Apologia do esquecimento

Têm razão os senhores da Natureza do Mal quando escrevem o que escrevem sobre as responsabilidades inerentes à manutenção de um blog. Pela minha parte, tratam-se de obrigações naturais, para usar gíria do meu quotidiano — puramente reflexivas — não exigíveis — talvez por isso mesmo, mais pesadas que as normais. Mas no fundo é preguiça.

Em todo o caso, as desculpas pela ausência, mesmo diante de um auditório vazio, são uma das muitas cenas que se tem de ensaiar ao longo da vida. A partir do momento em que o contexto principia a definir um homem (deixando eu de quebrar o conjunto para renunciar a individualidade) um acto como este torna-se quase expectável, obrigatório.

A justificação tem sempre que ver com o trabalho, para quem trabalha; com o estudo, para quem estuda; com a vida, para quem a vive; com a preguiça, para quem tem a sorte de preguiçar; com o amor, para quem pode amar. Dizendo de outra maneira, com as obrigações de uma vida invariavelmente preenchida por peças que eu não sei denominar e que de algum modo, não me pertencem (como o puzzle de vida daquele Voyageur Magnifique que, no final da montagem do quadro, guarda umas peças na mão, sinal meio fútil de si próprio).

Por vezes, raramente, uma centelha minguante de calor ao final dos dias, extinguindo-se pela noite dentro. Não um clarão de desespero, como aquela  terrível light [that] gleams once, and then it’s night once more, mas algo mais gradual e humano, mais observável e doloroso. Por exemplo, sim, como o quadro de Friedrich, um pouco acima, como uma memória nascida de um momento sonolento em serões disconexos. Quase renuncio à juvenilidade que é falar dos meus crepúsculos como as horas que perduram em expectativa daquela voz que me encantou, daquele olhar que não se deixou definir pelos meus regougos performativos objectivo correlativos diegéticos inteiramente patéticos.

Flit. Porque no Tegner’s Drapa de Longfellow, há um lindo e selvagem panegírico (quasi un parodos) que já tocou almas maiores que a minha.

“I heard a voice, that cried, / “Balder the Beautiful / Is dead, is dead!” / And through the misty air / Passed like the mournful cry / Of sunward sailing cranes.”

Assim atravessa o esguio poema o grito ondulante dos canaviais nórdicos para terminar numa proposta de esperança. “But out of the sea of Time / Rises a new land of song, / Fairer than the old. / Over its meadows green / Walk the young bards and sing.”

Esperemos que assim seja.

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2 thoughts on “Apologia do esquecimento

  1. mc diz:

    “auditório”…vazio, não!

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