Category Archives: Da Vida Inconsequente

Ars amatoria

É a ligeireza, a cumplicidade, é a identificação total, mútua. Ninguém nos pede que dancemos assim, mas a felicidade tem de estar nestes olhares cruzados e risos partilhados. Doce carpe diem que preenche e acrescenta, disse-me.

Penso que o deslumbramento e o corrupio serão mesmo estes.

Com as etiquetas , ,

A vertigem da vida medida em poemas

Devemos ignorar um poema simplesmente porque é popular? Ler o Canto V do poema Marmion, de Sir Walter Scott, tem sempre a força de uma descoberta, com a célebre estrofe 17 a encabeçar a surtida.

Had I but fought as wont, one thrust
Had laid De Wilton in the dust,
   My path no more to cross.
How stand we now?—he told his tale
To Douglas; and with some avail;
   ‘Twas therefore gloomed his rugged brow.
Will Surrey dare to entertain,
‘Gainst Marmion, charge disproved and vain?
   Small risk of that, I trow.
Yet Clare’s sharp questions must I shun;
Must separate Constance from the nun –
Oh, what a tangled web we weave,
When first we practice to deceive!
A Palmer too!—no wonder why
I felt rebuked beneath his eye:
I might have known there was but one
Whose look could quell Lord Marmion.”

A resposta à primeira pergunta é obviamente não, sendo certo que a popularidade de um poema introduz distorções na sua interpretação. “Popularidade”, aqui, é naturalmente um conceito móvel, porque se o Marmion já foi famoso, só dois versos ali em cima perdidos restam no imaginário popular – “Oh, what a tangled web we weave, / when first we practice to deceive!” Estes sim, famosos, antes e depois, podiam originar determinados comentários: “o quê? A Rendição da Luz, bastião do rebuscado, a assinalar um poema popular e que metade da população inglesa declamava  há algumas décadas? Bem, aquele António entrou mesmo em declínio. O que se segue, os Beatles?

A little more than kin, and less than kind, ou talvez mais Dylan e Cohen, se tivesse de escolher. Seja como for, na semana passada pensei em escrever um texto mais ou menos longo sobre o Marmion em rapidamente percebi que a minha preocupação pessoal não era tanto fazer um excurso sobre os temas envolvidos mas ressalvar que o meu conhecimento deste poema não se devia ao facto de ter crescido numa biblioteca poeirenta sob os auspícios de uma governanta inglesa e um pai de nome Eustace Mandeville Wetenhall Tillyard ou algo de semelhante.

Por mais estranho que pareça, a primeira vez que ouvi estes versos foi numa comédia americana dos anos dourados de Hollywood (o Wonder Man, de 1945, com Danny Kaye e a linda Virginia Mayo, o que, pensando melhor, é capaz de ser ainda mais comprometedor para a minha imagem do que a versão da biblioteca poeirenta de Thrushcross Grange com uma primeira edição do Marmion). O filme, que até é bem divertido, coloca Kaye a interpretar o papel de dois irmãos gémeos (Dingle, o intelectual, e Buzzy, o boémio), com as confusões inerentes à troca de papéis abrupta que a morte do segundo provoca. É assim que, saturado de ansiedade, Dingle declama os versos acima referidos enquanto sai de plano (há um vídeo no Youtube, e esta cena está no minuto 7:00).

Poder-se-ia escrever um longo ensaio sobre a atitude do feliz ajudante dos bastidores que, oprimido por uma vida de labuta diária sem sentido, encontra a sua comoção na poesia de Sir Walter Scott e reconhece instintivamente uma das passagens mais célebres do cânone ocidental. Tudo isto a propósito de um poema que nos conta a história de uma trama amorosa no contexto de um dos mais bizarros episódios da Guerra da Liga de Cambrai (a par das alianças-gelatina de Veneza, do esquizofrénico alinhamento do Sacro Império Romano, e do oportunismo do Duque de Ferrara, cada qual mudando mais vezes de mãos do que um mercenário suíço no século catorze).

Ora se, na semana passada, os versos regressaram de um canto sináptico escuro do meu crânio e me atingiram como um soco, a verdade é que a vida progride muito mais rapidamente que a leitura ou a memória de poesia, de tal modo que, Berenice ultrapassada, o mote de hoje é mais tributário de Dorothy Parker. Esta, mesmo a brincar, acaba por dizer tudo, rindo com uma lágrima no canto do olho, atordoada de álcool. Em A Very Short Song, o habitual lamento – juvenil, mesmo: Once, when I was young and true, / Someone left me sad- / Broke my brittle heart in two ; / And that is very bad – desemboca numa radical inversão de sentimentos, como se Parker tivesse surpreendido um espelho depois do primeiro verso e caído em si. Enceta dois aforismos, encontra uma conclusão:

Love is for unlucky folk,
Love is but a curse.
Once there was a heart I broke;
And that, I think, is worse.

Tinha um Portable Dorothy Parker que ia oferecer a Berenice se os meus melhores planos se tivessem concretizado. A fatuidade amorosa tem destas coisas. Mas que raio passou pela minha cabeça? Ridículo. Felizmente, os melhores planos urdidos por ratos e homens são facilmente gorados pelo imprevisível e pelo inconstante, de tal modo que a vida real avança a um ritmo muito superior ao dos significados que vou descobrindo na poesia. E sempre fiquei com o meu Portable Dorothy Parker, de que gosto mesmo muito.

A simplicidade dos últimos dois versos do A Very Short Song é atroz. Parker-a-vítima (poder-se-ia dizer, o artista-vítima, cujas perspectivas dolentes informam o acervo de muita poesia e música ocidental) queda-se por um momento e reflecte no passado. É mau sofrer – ora que grande platitude! – mas porventura é muito pior fazer sofrer ou, voando com o último verso – muito mais doloroso escolher fazê-lo. Se tivermos o conhecimento da primeira realidade, decidir infligir a segunda é suficiente para nos manter insones durante alguns dias.

Com as etiquetas , , , , ,

Mais um regresso

É altura de regressar, mas também de resistir e até combater contra o impulso de deserdar todas as palavras que se aninham no passado. Mais fácil mudar de template, aqui para a casa, mais fácil ir revendo as ligações, pouco a pouco, mais edificante viver com o desconforto daquilo que se escreveu no passado e que continua a informar o meu futuro. Estou com Leonard Cohen, e talvez com Pedro Mexia também: desconfiemos um pouco das ideias novas, até que delas precisemos.

Pequena diferença – só não me “corrijam” outra vez.

 

Recebi um bilhete, firmado por Tosca. Quando li a assinatura, estremeci de pavor, porque me passou pelo espírito a rival da Condessa de Attavanti, a assassina de Scárpia… Entrevi o punhal da bela amante de Cavarodossi e pareceu-me ouvir o trágico:

Questo è il bácio di Tosca.

