
Já circula por aí uma nova tradução das Canções de Inocência e Experiência, do sempiternamente descurado William Blake. Desta feita, é Jorge Vaz de Carvalho – esse barítono letrado a quem roubei o título de um dos seus livros para uso indecoroso pessoal – quem se ocupa da pouco invejável tarefa de verter para a nossa língua a força destes versos. A edição conta ainda com as icónicas gravuras acompanhadas dos poemas na língua de origem (embora por amor de Hécuba, podiam tê-las imprimido em tamanho maior).
Como não falar do Tigre? O resto há-de ficar para ensaios académicos mas este é o poema que melhor introduz qualquer pessoa a Blake, e não é por acaso que a sua popularidade lhe assegura um lugar junto dos mais famosos poemas na língua inglesa. Simples e elegante de aparências, o poema esconde níveis de exegese profunda e escolhas métricas nada menos que geniais. Aqui fica a tradução ora publicada, roubada à boa gente da Assírio e Alvim:
Tigre Tigre, brilho em brasa, Tyger, Tyger, burning bright
Que a floresta à noite abrasa: In the forests of the night,
Que olho eterno ou mão podia, What immortal hand or eye
Traçar-te a fera simetria? Could frame thy fearful symmetry?
Em que longe lerna ou céus, In what distant deeps or skies
Arde o fogo de olhos teus? Burnt the fire of thine eyes?
Em que asas ousa ele ir? On what wings dare he aspire?
Que mão ousa o fogo asir? What the hand dare seize the fire?
E qual ombro, & qual arte, And what shoulder and what art
Pode os tendões do cor vergar-te? Could twist the sinews of thy heart?
Quando a bater teu cor se pôs, And when thy heart began to beat,
Que atroz mão? que pé atroz? What dread hand and what dread feet?
Qual martelo? qual o grilho, What the hammer? what the chain?
Foi teu cér’bro em que fornilho? In what furnace was thy brain?
Que bigorna? que atra garra, What the anvil? What dread grasp
Teu mortal terror amarra! Dare its deadly terrors clasp?
Quando estrelas dardejaram When the stars threw down their spears,
E com seu pranto os céus molharam: And water’d heaven with their tears,
Sorriu vendo o feito o obreiro? Did he smile his work to see?
Quem fez a ti fez o Cordeiro? Did he who made the Lamb make thee?
Tigre Tigre brilho em brasa, Tyger, Tyger, burning bright
Que a floresta à noite abrasa: In the forests of the night,
Que olho eterno ou mão podia, What immortal hand or eye
Ousar-te a fera simetria? Dare frame thy fearful symmetry?
Prometo que vou tentar ser equilibrado, mas há grandes motivos para não apreciar esta tradução e hoje sinto-me particularmente lixado da vida. Vou, no entanto, dividir este comentário maldoso em duas partes, até porque gosto de sublinhar a importância de uma leitura acompanhada com os originais (mesmo que não se domine completamente a língua em questão).
(i) A temível escansão;
The Tyger é normalmente apresentado como um dos exemplos mais famosos do tetrâmetro trocaico cataléptico.
Como esta linguagem é apta a induzir galopantes ataques cardíacos aos não-iniciados, passo a explicar. Cada verso é composto por quatro troqueus. Um troqueu não é mais que um pé formado por duas sílabas, em que a primeira é tónica, e a segunda atónica (seguindo as regras de acentuação inglesas). Por exemplo: “ti·ger”. A métrica latina é diferente (opondo o peso relativo de sílabas longas a curtas), mas isso já é outro tema.
Se cada verso contém quatro destes troqueus, então justamente se dirá que ele é tetramétrico. O último troqueu, no entanto, é monossilábico, encontrando-se incompleto (“bright“). A este corte se dá o nome bonito de catalexis, e por isso se diz que o último troqueu é cataléptico.
Nada de novo. Como disse, este é um dos exemplos mais interessantes de verso trocaico (embora com transgressões fascinantes, como a fluidez iâmbica da quinta estrofe ). O importante é sublinhar que tudo isto cumpre uma função própria. O troqueu é uma forma de agrupamento silábico-tónico que concede um ritmo forte e sincopado, carregado de carácter. Quase como um tigre que caminha pé ante pé, em calma contida. O facto de cada verso terminar em catalexis apenas introduz um elemento de imprevisibilidade vertiginosa que mais realça a ferocidade indómita do tyger.
Aqui fica uma proposta de escansão das duas primeiras quadras. A primeira é mais ao menos consensual; a segunda é da minha autoria:
Ty·ger·, Ty·ger·, burn·ing · bright ·
In · the · for·ests · of · the · night·,
What · im·mor·tal · hand · or · eye ·
Could · frame · thy · fear·ful sym·me·try·?
In · what · dis·tant · deeps · or · skies ·
Burnt · the · fire · of · thine · eyes?
On · what · wings · dare · he · as·pire?
What · the · hand · dare · seize · the · fire?
