Sobre os pobres de espírito

Nunca se esqueçam, seus bois, que vocês são seres humanos.”

– O Capelão Otto Katz, numa das suas gárrulas homilias.

O Bartleby de Melville era um tipo tão honesto. Quando, um dia, o patrão lhe pede que realize uma tarefa, ele responde inesperadamente que “preferiria não o fazer“. Para além de ter inaugurado a modernidade dos nossos dias, esta resposta natural e desarmante simboliza a inatacável presença de um arbítrio honesto, simples, e atormentado pelos contornos do mundo exterior. Que se pode fazer contra isto? A posição de Bartleby é incómoda para que os rodeiam porque nele não existe uma camada adicional de intenções por detrás da apatia. Ele, genuinamente, preferiria não ter de fazer aquelas coisas.

Švejk não é muito diferente, embora seja inegavelmente mais alegre – para não dizer cônscio da “decadência feliz” que reinava no Império Austro-Húngaro a partir da viragem do século. Poderia até pensar-se, com muitos dos seus oficiais superiores, que Švejk não passaria de um pateta alegre, não fosse a honestidade calculada com que desempenha o papel de idiota chapado tão frustrante como as apatias de Bartleby.

Às vezes é preciso um idiota para mostrar o sentido do mundo. Quando Dostoiévski quis criar uma personagem jovial para O Idiota, viu-se forçado a conceber um palerma protagonista chamado Princípe Myshkin, em deferência à rígida plausibilidade dos costumes S. Peterburguenses. A ideia de honestidade e inocência sempre agiu como um espelho acusador – e esclarecedor – das maiores atrocidades e absurdos da época reinante. Assim mesmo, a candura desse “valente” soldado Švejk é como uma camada de bom senso num mundo que se proclamou ateu da sensatez.

A única particularidade consiste no facto de Švejk não ser nenhum idiota – da mesma forma que Bartleby não era nenhum preguiçoso. O talento inaudito com que Švejk é capaz de representar esse papel atira-nos, no início do livro, para um registo humorístico ligeiro, repleto de piadas de caserna e episódios soldadeirescos tão bem conhecidos dos tempos de recrutamento obrigatório. O chico-espertismo dos alferes e cabos nunca desaparece completamente, mas cede o pedestal a duas outras camadas de humor, mais centradas nos vícios das personagens que atravessam o percurso de Švejk ou nas simples irrealidades da guerra.

Não me consigo todavia furtar a uma certa compaixão triste por Švejk. É certo que o homem vai sobrevivendo, mas só como o faria um destroço de madeira que se consegue manter flutuando, sacudido pelos vagalhões que rugem na cloaca maxima das hipocrisias beligerantes. Tal como tantos checos que foram resistindo ao longo do século XX, Švejk encerra uma lição de desintegração do ser e distensão da autonomia em nome de uma sobrevivência irrepreensível, talvez necessária. Mas tão lúgubre e insonsa…

Com as etiquetas ,

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: