Para derrotar o óbvio

Pode-se acreditar que um produto da arte humana, logo a partir do momento em que é botada para o mundo, se desgarra do seu criador para integrar um acervo humanístico. Mais do que estilhaçar os resquícios da tentadora falaciosidade autoral, esta crença postula que as interpretações são infindáveis. A obra desliga-se de todas as suas raízes, de todos os sinais normativo-performativos. Quem é o escritor para me dizer como deverei recitar um dos seus poemas? Que alcance tem o ditame do compositor moderno que, não refastelado com a inscrição explícita do metrónomo a 132 e três quartos, legifera ainda a duração (não apenas estimada mas sim exigida) da performance?

Estas ideias soltas vieram ter comigo enquanto ouvia algumas gravações de Ivan Kozlovsky. Tenor ucraniano, superlativo no reportório operático russo, Kozlovsky também interpretou peças de matriz mais ocidental ao longo da sua carreira, embora a sua fama retardatária deste lado das muralhas da União Soviética reserve por vezes alguma surpresa ao curioso que, no final de uma tarde de domingo, descobre que ele também cantou Schubert. Também desconhecia também que ele o fazia em russo. Será isso mais honesto? Por vezes é apenas mais digerível. Bartoli em alemão não funciona, por exemplo, por mais cambalhotas de coloratura que ela dê (e para quem aprecia esse género de vocalismos, ela é realmente brava).

Enfim, é escutar. Por esta altura, a Ständchen ou Serenada já é tão conhecida que não vale a pena perder tempo com a sua análise. Mas adoro — não há outro verbo — adoro a modulação inaugural do primeiro verso: “Através da lenta noite voam as minhas canções até ti” (Leise flehen meine Lieder / Durch die Nacht zu dir ), numa redondilha maior de mãos enlaçadas com uma menor, corropiando em doçura até ao final (a noite não é exactamente “lenta” — não como as “canções” — mas este arranjo tem algo de intrinsecamente agradável).

Epea pteorenta, realmente! Mas aqui o apetrecho é outro, e o amor um verdadeiro bailado. Numa altura em que estudo tão intensamente as palavras antigas (ao ponto de perder as minhas), este género de Serenadas não é apenas um bálsamo de Inverno. É  uma simples maravilha, manifestação descomplicada, autêntica: suficiente.

Com as etiquetas , , ,

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: