Category Archives: Devaneios

Flagrantes quinzenais

  1. Os momentos de consolação assistida (ou exterior) são sempre os mais divertidos. Refiro-me às situações em que as circunstâncias do caso parecem pedir algumas palavras de um de nós, ou então quando a nossa atitude faz com que outros se sintam na obrigação de laudar uma qualquer qualidade como forma de distracção dos principais problemas. O potencial para meter a pata na poça é gigante. E esta última modalidade sempre oferece o consolo de me deixar com o sórdido contentamento do ridículo a que me acho submetido durante o próprio processo de consolação. Para concretizar, digamos apenas que uma óptima versão deste género de argumento consiste na exaltação do valor da  companhia. Vamos ignorar que a outra pessoa pode não querer ser boa companhia, mas a ocasião em si mesma. Vamos ignorar que esse é precisamente o problema.
  2. Sobretudo, muito cuidado com a argumentação supra mencionada em dias de S. Valentim. Já me basta ter lido a história de Dafne e Apolo na véspera. O coração humano não aguenta tanto.
  3. Pela primeira vez numa década, participei activamente nas algazarras do carnaval, compondo uma vestimenta improvisada. Infelizmente, ninguém sabia o que era um poeta laureado nem nunca vira uma gravura de Dante ou Petrarca. Passaram o resto da noite a confundirem-me com um gnomo ou um imperador romano. Já alguma viste o Júlio de gorro, estúpido? As coisas descambaram pouco depois.
  4. Tenho feito progressos miseráveis no meu estudo dos clássicos. Queria passar já para os medievalistas ingleses e começar a formar a escoliose associada ao porte do Riverside Chaucer, mas a verdade é que ando distraído. Não ajuda que os meus vizinhos sejam mais barulhentos que uma horda selvagem de estudantes de ciências na biblioteca da FLUL durante a época de exames.
  5. Uma boa experiência: dei a ouvir a Waldstein e a Appassionata a algumas pessoas no decurso do fim-de-semana, enquanto estava atrás do volante e tinha monopólio sobre o programa musical. Um dos animais ficou completamente indiferente. Outros dois comentaram as peças e atribuíram-nas confiantemente a dois artistas completamente diferentes. Para evitar hemorragias cerebrais, apressei-me a trocar os discos. Mas no dia seguinte, uma última passageira disse, muito simplesmente, que estava a apreciar ouvir as sonatas. Não quero saber se as reconheceu: foi tudo o que bastou para me deixar feliz. Prometi-lhe tocar a Pathétique daqui a alguns tempos.
  6. Como a República me começou a dar uma dor de cabeça, interrompi a leitura e virei-me para as Metamorfoses. Já percebi que vou ter de reescrever tudo o que já aqui coloquei sobre Ovídio. Até lá, só posso sublinhar que experimento um inesperado prazer com esta leitura.
  7. Não era nada de extraordinário. Depois a dada altura reparei que os meus olhos se humedeciam: as lágrimas começaram a correr pelo meu rosto.” Foi assim que Arthur Rubinstein descreveu a sua primeira experiência com um concerto de Sviatoslav Richter, e só me apetece transplantar estas palavras para o meu entendimento das últimas três sonatas de Schubert (D958, D959, D960), as crepusculares, as derradeiras, as cíclícas. Mas também as esperançosas. Três dos momentos mais acutilantes de uma existência humana que, diante da sua própria obliteração, conjugou a universalidade da finitude com a elegância terrena da música.
Com as etiquetas , , , , , , , , , , , ,

São palavras que brilham

Dakruoen gelasasa, de brilho líquido e visco luzidio, que não soa a nada que eu conheça ou alguma vez tenha ouvido. Dakruoen gelasasa, que é como quem diz, da maneira como Andrómaca apertava Astíanax nos seus braços enquanto fitava o marido condenado. Que é como quem diz, sorrindo por entre lágrimas.