O primeiro verso é um hexâmetro trocaico cataléptico. Já li opiniões de que o Tyger estaria na verdade escrito em tetrâmetros iâmbicos acéfalos (quatro iambos, sem a primeiríssima sílaba), mas acho que isso é uma tolice. O epíteto de acéfalo serve outras situações: não há nenhuma sílaba roubada à palavra que inicia a contagem, e que é, simplesmente, tigre!
As coisas complicam-se a partir do segundo verso. Por exemplo, “of” não seria normalmente acentuado e todavia o ritmo trocaico quase que nos força a abrir a vogal. De igual modo modo, a acentuação de “immortal” seria feita sobre a primeira sílaba, de acordo com alguns dicionários, mas aqui recai sobre a segunda. É porventura a temível ideia do tigre que nos amedronta ao ponto de transgredirmos esta pureza.
Mas o aspecto mais fascinante desta escansão é de longe o quarto verso. “Symmetry” é acentuado no primeiro verso: “try” conta com um acentuação secundária, que, no melhor dos seus dias, nunca consegue rimar com “eye“. Assim, em termos métricos, já não estamos no verso trocaico, mas no verso iâmbico (dissílabos atónicos-tónicos). E outra possíbilidade é considerar a palavra “symmetry” um dáctilo perfeito e nem sequer acentuar a última sílaba de todo, o que contribui para uma quebra tónica tão desconcertante quanto a simetria felina que acabou de ser apresentada.
Em qualquer um dos casos, o verso que alude à simetria é o único que não condiz com o esquema trocaico nem rima com o verso precedente (o que só por si é genial). Fina ironia perigosa, esta do tigre perambulante.
Também brilhante, por motivos mais desafortunados, é o usual esforço da tradução portuguesa em preservar a todo o custo uma rima que não existe em termos perfeitos na versão original (“podia“// “simetria“).
Embora seja devido grande respeito às escolhas de um tradutor (e não obstante a rima em apreço ser fácil para a nossa língua, e por isso talvez até recomendada), este é o género de situações que revela uma leitura incompleta do original, assim como a tendência juvenil em preservar a sonância no final de cada verso (um rigor estulto, após se ter desfeito toda a métrica que o precede). Porquê? Apenas porque se afigura harmonioso? A rima é inconsequente sem o resto do poema, e se vamos considerar – como o devemos fazer – que há aspectos de um poema que não são passíveis de tradução (a acentuação saxónica é certamente um deles), porque motivo devemos preservar um par de sílabas troantes no final de cada verso em detrimento do sentido global do poema? Só porque tem de rimar?
Não há resposta aos problemas difíceis do ofício da tradução, mas penso que um ponto de partida seria o rigor silábico (não digo acentual). O ritmo do Tyger poderia ser mais fielmente transposto se, por exemplo, respeitássemos a redondilha maior (ou um número consistente de sílabas).
Citem agora Robert Frost se quiserem; o seu conhecido dictum é válido mas não pode servir para legitimar nada. Se sabemos ler um mínimo de inglês, então sabemos ler, cantar e esquadrinhar as palavras e, pelo caminho, constatar que pulsa ali um ritmo, uma essência qualquer a que depois podemos dar nomes académicos se quisermos (como este idiota escrevente de blogs). A tradução é indispensável em alguns casos, mas apenas para auxiliar à interpretação do conteúdo: só com esta fidelidade, em minha modesta opinião, deveria estar preocupada. Que se lixem as rimas.
(ii) As palavras, sempre as palavras;
O que está acima escrito é apenas uma opinião parva que se baseia na divisão métrica de um poema para ilustrar as fragilidades de uma tradução alheada do seu ritmo (e, como é exclusivamente minha, pode e deve ser ignorada).
Mas fico um tanto impressionado pela destruição de um dos mais famosos versos da história da literatura inglesa, com a escolha de “fera simetria” para adoptar “fearful symmetry“. Não é que seja contextualmente despropositado, mas está errado. Está mesmo errado.
Peço desculpa, mas as simetria não é fera, nem ferina, nem sequer felina. É terrível. É temorosa. É assustadora, é um par de olhos dançando na escuridão sufocante, certíssimos e exactos, pavorosos. A simetria é temível, simples como isso.
E não vale a defesa de que a tradução visou manter a aliteração de “frame thy fearful“. A versão portuguesa não alitera com nada. E como não está preocupada com a métrica, a sílaba excedente não deveria preocupar o tradutor.
Felizmente, esta bela edição da Assírio e Alvim contém as gravuras ao lado de cada tradução. O meu cor regozija-se por saber que os estragos se encontram minimizados, e que as novas gerações a quem poderá ser ofertado o livro pelo Natal não têm forçosamente de crescer sem essa magnífica expressão de força romântica que é a temível simetria do Tigre.
[Termo de arrependimento: provavelmente é incorrecto publicar estas baboseiras críticas a pessoas vastamente mais eruditas do que eu, mas que se lixe – também ninguém lê isto.]