Mas, qual história! Esta. em vez de admirar os quadros do seu amante, pensa como há de apurar os fricassés e apurar os môlhos. No meio dos seus cuidados culinários, volta-se para mim e, em vez do questo è il bácio, atira-me uma interrogação:

– «Qual é o plural de môlho? mólhos ou môlhos?» –

Ah! minha senhora. Vossa Excelência nunca viu decerto as pobres serranas avergadas sob os mólhos de lenha, galgando atalhos, pisando tojos… Vossa Excelência saboreia os seus deliciosos môlhos, se é que os não saboreia também algum Cavaradossi da Rua dos Fanqueiros. Os mólhos pesam, os môlhos sabem bem, muito melhor que questo bácio di Tosca.

Cândido de Figueiredo

Falar e Escrever – Novos Estudos Práticos da Língua Portuguesa, ou Consultório Popular de Enfermidades da Linguagem, Vol. II – XCII, 1954.

Com as etiquetas

Tenho feito muito tribunal ultimamente

 

CORREGEDOR

Ó senhor procurador!

PROCURADOR

Beijo-vo-las mãos juiz,
que diz este arrais que diz?

DIABO

Que sereis bom remador,
entrai bacharel doutor
e ireis dando à bomba.

PROCURADOR

E este barqueiro zomba?
Folgatais de zombador?
Essa gente que hi está
pera onde a levais?

DIABO

Para as penas infernais.

PROCURADOR

Dixe! não vou eu pera lá
outro navio está cá
muito milhor assombrado

DIABO

Ora estais bem aviado,
Entrai muiteramá.

CORREGEDOR

Confessastes-vos doutor?

PROCURADOR

Bacharel sou, dou-me o demo
não cuidei que era extremo
nem de morte minha dor,
e vós, senhor corregedor?

CORREGEDOR

Eu mui bem confessei
mas tudo quanto roubei
encobri ao confessor.
Porque se o não tornais
não vos querem absolver,
e é mui mau devolver
depois que o apanhais.

DIABO

Pois porque não embarcais?

CORREGEDOR

Quia esperamus in Deo.

DIABO

Embarquemini in barco meo
pera que esperatis mais?

 

Gil Vicente, Auto da Barca do Inferno

Com as etiquetas

Promessa

Mas cuidado, milady, não se afoite,
Que hão-de acabar os bárbaros reais;
E os povos humilhados, pela noite,
Para a vingança aguçam os punhais.

Césario Verde

(Deslumbramentos, O Livro de Césario Verde)

Com as etiquetas ,

Schadenfreude

A inoperância de um prazer tão culposo como a Schadenfreude torna-se desagradavelmente óbvia quando estamos a falar de um poeta como William “Topaz” McGonagall (1825-1902). Este homem,  escocês nascido em Dundee, veraz amante de alta cultura e admirável auto-didacta considerando o meio em que nasceu, é hoje tido como o pior poeta que a língua inglesa já conheceu. Em vida, foi ridicularizado e enxovalhado por todos os que entraram em contacto com a sua obra ou as suas entusiásticas declamações. Em morte, adquiriu um estatuto de peça curiosa, de ave rara, ou de simples curiosidade domingueira que, nos triclínios de uma poltrona chuvosa, arranca sonoras gargalhadas à divertida alma que folheia um dos seus livros.

Quase apetece dizer que há limites — ou pelo menos balizas — para a prática da chacota e o saudável exercício da crueldade. Afinal de contas, é importante recordar, seus bois, que vocês são seres humanos. Peço desculpa, estou a citar Jaroslav Hašek. O que eu quero dizer é que a crueldade só tem piada quando o objecto do nosso veneno é vulnerável às vituperiosas investivadas. Agora quando as nossas melhores invectivas resvalam na couraça da indiferença o praticante da chacota fica com a impressão de estar a ser realmente insensível e javardo. É a esta conspurcação moral que tão frequentemente se acoplam as convicções do género “eu vou parar ao inferno por causa disto“.

Esquematicamente, a coisa processa-se assim:

  1. -> Sabemos que rir de X é errado;
  2. -> Queremos rir a todo o custo;
  3. -> Recordamos que rir de X está errado;
  4. -> Rimos animalescamente;
  5. -> Depois acendemos um cigarro;
  6. -> Começamos a sentirmo-nos mal;
  7. -> Tentamos esquecer que afinal estivémos a tomar prazer na antecipação do nosso desconforto futuro (naquilo que é uma modalidade extremamente masoquista e reflexa de Schadenfreude).

É que estamos a falar de um homem que era abertamente gozado pelos “publicants” das tavernas de Dundee. Que foi recusado pela Rainha e julgou estar recebendo uma menção honrosa. Em suma, e inacreditavelmente, num “Poet and Tragedian” que nunca deixou de acreditar em si próprio e que sempre conseguiu arranjar justificações para o facto de o mundo não gostar dele, o que acarta duas consequências muito importantes para a filosofia contemporânea: (i) gozar com ele torna-se menos divertido, e até bastante porco, a partir do momento em que percebemos que ele estava a falar a sério; e (ii) da próxima vez que alguém vos disser que “o importante é acreditarem em vocês próprios“, façam uma cara séria e recitem o seguinte poema, essa magnum opus do Topázio MacGonagall, sobre a mítica ponte férrea sobre o rio Tay:

“The Railway Bridge of the Silvery Tay”

BEAUTIFUL Railway Bridge of the Silvery Tay !
With your numerous arches and pillars in so grand array
And your central girders, which seem to the eye
To be almost towering to the sky.
The greatest wonder of the day,
And a great beautification to the River Tay,
Most beautiful to be seen,
Near by Dundee and the Magdalen Green.

Beautiful Railway Bridge of the Silvery Tay !
That has caused the Emperor of Brazil to leave
His home far away, incognito in his dress,
And view thee ere he passed along en route to Inverness.

Beautiful Railway Bridge of the Silvery Tay !
The longest of the present day
That has ever crossed o’er a tidal river stream,
Most gigantic to be seen,
Near by Dundee and the Magdalen Green.

Beautiful Railway Bridge of the Silvery Tay !
Which will cause great rejoicing on the opening day
And hundreds of people will come from far away,
Also the Queen, most gorgeous to be seen,
Near by Dundee and the Magdalen Green.

Beautiful Railway Bridge of the Silvery Tay !
And prosperity to Provost Cox, who has given
Thirty thousand pounds and upwards away
In helping to erect the Bridge of the Tay,
Most handsome to be seen,
Near by Dundee and the Magdalen Green.

Beautiful Railway Bridge of the Silvery Tay !
I hope that God will protect all passengers
By night and by day,
And that no accident will befall them while crossing
The Bridge of the Silvery Tay,
For that would be most awful to be seen
Near by Dundee and the Magdalen Green.