Por isso mesmo emprega Thackeray esta locução num capítulo da Vanity Fair intitulado Nascimentos, Casamentos, e Mortes (LXVII).  Sem nomear o Poeta directamente, ele permitiu que uma das suas personagens sublinhasse o ensinamento por meio de uma interjeição um tanto sonhadora, tão em voga nesses resguardados dias. Sorrindo por entre lágrimas é um instante da condição humana que se tem por imperecível, um estado de contínua ambiguidade que pode cobrir uma parcela ou uma vida. Por nascimentos, através de casamentos, e perante a morte.

Tenho ideia de que a mesma expressão é empregue por Helena, mas sou demasiado fraco para ler o original. A bondade dos tradutores terá de servir por agora, tanto mais que não foi capaz de esconder a suprema beleza desta imagem. Há palavras que insistem em brilhar, por mais que as ocultemos atrás de intertextualidades ou reinterpretações. Dakruoen gelasasa. Pois bem, é isso mesmo.

Com as etiquetas ,

Das onomatopeias e do riso, ou para a Catarina

— Agora podemos vê-la — disse o general. — Por favor, meu caro — dirigiu-se ao seu ajudante-de-campo, um jovem bastante lesto e de aparência agradável —, manda trazer a minha égua baia! Agora, vão ver. — O general tirou uma fumaça, soltou uma baforada. — Não está cuidada como devia: maldita cidade, não há uma cavalariça razoável. A égua (pff, pff) é bem boa!

— Então, há quanto tempo (pff, pff) Vossa Excelência tem esta égua? — perguntou Tchertokútski.

Pff, pff, pff… Ora bem, pff, não há muito. Há dois anos apenas que a comprei na coudelaria!

Então, e Vossa Excelência comprou-a já adestrada ou adestrou-a em casa?

Pff, pff, pff, ff, ff, pf…f… f… pff, em casa. Dizendo isso, general desapareceu por entre o fumo.

(…)

Parece-me, Excelência observou o coronel , que não há caleche melhor do que a vienense.

Tem toda a razão, pff, pff, pff.

Eu, Excelência, tenho uma caleche extraordinária, de verdadeiro fabrico vienense disse Tchertokútski.

Qual? Essa em que veio?

Oh não! Esta é a do dia a dia, para eu andar por aí, mas a outra… é espantosa, levezinha como uma pena; se Vossa Excelência se sentar nela tem a sensação, desculpe a expressão, de estar a ser embalado no berço pela ama!

Ou seja, é confortável?

Confortável? Muito: almofadas, molas, tudo como mum quadro.

Isso é bom.

 

Contos de São Petersburgo (A Caleche) – Nikolai Gógol

Com as etiquetas ,

Até Van Gogh

manstraw

Ou

“Até mesmo Van Gogh, no auge das suas neuroses, gostava seguramente de lamber um gelado de vez em quando.”

Com as etiquetas ,

Notas marítimas

Porque não escrever mais sobre o mar? Como conseguir não pensar nele? Vejo-o todos os dias, naquele rio que chega a ser mar. Porque não escrever poesia sobre ele?

But look!

here come more crowds, pacing straight for the water, and seemingly bound for a dive.

Strange!

Nothing will content them but the extremest limit of the land; loitering under the shady lee of yonder warehouses will not suffice.

No.

They must get just as nigh the water as they possibly can without falling in. And there they stand–miles of them–leagues. Inlanders all, they come from lanes and alleys, streets and avenues–north, east, south, and west. Yet here they all unite.

A invocação da densa prosa marítima de Conrad pareceria já supérflua depois dos trechos inaugurais que Herman Melville nos legou. Não seria sequer necessário situar a história no oceano: depois de tão admirável passagem, podem repousar-se as armas à sombra deste místico anseio exemplarmente vertido em palavras. Supérfluo, eis que aparece Tom Castro

(da História Universal da Infâmia)

onde se lê que

(…) sentiu o apelo do mar.

O facto não é insólito. Run away to sea, fugir para o mar, é a rotura tradicional inglesa da autoridade dos pais, a iniciação heróica.

A geografia recomenda-o e até a Escritura (Salmos, 107):

«Os que se fizeram ao mar nos seus navios

para comerciarem nas grandes águas,

esses viram as obras do Senhor,

e as suas maravilhas no alto mar.» (…)

Dizer tão pouco sobre algo tão belo, ser tão vago sobre vagas tão definidas como o ondulação ou o horizonte azulino. Absurdo desejo, este, o mar! A unidade impossível do homem com a vastidão dos oceanos?

