes obras, grandes autores, grandes narrativas, grandes ideias, grandes instruções, grandes marcos, grandes personagens – o problema com tudo isto, dizia, é que nos esquecemos facilmente de como existem bons escritores que não querem saber da condição humana ou seus conflitos interiores num mundo de convergências emocionais e religiosas, nem estão interessados em desenvolver escolas de pensamento sistemático a partir de belas narrativas existencialistas. Há quem escreva somente por gosto e com gosto, desejando urdir histórias e enredos que apelem directamente ao mais jovial sentido de diversão e escapismo (aqui entendido na esteira deste histórico ensaio) e inflamem a imaginação do leitor. É uma maravilha lê-los.

The Blade Itself não é um mau livro mas chega a entreter o leitor como se o fosse, narrando a história de três reinos em guerra, e de alguns heróis (um bruto, um mago, um cavaleiro e um inquisidor sádico) que aí viajam e batalham. De Abercrombie pode-se dizer que é um escritor competente: por mais de uma vez quedei-me, um tanto incrédulo, perante a força da sua narrativa sincopada e o ritmo que ele imprime a determinadas cenas. A capacidade de delinear os movimentos concretos de uma bagarre sem esmagar o leitor com pormenores supérfluos que afectem a ligeireza do registo permanece uma qualidade invejável nesta linha de ficção.

No seu cadastro fica apenas a inclinação para tingir tudo com demasiada hemoglobina espirrante (quando o bárbaro Logen “Nove-Dedos” entra em cena) e engordar alguns capítulos para além do razoável (quando o inquisidor Glokta começa a divagar). O pecado capital de encetar uma balofa trilogia – quando um livro chegaria perfeitamente – também não é algo que eu consiga facilmente perdoar.

Deparamo-nos assim com um género de incontinência soliloqual que se esperaria de um God Emperor of Dune, com direito a toda a verbosidade de um Leto mas sem um décimo da sua beleza filosófica e política. Quando isto não sucede e a narrativa prossegue desimpedida, o leitor defronta-se ainda com um uso liberal de profanidades que, despido de critérios judiciosos de aplicação, causa grande perplexidade e transforma o que poderia ser uma ferramenta útil de caracterização num artifício juvenil.

O seu registo – que tão bem serve a acção – revela-se seco e atabalhoado quando se trata de enveredar por cenas amorosas ou descrições mais íntimas. A verdade é que a galeria de figuras femininas também não ajuda: Abercrombie parece incapaz de densificar as escassas donzelas que nos poderiam agraciar mas que se vêem esquadrinhadas em papéis cansados (como a “menina-burguesa-que-não-pode-casar-com-o-bonzão-de-sangue-nobre”, a “menina-selvagem-guerreira-que-quer-matar-toda-a-gente”, ou até a “bruxa-de-proporções-amazónicas-ao-serviço-do-mauzão”).

Não sendo o livro um monumento à originalidade (está ainda por escrever a nova matriz da literatura fantástica), consegue-se aqui algo claramente superior à soma das partes individualizadas. As personagens são amigáveis, o enredo interessa, e a meio do livro é possível que o leitor se ache – como eu me achei – genuinamente interessado no desfecho, com o género de atenção que dedicaria a um gostoso policial. Mesmo que para isso tenha de suportar umas tantas páginas supérfluas.

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Tutores de fortuna e requinte

mailer-book190Por tudo o que escrevi sobre The Castle in The Forest, seria de esperar que o resultado desse exercício literário consubstanciasse uma explicação subjectiva – ainda que educada – dos caminhos de corrupção que o jovem Adolf Hitler tomou na sua infância, numa espécie de “explicação do monstro” aterradora e voyeurista que nos colocasse definitivamente numa confortável orla exterior de observação (havendo mesmo quem insista em criticá-lo quando nisso claudica). Mas no final da sua vida, Norman Mailer reserva-nos uma derradeira lição; a de que a natureza humana não pode ser explicada sem a inclusão auxiliar de forças invisíveis, que a nossa pobre e limitada subsistência então antropomorfizará sob a luz rectora do secularismo ou da religião.