Beautiful Railway Bridge of the Silvery Tay !
And prosperity to Messrs Bouche and Grothe,
The famous engineers of the present day,
Who have succeeded in erecting the Railway
Bridge of the Silvery Tay,
Which stands unequalled to be seen
Near by Dundee and the Magdalen Green.

Lindo! Bravo, Topázio! Que Whitman das Escócias! Que elegia à complexidade inoxidável da engenharia moderna!

Só é pena que a Ponte Sobre o Rio Tay tenha caído alguns dias mais tarde:

Beautiful Railway Bridge of the Silv’ry Tay!
Alas! I am very sorry to say
That ninety lives have been taken away
On the last Sabbath day of 1879,
Which will be remember’d for a very long time.

E parecia estar a ir tão bem…

Não sei o que é mais cómico: se as rimas, se o facto da ponte ter mesmo caído. Se calhar deveria estar zangado com McGonagall, visto que a sua poesia é tão má que transmogrificou a morte de algumas pobres dezenas de almas numa belíssima ampola de humor negro. E há muito humor no facto do poema estar escrito num tom irresistivelmente factual, com a pronúncia nivelada de uma notícia financeira, em tudo não muito diferente do tipificado “we interrupt this program to bring you a special announcement: the Railway Bridge over the River Tay has just collapsed. More on this at 9. We now resume our regular programing“.

Mas esperem. A dada altura, a população de Dundee, superando o seu luto e acreditando na inexorabilidade benigna do progresso ferroviário, foi enfim agraciada com uma segunda ponte sobre o Tay, uma sóbria ponte contra cujos alicerces se empurravam memórias tristes e pressentimentos ominosos, e sob cujos arcos esmorecia o caudal negregado das vítimas inglórias.

Esta seria realmente uma bela oportunidade para meditar sobre a fragilidade da construção humana. Quantos perigos e flagelos da fé inquebrantável na modernidade!

Mas que faz o nosso poeta? Sem a menor hesitação ou lealdade, depois de dois poemas sobre o mesmo assunto, desata a elogiar a nova ponte sobre o Tay!

“An Address to the New Tay Bridge”

BEAUTIFUL new railway bridge of the Silvery Tay,
With your strong brick piers and buttresses in so grand array,
And your thirteen central girders, which seem to my eye
Strong enough all windy storms to defy.
And as I gaze upon thee my heart feels gay,
Because thou are the greatest railway bridge of the present day,
And can be seen for miles away
From North, South, East or West of the Tay
On a beautiful and clear sunshiny day,
And ought to make the hearts of the “Mars” boys feel gay,
Because thine equal nowhere can be seen,
Only near by Dundee and the bonnie Magdalen Green.

Impecável. Não me admire que algumas vozes maioritárias já consideram que McGonagall obrou afinal com propósitos satiristas. Felizmente, acho que estão mesmo errados.

Com as etiquetas , , ,

O inevitável post-inspirado-nas-pesquisas-do-Google

Mudando de assunto, alguém veio parar a este blog depois de pesquisar por “tetrâmetro trocaico cataléptico“, o que me deixa vagamente perturbado (“fotos de mulheres feias“, “como fazer uma gincana empresarial” e “lunokhod” em cirílico costumam ser os meus maiores êxitos).

Sobre os contextos

No texto anterior fiz uma menção imperceptível à rigidez dos contextos e, por extensão, ao severo jugo que nos impõem. Estava na verdade a pensar num pequeno painel electrónico que me cativou a atenção no Centro de Arte Moderna de Santiago de Compostela, algures na noite granítica da cidade velha.

Por essas alongadas galerias compostas pelo floreado pulso de Siza Vieira, fui massacrado durante algumas horas pela exposição consagrada à fotografia de alguns dos artistas da chamada Escola de Boston. O termo é enganador e parte de um dos membros da própria “Escola”, um dos poucos ainda vivos (Nan Goldin). Os restantes foram ficando pelo caminho: suicídio e sida parecem ter as grandes causas de óbito de uma geração que teve o mérito de procurar fazer coisas inenarráveis com as suas fotografias através da representação de realidades indignas da película (o perigo embotador disto é que, para a minha geração, uma tal atitude é demasiado óbvia e, de tão pré-adquirida, convola-se um pretexto para não ser seguida). Mas foi uma incursão inesperada por algumas das fotografias mais conhecidas de Diane Arbus e Philip-Lorca DiCorcia, entre outros, incluindo o genuinamente perturbador Mark Morrisroe.

Todavia, era fora das galerias, escondidinho numa esquina da livraria térrea, que um painel empertigado propunha uma visão sobre a rotina e o contexto. Um corte transversal de um edifício de apartamentos e a rua à sua frente mostrava, em animação simplista, as vicissitudes diárias de um conjunto de habitantes e transeuntes. Via-se cada divisória: cozinhas, quartos, salas de aula, um ginásio, uma estrada e passeio, um sótão, e assim por diante. No alto, um pequeno relógio e uma nesga de céu com um sol ou uma lua marcavam as marés humanas. Pequenas figuras feitas de pauzinhos brancos ou pretos marchavam, viviam e morriam naquele quadro: o ciclo dos dias era ininterrupto.

O contexto é o elemento central da individualidade. Noção central. Só pela sua superação se atinge a dissemelhança que tantas vezes cumpre o traje da natureza genuína. Por isso, a mensagem não podia deixar de ser clara: aquelas figuras de pauzinhos não se alimentavam de volições ponderadas e depuradas dos elementos exteriores do espaço ordenado, mas antes como se fossem as próprias divisórias a narrar-lhes o que deveriam fazer.

Por vezes havia várias dimensões do mesmo contexto. Assim, uma divisória ditava um comportamento diferente dependendo da hora do dia ou da actividade circundante (rectius, da existência e “modo” das divisórias circundantes). No mesmo quarto, as personagens ou dormiam, ou liam, ou fodiam, ou preguiçavam, escravas da hora do dia. Mas nada mais. Ninguém dançava no quarto, ou escrevia uma carta na cama. Não se praticava ginástica na sala de estar. Ninguém fazia amor no terraço, ao sol. Havia sempre alguém a ver televisão (e praticamente todos o faziam a partir das 8 da noite – os solteiros demoravam-se mais). Naquela transfiguração do espaço como elemento externo compressor de vontades, tudo era mecânico, desapaixonado, sem sequer o propósito simplificador e funcional da rotina empenhada.

E no fundo isto é Édipo. Um magote de gente em plena posse da sua autonomia e livre-arbítrio que seguem nas tarefas pré-ordenadas de uma colectividade organizada em direcção a um final conhecido. Tudo o que dizemos, de um modo ou outro, é ironia e profecia.

