Category Archives: Cinema

Ars amatoria

É a ligeireza, a cumplicidade, é a identificação total, mútua. Ninguém nos pede que dancemos assim, mas a felicidade tem de estar nestes olhares cruzados e risos partilhados. Doce carpe diem que preenche e acrescenta, disse-me.

Penso que o deslumbramento e o corrupio serão mesmo estes.

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A vertigem da vida medida em poemas

Devemos ignorar um poema simplesmente porque é popular? Ler o Canto V do poema Marmion, de Sir Walter Scott, tem sempre a força de uma descoberta, com a célebre estrofe 17 a encabeçar a surtida.

Had I but fought as wont, one thrust
Had laid De Wilton in the dust,
   My path no more to cross.
How stand we now?—he told his tale
To Douglas; and with some avail;
   ‘Twas therefore gloomed his rugged brow.
Will Surrey dare to entertain,
‘Gainst Marmion, charge disproved and vain?
   Small risk of that, I trow.
Yet Clare’s sharp questions must I shun;
Must separate Constance from the nun –
Oh, what a tangled web we weave,
When first we practice to deceive!
A Palmer too!—no wonder why
I felt rebuked beneath his eye:
I might have known there was but one
Whose look could quell Lord Marmion.”

A resposta à primeira pergunta é obviamente não, sendo certo que a popularidade de um poema introduz distorções na sua interpretação. “Popularidade”, aqui, é naturalmente um conceito móvel, porque se o Marmion já foi famoso, só dois versos ali em cima perdidos restam no imaginário popular – “Oh, what a tangled web we weave, / when first we practice to deceive!” Estes sim, famosos, antes e depois, podiam originar determinados comentários: “o quê? A Rendição da Luz, bastião do rebuscado, a assinalar um poema popular e que metade da população inglesa declamava  há algumas décadas? Bem, aquele António entrou mesmo em declínio. O que se segue, os Beatles?

A little more than kin, and less than kind, ou talvez mais Dylan e Cohen, se tivesse de escolher. Seja como for, na semana passada pensei em escrever um texto mais ou menos longo sobre o Marmion em rapidamente percebi que a minha preocupação pessoal não era tanto fazer um excurso sobre os temas envolvidos mas ressalvar que o meu conhecimento deste poema não se devia ao facto de ter crescido numa biblioteca poeirenta sob os auspícios de uma governanta inglesa e um pai de nome Eustace Mandeville Wetenhall Tillyard ou algo de semelhante.

Por mais estranho que pareça, a primeira vez que ouvi estes versos foi numa comédia americana dos anos dourados de Hollywood (o Wonder Man, de 1945, com Danny Kaye e a linda Virginia Mayo, o que, pensando melhor, é capaz de ser ainda mais comprometedor para a minha imagem do que a versão da biblioteca poeirenta de Thrushcross Grange com uma primeira edição do Marmion). O filme, que até é bem divertido, coloca Kaye a interpretar o papel de dois irmãos gémeos (Dingle, o intelectual, e Buzzy, o boémio), com as confusões inerentes à troca de papéis abrupta que a morte do segundo provoca. É assim que, saturado de ansiedade, Dingle declama os versos acima referidos enquanto sai de plano (há um vídeo no Youtube, e esta cena está no minuto 7:00).

Poder-se-ia escrever um longo ensaio sobre a atitude do feliz ajudante dos bastidores que, oprimido por uma vida de labuta diária sem sentido, encontra a sua comoção na poesia de Sir Walter Scott e reconhece instintivamente uma das passagens mais célebres do cânone ocidental. Tudo isto a propósito de um poema que nos conta a história de uma trama amorosa no contexto de um dos mais bizarros episódios da Guerra da Liga de Cambrai (a par das alianças-gelatina de Veneza, do esquizofrénico alinhamento do Sacro Império Romano, e do oportunismo do Duque de Ferrara, cada qual mudando mais vezes de mãos do que um mercenário suíço no século catorze).

Ora se, na semana passada, os versos regressaram de um canto sináptico escuro do meu crânio e me atingiram como um soco, a verdade é que a vida progride muito mais rapidamente que a leitura ou a memória de poesia, de tal modo que, Berenice ultrapassada, o mote de hoje é mais tributário de Dorothy Parker. Esta, mesmo a brincar, acaba por dizer tudo, rindo com uma lágrima no canto do olho, atordoada de álcool. Em A Very Short Song, o habitual lamento – juvenil, mesmo: Once, when I was young and true, / Someone left me sad- / Broke my brittle heart in two ; / And that is very bad – desemboca numa radical inversão de sentimentos, como se Parker tivesse surpreendido um espelho depois do primeiro verso e caído em si. Enceta dois aforismos, encontra uma conclusão:

Love is for unlucky folk,
Love is but a curse.
Once there was a heart I broke;
And that, I think, is worse.

Tinha um Portable Dorothy Parker que ia oferecer a Berenice se os meus melhores planos se tivessem concretizado. A fatuidade amorosa tem destas coisas. Mas que raio passou pela minha cabeça? Ridículo. Felizmente, os melhores planos urdidos por ratos e homens são facilmente gorados pelo imprevisível e pelo inconstante, de tal modo que a vida real avança a um ritmo muito superior ao dos significados que vou descobrindo na poesia. E sempre fiquei com o meu Portable Dorothy Parker, de que gosto mesmo muito.

A simplicidade dos últimos dois versos do A Very Short Song é atroz. Parker-a-vítima (poder-se-ia dizer, o artista-vítima, cujas perspectivas dolentes informam o acervo de muita poesia e música ocidental) queda-se por um momento e reflecte no passado. É mau sofrer – ora que grande platitude! – mas porventura é muito pior fazer sofrer ou, voando com o último verso – muito mais doloroso escolher fazê-lo. Se tivermos o conhecimento da primeira realidade, decidir infligir a segunda é suficiente para nos manter insones durante alguns dias.

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Cinema do novo milénio

There Will be Blood, Paul Thomas Anderson, 2007.

Fotografia de Thomas Hoepker, tirada no 11 de Setembro de 2001, publicada cinco anos mais tarde por receio da controvérsia.

O fotógrafo tem um artigo na Slate em que desenvolve as circunstâncias que rodearam a captura deste momento (é visível a sua relutância em promulgar uma determinada interpretação para esta imagem – e o seu sentido de decoro). Um obrigado e um abraço ao Luís M. Jorge, em cujo blog vi esta fotografia pela primeira vez.

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Defesas do indistinto

Há uma cena formidável no filme Mio Fratello è Figlio Unico. Num velho salão de baile despojado dos seus requintes e ocupado por uma orquestra amadora que a juventude comunista organizara, uma congregação local prepara-se para escutar a Nona. O ambiente é jovial e leve; impera um clima de degustação antecipada e familiar, como se a execução da sinfonia fosse o último passo de uma conhecida celebração de irmandades.

Na multidão encontra-se Antonio “Accio” Benassi, ex-camisa negra, irmão do orgulhoso militante vermelho que dirige a orquestra. O seu olhar rutilante trai a comoção instilada pela divina Coral, entretanto na secção da marcha turca do quarto andamento. Mas eis que os versos de Schiller são preteridos a favor de invectivas partidárias, e que Froh, wie seine Sonnen Fliegen Durch des Himmels prächt’gen Plan é extropiado pelas variações italianas da Internacional.

É corrompida a ode, rebaixada a melodia até ao nível de música de saleta cheia de pandeiretas e boas intenções, mas Accio não o sabe, Accio não poderia sabê-lo, e assim encontramos o basbaque reflectindo solenemente sobre a alegria e a sideração que lhe infunde a sinfonia em todo o seu esplendor e glória.

Eis senão quando os fascistas irrompem salão adentro, interrompendo a Nona.

Interrompendo a Nona!

Segue-se a rixa, e Accio lança-se raivosamente sobre o líder dos fascistas. Não fazes isto a Beethoven, ouviste? Não fazes isto a Beethoven! E quebra-lhe o nariz.

Mais tarde, o irmão congratula-o pela valente defesa, palavras que pairam à sombra de uma árvore, num relvado de Verão. Accio é genuinamente ríspido: ‘ não te lisonjeies, que eu só fiz aquilo por causa da música ‘. Mas que de mais, se na verdade o fizera por ambos?

