O homem comprometido

Em preparação de divagações vindouras, eis três passagens do ensaio Compromisso, de Theodor W. Adorno. Não é muito correcto efectuar este género de citações em bloco, mas penso que qualquer pessoa interessada pelos temas de literatura comprometida e legitimidade da arte perante as atrocidades do nosso tempo sentirá alguma atracção por estas palavras raramente óbvias.

“Não faço tenções de suavizar a afirmação de que escrever poesia lírica depois de Auschwitz é uma barbaridade: ela exprime pela negativa o impulso que inspira a literatura comprometida. A pergunta feita por uma personagem na peça de Sartre Mort Sans Sépultures, “Há algum sentido na vida quando existem homens que espancam pessoas até os ossos se quebrarem no seu corpo?”, é também a indagação sobre o direito que qualquer homem tem agora a existir; sobre se a regressão intelectual não é inerente ao conceito de literatura de compromisso devido à regressão da sociedade. Mas a riposta de Enzenberger também permanece válida, que a literatura tem de resistir a este veredicto, por outras palavras, ser algo em que a sua mera existência depois de Auschwitz não seja uma rendição ao cinismo. A sua situação comporta um paradoxo em si mesmo, e não apenas o problema de como reagir. A abundância de sofrimento real não tolera o esquecimento: a afirmação teológica de Pascal On ne doit plus dormir deve ser secularizada. Todavia, este sofrimento a que Hegel chamou a consciência da adversidade requer igualmente a existência contínua da arte ao mesmo tempo que a proíbe: hoje, é praticamente apenas na arte que o sofrimento ainda consegue encontrar a sua voz, consolação, sem por ela ser imediatamente traído.

(…) Até Um Sobrevivente de Varsóvia de Schönberg permanece encerrado na aporia à qual, figuração autónoma de heteronomia elevada à intensidade do inferno, se rende por completo. Há algo doloroso nas composições de Schönberg – o que suscita fúria na Alemanha não é o facto de elas impedirem as pessoas de reprimir da sua memória aquilo que querem a todo o custo reprimir. É antes a forma através da qual, ao transformar o sofrimento em imagens, a despeito de toda a sua dura implacabilidade, elas ferem a nossa vergonha perante as vítimas. Porque estas são utilizadas para criar algo, obras de arte, que atiramos ao consumo de um mundo que as destruiu. As chamadas representações da dor física pura das pessoas deitadas por terra pelas coronhas de uma espingarda contêm, ainda que remotamente, o poder de suscitar contentamento.

(…) O princípio estético da estilização e até a oração solene do coro fazem com que um fado impensável nos apareça como titular de um certo significado; é transfigurado, e uma parte do seu horror é removida. Só isto representaria uma injustiça perante as vítimas; e no entanto a arte que as evitasse jamais conseguiria comportar-se com firmeza perante a justiça. (…) Quando o genocídio se torna parte integrante da herança cultural da literatura comprometida, torna-se mais fácil manter a cumplicidade com o jogo que deu à luz o homicídio. Há uma característica quase invariável neste género de literatura. Ela sugere, propositadamente ou não, que até nas situações ditas extremas, e de facto na maior parte desses casos, a humanidade floresce. Ocasionalmente, isto origina uma metafísica aberrante que enceta os seus melhores esforços em inserir as atrocidades do homem numa “situação limitadora” que seguidamente aceita na medida em que revela a autenticidade nos homens. Numa semelhante atmosfera existencial tão caseira, a distinção entre carrascos e vítimas torna-se vaga; ambos, afinal, encontram-se suspensos por igual sobre a possibilidade do nada, o que evidentemente não é inteiramente desconfortável aos carrascos.”

Theodor W. AdornoCompromisso (Noten zur Literature III), Frankfurt: Suhrkamp Verlag, 1965.

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