O Coro pergunta-nos: Porque deveremos dançar?

E nós respondemos, sem vergonha: Não sabemos, Coro.

Com as etiquetas , , , , ,

Apologia do esquecimento

Têm razão os senhores da Natureza do Mal quando escrevem o que escrevem sobre as responsabilidades inerentes à manutenção de um blog. Pela minha parte, tratam-se de obrigações naturais, para usar gíria do meu quotidiano — puramente reflexivas — não exigíveis — talvez por isso mesmo, mais pesadas que as normais. Mas no fundo é preguiça.

Em todo o caso, as desculpas pela ausência, mesmo diante de um auditório vazio, são uma das muitas cenas que se tem de ensaiar ao longo da vida. A partir do momento em que o contexto principia a definir um homem (deixando eu de quebrar o conjunto para renunciar a individualidade) um acto como este torna-se quase expectável, obrigatório.

A justificação tem sempre que ver com o trabalho, para quem trabalha; com o estudo, para quem estuda; com a vida, para quem a vive; com a preguiça, para quem tem a sorte de preguiçar; com o amor, para quem pode amar. Dizendo de outra maneira, com as obrigações de uma vida invariavelmente preenchida por peças que eu não sei denominar e que de algum modo, não me pertencem (como o puzzle de vida daquele Voyageur Magnifique que, no final da montagem do quadro, guarda umas peças na mão, sinal meio fútil de si próprio).

Por vezes, raramente, uma centelha minguante de calor ao final dos dias, extinguindo-se pela noite dentro. Não um clarão de desespero, como aquela  terrível light [that] gleams once, and then it’s night once more, mas algo mais gradual e humano, mais observável e doloroso. Por exemplo, sim, como o quadro de Friedrich, um pouco acima, como uma memória nascida de um momento sonolento em serões disconexos. Quase renuncio à juvenilidade que é falar dos meus crepúsculos como as horas que perduram em expectativa daquela voz que me encantou, daquele olhar que não se deixou definir pelos meus regougos performativos objectivo correlativos diegéticos inteiramente patéticos.

Flit. Porque no Tegner’s Drapa de Longfellow, há um lindo e selvagem panegírico (quasi un parodos) que já tocou almas maiores que a minha.

“I heard a voice, that cried, / “Balder the Beautiful / Is dead, is dead!” / And through the misty air / Passed like the mournful cry / Of sunward sailing cranes.”

Assim atravessa o esguio poema o grito ondulante dos canaviais nórdicos para terminar numa proposta de esperança. “But out of the sea of Time / Rises a new land of song, / Fairer than the old. / Over its meadows green / Walk the young bards and sing.”

Esperemos que assim seja.

Com as etiquetas ,

Flagrantes quinzenais

  1. Os momentos de consolação assistida (ou exterior) são sempre os mais divertidos. Refiro-me às situações em que as circunstâncias do caso parecem pedir algumas palavras de um de nós, ou então quando a nossa atitude faz com que outros se sintam na obrigação de laudar uma qualquer qualidade como forma de distracção dos principais problemas. O potencial para meter a pata na poça é gigante. E esta última modalidade sempre oferece o consolo de me deixar com o sórdido contentamento do ridículo a que me acho submetido durante o próprio processo de consolação. Para concretizar, digamos apenas que uma óptima versão deste género de argumento consiste na exaltação do valor da  companhia. Vamos ignorar que a outra pessoa pode não querer ser boa companhia, mas a ocasião em si mesma. Vamos ignorar que esse é precisamente o problema.
  2. Sobretudo, muito cuidado com a argumentação supra mencionada em dias de S. Valentim. Já me basta ter lido a história de Dafne e Apolo na véspera. O coração humano não aguenta tanto.
  3. Pela primeira vez numa década, participei activamente nas algazarras do carnaval, compondo uma vestimenta improvisada. Infelizmente, ninguém sabia o que era um poeta laureado nem nunca vira uma gravura de Dante ou Petrarca. Passaram o resto da noite a confundirem-me com um gnomo ou um imperador romano. Já alguma viste o Júlio de gorro, estúpido? As coisas descambaram pouco depois.
  4. Tenho feito progressos miseráveis no meu estudo dos clássicos. Queria passar já para os medievalistas ingleses e começar a formar a escoliose associada ao porte do Riverside Chaucer, mas a verdade é que ando distraído. Não ajuda que os meus vizinhos sejam mais barulhentos que uma horda selvagem de estudantes de ciências na biblioteca da FLUL durante a época de exames.
  5. Uma boa experiência: dei a ouvir a Waldstein e a Appassionata a algumas pessoas no decurso do fim-de-semana, enquanto estava atrás do volante e tinha monopólio sobre o programa musical. Um dos animais ficou completamente indiferente. Outros dois comentaram as peças e atribuíram-nas confiantemente a dois artistas completamente diferentes. Para evitar hemorragias cerebrais, apressei-me a trocar os discos. Mas no dia seguinte, uma última passageira disse, muito simplesmente, que estava a apreciar ouvir as sonatas. Não quero saber se as reconheceu: foi tudo o que bastou para me deixar feliz. Prometi-lhe tocar a Pathétique daqui a alguns tempos.
  6. Como a República me começou a dar uma dor de cabeça, interrompi a leitura e virei-me para as Metamorfoses. Já percebi que vou ter de reescrever tudo o que já aqui coloquei sobre Ovídio. Até lá, só posso sublinhar que experimento um inesperado prazer com esta leitura.
  7. Não era nada de extraordinário. Depois a dada altura reparei que os meus olhos se humedeciam: as lágrimas começaram a correr pelo meu rosto.” Foi assim que Arthur Rubinstein descreveu a sua primeira experiência com um concerto de Sviatoslav Richter, e só me apetece transplantar estas palavras para o meu entendimento das últimas três sonatas de Schubert (D958, D959, D960), as crepusculares, as derradeiras, as cíclícas. Mas também as esperançosas. Três dos momentos mais acutilantes de uma existência humana que, diante da sua própria obliteração, conjugou a universalidade da finitude com a elegância terrena da música.
Com as etiquetas , , , , , , , , , , , ,

Dormência

Num texto como este, que só faria sentido num espaço mais frequentado, poderia sentir-me tentado a dicotomizar os dias. E diria: existem momentos em que a mente transborda de ideias e possibilidades, como se quisesse retribuir em espécie a plenitude do dia que a acompanha. Outras jornadas existem em que isto não sucede: tudo o que resta é uma atenção maquinal aos processos diários, um conjunto de horas em que pensar não assume significado superior ao simples facto de se respirar ou pestanejar. O natural tende para o inconsequente.