A ideia é apaziguadora e comovente; une o finito àquilo que parece não ter fim, e antes que fira por ser trágica revela-se impossível. A própria linguagem opera uma melíflua derrota no sonhador: sobre o mar, on the sea, sur la mer. Não dentro, nunca in, jamais sous.

Ingénua e maravilhosa é a abertura de Moby Dick, a reivindicação das altitudes de Ishmael assentes numa fruição tão superficial quanto a navegação das tábuas do Pequod sobre as desejadas ondas. Just a sailor: o desplante de uma casca de noz! Ele não é o fragor das águas, ele não é Moby Dick. Nem sequer é Ahab, que une a sua obsessão ardente às ondas cadentes e vive para sempre. É um simples homem em cima do mar (como todos nós, se tão longe chegarmos).

By reason of these things, then, the whaling voyage was welcome;

the great flood-gates of the wonder-world swung open,

and in the wild conceits that swayed me to my purpose, two and two there floated into my inmost soul, endless processions of the whale, and, mid most of them all, one grand hooded phantom, like a snow hill in the air.

Com as etiquetas ,

Grande vitória

Por ocasião da entrega de um requerimento executivo fora de prazo, consegui inesperadamente interessar uma colega do trabalho a ler O Aleph.

-António (a corromper jovens advogados desde 2008, um livro de cada vez)

Com as etiquetas

Almoçar em Pripyat

Dúbia honra assiste ao lisboeta que se aventure pelas ruínas do Parque Mayer.  No coração da cidade estende-se a nossa própria Zona de Alienação, que em obediência aos nossos caracteres sociais foi votada ao abandono pelo desleixo e pela incúria em vez de pela ambição ou a radioactividade.

Nenhuma recordação me une a este local, nenhuma memória me compele a assombrar as suas calçadas rebentadas. Até há duas semanas atrás, nunca lá tinha entrado. Mas ocorreu que fosse convidado para um almoço num dos poucos restaurantes de bairro que ainda estrebucha por exercer a sua arte declinante no seio deste destroço de cimento. A viagem obriga-me a passar por debaixo de um arco quase em ruínas, ao lado de habitações cujos tectos desabaram secamente sobre o interior das paredes. Gatinhos selvagens correm pelos cantos e aparam as garras nas trepadeiras que reclamam as muralhas do recinto.

Os teatros, esses, são como velhas fábricas soviéticas deixadas ao relento numa noite demasiado fria durante longos anos. As janelas estão estilhaçadas, e grossos pombos escuros como corvos  aguardam os intrusos, alisando as suas penas ao sol. O estuque é mais paciente do que a tinta, cuja pintura exterior vai descascando com languidez.

O restaurante tem janelas, mesas confortáveis, boa luz e boa comida; uma surpresa. Não tem vista, apenas a paisagem de um recinto que foi arrastado através do tempo, vítima de algo que ninguém sabe precisar. Imagino o viajante incógnito de Shelley a aventurar-se pelo parque de cimento e viaturas, as únicas ocupantes do recinto. Em vez de um mapa, segura um guia de viagens com uma imagem da Torre de Belém na capa, e em vez de um cantil tem consigo um contador Geiger. Em vez do deserto, o cimento.

Enquanto os meus amigos conversam alegremente à saída do estabelecimento, a refastelada e improvável refeição é insuficiente para me afastar daquela estranha contemplação em meu redor. Penso em silêncio.

Nothing beside remains: round the decay
Of that colossal wreck, boundless and bare,
The lone and level sands stretch far away.

Un matin du monde

Descia as velhas calçadas que escorrem da antiga Sé até às margens do nosso rio, negociando vielas adormecidas e rampas retorcidas. Soava no meu íntimo a Primeira Sinfonia de Mahler, a sinfonia dos dois começos, e as palavras do Aleph perpetuavam os seus ecos nas asas da minha mente.

