Sobre os contextos

No texto anterior fiz uma menção imperceptível à rigidez dos contextos e, por extensão, ao severo jugo que nos impõem. Estava na verdade a pensar num pequeno painel electrónico que me cativou a atenção no Centro de Arte Moderna de Santiago de Compostela, algures na noite granítica da cidade velha.

Por essas alongadas galerias compostas pelo floreado pulso de Siza Vieira, fui massacrado durante algumas horas pela exposição consagrada à fotografia de alguns dos artistas da chamada Escola de Boston. O termo é enganador e parte de um dos membros da própria “Escola”, um dos poucos ainda vivos (Nan Goldin). Os restantes foram ficando pelo caminho: suicídio e sida parecem ter as grandes causas de óbito de uma geração que teve o mérito de procurar fazer coisas inenarráveis com as suas fotografias através da representação de realidades indignas da película (o perigo embotador disto é que, para a minha geração, uma tal atitude é demasiado óbvia e, de tão pré-adquirida, convola-se um pretexto para não ser seguida). Mas foi uma incursão inesperada por algumas das fotografias mais conhecidas de Diane Arbus e Philip-Lorca DiCorcia, entre outros, incluindo o genuinamente perturbador Mark Morrisroe.

Todavia, era fora das galerias, escondidinho numa esquina da livraria térrea, que um painel empertigado propunha uma visão sobre a rotina e o contexto. Um corte transversal de um edifício de apartamentos e a rua à sua frente mostrava, em animação simplista, as vicissitudes diárias de um conjunto de habitantes e transeuntes. Via-se cada divisória: cozinhas, quartos, salas de aula, um ginásio, uma estrada e passeio, um sótão, e assim por diante. No alto, um pequeno relógio e uma nesga de céu com um sol ou uma lua marcavam as marés humanas. Pequenas figuras feitas de pauzinhos brancos ou pretos marchavam, viviam e morriam naquele quadro: o ciclo dos dias era ininterrupto.

O contexto é o elemento central da individualidade. Noção central. Só pela sua superação se atinge a dissemelhança que tantas vezes cumpre o traje da natureza genuína. Por isso, a mensagem não podia deixar de ser clara: aquelas figuras de pauzinhos não se alimentavam de volições ponderadas e depuradas dos elementos exteriores do espaço ordenado, mas antes como se fossem as próprias divisórias a narrar-lhes o que deveriam fazer.

Por vezes havia várias dimensões do mesmo contexto. Assim, uma divisória ditava um comportamento diferente dependendo da hora do dia ou da actividade circundante (rectius, da existência e “modo” das divisórias circundantes). No mesmo quarto, as personagens ou dormiam, ou liam, ou fodiam, ou preguiçavam, escravas da hora do dia. Mas nada mais. Ninguém dançava no quarto, ou escrevia uma carta na cama. Não se praticava ginástica na sala de estar. Ninguém fazia amor no terraço, ao sol. Havia sempre alguém a ver televisão (e praticamente todos o faziam a partir das 8 da noite – os solteiros demoravam-se mais). Naquela transfiguração do espaço como elemento externo compressor de vontades, tudo era mecânico, desapaixonado, sem sequer o propósito simplificador e funcional da rotina empenhada.

E no fundo isto é Édipo. Um magote de gente em plena posse da sua autonomia e livre-arbítrio que seguem nas tarefas pré-ordenadas de uma colectividade organizada em direcção a um final conhecido. Tudo o que dizemos, de um modo ou outro, é ironia e profecia.

O Coro pergunta-nos: Porque deveremos dançar?

E nós respondemos, sem vergonha: Não sabemos, Coro.

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