Mas seriam divagações. Vim aqui deixar o link para um outro blog no qual apostarei grande parte do meu tempo e sai-me tão trombudo intróito. Passarei a desdobrar-me por outra morada, a que dei o nome auto-sabotador de “Outward Flourishes“. Melhor seria que respeitasse os restantes conselhos de Polonius, mas já sei que isso vai ser impossível. Igualmente bom seria pautar-me pelo aforismo apocrifamente stendhaliano, cumprindo esse preceito da minha era —

Soyez directe, mais jamais à la première phrase.

 — que poderia vir de um Príncipe Korasoff, mas provém da minha própria fatuidade.

A única regra é não haver grandes regras: vai ser um espaço de enormes palermices e opinião desbragada sobre tudo o que tenha a infelicidade de atrair o meu olhar. De repetições, até. Se faço menção de tudo isto aqui, é simplesmente porque o novo empreedimento pode muito bem ter a virtude de finalmente desanglicizar este blog (e convenhamos que não é muito simpático estar sempre a ler um fulano cujas principais influências são uma data de ingleses arcaicos e defuntos), ao mesmo tempo que me deixa esboçar erros crassos para melhor apreciação pública.

Com as etiquetas ,

Os livros de 2010

À semelhança do ano passado, deixarei aqui inscritos os livros que for lendo no decorrer dos meses de 2010. Infelizmente, é muito difícil configurar uma lista como esta sem ficar com o travo desagradável de se estar a praticar uma vanglória de literacia; toda a lista está subordinada à acumulação, é o número inabarcável que começa por fomentar no espírito do homem o registo gradual, aritmético, linear.

O ano passado foi um período de leitura intensa e alargamento de horizontes. Em contrapartida, foi um ano de criação irrisória e de desespero pessoal. Não levo nada desse ano que deseje manter nos meus cadernos, e acabei por destruir o único texto mais ou menos acabado que em tempos julgara ter finalizado. Pelo caminho, aprendi com Dante que não existem vite nuovi. Não sei para onde me levarão as leituras deste ano, mas sei que alimentarão sobretudo este espaço e o lavor académico que lhe subjaz. Deste modo, a lista torna-se duplamente bilingue: em títulos e em comentários, haverá pouca discriminação na língua.

  1. The Mortal Hero: an Introduction to Homer’s Iliad – Seth L. Schein, 7.01.2010;
  2. The Iliad – Martin Mueller, 10.01.2010;
  3. Literary Theory – Jonathan D. Culler, 12.01.2010;
  4. Eneida – Virgílio, 18.01.2010;
  5. Virgil: The Aeneid (Landmarks of World Literature) – K. W. Gransden, 19.01.2010;
  6. Reading the Odyssey (Selected Interpretative Essays) – coligido por Seth. L. Schein, 20.01.2010;
  7. Homer – Jasper Griffin, 21.01.2010;
  8. Homeric Soundings – Oliver Taplin, 22.01.2010; 
  9. Édipo Rei (The Three Theban Plays) – Sófocles (trad. Robert Fagles),23.01.2010;
  10. Édipo em Colono (The Three Theban Plays) – Sófocles (trad. Robert Fagles),24.01.2010;
  11. Antígona (The Three Theban Plays) – Sófocles (trad. Robert Fagles),24.01.2010;
  12. O Simpósio (O Banquete) – Platão (trad. Robin Waterfield), 01.02.2010;
  13. The Tempest – William Shakespeare, 10.02.2010;
  14. Metamorfoses – Ovídio, 14.02.2010;
  15. Ovid – Sarah Mack, 17.02.2010;
  16. The World of Ovid’s Metamorphoses – Joseph B. Solodow, 20.02.2010;
  17. Escolhido Pelas Estrelas – Zbigniew Herbert (Antologia A&A), 22.02.2010.

 

Um gélido fim de semana

Celebrar-se-ão duas Winterreisen terão em Lisboa nos dias 16 e 17 do mês  que corre, num raro e um tanto atabalhoado agendamento musical. Já tive ocasião para dedicar algumas linhas ao poema de Wilhelm Müller e ao acompanhamento de Franz Schubert (ver aqui), e embora esse texto me pareça agora irremediavelmente infantil – como tantas outras coisas que para aqui deito –  sempre serve de enquadramento primário.

Sábado, dia 16, temos Maria João Pires e Rufus Müller. E que bom que a grande pianista não seja uma simples iniciada nas lieder schubertianas. Ou muito me engano ou já escutei algures uma sua interpretação com Thomas Quasthoff que em nada desapontou.

Já no dia seguinte, apresenta-se na Gulbenkian uma versão da Winterreise com acompanhamento de orquesta, sem o meu querido piano-forte (e se o conceito inicialmente  parece blasfemo, há que reconhecer que potencia algumas interpretações interessantes). Os responsáveis são o Remix Ensemble, dirigidos por Peter Rundel e vocalizados pelo muito recomendável Christoph Prégardien.

E porque escrevo isto? Porque registar é uma forma de antecipar um lamento, e isso é o que eu farei daqui a alguns meses quando olhar para isto e pensar porque motivo não fui a nenhum dos concertos. Mas não consigo aguentar uma Viagem de Inverno sozinho. Certas coisas apenas fazem sentido se partilhadas, mesmo que disso mais não nasça que uma blandícia silenciosa de uma ínfima consolação. Sem uma nem outra, mais vale partir contra a neve como o Viajante — mas de verdade.

Com as etiquetas , , , , ,

Lasciami, Berenice

Berenice, stupida e misera, che fai ancora? Na versão dos meus anos, poderá existir um Demétrio sem um Antígono, assim o garanto. Berenice será então feliz, e o auge das suas paixões não mais será cantado numa scena volúvel, diante de uma orquestra, em pedernidos átrios de palácios egípcios, mas enumerada em descendências com rostos, décadas de partilha, e suaves florilégios primaveris.

Mas quantas versões de ti nesta vida, ainda? Oh, trapaceiro e celebrado Metastasio, que a foste escrever e condenar a uma contínua representação ao longo desse caminho escuro que se afasta de mim. Berenice, é assim tão terrível desejar a travessia do rio até ao Lete, somente para te observar do outro lado sem razões para me seguir? Apenas porque mais doce é ficar nesta margem e observar a tua dança, cifrando com o teu olhar um ritual de felicidade longínqua enquanto permito que que os fios de água montante me cubram os pés com a fina areia dos anos ligeiros.

Se seguirmos o libretto, encontramos um Recitativo – seguido de uma Aria – e mais um Recitativo. Mas é esta a maneira de te cantar, minha querida? Que estrutura pode haver na tormenta se pela minha própria mão me desfaço, qual Antígono terceiro sem poder, sem porte, sem pretensão ou presença, ausente de qualquer constrangimento para Berenice?