No romance, estas influências externas tomam a forma de um agente do mal chamado Dieter, um diabo menor ao serviço do diabo maior que se encarrega da educação sentimental do nosso conhecido ditador nazi. Sim, diabos, o Demo em pessoa. É uma reviravolta inesperada, mas também uma cartada que surge muito cedo no livro (e que portanto não estraga a vida a ninguém – espero! – se for revelada de chofre como acabei de fazer). Mais tarde, Dieter assume a forma de um soldado das SS e tem de aturar as diatribes eugénicas de Himmler, pelo que é possível concluir que se comportou como um diabinho maroto e que provavelmente fez algo pelo caminho para merecer essa terrível despromoção e castigo.

Evidentemente, examinar a conduta humana sob a perspectiva das influências externas que anjos e demónios lançam sobre a sua alma não é tarefa nova. Só dentro do cânone ocidental, temos uma linha bem definida desde Baudelaire até aos tempos modernos, quando o tema adquire uma admirável sofisticação através de pelo menos duas obras imemoriais: o monumental Margarita e o Mestre, de Mikhail Bulgakov, e o inteligentíssimo The Screwtape Letters, de C.S. Lewis.

Confessemo-lo à partida; não podiam tratar-se de obras mais diferentes. Se me surgiu a ideia de contrastar as caracterizações teologico-transcendentais de Norman Mailer contra as de C.S. Lewis foi apenas porque a presença de anjos e demónios é uma ténue linha comum entre as duas narrativas.

screwtape51o-6kjiaol_ss500_Mas onde estão as minhas maneiras? Ainda não apresentei The Screwtape Letters. Este livro de 1942 consiste num conjunto de cartas dirigidas a um diabo-estagiário (Wormwood), por parte do seu tio Screwtape (um diabo-sócio com uma pensão brutal e regalias obscenas), escrito num registo de precisão magistral e por vezes gravemente hilariante. O popular livro conheceu uma pequena sequela em 1959, intitulada Screwtape Proposes A Toast. Ambos representam um triunfo da inteligência lúcida e observadora de Lewis.

Como o ponto de partida do inglês e do americano varia consideravelmente, não é de admirar que ambos guardem perspectivas quase inconciliáveis quanto à condição da alma humana e a sua porosidade às tentações da carne e do espírito. Se os agentes de Lewis trabalham por distorção e subtileza – nunca se manifestando, sussurrando eternamente – os diabos de Mailer obram continuamente mediante empurrões e safanões (chegando até a dar umas pauladas bem afinfadas naqueles Anjos metediços quando os apanham a jeito).

Em qualquer confronto directo, naturalmente que C.S. Lewis emerge como o escritor mais elegante e hábil. A atribulada vida do inglês e das centrífugas discussões, debates, regressões e revelações de fé que veio a suportar acrescem ao seu olhar límpido sobre as questões do cristianismo. Assim, por exemplo, Screwtape manifesta numa das suas cartas uma imensa alegria por constatar que um determinado humano está a afastar-se do cristianismo, reduzindo o seu culto regular a um vago e inócuo sentimento de religiosidade (de resto, como praticamente todos os cristãos modernos o fazem). Se não bastasse a sagacidade da observação, teríamos ainda o deleite de assistir a uma argumentação baseada em escritos de Coleridge! Isto, repito, só Lewis consegue fazer com naturalidade.

Norman Mailer é bastante mais violento, urdindo uma cosmogonia transcendental em que os poderes dos seus demónios impressionam quase tanto quanto as transgressões que estão autorizados a praticar. Dieter pode assumir formas humanas, controlar alguns pensamentos, manipular o mundo físico. Dieter consegue ainda criar sonhos e ideias, e introduzi-los na mente do petiz Adi Hitler. O conjunto destas moções prefigura o esbatimento dos limites do livre-arbítrio e um ataque cerrado à individualidade humana enquanto método elementar de corrupção demoníaca. Screwtape, pelo outro lado, gosta de exaltar a individualidade e com isso estimular o orgulho pessoal que exacerba o sentido de propriedade. Que é a propriedade privada senão a consequência final de um livre arbítrio desbragado; que será a expressão “meu Deus” se não uma deliciosa manifestação involuntária dessa propensão pecaminosa?

A sério, às vezes chega a ser irritante ler Screwtape, de tão brilhante que é em algumas observações.