Mas ao chegar ao rio, que um vento ambivalente percorria com a indecisão de uma época sem estações, nada mais que o simples contentamento do tempo e do espaço me invadiu. Depus as minhas maquinações, a gestão da minha agenda criativa, as formulações alternativas de frases e versos, as platitudes laborais do dia seguinte ou o encontro com um amigo daí a algumas horas.

Percorri a gincana de um Terreiro do Espaço esburacado e acidentado e enfaixado por tapumes – sacrifício da terra em prol do mar – e desemboquei na praça do município. Por essa altura, já me tinha dissolvido nessa estranhíssima realidade dissolúvel que pertence apenas à minha cidade.

Observação do interlúdio

Estou a meio do almoço e surge uma ameaça ao meu despreocupado intervalo. A sombra encontra-se lançada: na mesa ao lado, um sujeito desagradável repasta-se na companhia de uma senhora que não lhe aparenta intimidade. São colegas de trabalho e, pelos seus gestos e porte, ressalta que ele será um ligeiro superior na hierarquia da empresa ou da repartição. Fala, por isso, com uma desenvoltura emprestada pela sua posição, visando impressionar e conquistar.

Dentes arreganhados, com uma voz arrastada na sua rouquidão inconvenientemente alta. Um nó de gravata tão desleixado como solto, espalmado, sem sentido. Não se percebe se quis enveredar pelos abatatados caminhos de um Windsor; é inútil esta linha de observação. A infelicidade convola-se em curiosidade, e afinal descubro algo com que me entreter enquanto saboreio o pastoso bolo achocolatado e o vital café cheio.

Chega o empregado, em busca de uma sobremesa. Que desejam, senhores? Solicita-se uma enumeração das doçarias. O fulano escolhe uma e pergunta à sua companheira o que deseja. Ela dirige a palavra ao empregado: não desejo nada, obrigada. O fulano não resiste, vira-se também para o empregado e profere bruscamente ‘Ela não quer nada’. Que será maior, naquela mesa, o seu ego barrigudo ou a indelicadeza com que ignora a existência da sua companheira para o exterior?

Chega o momento do café. Pedimos? ‘Não é obrigatório beber café’, diz, quando ela se mostra reticente. Que gracinha, que parvoíce.

Chega a conta. O fulano pretende aproximar-se de um vago conceito de cavalheirismo de que ouviu falar algures. Diz que fica bem. Resgata a conta com um gesto tão teatral como grosseiro. Pago eu, pois sim. E logo, destruindo a sua própria amabilidade, brinca às escondidas com papel amarfanhado. ‘Queres saber quanto foi? Não digo’. Tira uma nota de 50 para pagar uma refeição dupla de 20. Aproveito a deixa para saldar a minha própria dívida e cumprimentar os amigáveis patronos do estabelecimento. Boa tarde, cumprimentos, e até à próxima.

Travessia do Largo do Rato, labiríntica em passadeiras e semáforos. Sob o sinal vermelho, uma velhinha impaciente começa a atravessar a estrada, para logo recuar apressadamente diante da visão de um bólide cortando as manchas de água no asfalto. Olho para ela e não resisto a sorrir. ‘É importante saber esperar’, digo.

Recebo um sorriso de volta, muito aberto e efusivo. E não é que é bem verdade. Verifico, com um certo alívio, que minha observação – afinal arrogante (ensinando a uma decana os méritos da impassibilidade perante a passagem do tempo!) – não foi recebida com desprazer. ‘Esperei duas vezes nove meses pelos meus filhos,’ confessa. E logo acrescenta, numa explosão de alegria:

‘E são a minha riqueza! Um bom ano para si!’.

Um bom ano em Fevereiro! Magnífico! Portador de um sorriso fechado. pondero sobre isto enquanto trepo a São Filipe Nery ou Neri (“na verdade, ninguém sabe”). Entro na Trama e saio pouco depois, enriquecido com Hölderlin e Lispector. Um par de livros embrulhado num pacote de papel, o rico filigrana da livraria a servir de orgulhoso farol no meu regresso ao mundo empresarial. Desço então o Salitre, e penso que gosto de livros embrulhados em papel, em vez de penduricados em sacos plastificados. Como o invólucro quentinho feito de papel crepitante que aconchega um generoso pão acabado de fornear. Alimentos para a alma, je m’attends à vous, nourritures!

Com as etiquetas , , ,

Piadas sobre porquinhos

I learned long ago, never to wrestle with a pig. You get dirty, and besides, the pig likes it.

(George Bernard Shaw[?])

A arte e a maneira de falar sobre nada

Comment parler des livres que l’on n’a pas lus?

D’abord, il faut ne pas aborder assuntos que sejam demasiado concretos, como pormenores ou episódios. Pense-se em todas essas grandes ideias que originam de uma interpretação – não digo superficial – global e desenraizada. E sobretudo, é imprescindível evitar a falácia dita intencional (ou de intenção, ou de autor, como talvez seja correcto).

Um ponto seguro é falar do autor, e não da obra. Impressiona quando conseguimos introduzir o autor, qual peça de puzzle rebelde, numa cornija que tenha o nome pomposo de uma corrente literária ou uma escola de pensamento. ‘Já leu Vassilievitch Kharazimov? A sua propensão para o pós-simbolismo nacionalista da segunda metade do século XX chega a antecipar os traços mais pronunciados do moderno realismo nórdico’.

Não há saída possível. Se o interlocutor não souber nada de Kharazimov, terá forçosamente de concordar. Ou, reconhecendo a sua lacuna de erudição, pode suplicar uma clemente explicação que verse sobre o enquadramento temático do escritor. Nesse caso, a aposta já se encontra ganha: bastará abreviar a conversa e lançar algumas generalidades sobre (i) o autor; (ii) a época em que viveu e o contexto político; ou (iii) um qualquer seu pensamento mais controverso, com que se possa desviar a conversa. Em nenhuma circunstância se deverá falar sobre a sua obra ou algum dos seus temas mais importantes.

E se o interlocutor for um indivíduo entendido na matéria, não desesperar! Aliás, melhor ainda que o seja. Pois então, ciente de que tudo, mesmo nos mais altos círculos académicos é inteiramente subjectivo e sujeito à aposição de fórmulas como “salvo melhor opinião”, “entendemos que” ou o clássico “a doutrina diverge”, não se atreverá a contestar liminarmente a sua posição. Pelo contrário, recolherá essa opinião com apreço, dignamente impressionado. Não há que desesperar se ele fizer uma cara feia de reprovação: quanto mais embaraçado se encontrar mais descontente parecerá. E não deixará de desvendar essa mesma ideia numa próxima reunião de amigos, com imensa modéstia e um brilho de genialidade nos olhos.

Regressando ao título do livro (sim, porque tudo isto tem que ver com um livro sobre como falar de livros que não se tenha lido), importa dizer que Pierre Bayard, académico de alto nível, convive com as mais iluminadas mentes e não desconhece as técnicas aptas a ofuscar os seus pares e invoquem um sentido profundo de respeito. Não é difícil conceber como uma pessoa se pode enfastiar após longos anos sucessivos de convivência com os seus pares. Como eu compreendo o cansaço que resulta de ter de se impor constantemente! Consideremos, finalmente, o academicismo gaulês e os círculos fechados das universidades francesas. Não imagino que sejam não sejam meios exactamente amigáveis. A imagem de um covil de lobo chega a aflorar à mente sequiosa de sangue e conflito catedrático.

A fechar esta entrada,quero apenas que reconhecer que nem sequer li o livro de Bayard. Queria tê-lo lido, queria tê-lo comprado: tantas vezes passei por uma ou outra bancada em que a sua capa e o título impertinente sobressaltavam em letras gordas sobre a alvura da composição editorial. Acho que cheguei a vê-lo na sua língua e edição original, o que muito me tentou. Mas enfim, come-se do que há, e assim aqui ficam algumas linhas sobre este livro (que não li), este autor (que eu não conheço para além de um ensaio sobre Proust) e sobre este tema (em que nunca pensara antes).

Que melhor homenagem se pode prestar a um tal livro?