Aspetta, anima bella:
Ombre compagne a Lete andrem.

Se non potei salvarti potrò fedel…
Ma tu mi guardi, e parti?

Non partir, bell’idol mio:
Per quell’ondo all’altra sponda
Voglio anch’io passer con te.

Ma infelice! Che fingo? Che ragiono?
Dove rapita sono
Dal torrente crudel de’miei martiri?
Misera Berenice, ah, tu deliri!

Com as etiquetas , ,

Restauração Nacional de Pessoas Colectivas

Duas jovens dobram a esquina da saleta de espera, antecedidas na sua sombra pelos fragmentos de uma hesitante conversa em língua estrangeira. Permanecem apeadas durante alguns instantes até serem acometidas por um cavalheiro de meia-idade com aspecto de financiador que as convida a tomar assento. Inicia-se então a stasis sobre o nome da futura empresa.

Aceito que uma das jovens seja a filha daquele cavalheiro de aspecto financiador, mas a outra jovem – figura esguia e loira com a reserva de gestos habitual numa pessoa de outro meio e  que nunca deve ser confundida com a timidez – é ilocalizável. Contento-me com a extensão geográfica da Europa Central e regresso à minha leitura. No quadro, os números picotados a vermelho arrastam-se com uma vagarosidade digna de um começo de ano civil.

O cavalheiro expõe a ordem do dia: minhas senhoras, há que escolher um nome. E o bom do Governo, sempre simplificando, já lhes reservara milhares de nomes, miríades de firmas de fantasia, resguardadas em bolsas jurídicas para que nenhuma alma pudesse passar um dia sem a possibilidade de, achando-se a terminar o seu café de almoço, decidir constituir uma empresa antes da hora terminar sem que as instituições que pautam a sua vida o privassem desse fulcral instrumento de realização pessoal.

Mas é sabido que esse bom Governo não é muito hábil com os baptismos societários. E o cavalheiro passa a enunciar as escolhas que se encontram em cima da mesa (ou seja, os nomes pré-reservados, cada qual mais fantasioso que o anterior). A jovem estrangeira parece um tanto apoquentada. Mas isso vai ser o nome do restaurante? A sua expressão é de incredulidade absoluta. Credo, não, acorre o cavalheiro! O nome do restaurante escolhemos nós: este é somente o nome da empresa. Percebe? Da company.

Visivelmente desconfiada, mas não menos visivelmente conformada com o seu papel de participante inferior na fundação da nobre empresa, a estrangeira resigna-se. O cavalheiro prossegue na enumeração das possibilidades: a primeira é Momentos Gulosos. Bonito serviço. Mas também há Iguarias de Ouro, Iguarias Feiticeiras, Apogeu do Sabor, 100 Variações. Sobre cada um deles se debruça a ágora. Que significa a primeira, indaga a jovem estrangeira? O cavalheiro de aspecto financiador e a jovem portuguesa que entretanto se tornara a sua filha estacam. Well, você sabe, momentos toda a gente sabe o que é. E gulosos, bem… A gula é um dos sete pecados mortais. Está a ver? The deadly sins? Já viu o filme? É o… o… não me lembro do nome do pecado em inglês, mas é quando se come muito, vê?

Se ela não viu, fingiu que sim, com um sorriso elegante, elegendo fazer perguntas igualmente difíceis relativamente a cada outro dos nomes. As Iguarias Feiticeiras, por exemplo, tiveram de ser explicadas por recurso às witches, porque as feiticeiras, como sabem, make magic.

O cavalheiro atende uma chamada no seu telemóvel. Do outro lado, o presumível segundo sócio gosta muito do Apogeu do Sabor. Acaso pensará que confere um troar apoteótico à confecção de iguarias, uma dignidade helénica à coisa para que os convivas, afastando o desejo do alimento e bebida e vertidas as libações de outrora, possam ainda mandar vir o ferreiro para dourar os cornos aos bois e seguidamente lançar uma hecatombe às extensões do Tejo. Peço desculpa, estou a divagar.

Lá se decidiram, não me recordo de qual. Bastava aguardar pela vez. Entretanto, a estrangeira timidamente saca de um conjunto de folhas manuscritas, que pela sua apresentação e listagem perceptível se afirmavam à distância como um conjunto de receitas caseiras. Seria ela a cozinheira daquele futuro empreendimento? Que peso, o dos preconceitos aplicados às imobilidades laborais. Daquela linda jovem dir-se-ia tudo menos ser uma depositária de sabores ancestrais, mas era certo que naquelas páginas se reunia uma medida de conhecimento importado, de esperanças e entendimentos transpostos de um espaço para o outro. Foi então que passei a chamar-lhe Babette.

O cavalheiro, no entanto, tinha em mente aspectos menos báquicos e sublinhava a importância de uma boa mecânica no serviço de saladas rápidas. Explicava, com grande propriedade: uma salada é sempre a mesma coisa, há que encontrar uma base e depois  o processo funciona por acréscimo. Fundamental termos saladas para as refeições rápidas de almoço.

Tendo sido sonegada em saladas, Babette avança com outras sugestões. Por algum motivo, o cavalheiro teima em ensaiar um discurso sobre um prato que oferecia algumas semelhanças com as preparações de risotto, embora contasse com alguns acompanhamentos adicionais. You know risotto, é muito difícil de oferecer como prato. Muito difícil. É difícil sair sempre igual, pouca gente o sabe fazer bem. Basta ver que eu tenho quatro restaurantes e nunca, mas nunca peço risotto em nenhum deles.

E não é que parecia orgulhoso do facto? Infelizmente, foi então que chegou a minha vez de ser atendido. Logo quando a conversa arriscava uma direcção francamente cómica.

Só me resta concluir com uma alusão a um excelente comentário blogosférico (que infelizmente não sei localizar, embora esteja seguro de ter provindo dos excelentes Contraprova ou do Da Literatura – que não podiam ser mais diferentes, nem mais diversamente bem escritos), observação essa que notava a fatuidade da restauração portuguesa radicada nos ímpetos dos grupos de amigos que, arrotando galhardias ao final do almoço domingueiro, rapidamente passavam à acção do pensamento. Se calhar devíamos abrir um restaurante, nós como sócios. A tua mãe cozinha, ali o Luís tem aquele espaço que não serve para nada, eu tratava das licenças, arranjávamos uns quantos pratos, e zás, tínhamos um restaurante muito melhor do que a maior parte desses estabelecimentos que não sabem o que é uma sopa, vivem à base de almoços gordurosos, e apresentam duvidosos pratos de arroz.