Percebo enfim que tantas vezes sou como Accio, arrastando-me na vida sem nada compreender mas com o desejo de tudo defender; protegendo com manápulas ávidas tudo o que me aparece belo e me encanta, choutando numa enlouquecedora hipocrisia de ignorância contra ignorância. Que eu, o maior velhaco, estou condenado a ser a um espectador a tempo parcial, que as minhas lealdades estão acorrentadas a valores que jazem para além da minha sensibilidade e compreensão, que é mesmo possível que eu seja ridículo como Accio e nem sequer tão honesto e ingénuo.

Apenas sei que antes do fim da minha vida, serei ainda Accio muitas vezes.

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A feira, o livro, o rabi e o monstro

Encontra-se a decorrer a  Feira do Livro Manuseado da Assírio & Alvim.

Acantonada ao fundo da epónima livraria encontra-se uma interessante variedade de livros em desconto amontoados sobre velhas bancadas, alguns dos quais não aparentam sequer ter sido abertos uma única vez. Pela minha parte, prescindi do meu almoço para os visitar, e com onze euros troquei uma refeição gordurosa de média-jornada laboral por um Diário Secreto (Aleksandr Púchkin, talvez talvez), O Conde Lucanor (Dom Juan Manuel) e O Cardo e a Rosa – Poesia do Barroco Alemão (antologia bilingue promovida por João Barrento).

FeiraO que me traz a estas linhas é todavia o admirável cartaz oficial que alguém compôs para a pequena feira (e que eu aqui inseriria em primeira mão – com pompa e alinhamento – não fosse o semblante sério do sábio semítico destoar chocantemente com o esquema de cores mortiças e esverdeadas com que o WordPress.com brindou o único template tolerável no seu acervo de escolhas a utilizadores de tipo sanguessuga que não pagam um centavo pelos seus préstimos electrónicos).

[Nota do editor: este parágrafo foi obviamente concebido antes da mudança de visual do blog, mas o esforço estilístico que parece ter sido aplicado neste queixume tão patético impede-nos, guardiões da espontaneidade – de agora o retirar]

Passei um bom bocado a pensar onde já teria visto esta imagem, e embora não duvide que a resposta me surgirá nos tempos vindouros com a força e patetice de uma revelação inconsequente, entretanto já tenho fixa a reminiscência de um outro sábio e de um outro livro. O feiticeiro é o Maharal Loew ben Bezazel do Gueto de Praga; o livro, um tomo arcano de caracteres hebraicos em que o mago se inspira para a invocação do barrento Golem. Porquanto estas imagens vivam em cantos literais da minha mente desde o momento em que Gustav Meyrink as botou em papel com a finalidade de uma tradição enfim codificada, todas estas impressões são emprestadas de Der Golem: wie er in die Welt kam, obra de intersecção fantástico-expressionista que Paul Wegener realizou no profético ano de 1920.

Loew e o GolemA lenda do Golem exerce um fascínio particular, fruto do cruzamento feliz de certos elementos que jamais se pensaria – depois de lidos ou visionados – poderem existir fora dessa hábil aglutinação. Um monstro de argila, um rabi místico, um gueto judeu, a cidade de Praga. Não é difícil, ao deparar-se o visitante do século XXI com as ornamentações murais da sepultura do rabi Loew no Cemitério Judeu de Praga, pensar fantasiosamente que faria todo o sentido se os despojos do Golem – tal como reza a lenda – ainda se encontrassem numa antecâmara da Velha Nova Sinagoga ou num sótão arcano, adormecidos e expectantes até que uma cabalística palavra voltasse a animar os seus membros. Apesar de existirem duas grandes correntes (a polaco-judaica e a germânico-cristã) a narrativa deste mito segue invariavelmente as seguintes linhas. Numa Praga do século XVI, a comunidade judia encontra-se sob o jugo e a repressão da nobreza. Encarando a expulsão e o extermínio, extinção, o rabi Loew – O Maharal de Praga –  mergulha nas ciências arcanas e proibidas e alcança a infusão de vida num colosso de argila, a que é dado o nome de “forma sem vida”, ou Golem. Cumprindo a missão de defender o gueto, o colosso – mero recipiente sem alma –  principia a vaguear pela ruas e comete inconscientes atrocidades. O Maharal é chamado a intervir, e com uma incantação desactiva o monstro.