The Castle in The Forest foi escrito devido à Segunda Guerra Mundial e à sua mais temível figura; The Screwtape Letters foi escrito durante esse mesmo período. Quer um quer outro previnem o leitor dos perigos da dilatação do ego humano: Mailer maneja com perícia essa tendência terrível e natural que é exercer poder sobre os seres que entendemos pensantes, ao passo que Lewis aflora a perigosidade de uma vida religiosa apenas na superfície, em que os maneirismos do culto e da “vida cristã” são assustadoramente deturpados e reordenados até se converterem numa verdadeira auto-estrada para o inferno (tinha de introduzir uma referência rockalheira, e Rolling Stones seria demasiado óbvio). Parafraseando Screwtape, é imprescindível que o pio homem genuflexado entre os fiéis esteja certo que o fulano ao seu lado é de algum modo menos digno, menos casto, menos religioso que ele. Com simplicidade e escassa presunção (o americano utiliza uma narrativa e um enredo admiráveis e autónomos, o inglês inscreve as suas ideias num registo cómico) eis dois livros que nos falam claramente da fragilidade dos nossos rumos e da importância de nunca cessarmos uma reflexão constante sobre as nossas fraquezas e a exploração

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A abelha perdida de Norman Mailer

Pequena abelhinha que chafurdas na poeira da esburacada alameda, incapaz de encontrares o caminho para casa: fizeste-me lembrar de Norman Mailer. *

A reminiscência é menos descabida do que parece se tivermos em conta que o seu derradeiro livro poderia adequadamente ter recebido o subtítulo de Lições Indecentes de Apicultura Austríaca Para Jovens Ditadores Monotesticulares. Mais abaixo falarei da narrativa; por agora basta avançar que o enredo torneia as vidas de Alois e Klara Hitler e que o autor se detém prolongadamente sobre a criação e nutrição de enxames de abelhas por um antigo funcionário imperial das alfândegas (com uma pequena ajuda de um velho sujo e rebarbado que assedia os filhos do casal). O cuidado que Mailer dedica a esses pequenos bichinhos e ao efeito que o seu labor desesperado exerce sobre a estranha família de Hitler não deve surpreender pela sua inusitada ternura: bastará recordar que o emblemático prosador americano sempre se dividiu – por vezes desigualmente – na caracterização feroz das maldades humanas e no acolhimento dos seus desejos mais puros. Talvez tenha sorvido estas tonalidades de Lev Tolstoi, cuja Guerra e Paz confessou ler todos os dias em jeito de inspiração para o seu The Naked and The Dead, mas em todo o caso é-me impossível – a despeito da sua rochosa prosa – não ver em Mailer um grande humanista e um escritor dotado de enorme compaixão.

Joseph Heller revelou um dia a Kurt Vonnegut que se não tivesse sido pela Segunda Guerra Mundial teria seguido uma carreira na lavandaria a seco. A anedota é comentada por Howard Jacobson num prefácio ao inacreditável, superlativo, genial e tudo o mais Catch-22, em que o britânico se sai com uma frase particularmente feliz: “hard to imagine Philip Roth or Saul Bellow saying that, or even Norman Mailer who surely would have stayed in an aggressive line of work and been a prize-fighter or something similar if the writing hadn’t worked out“.

Mais do que propor a equação “ Norman Mailer = gajo lixado que não convém irritar “, Jacobson chama a atenção para o corpo da obra em que se incluem temas de particular tensão e agressividade como os cenários de guerra no Pacífico, a violenta degradação de um homem que assassina  e encobre a sangue frio ou o fracturante processo de condenação à morte de Gary Gilmore. Mesmo quando praticava mero jornalismo (e o jornalismo da sua geração foi tudo menos mero jornalismo), Mailer abocanhava com raiva e paixão esses factos e ocorrências que outros narravam com o mesmo enfado e rigidez dos comentadores desportivos ou do cansado narrador das actualidades televisivas. Basta vê-lo em 1975 quando, no Zaire, na noite carregada de leões, Muhammad Ali e George Foreman batem-se como dois guerreiros de ébano. Deste musculado confronto nasce The Fight, em que Norman Mailer supera a idolatria juvenil das estatísticas e dos livros de cromos para oferecer ao plano literário um fenómeno dignamente popular, rico em consequências e evidências sociais.

A última tarefa literária da vida de Mailer, e uma que estou convencido que vingará como das suas mais notáveis, consistiu na invulgar abordagem à vida desse “homem mais misterioso do século XX” a partir das suas raízes familiares. Trata-se do livro The Castle in the Forest e trata-se de Adolf Hitler. O título em português – numa manifestação incompreensível dos altos desígnios editoriais – é O Fantasma de Hitler (o que provoca diariamente levantamentos de cenhos em empregados fnacianos e bertrandianos idiotas que julgam que a pessoa está a demandar por uma qualquer versão do Mein Kampf).

A minha intenção ao começar este texto era o de comentar um artifício muito particular do livro e de o contrastar com uma outra criação predilecta. Mas comecei mal, a falar de abelhas e do Kurt Vonnegut, e por isso terei de deixar os excursos (ou as heresias) literárias para outra altura em que não tenha tanto trabalho acumulado e a reclamar a minha imperiosa atenção (vou ser despedido a este ritmo). De qualquer modo, foi útil adiantar caminho, sublinhando que The Castle in the Forest não versa directamente sobre a vida do futuro ditador nazi, antes se concentrando na sua degeneração moral infantil atracada em episódios da vida conjugal, desventuras da vida campestre e infelicidades da sociedade educativa escolar.

* Prometo que atiço um enxame de abelhas africanas esfomeadas ao primeiro que se lembrar de invocar uma qualquer referência explicativa neurocientífica e de a envolver num título muito engraçado com qualquer uma das seguintes palavras: cérebro, Descartes, neurociência, erro, Proust, qualia, cognição.

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O voo dos cisnes

Em Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, Aleksandr Soljenitsin alcança a notável proeza de redifinir politicamente o conceito de Gulag enquanto espaço colectivo de sofrimento individual – um labor impressionante que culminaria no seu Arquipélago Gulag. Se a publicação deste curto e perturbador livro bastou para que se recolhessem ao ridículo aquelas vozes ocidentais que menosprezavam a existência dos infames campos de trabalho forçado da União Soviética, outro ainda é o mérito de Soljenitsinn: o de abarcar num registo duro e sintético, feito de farpas e metal gelado, as grandes matrizes existencialistas que veiculam o sofrimento de um homem politicamente reprimido. Que Ivan Denisovich seja o escolhido não motivará qualquer reflexão prolongada: aquele homem é todos os homens, e no decurso dos seus dias assiste-se à impressiva convergência entre uma rotina maquinal destinada à sobrevivência e o poder inviolável que os momentos íntimos de liberdade pessoal reclamam para o indivíduo.

Se começo – não de forma inteiramente ligeira – por referir um livro russo publicado em 1962 para escrever sobre um livro sino-inglês de 1991 é somente porque ambos retratam a sobrevivência de dois substratos humanos sob o jugo dos dois maiores regimes comunistas do século XX. Cisnes Selvagens (Wild Swans) é a crónica de três gerações de chineses que atravessaram o conturbado século de todas as esperanças e todos os horrores num país em perene revolução. A autora é  Jung Chang, jovem chinesa da terceira geração radicada em Inglaterra, que assim empresta ao livro o sabor de uma crónica pessoal.

Num registo que hesita e tropeça nas convergências entre a biografia familiar, o romance histórico e o manifesto político, a autora vai traçando um linha de vida a partir da época da sua avó. A narrativa contempla os tempos da ocupação nipónica da Manchúria, num sóbrio e interessante conjunto de capítulos que esboçam a transição entre duas eras extremas, desde o quasi-feudalismo e os seus costumes milenários até ao promissor eclodir da nova ordem social dos Maoístas. A mãe de Jung Chang é todavia quem recebe maior atenção, descrevendo-se detalhadamente o progresso de esforços, ilusões, desilusões, graças e desgraças associadas ao Partido, de que os seus pais eram evidentemente militantes acérrimos. É o período da simplesmente denominada Revolução, algumas décadas de história infame e eternamente mal explicada. Mao Tsé-Tung (ou Mao Zedong, para que não eu não passe por demodé no importante báculo do revisionismo transliterativo!) expurga a China dos maléficos capitalistas do Kuomitang, forçando Chiang-Kai-Chek a exilar-se em Taiwan. No poder – ou nunca demasiado longe dele – pretende que a China dê um Grande Salto Em Frente, decerto inspirado pelos muito mais inteligentes planos quinquenais soviéticos e pela NEP de Lenine. Declara então que todo o bom comunista deverá produzir aço, muito aço, aço acima de tudo.

Se a imagem caricata de uma China que abandona os campos, a indústria e a educação para alimentar estupidamente alguns magríssimos fornos caseiros é tragicamente cómica, lembremo-nos de como a imbecilidade política desse Grande Timoneiro resultou na desgraça da população geral. Jung Chang desconstrói o fenómeno mais exaustiva que inteligentemente, sendo frequentes os saltos de lógica nas suas constantes sentenças. Quando aborda as fomes que vitimaram um número horrendo de camponeses, por exemplo, refere as deficiências colectivistas da agricultura, esquecendo-se de dedicar igual atenção e entusiasmo por factores tão diversos como as grandes secas de 1960 no norte, as violentas cheias do sul, o final da guerra da Coreia e a desmobilização do exército, ou a evolução demográfica dos núcleos populacionais rurais, entre muitos outros catalisadores. Ao invés, o leitor é constantemente presenteado com quadros simplistas de imputação dolosa muito geral, com evidente prejuízo para o registo que nesses momentos assume a pretensão de um estudo ponderado e referencial.

Central na hierarquia de valores surge a família chinesa, sobre cuja unidade de parentesco e espaço de protecção gregário são perspectivadas as atribulações políticas e sociais da China Maoísta. A revolução soviética deparou-se com um panorama diverso, onde a família – embora conservasse laços de união superiores aos das terras ocidentais – não era a força motriz do desenvolvimento humano adulto nem nunca mais o seria da economia. A genealogia do livro apresenta-nos pois uma avó devota aos valores familiares. Já a mãe da escritora transporta a mesma mentalidade para o Partido, numa atitude reveladora do campo de eleição para o reformismo Maoísta. Quando tem de escrever ao Comité do Partido em Jianzhou a “pedir autorização para falar de amor”, a mãe da narradora não acha nada de estranho nisso, pensando “que seria um pouco como pedir autorização ao chefe da família”.

Mas quando o “patriarca” recusa e critica os enlevos amorosos do casal, a militante mãe é incapaz de aceitar a sentença com serenidade. Ela já não sabia – como soubera a avó – obedecer incondicionalmente, sem manifestações externas de desilusão. Embora não se aperceba disso, nenhuma força de vontade poderia fazer do  Partido o patriarca, enquanto chefe de família tradicionalmente chinês. No espaço de uma geração, destruíra-se o templo familiar para se empinar no telhado uma entidade politizada que não sabia comandar o mesmo respeito – embora pugnasse em redobrados esforços de atemorização.

A perda de uma nobre e linda continuidade familiar legitima a suspeita de que a China tenha renunciado à sua própria identidade. Espantosamente, a autora não tece o menor dos comentários a este assunto. O livro emagrece rapidamente perante a aparência de três grupos exclusivos de intervenientes: o casulo de Jung Chang (sempre oprimido) os comunistas (sempre opressores), e apenas muito ocasionalmente outras famílias vítimas, sem palavras para o desenrolar do quotidiano dos dias, das paixões secretas. Não é por devaneio que Soljenitsin aborda a rotina da opressão, nem despropositado quando – meras páginas adentro – gasta um parágrafo com o enfermeiro do Gulag que escrevia um livro às escondidas.

O comunismo soviético seduzia pelas promessas de igualdade espiritual que prometia, numa ficção de legiões populares instruídas e senhoras dos seus meios de produção. Era fácil assim pensar porque o centro da sua vida era o indivíduo, protegendo-se por extensão tudo aquilo em que o seu interesse tocasse. Sem o apego instintivo da família, a identidade russa foi sobrevivendo pela irmandade de vontades, pela poesia, pela resistência. Na China, destroem-se as barreiras de um terreno para além dos quais as pessoas – habituadas a erigir a família como núcleo açambarcador – nunca souberam viver.

Mas a grande crítica que oponho a este livro é que não me ensina nada sobre o modo geral de sobrevivência dos chineses durante o jugo comunista. A autora não me fala dos seus sonhos enquanto colectividade, na verdadeira extensão da crença no Livrinho Vermelho, ou muito menos dos seus pensamentos subterrâneos. As dúvidas existenciais dos seus pais assumem o primeiro e único plano, furtando-nos de termo possível de comparação.

A essência do descontentamento e os traços de reacção contra ameaças não são meras diferenças entre maoísticas e soviéticos: são essenciais para compreender como um e outro povo encara e resiste à adversidade. Quando quatro milhões de russos ficam cercados em Leninegrado durante o segundo ano da ofensiva Barbarossa, as bibliotecas permaneceram abertas, e em cantos escuros e frios declamava-se poesia. Os versos de Konstantin Simonov consolavam o espírito, da mesma forma que a Sétima Sinfonia de Shostakovic inflamava esperanças. Eliminemos os alemães, declarava-se, e depois poderemos regressar às coisas belas da vida, aos livros e ao amor.