E agora despeço-me com um excerto do Hard Times, de Charles Dickens, que contém lições muito más para a vida em geral mas ensinamentos muito proveitosos para todos aqueles que estiverem a pensar em abrir um restaurante. Never wonder. Se todavia já tiverem passado essa fase, a lição em causa deverá ser a do simples bom senso e bom gosto (os quais, contra o que o Sr. Gradgrind poderia alegar, não são outros nomes para Facto). Entretanto, se a Babette aprender português e vier cá ler isto, desde já me ofereço para servir de provador a qualquer prato de risotto ou salada que ela me queria preparar.

When she was half a dozen years younger, Louisa had been overheard to begin a conversation with her brother one day, by saying ‘Tom, I wonder’ — upon which Mr. Gradgrind, who was the person overhearing, stepped forth into the light and said, ‘Louisa, never wonder!’

Herein lay the spring of the mechanical art and mystery of educating the reason without stooping to the cultivation of the sentiments and affections. Never wonder. By means of addition, subtraction, multiplication, and division, settle everything somehow, and never wonder. Bring to me, says M’Choakumchild, yonder baby just able to walk, and I will engage that it shall never wonder.

Com as etiquetas , ,

Shylock e Portia desejam-vos um feliz Natal

No átrio de uma multinacional,  o Natal ensaiava-se em cada movimento. Representação perfeita de festas natalícias empresariais: um bojudo montículo de presentes amontoado por detrás dos mognos rebordos da recepção, serventes de libré transportando parcas iguarias em bandejas foscas, o ocasional Pai Natal a soldo, a euforia das hostes laborais a quem fora concedida a tarde livre (sob a condição de a despenderem nas socializações da empresa).

Chegara adiantado. Aguardei num canto acolchoado pelo início da reunião que me trouxera a um ethos tão artificial. Fixei-me então nos presentes deitados por terra, aqueles embrulhos que inevitavelmente ocultam um caixotim de chocolates ou uma garrafa de vinho e que se destinam à secreta e sorridente permuta por outro caixotim de chocolates ou outra garrafa de vinho. Assim se enlaçam fraternamente as gentes que juntas trabalham, e grande é o fenómeno dos que se obnubilam por um dia do seu ódio pelo semelhante.

Ora, num desses sacos, lia-se uma inscrição que me fez esquecer todo aquele cenário deprimente e, confesso, até me fez sorrir. Naturalmente que assim que esbocei um esgar mais alegre todos os olhos se viraram para mim (e voltaram a morrer mais flores do que as havia no jardim). Mas o momento perdurou.

E a inscrição era (assim mesmo, em inglês e tudo):

How far that little candle throws its beams;
  So shines a good deed in a naughty world.

Que é do Mercador de Veneza, e é proferido por Portia a dado momento durante o Acto V. Não vou interpretá-la. É uma afirmação de esperança ou de fragilidade, digna desta quadra e de todos os dias que me restam.

E assim é. Um feliz Natal a todos quantos por aqui passarem, e até ao próximo ano.

Com as etiquetas ,

Gemem os ventos

Unha noite, noite negra
como os pesares que eu teño,
noite filla das sombrisas
alas que estenden os medos;
hora en que cantan os galos,
hora en que xemen os ventos;
en que as meigas bailan, bailan,
xuntas co demo pirmeiro,
arrincando verdes robres,
portas e tellas fendendo (…)

Em nosso redor, verticalidades ásperas, batidas no granito de catedrais que suporta o tempo e o musgo com a altivez de um patriarca tolerante. A fria humidade condiz com os olhares, como os de uma fatigada peregrina, recostada numa ombreira e a quem o momento descobrira a cabeça, revelando o progresso avançado de uma doença inexorável. Ou então com os hálitos nocturnos que em estabelecimentos de afinidade rugem invectivas passivas e incipientes contra os opressores nacionais, ao som de música inflamatória. É uma rede de caminhos que coloca este espaço no centro da Galiza, e a cidade habituou-se a viver do concurso alheio de esperanças e moções. Podem encontrar-se guias que ensinam ao visitante como retroceder para mais tarde refazer os seus passos: os camiños a pé, os camiños de coche, os camiños de moto. E se a viagem acumula espiritualidades e concentra o desejo a cada passo, o centro da urbe rejeita-os em sua presença. Os ladrilhos centenários não cedem ao peso do caminhante, as esquinas e as fontes não transigem pelo transeunte ou pelo transitório. Chegados a Santiago de Compostela, é em direcção ao céu, ou a uma ideia de Deus, que necessariamente tudo se esvai.

(…) eu ben vin estar o moucho
enriba daquel penedo.

[Os versos são de Rosalía de Castro (Cantares Gallegos)]

Com as etiquetas

Um dia durou o meu contentamento

Demasiado longo para ser aqui reproduzido, demasiado complexo para ser por mim entendido, pairam em mim quatro versos de um terrível poema cuja metafísica invoca a reflexão de um rosto por todas as superfícies.

De todos os sentidos possíveis, escolho apenas  aquele que é meu, o menos temporal, menos específico. E, claro, o mais mundano.

She, she is dead; she’s dead: when thou knowest this,
Thou knowest how poor a trifling thing man is,
And learn’st thus much by our anatomy,
The heart being perish’d, no part can be free.

An Anatomy of the World

[um dos “Aniversários” de John Donne, que continua, continua]

Até à derradeira sílaba do tempo

Como um sonho de inocência prolongada, mantive sobre alguns mecanismos do mundo uma visão segura e esterilizada. Uma certidão de óbito – eis um exemplo – não era mais que uma necessidade abstracta de jurista que pudesse ser manietada como instrumento acessório a diferendos legais. Documento do mundo formal, produto da ordenação humana da vida e da morte ao arquivismo dos registos. E eu estava muito contente em deixá-lo ali, onde pertencia.

Mas um dia, as minhas cartas a C. começaram a ser devolvidas. Assisti com apreensão aos reingressos iniciais, seguro de que algo se tinha passado, certo de que ela escolhera isolar-se das minhas palavras. A auto-comiseração é o mais repugnante dos egoísmos, e eu sou absolutamente repugnante. Só me dei conta da única tragédia com a terceira missiva. Nela, o selo inconfundível: devolver ao remetente por motivo de falecimento.

Então C. morrera. De algum modo, de alguma forma, a milhares de quilómetros de distância, C. estava morta e eu nada sabia. Sem família e sem amigos a quem apelar. Quis imediatamente colmatar a lacuna humana com a precisão do mundo lógico: o Governo, o Estado, as instituições de lei e ordem  saberiam dizer-me o que sucedera, e uma certidão de óbito colocaria um parágrafo inconstestável às ululantes dúvidas que em mim se amontoavam.

