Schadenfreude

A inoperância de um prazer tão culposo como a Schadenfreude torna-se desagradavelmente óbvia quando estamos a falar de um poeta como William “Topaz” McGonagall (1825-1902). Este homem,  escocês nascido em Dundee, veraz amante de alta cultura e admirável auto-didacta considerando o meio em que nasceu, é hoje tido como o pior poeta que a língua inglesa já conheceu. Em vida, foi ridicularizado e enxovalhado por todos os que entraram em contacto com a sua obra ou as suas entusiásticas declamações. Em morte, adquiriu um estatuto de peça curiosa, de ave rara, ou de simples curiosidade domingueira que, nos triclínios de uma poltrona chuvosa, arranca sonoras gargalhadas à divertida alma que folheia um dos seus livros.

Quase apetece dizer que há limites — ou pelo menos balizas — para a prática da chacota e o saudável exercício da crueldade. Afinal de contas, é importante recordar, seus bois, que vocês são seres humanos. Peço desculpa, estou a citar Jaroslav Hašek. O que eu quero dizer é que a crueldade só tem piada quando o objecto do nosso veneno é vulnerável às vituperiosas investivadas. Agora quando as nossas melhores invectivas resvalam na couraça da indiferença o praticante da chacota fica com a impressão de estar a ser realmente insensível e javardo. É a esta conspurcação moral que tão frequentemente se acoplam as convicções do género “eu vou parar ao inferno por causa disto“.

Esquematicamente, a coisa processa-se assim:

  1. -> Sabemos que rir de X é errado;
  2. -> Queremos rir a todo o custo;
  3. -> Recordamos que rir de X está errado;
  4. -> Rimos animalescamente;
  5. -> Depois acendemos um cigarro;
  6. -> Começamos a sentirmo-nos mal;
  7. -> Tentamos esquecer que afinal estivémos a tomar prazer na antecipação do nosso desconforto futuro (naquilo que é uma modalidade extremamente masoquista e reflexa de Schadenfreude).

É que estamos a falar de um homem que era abertamente gozado pelos “publicants” das tavernas de Dundee. Que foi recusado pela Rainha e julgou estar recebendo uma menção honrosa. Em suma, e inacreditavelmente, num “Poet and Tragedian” que nunca deixou de acreditar em si próprio e que sempre conseguiu arranjar justificações para o facto de o mundo não gostar dele, o que acarta duas consequências muito importantes para a filosofia contemporânea: (i) gozar com ele torna-se menos divertido, e até bastante porco, a partir do momento em que percebemos que ele estava a falar a sério; e (ii) da próxima vez que alguém vos disser que “o importante é acreditarem em vocês próprios“, façam uma cara séria e recitem o seguinte poema, essa magnum opus do Topázio MacGonagall, sobre a mítica ponte férrea sobre o rio Tay:

“The Railway Bridge of the Silvery Tay”

BEAUTIFUL Railway Bridge of the Silvery Tay !
With your numerous arches and pillars in so grand array
And your central girders, which seem to the eye
To be almost towering to the sky.
The greatest wonder of the day,
And a great beautification to the River Tay,
Most beautiful to be seen,
Near by Dundee and the Magdalen Green.

Beautiful Railway Bridge of the Silvery Tay !
That has caused the Emperor of Brazil to leave
His home far away, incognito in his dress,
And view thee ere he passed along en route to Inverness.

Beautiful Railway Bridge of the Silvery Tay !
The longest of the present day
That has ever crossed o’er a tidal river stream,
Most gigantic to be seen,
Near by Dundee and the Magdalen Green.

Beautiful Railway Bridge of the Silvery Tay !
Which will cause great rejoicing on the opening day
And hundreds of people will come from far away,
Also the Queen, most gorgeous to be seen,
Near by Dundee and the Magdalen Green.

Beautiful Railway Bridge of the Silvery Tay !
And prosperity to Provost Cox, who has given
Thirty thousand pounds and upwards away
In helping to erect the Bridge of the Tay,
Most handsome to be seen,
Near by Dundee and the Magdalen Green.

Beautiful Railway Bridge of the Silvery Tay !
I hope that God will protect all passengers
By night and by day,
And that no accident will befall them while crossing
The Bridge of the Silvery Tay,
For that would be most awful to be seen
Near by Dundee and the Magdalen Green.

