Unidos de novo!

— Eu bem lhe digo; o rum é algo de indispensável na linha da frente durante qualquer estação do ano, e o vinho também. Proporciona bom humor, assim por dizer. Por meia vasilha de vinho e um quarto de litro de rum uma pessoa luta contra quem quer que… Mas quem é a mula que está a bater à porta outra vez? Não sabe ler o que está lá escrito: “Não bata à porta. Entre.

O Tenente Lukáš virou-se na sua cadeira e encarou a porta, observando como ela se abria suave e lentamente. E suave e lentamente entrou o valente soldado Švejk nos ofícios da Décima Companhia de Infantaria.  Estava a fazer continência a partir da entrada, e possivelmente estivera a fazer continência até enquanto batia à porta e olhava para o sinal “Não bata à porta“.

A sua continência era o acompanhamento vigoroso do seu rosto eternamente contente e sem preocupações. (…)

O Tenente Lukáš cerrou os seus olhos por um momento ao ver o valente soldado Švejk, que o abraçava e acariciava com os seus relances, provavelmente com o mesmo afecto com que o perdido e recém-encontrado filho pródigo olhava para o seu pai enquanto ele assava uma ovelha no espeto em sua honra.

— Meu Tenente, o meu humilde relatório: aqui estou outra vez — disse Švejk com tão sincera naturalidade que o Tenente Lukáš despertou subitamente. A partir do momento em que o Coronel Schröder o informara que ia recambiar-lhe Švejk e que ele o teria em redor de si outra vez que o Tenente Lukáš tinha mentalmente tentado adiar esse encontro. Todas as manhãs dizia para si mesmo: — Ele não virá hoje. Provavelmente meteu-se noutra e vão retê-lo por aí.

Mas Švejk rectificara todos esses cálculos com a sua doce e simples entrada. (…) Švejk, como de costume, olhava para o Tenente Lukáš com os mais ternos olhos, como se dissesse: — Unidos de novo, meu coração! Agora nada nos separará, meu querido.

E porque o tenente permanecesse em silêncio durante muito tempo, os olhos de Švejk falaram com ternura entristecida: — Fala, meu querido, diz o que pensas.

O Tenente Lukáš quebrou o silêncio embaraçoso com palavras em que procurou injectar uma dose considerável de ironia: — Seja verdadeiramente benvindo, Švejk. Obrigado pela sua visita. Ora, ora, mas que convidado ilustre temos nós!

Mas não se conseguia conter, e a raiva dos dias passados explodiu num tremendo golpe que assestou na mesa com o seu punho, ao que o tinteiro saltou, derramando tinta por cima de todos os papéis.

Ao mesmo tempo, o Tenente Lukáš irrompeu, defrontando directamente Švejk e rugindo: — Seu animal! — Depois começou a marchar para cima e para baixo no exíguo espaço da sala, cuspindo sempre que se aproximava de Švejk.

Jaroslav Hašek

O Valente Soldado Švejk

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