Uma certidão de óbito. Até então não pensara naquilo que estava a pedir. Um papel a certificar que alguém tinha morrido. Que ela tinha morrido. Rodeei-me de listas, indicativos e contactos: do outro lado, entre pulsações telefónicas transatlânticas uma voz anasalada explicou-me a situação. Apenas os parentes ou unidos de facto podiam requerer um certificado. E com a mesma finalidade distante com que arrematava uma sentença, a voz da registral matrona censurava-me o alheamento com que eu tinha vivido a sua morte. Você diz-se amigo e não sabe sequer as circunstâncias do falecimento dela? Não mo disse a matrona subalterna, mas podia tê-lo feito que eu não encontraria resposta aceitável perante o tribunal de remorsos. Desliguei enfim a chamada, lançando a provocação a mim mesmo. Sem resposta.

[Agora uma pausa.

Fui escrevinhando isto ao longo de meses: um rascunho – à espera de revisão – perfilado com as tontices mundanas dos livros que li e das minhas restantes opiniões palermas. Ontem peguei num processo penal no qual fui nomeado como defensor: o imberbe eu, a advogar três arguidos por furto qualificado e  detenção ilegal de arma. Um deles já tinha falecido, conforme certidão de óbito junta a folhas tantas. No meu ombro estava um ávido colega que me soprou: vê lá como ele morreu, vai lá ver na certidão a causa da morte. E eu ri-me, querendo chorar, ao ver que o mundo dos factos funcionava e era cruel.

Continuando]

Nem eu suportaria ver C. clinicamente esparrimada em morte por uma ficha administrativa, verbum ad verbum. Antevia mesmo a consistência pálida do papel amarelado de grossa granulação e com um selo branco no final que eu afagaria com os meus dedos num gesto de última confirmação de legitimidade oficial. Em cima, o nome dela. Idade. Filiação. Derradeiro domicílio. E, especialmente, causa da morte. Naquele Estado, os suicídios eram legalmente seguidos de uma autópsia, o que sempre me daria a possibilidade de ler a sua morte em termos técnicos. Toda uma variação de perfurações balísticas cranianas na têmpora para me causar pesadelos eternos. Uma suspeita apenas sobrevive na incerteza da esperança que a acompanha, e o seu suicídio não podia ser inesperado a alguém que demasiado a conheceu para a ter abandonado. O confidente de inquietações ominosas nada fizera na sombra da sua necessidade. Foi assim que o processo de confirmação da sua morte ganhou os contornos de uma demanda pessoal, sem qualquer possibilidade de redenção, que eu todavia assumi com raiva e fragor póstumos. Pululavam acusações de todas as linhas, com vozes oficiais a resguardar reprovações indizíveis por detrás dos dentes. Que dizer, na verdade, de mim, se  precisava de um documento para esclarecer a morte da minha querida?

Duas pessoas que se amam sabem quando a outra morre: vêem-na, sofrem-na, causam-na. E dois amigos que comungam os caminhos de uma vida ficam estarrecidos quando a morte sobrevém a qualquer um. Têm fotografias e memórias, um património comum para alimentar o luto natural. E eu tinha de obter um papel? Deixara-a sozinha com os seus demónios, e ainda assim eu insistia em mentir-me: eu não tivera qualquer escolha. Mas claro que sempre tive escolhas. Não a abandonar, por exemplo. A qualquer altura podia ter-me enfiado num avião, tê-la visitado depois da operação. 

O modo condicional impera na sua morte: poderia, deveria, tentaria impedir aquela bala distante, a morte solitária, aquela réstia de sentido. Mesmo agora tenho medo que tudo isto seja um exercício de catarse, egoísta e nojento, público como o anonimato, sem qualquer sentido para ambos. Não consigo categorizar ou classificar estas palavras e isso incomoda-me. Tudo isto para falar de uma inefabilidade, para bradar sem voz aquilo que a rasura dos factos mundividentes vai raspando da pele das pessoas. Acabei por não obter a sua certidão de óbito. Como amigo, não precisei dela: lá falei com um dos seus conhecidos, o mesmo responsável pela instrução da polícia. A polícia em sua casa, um documento não requerido numa qualquer gaveta, um amigo inútil do outro lado do oceano. Entretanto, C. está morta, e vai levar algum tempo até que consiga olhar para os meus documentos de trabalho sem pensar nas pessoas que por detrás deles suspiram.

Wittgenstein aplicado a relações laborais

7.1 Devemos desconsiderar em silêncio aquilo que aos outros não conseguimos fazer compreender.

Maldito o dia

12

Benedetto sia ‘l giorno, et ‘l mese, et l’anno,
et la stagione, e ‘l tempo, et l’ora, e ‘l punto,
e ‘l bel paese, e ‘l loco ov’io fui giunto
da’duo begli occhi che legato m’ànno;

et benedetto il primo dolce affanno
ch’i’ ebbi ad esser con Amor congiunto,
et l’arco, et le saette ond’i’ fui punto,
et le piaghe che ‘nfin al cor mi vanno.

Benedette le voci tante ch’io
chiamando il nome de mia donna ò sparte,
e i sospiri, et le lagrime, e ‘l desio;

et benedette sian tutte le carte
ov’io fama l’acquisto, e ‘l pensier mio,
ch’è sol di lei, sí ch’altra non v’à parte.

.

Bendito seja o dia, o mês, o ano,
a estação, e o tempo, e a hora, e o instante,
e o belo país, e o lugar onde eu estava
ligado a dois belos olhos que me prenderam;

e bendita seja a primeira doce aflição
que haveria de ser com Amor unido
o arco e a flecha com que fui ferido
e as dores que enfim me vêm ao coração.

Benditos sejam todos os poemas que espalhei
chamando o nome de minha amada
e os suspiros e as lágrimas e o desejo

e benditas sejam todas as folhas
em que mereci seu renome e o meu pensamento
que é só para ela, que para outra parte não vai.

Francesco Petrarca

Canzionere, Soneto 61

Amar: a loucura mais sensata

[Uma antecâmara de luz – logo antes de partir contra os braços da noite.

E um pensamento.]

Que tontice.

Eu amo esta mulher.

Mas que tontice, que tontice, que tontice, que tontice.

Coetzee, obrigado por teres vindo

E a vencedora do Booker 2009 foi Hilary Mantel, conforme já corre na blogosfera (esta gente levanta-se cedo). Podem agora esperar-se duas coisas do mundo: em primeiro lugar, os espectadores dos Tudors vão ter de ter mais cuidado ou arriscam-se a esbarrar contra leitor que lhes diga “nuh-huh, isso está errado, foi assim e assado que eu li no Wolf Hall” e, em segundo lugar, talvez agora deixemos de ver por todo o lado aqueles olhinhos azulinos de carneiro espantado e mal morto (as duas coisas não são incompatíveis) com que Mantel nos fulmina a cada fotografia.

Fora de brincadeiras, foi merecido (ainda que me tenham abandonado Colm Tóibín na longlist).

Com as etiquetas , ,