Com as etiquetas

Cansaço

As pessoas com personalidades fortes fatigam-me. Estou cansado de lidar com estes seres de olhar fixo e voz segura.

Sorriem pouco. Parece que o fingimento da seriedade é o primeiro passo para a aparência da competência. Que frontes tão adultas, preocupadas! Que albergarias de importâncias! Que mentes enraizadas nos assuntos solenes da nossa terra! Oh, ele há questões terríveis, terríveis!

Sonharão eles com ovelhas eléctricas?

E depois há o séquito, as almas boas que se transmutam nesta realidade opaca e seca. Personalidades carinhosas e brilhantes mas tragicamente porosas a esta bruma de apatia e segurança. A dor de testemunhar o desaparecimento gradual de uma pessoa, espécie de desvanecimento voluntário, sem propósito.

Ah, fatigam-me. Não sei lidar com esta gente. Não sei aparentar antipatia sem rudeza.

O Inverno regressa

Ocorreu-me que se eu conseguisse subjugar esta inesperada recaída no spleen tenebroso a que sazonalmente me entrego como um escravo, que se eu conseguisse comandar com segurança ou paixão esta magnífica energia melancólica que tem acompanhado os meus últimos dias, então teria já realizado encaminhado bons esforços na realização de tarefas e obras de que muito me orgulharia agora. Digo isto no tom mais abstracto e difuso possível. Hélas, as horas do dia encontram-se usurpadas pelas vivências inconsequentes de tarefas meniais, profissionais, abjectas! Eu sou inferior porque não desejo o suficiente para ser outra coisa. Não há para mim qualquer interesse. Não há em mim qualquer interesse. Oh homem do subterrâneo, que te pasmas com a ligeireza das felicidades simples das gentes de fora! Mas qual é o seu segredo? O seu entusiasmo não é o meu.

Intencionava escrever sobre a crise da insensibilidade que trespassava, sobre esse gélido manto que insistia em amassar os meus sentidos e me roubava do tacto necessário para explorar o drama humano. Encontrava-me preocupado com essa apatia.  Eis que agora sinto tudo, incluindo os ululantes frémitos de paixão que me levam à loucura e ao sofrimento. Nunca mais! Estava a ver que nunca mais! Jurei que nunca mais! Nunca mais juro! Afora com esta Fera Amansada! A coisa é séria: já começo a escrever como um adolescente em tempos de solidão. Aglomerado de emoções dolorosas, benvindo sejas no teu regresso.

Porque não consigo fazer nada com toda esta desolação? Tenho livros inteiros para escrever. Diálogos consecutivos aparecem-me perante o olhar, ensaiam-se nos meus ouvidos. Gestos são desenhados, abundam as bifurcações. Quebro-me em sorrisos quando idealizo uma frase especial, perfeita, sonante. Revejo passagens de grandes livros. No outro dia quase desbraguei em gargalhadas quando me recordei da imagem de Akaki Akievitch a puxar um sobretudo das costas de um transeunte nocturno aterrorizado, com os olhos muito esbugalhados. Depois chego a casa e reparo que preciso de escrever sobre o jornalista checo, sobre o meu louco de Praga. Sobre Armand de Givres e o seu traiçoeiro amigo, sobre aquele indiano que, contra o breu de um rio africano silencioso, me ensinava os derradeiros segredos da sua casta e me expunha a sua natureza ontológica. Preciso de completar o meu conto sobre o diário circular, tributo fraco ao Zahir e ao Livro da Areia. Ainda não acabei a fábula de Urbino, ainda não iniciei o estudo do meu monarca fiorentino e a ária da sua queda. Tenho ideias para a peças de teatro, a exploração da temporalidade, a angústia do fingimento incontrolável e horrosamente consciente. Queria ter rehabilitado as Efemeridades Electivas antes das fogueiras do Natal. Mas para isso preciso de ler Williams, digo. Para os outros preciso de reler Borges. Como posso terminar um certo conto sem Gide? Yeats chama por mim, as brumas do seu pensamento imiscuindo-se nas horas dormentes. Ivan Illitch está para morrer há alguns meses; Pushkin já teve tempo de lhe dedicar três poemas. As construções queirosianas reflectem o que eu não sei de Flaubert. Eu acuso! A minha reverência definhante de Stendhal, o chamamento de mitos antigos em línguas que eu nunca saberei ler.

Eu é que ainda não percebi que isto é infindável. Tenho uma capacidade admirável para a ilusão. Sempre foi o meu maior traço; o escapismo a todo o custo, a destruição suave, o adormecimento dos meus sentidos, a crença de que tenho força e que esse poder chegará para os dias de amanhã. Eu ainda hei-de aprender. Mas tenho ainda de perder tudo e, acima de tudo, enterrar a minha tremenda arrogância no solo de estepes frias e ignotas.

A volta fantasma

Há quem acorde de manhã e, ao cheirar-lhe a pão quente, venha a notar que o seu nariz partiu, inesperadamente, e que agora deambula pelas ruas de São Petersburgo, abordando uma caleche em direcção ao estrangeiro. Hoje, mais simplesmente, acordei e pude constatar que tinha sido eu próprio quem tinha partido, uma hora antes. Uma réstia do meu ser havia ficado para trás, dormente na cama, indolente com a preguiça autorizada da hora que se atrasara.

Pode parecer insignificante, um recuo horário institucionalizado. Mas numa vida concertada e rotineira, esse pequeno salpico no grande lago do tempo provoca o nascimento de um decálage influente e de contornos surreais. Não estarei louco ao afirmar que as pessoas, na rua e nos percursos do dia, me perscrutavam com um olhar vazio de estranheza. Fazia todo o sentido: estavam perante uma sombra da minha pessoa, um conjunto de traços borrados, como se a lente dos seus olhos fosse uma objectiva de lenta obliteração, incapaz de aprisionar no tempo um movimento contínuo rápido.

Na verdade, eu já tinha passado por aqueles locais e eles já me haviam notado. E, todavia, não tinham sido eles a ver-me mas sim as suas próprias pessoas de uma hora antes. Para nós, as sombras deslocadas, restava apenas a vaga memória de uma existência já vivida e esgotada. Nenhuma novidade, nenhum brilho, nenhum pasmo nos estava reservado. Apenas a caminhada certa, por cima de passadas familiares.

Só a passagem do tempo conseguirá esbater o interregno temporal que impende sobre os meus passos, fazendo-me reencontrar aquele que prossegue, à minha frente. O meu id futuro esmorecerá, privado da vitalidade do ser que agora se arrasta uma hora atrás. Que fará ele, nesse próximo futuro, que possa subsistir por si mesmo? Que pessoas conhecerá e que eu nunca verei? É demasiado assustador pensar numa coisa semelhante.

Tempos futuros, enfraqueçam estas palavras

Lúgubre a luz que não sobrevive no meu coração. Se há que encarar a morte de frente após o comovente Adriano, há que saber lamentar, urdir uma resignação, nunca desesperar compreender. Há um pesado fracasso em todas as minhas palavras: o de não só nascerem débeis perante a vaga de emoções que as germina mas também aquele que irrompe da fatal e desfavorável comparação perante os textos que acabo de transcrever. Surgem-me tão cristalinos e humanos. Contêm uma clareza arrebatadora que se esvai em poemas e ilude algumas das mais inspiradas obras que possa encontrar. Doce é a opressão de não me saber à sua altura; ardente é o desejo de me votar ao absurdo que seria conseguir fazê-lo para depois me achar na mesma posição que imobiliza e frustra todos os homems que jamais terão deitado tinta a papel: de que nada existe que eu, caminhante do destino, viajante magnífico, possa aprender sobre o inexorável e a mágoa da morte.

Eu sou som, eu sou fúria. Eu sou a emoção das horas vazias e das declarações mudas. Sou o frémito incandescente de sentimentos que não sabem revelar-se, que elegem perecer entre mornas palavras de frágil construção. E extinguir-me-ei como uma vaga do oceano que se lança sobre baixios luzidios, impetuosa na confiança de que uma outra a seguirá! mas traída em tão terna crença quando vislumbra a calmaria que a sucede.