CORREGEDOR
Ó senhor procurador!
PROCURADOR
Beijo-vo-las mãos juiz,
que diz este arrais que diz?
DIABO
Que sereis bom remador,
entrai bacharel doutor
e ireis dando à bomba.
PROCURADOR
E este barqueiro zomba?
Folgatais de zombador?
Essa gente que hi está
pera onde a levais?
DIABO
Para as penas infernais.
PROCURADOR
Dixe! não vou eu pera lá
outro navio está cá
muito milhor assombrado
DIABO
Ora estais bem aviado,
Entrai muiteramá.
CORREGEDOR
Confessastes-vos doutor?
PROCURADOR
Bacharel sou, dou-me o demo
não cuidei que era extremo
nem de morte minha dor,
e vós, senhor corregedor?
CORREGEDOR
Eu mui bem confessei
mas tudo quanto roubei
encobri ao confessor.
Porque se o não tornais
não vos querem absolver,
e é mui mau devolver
depois que o apanhais.
DIABO
Pois porque não embarcais?
CORREGEDOR
Quia esperamus in Deo.
DIABO
Embarquemini in barco meo
pera que esperatis mais?
Gil Vicente, Auto da Barca do Inferno
toda a gente quer a luz
ninguém a ela se rende
nos infernais tribunais ninguém quer ser julgado
e toda a gente se vende
é só assinar de cruz
dakruoen gelasasa- ficava mais literal sorrindo no brilho gélido das lágrimas
mas eu sempre do grego fugi e o blog é suyo