A única versão cinematográfica em boas condições que nos resta dos três filmes que Wegener dedicou ao assunto é a de 1920, que eu tive a sorte de visionar numa sessão da Cinemateca há alguns meses. Há que anunciá-lo à partida: o filme suporta interpretações anti-semíticas. Não obstante o facto de em 1920 nos encontrarmos nos primórdios da arte cinematográfica (o que significa lidar com uma época de inspiração explosiva, inconstante e irreflectida, capaz dos maiores surtos de génio e das mais incompreensíveis manifestações de opinião humana), os elementos que nos surjam mais estranhos num filme alemão do pós-guerra não devem ser alvo de uma interpretação ligeira e apressada.

Nem o filme se presta a simplificações. Nesta película, é a nobreza cristã a usurária, são as classes equestres que oprimimem e mesmo subornam os judeus. Com um par de cenas, contraria-se a visão preconceituosa sobre as comunidades judias que a Idade Média abrigara durante séculos. Numa sequência emblemática, o Maharal é chamado a apresentar-se com a sua criação diante da corte. Quando o convidam a realizar uma cerimónia religiosa que lhes elucidasse sobre a beleza e profundidade do seu culto, alguns dos convivas escarnecem dos gestos ritualísticos do venerando rabi. A fúria divina é terrível; as paredes tremem, o chão fende-se, e a corte só não morre esmagada pelo tecto porque Loew ordena que o Golem os salve a todos.

Mas, por outro lado, o filme coloca grande enfâse na criação descontrolada do rabi, consistente com a visão do Judaísmo enquanto culto blasfemo, nocivo aos estritos quadros de tolerância cristã. O gueto é filmado como tendo enormes muralhas;  surge uma enorme tensão quando Florian – um cavaleiro loiro – começa a realizar algumas incursões ao interior da cidadela, seduzindo uma bela jovem pela qual o assistente do rabi se encontrava apaixonado. O impetuoso aprendiz de feiticeiro não faz mais nada, e atiça o poderosíssimo Golem contra o resplandecente nobre loiro. Como se pode imaginar, segue-se a chacina completa: o gueto acaba em chamas, e o cavaleiro é despedaçado pelo colosso. A amada assiste a tudo mas perdoa-lhe, e a comunidade judia permanece segregada, diferente, inimiga.

golem3Isto previne-nos contra a impossibilidade de realizar uma interpretação do filme que definitivamente lhe reconheça um pendor anti-semítico. Mas já se torna mais fácil compreender qual o significado que esta narrativa podia ter numa Alemanha que acabava de perder a guerra e ceder territórios importantes sob o Tratado de Versailles. O paralelismo é quase doloroso: o filme abre com uma comunidade ameaçada pelo exterior. Um salvador levanta o Golem, defende a sociedade, e ganha o respeito dos opressores. Contudo, o intrumento é degradado quando chegam os tempos de paz. Fazem do Golem um servente e um capataz, um mordomo e um moço de recados, impõem-se-lhe condições terríveis e, finalmente, criminosas. O Golem riposta, inicia-se a guerra, a loucura e o desespero. O ódio e a força nada podem contra ele. Morre, enfim, quando a inocência e o amor de uma criança ariana lhe arranca o talismã do peito e desfaz o feitiço do rabi.

Termino com uma derradeira observação. Algumas narrações sobre o Golem mostram o rabi a inscrever, na testa argilosa do colosso a palavra Emet (Verdade) para que ele ganhasse vida. Se quisesse aniquilar o monstro, o rabi apagaria a primeira letra do nome, formando a palavra Met (Morto). Loew tinha domínio total e exclusivo. Se nessas versões os segredos do funcionamento do Golem se encerravam na insondável mente do rabi – por cuja própria mão os símbolos eram tempestivamente desenhados – na visão de Wegener basta um pergaminho judiciosamente colocado no interior de um talismã traçado sobre o peito do lamacento monstro. Tal como a lição de que até o supremo conhecimento cabalístico dos estudiosos rabis pode ser facilmente transmitido  – e facilmente corrompido – por meio de uma tradição física de documentos, também a Alemanha encarava em 1920 a mudança, a incerteza, e o ominoso pressentimento – sufocantemente atenuado – de que não bastaria a continuidade de costumes ou a tradição do conhecimento para assegurar a integridade moral de uma comunidade que parecia mais separada da Europa que nunca.

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