Lasciami, Berenice

Berenice, stupida e misera, che fai ancora? Na versão dos meus anos, poderá existir um Demétrio sem um Antígono, assim o garanto. Berenice será então feliz, e o auge das suas paixões não mais será cantado numa scena volúvel, diante de uma orquestra, em pedernidos átrios de palácios egípcios, mas enumerada em descendências com rostos, décadas de partilha, e suaves florilégios primaveris.

Mas quantas versões de ti nesta vida, ainda? Oh, trapaceiro e celebrado Metastasio, que a foste escrever e condenar a uma contínua representação ao longo desse caminho escuro que se afasta de mim. Berenice, é assim tão terrível desejar a travessia do rio até ao Lete, somente para te observar do outro lado sem razões para me seguir? Apenas porque mais doce é ficar nesta margem e observar a tua dança, cifrando com o teu olhar um ritual de felicidade longínqua enquanto permito que que os fios de água montante me cubram os pés com a fina areia dos anos ligeiros.

Se seguirmos o libretto, encontramos um Recitativo – seguido de uma Aria – e mais um Recitativo. Mas é esta a maneira de te cantar, minha querida? Que estrutura pode haver na tormenta se pela minha própria mão me desfaço, qual Antígono terceiro sem poder, sem porte, sem pretensão ou presença, ausente de qualquer constrangimento para Berenice?

Aspetta, anima bella:
Ombre compagne a Lete andrem.

Se non potei salvarti potrò fedel…
Ma tu mi guardi, e parti?

Non partir, bell’idol mio:
Per quell’ondo all’altra sponda
Voglio anch’io passer con te.

Ma infelice! Che fingo? Che ragiono?
Dove rapita sono
Dal torrente crudel de’miei martiri?
Misera Berenice, ah, tu deliri!

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One thought on “Lasciami, Berenice

  1. António diz:

    Uma tradução do excerto acima publicado, do terceiro acto do libretto de Antigono:

    Espera por mim, alma bela,
    Como sombras irmãs iremos até Lete
    Não te podendo salvar, serei fiel…
    Mas nada dizes, partindo?

    Não partas, meu belo ídolo:
    Até à outra margem desse rio
    Desejo acompanhar-te na travessia.

    Infeliz! Que penso? Que imagino?
    Até onde fui arrastada
    Pela torrente cruel do meu martírio?
    Miserável Berenice, ah, deliras!

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