Restauração Nacional de Pessoas Colectivas

Duas jovens dobram a esquina da saleta de espera, antecedidas na sua sombra pelos fragmentos de uma hesitante conversa em língua estrangeira. Permanecem apeadas durante alguns instantes até serem acometidas por um cavalheiro de meia-idade com aspecto de financiador que as convida a tomar assento. Inicia-se então a stasis sobre o nome da futura empresa.

Aceito que uma das jovens seja a filha daquele cavalheiro de aspecto financiador, mas a outra jovem – figura esguia e loira com a reserva de gestos habitual numa pessoa de outro meio e  que nunca deve ser confundida com a timidez – é ilocalizável. Contento-me com a extensão geográfica da Europa Central e regresso à minha leitura. No quadro, os números picotados a vermelho arrastam-se com uma vagarosidade digna de um começo de ano civil.

O cavalheiro expõe a ordem do dia: minhas senhoras, há que escolher um nome. E o bom do Governo, sempre simplificando, já lhes reservara milhares de nomes, miríades de firmas de fantasia, resguardadas em bolsas jurídicas para que nenhuma alma pudesse passar um dia sem a possibilidade de, achando-se a terminar o seu café de almoço, decidir constituir uma empresa antes da hora terminar sem que as instituições que pautam a sua vida o privassem desse fulcral instrumento de realização pessoal.

Mas é sabido que esse bom Governo não é muito hábil com os baptismos societários. E o cavalheiro passa a enunciar as escolhas que se encontram em cima da mesa (ou seja, os nomes pré-reservados, cada qual mais fantasioso que o anterior). A jovem estrangeira parece um tanto apoquentada. Mas isso vai ser o nome do restaurante? A sua expressão é de incredulidade absoluta. Credo, não, acorre o cavalheiro! O nome do restaurante escolhemos nós: este é somente o nome da empresa. Percebe? Da company.

Visivelmente desconfiada, mas não menos visivelmente conformada com o seu papel de participante inferior na fundação da nobre empresa, a estrangeira resigna-se. O cavalheiro prossegue na enumeração das possibilidades: a primeira é Momentos Gulosos. Bonito serviço. Mas também há Iguarias de Ouro, Iguarias Feiticeiras, Apogeu do Sabor, 100 Variações. Sobre cada um deles se debruça a ágora. Que significa a primeira, indaga a jovem estrangeira? O cavalheiro de aspecto financiador e a jovem portuguesa que entretanto se tornara a sua filha estacam. Well, você sabe, momentos toda a gente sabe o que é. E gulosos, bem… A gula é um dos sete pecados mortais. Está a ver? The deadly sins? Já viu o filme? É o… o… não me lembro do nome do pecado em inglês, mas é quando se come muito, vê?

Se ela não viu, fingiu que sim, com um sorriso elegante, elegendo fazer perguntas igualmente difíceis relativamente a cada outro dos nomes. As Iguarias Feiticeiras, por exemplo, tiveram de ser explicadas por recurso às witches, porque as feiticeiras, como sabem, make magic.

O cavalheiro atende uma chamada no seu telemóvel. Do outro lado, o presumível segundo sócio gosta muito do Apogeu do Sabor. Acaso pensará que confere um troar apoteótico à confecção de iguarias, uma dignidade helénica à coisa para que os convivas, afastando o desejo do alimento e bebida e vertidas as libações de outrora, possam ainda mandar vir o ferreiro para dourar os cornos aos bois e seguidamente lançar uma hecatombe às extensões do Tejo. Peço desculpa, estou a divagar.

Lá se decidiram, não me recordo de qual. Bastava aguardar pela vez. Entretanto, a estrangeira timidamente saca de um conjunto de folhas manuscritas, que pela sua apresentação e listagem perceptível se afirmavam à distância como um conjunto de receitas caseiras. Seria ela a cozinheira daquele futuro empreendimento? Que peso, o dos preconceitos aplicados às imobilidades laborais. Daquela linda jovem dir-se-ia tudo menos ser uma depositária de sabores ancestrais, mas era certo que naquelas páginas se reunia uma medida de conhecimento importado, de esperanças e entendimentos transpostos de um espaço para o outro. Foi então que passei a chamar-lhe Babette.

O cavalheiro, no entanto, tinha em mente aspectos menos báquicos e sublinhava a importância de uma boa mecânica no serviço de saladas rápidas. Explicava, com grande propriedade: uma salada é sempre a mesma coisa, há que encontrar uma base e depois  o processo funciona por acréscimo. Fundamental termos saladas para as refeições rápidas de almoço.

Tendo sido sonegada em saladas, Babette avança com outras sugestões. Por algum motivo, o cavalheiro teima em ensaiar um discurso sobre um prato que oferecia algumas semelhanças com as preparações de risotto, embora contasse com alguns acompanhamentos adicionais. You know risotto, é muito difícil de oferecer como prato. Muito difícil. É difícil sair sempre igual, pouca gente o sabe fazer bem. Basta ver que eu tenho quatro restaurantes e nunca, mas nunca peço risotto em nenhum deles.

E não é que parecia orgulhoso do facto? Infelizmente, foi então que chegou a minha vez de ser atendido. Logo quando a conversa arriscava uma direcção francamente cómica.

Só me resta concluir com uma alusão a um excelente comentário blogosférico (que infelizmente não sei localizar, embora esteja seguro de ter provindo dos excelentes Contraprova ou do Da Literatura – que não podiam ser mais diferentes, nem mais diversamente bem escritos), observação essa que notava a fatuidade da restauração portuguesa radicada nos ímpetos dos grupos de amigos que, arrotando galhardias ao final do almoço domingueiro, rapidamente passavam à acção do pensamento. Se calhar devíamos abrir um restaurante, nós como sócios. A tua mãe cozinha, ali o Luís tem aquele espaço que não serve para nada, eu tratava das licenças, arranjávamos uns quantos pratos, e zás, tínhamos um restaurante muito melhor do que a maior parte desses estabelecimentos que não sabem o que é uma sopa, vivem à base de almoços gordurosos, e apresentam duvidosos pratos de arroz.

E agora despeço-me com um excerto do Hard Times, de Charles Dickens, que contém lições muito más para a vida em geral mas ensinamentos muito proveitosos para todos aqueles que estiverem a pensar em abrir um restaurante. Never wonder. Se todavia já tiverem passado essa fase, a lição em causa deverá ser a do simples bom senso e bom gosto (os quais, contra o que o Sr. Gradgrind poderia alegar, não são outros nomes para Facto). Entretanto, se a Babette aprender português e vier cá ler isto, desde já me ofereço para servir de provador a qualquer prato de risotto ou salada que ela me queria preparar.

When she was half a dozen years younger, Louisa had been overheard to begin a conversation with her brother one day, by saying ‘Tom, I wonder’ — upon which Mr. Gradgrind, who was the person overhearing, stepped forth into the light and said, ‘Louisa, never wonder!’

Herein lay the spring of the mechanical art and mystery of educating the reason without stooping to the cultivation of the sentiments and affections. Never wonder. By means of addition, subtraction, multiplication, and division, settle everything somehow, and never wonder. Bring to me, says M’Choakumchild, yonder baby just able to walk, and I will engage that it shall never wonder.

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