Beautiful Railway Bridge of the Silvery Tay !
And prosperity to Messrs Bouche and Grothe,
The famous engineers of the present day,
Who have succeeded in erecting the Railway
Bridge of the Silvery Tay,
Which stands unequalled to be seen
Near by Dundee and the Magdalen Green.

Lindo! Bravo, Topázio! Que Whitman das Escócias! Que elegia à complexidade inoxidável da engenharia moderna!

Só é pena que a Ponte Sobre o Rio Tay tenha caído alguns dias mais tarde:

Beautiful Railway Bridge of the Silv’ry Tay!
Alas! I am very sorry to say
That ninety lives have been taken away
On the last Sabbath day of 1879,
Which will be remember’d for a very long time.

E parecia estar a ir tão bem…

Não sei o que é mais cómico: se as rimas, se o facto da ponte ter mesmo caído. Se calhar deveria estar zangado com McGonagall, visto que a sua poesia é tão má que transmogrificou a morte de algumas pobres dezenas de almas numa belíssima ampola de humor negro. E há muito humor no facto do poema estar escrito num tom irresistivelmente factual, com a pronúncia nivelada de uma notícia financeira, em tudo não muito diferente do tipificado “we interrupt this program to bring you a special announcement: the Railway Bridge over the River Tay has just collapsed. More on this at 9. We now resume our regular programing“.

Mas esperem. A dada altura, a população de Dundee, superando o seu luto e acreditando na inexorabilidade benigna do progresso ferroviário, foi enfim agraciada com uma segunda ponte sobre o Tay, uma sóbria ponte contra cujos alicerces se empurravam memórias tristes e pressentimentos ominosos, e sob cujos arcos esmorecia o caudal negregado das vítimas inglórias.

Esta seria realmente uma bela oportunidade para meditar sobre a fragilidade da construção humana. Quantos perigos e flagelos da fé inquebrantável na modernidade!

Mas que faz o nosso poeta? Sem a menor hesitação ou lealdade, depois de dois poemas sobre o mesmo assunto, desata a elogiar a nova ponte sobre o Tay!

“An Address to the New Tay Bridge”

BEAUTIFUL new railway bridge of the Silvery Tay,
With your strong brick piers and buttresses in so grand array,
And your thirteen central girders, which seem to my eye
Strong enough all windy storms to defy.
And as I gaze upon thee my heart feels gay,
Because thou are the greatest railway bridge of the present day,
And can be seen for miles away
From North, South, East or West of the Tay
On a beautiful and clear sunshiny day,
And ought to make the hearts of the “Mars” boys feel gay,
Because thine equal nowhere can be seen,
Only near by Dundee and the bonnie Magdalen Green.

Impecável. Não me admire que algumas vozes maioritárias já consideram que McGonagall obrou afinal com propósitos satiristas. Felizmente, acho que estão mesmo errados.

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One thought on “Schadenfreude

  1. Chorous diz:

    ahahah
    Acabei de abrir 1 conta no twitter para o meu blog – poesiaclandestina – ; o twitter teve 1 #fail qd eu estava ultimar o protocolo da conta … qdo voltei a abrir tinha o Reza Pahlevi como primeiro Y único Follower ( eu n fiz nadinha! n tinha seleccionado ninguém!!! JURO) … n tive coragem Para fazer Unfollow Y achei 1 delícia a lotaria … Y para q o Sr. RP q mto preso ( salvaguardo) n considera-se bizarro o meu Follow … lá fui arranjar umas companhias … Claro espiolhei a Assírio … Encontrei 1 “António” … Mistério! Quem será … Abro o teu blog … percorro na diagonal ( Não quero nem me apetece seguir a concorrência, claro! ) … Y olho para esta foto da Ponte – irresistível!! –
    Começo a ler o Texto! …………………… Caramba que grande pronúncio!! Delirante!
    Ok! dado este rocambolesco … sejas lá quem fores … estás convidado para o Poesia Clandestina. … “Os piores Poemas de Sempre” ” O Pior Poeta de Sempre” heheheheh … não deixa de ser fascinante esta aventura virtual Y este teu Post.
    Vale.

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