Já a vida dos chineses é narrada no mesmo registo impassível quer se encontrem sob o jugo dos japoneses, do Kuomintang ou de Mao. Fica a noção – à qual a autora é insensível – de que ao povo chinês nunca foi permitido aceder a uma forma de cultura específica que os protegesse com a capa do escapismo e da identidade.

Mais exasperante isto se torna quando a autora não esconde as interessantes inflexões ocidentais na cultura deste povo (como a Madame Bovaryde Maupassant“). Duas linhas do obeso livro são dedicadas à descrição da corrente poética da Lua Nova, influenciada por Keats, ou então a Gorki – que podia ser lido às abertas durante o estalinismo. São dados fascinantes para alguém que sempre se habituou a ver a imensa China fechada sobre si mesma, com abruptas fronteiras a sinalizar uma igualmente precipitada quebra face à cultura do exterior. Uma mão editorial mais competente deveria ter urgido o desenvolvimento destes tópicos, com evidentes benefícios para o público-alvo ocidental. Em vez disso, Jung falha completamente, preferindo informar-nos que Le Rouge et Le Noir era considerado literatura erótica ou que os mistérios de Conan Doyle tinham muitos admiradores.

Esta vontade de exibir a sua ocidentalidade atinge o seu auge quando a autora se refere aos “chineses” como uma entidade estranha a si mesma. Os chineses acreditam que o peixe faz crescer as crianças, conta-nos; os chineses acreditam que onde entram gatos se encontra um lugar de santuário, eles acreditam nisto, eles acreditam naquilo, os primitivos. Mas quando se trata de referir os enganos de que foram vítimas, a autora inverte o discurso, julgando conveniente incluir-se nessa massa de oprimidos.

Conclusão, o livro sabe a pouco e fatiga muito, acumulando detalhes com a volúpia de um prontuário de fait-divers totalitários. Quando a autora não está demasiado entretida a procurar chocar o leitor a todo o custo com expressões do género “filha à venda por dez quilos de arroz” ou a mostrar fotografias suas nas ruas de Itália, produzem-se resultados interessantes e entreabre-se uma cortina para uma época que carece urgentemente de interpretação. Só é lamentável que ela seja incapaz de abrir a janela por detrás desse véu. O absurdismo experimental de Gao Xiangjian – bem como a espiritualidade das suas últimas obras – permanece consideravelmente mais destilável, deva embora sujeitar-se a uma interpretação retroactiva que extraia a quintessência da alma chinesa. Isto para não falar de autores que produziram importantes obras durante o período Maoísta, como Liu Qing ou Wu Qiang, verdadeiros timoneiros do povo que desejo um dia ler atentamente.

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O Arquipélago Gulag

“Resistance! Why didn’t you resist?” Today those who have continued to live on in comfort scold those who have suffered.

Yes, resistance should have begun right there, at the moment of the arrest itself.

But it did not begin.

And so they are leading you. During a daylight arrest there is always that brief and unique moment when they are leading you, either inconspicuously, on the basis of a cowardly deal you have made, or else quite openly, their pistols unholstered, through a crowd of hundreds of just such doomed innocents as yourself. You aren’t gagged. You really can and you really ought to cry out – to cry out that you are being arrested! That villains in disguise are trapping people! That arrests are being made on the strength of false denunciations! That millions are being subjected to silent reprisals! If many such outeries had been heard all over the city in the course of a day, would not our fellow citizens perhaps have begun to bristle? And would arrests perhaps no longer have been so easy?

In 1927, when submissiveness had not yet softened our brains to such a degree, two Chekists tried to arrest a woman on Serpukhov Square during the day. She grabbed hold of the stanchion of a street lamp and began to scream, refusing to submit. A crowd gathered. (There had to have been that kind of woman; there had to have been that kind of crowd too! Passers-by didn’t all just close their eyes and hurry by!) The quick young men immediately became flustered. They can’t work in the public eye. They got into their car and fled. (Right then and there she should have gone to a railroad station and left! But she went home to spend the night. And during the night they took her off to the Lubyanka.)

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E quando acabo de levanto os olhos do Gulag Archipelago, de Aleksandr Soljenitsin, reparo que já devia ter saído três estações mais atrás.

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