Ainda sobre o antigo valor

A propósito de Petrarca e do antiquo valor” nos corações italianos, destaco uma das conversas que Castiglione inscreveu no seu Il Cortegiano. Ao que parece, nem em amena cavaqueira se esqueciam os nobres que a civilização itálica da renascença tinha pretensões de superioridade sobre as suas raízes latinas. Até a exegese de autores clássicos reflectia essa condição mais altiva, como se pode depreender do seguinte trecho:

Então sire Bernardo e todos os outros começaram novamente a insistir para que continuasse, e o Magnífico disse a rir: «Quereis experimentar-me. Todos vós sois muito sabedores das coisas de amor; mas se tendes vontade de saber mais, ide ler Ovídio.» Sire Bernardo disse: «E como poderia eu esperar que os seus preceitos sejam válidos no amor, quando aconselha como um excelente meio que o homem, na presença da mulher amada, finja estar embriagado (vede que boa maneira de obter favores!) e quando, estando num banquete, afirma que uma boa maneira de fazer compreender a uma dama que se está enamorado, é mergulhar o dedo no vinho e escrevê-lo sobre a mesa?» O Magnífico respondeu a rir: «Naquele tempo não era uma falta.» Sire Bernardo disse: «Mas uma vez que uma coisa tão sórdida não desagradava aos homens desse tempo, é de crer que não tivessem maneiras de demonstrar o amor às damas tão corteses como as nossas; mas não abandonemos o nosso propósito inicial, que era ensinar a manter o amor secreto.» (Livro III, LXXII)

Sumariamente: os nobres não hesitam em considerar a época romana “sórdida“, um tempo pretérito em que a maior grosseria maior “não era uma falta“. Há aqui muito por onde pegar, desde a qualificação orgíaca dos tempos de Ovídio (convenhamos que o carácter dissoluto de certos círculos sociais romanos está bem documentado) até à afirmação de um novo conceito de amor (o que novamente nos remeteria para toda a evolução cortesã desde os trovadores).

Para complementar tudo isto, só me restou ir à procura das passagens mencionadas por Sire Bernardo, que penso estarem repartidas pelos Amores e pela Arte de Amar (socorro-me das traduções de Carlos Ascenso André, na Cotovia). A primeira referência que consegui recuperar encontra-se nos Amores (Livro II, V):

Eu mesmo vi, triste de mim, quando julgavas que eu dormia,
a vossa traição; apesar do vinho que fora servido, eu estava sóbrio;
muitas coisas vos vi dizer, com trejeitos das sobrancelhas;
nos vossos acenos havia muita conversa;
não se calaram os teus olhos, palavras foram escritas com vinho
no tampo da mesa, e, nos teus dedos, não deixava de haver algumas letras;
bem reconheci que vossas falas diziam o que não parecia
e que o valor das palavras dependia de um código combinado.

Os Amores são mais enciclopédicos na destilação das vicissitudes do amor do que a Arte de Amar, e é por isso que este poema assume um tinir quase lamurioso, ocasionalmente roçando a tristeza do poeta traído (ou rejeitado). A sua amada, pelos vistos, seguira o conselho da escrita avinhada sobre o tampo da mesa, e o seu conteúdo cifrado deve ter feito subir a mostarda ao nariz de Ovídio (que, ao contrário do de Cleópatra, não devia ser muito bonito).

Os conselhos propriamente ditos podem ser encontrados na Arte de Amar (Livro I, a partir do verso 567):

Aí, muitos segredos poderás dizer, com palavras disfarçadas,
que ela há-de sentir serem-lhe ditos a si,
e escrever palavras de ternura com um pouco de vinho,
para que na mesa ela possa ler que é a tua senhora
e contemplar os olhos com os olhos que denunciam a chama;
muitas vezes, no silêncio, possui o rosto voz e palavras.

Ora cá está. O poeta recomenda a escrita de que os senhores da corte de Urbino tanto zombaram. Daqui se retira que Ovídio ensinou este truque a toda a gente e depois a sua senhora seguiu as suas instruções à risca. Infelizmente para Ovídio, fê-lo com outrem, conforme rezam os Amores, o que muito o terá incomodado. Grande lição latina: manter a boca fechada.

Quanto aos benefícios de uma embriaguez simulada, o poeta ensina, algumas linhas mais abaixo:

Se tens voz, canta; se tens braços elegantes, dança,
e com qualquer arte com que sejas capaz de encantar, encanta;
faz a tua língua murmurar, titubeante, sons balbuciados,
por forma a que o que fizeres ou disseres, mais desbragado que o
normal,
seja tido na conta de vinho a mais;
e exclama: “Ventura a esta dama; ventura a quem com ela dorme!
Mas desventura”, pragueja para os teus botões, “ao seu marido!”

Sem prejuízo do latim original, não se acham referências à obtenção de favores por meio dos prazeres de Baco (vale a pena notar que o Livro do Cortesão contém um grande número de citações indirectas que julgo serem apócrifas). Mas logo se vê que as danças romanas deveriam ser uma linda xaropada se o requisito principal para uma boa performance era a sprezzatura de braços. As pernas, é certo, deviam estar bem deitadinhas nos canapés, ou então debaixo da mesa onde se acotovelavam os sétimos e oitavos pratos. Interrogo-me se era a isto que Adriano se referia quando Yourcenar nele colocou a transitória atracção pela dança, mas parece-me que os cortesãos italianos levam a palma nas lides de salão e que Petrarca estava absolutamente correcto no que versejou.

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