Crime e Compromisso

Olbram Zoubek - C

As minhas andanças actuais e incertas pelo domínio da crítica adorniana tiveram origem – confesso-o – numa entrevista dada por Rebecca Solnit à revista The Believer (edição de Setembro, com versão online aqui). Aí, a ensaísta afirmava vigorosamente algo que me deixou absorto durante algum tempo, numa altura em que o sol de Outubro ainda permitia torrar o tempo livre em fim de semanas pachorrentos e exteriores.

Apolitical is a political position, yes, and a dreary one. The choice by a lot of young writers to hide out among dinky, dainty, and even trivial topics—I see it as, at its best, an attempt by young white guys to be anti-hegemonic, unimposing. It relinquishes power—but it also relinquishes the possibility of being engaged with the really interesting and urgent affairs of our time, at least as a writer. The challenge is how can you not be the moralizing, grandstanding beast of the baby boomers but not render yourself totally ineffectual and—the word that comes to mind is miniature. How can you write about the obscure things that give you pleasure with a style flexible enough to come round to look at more urgent matters?

Tenho vários problemas com este género de argumento, e o primeiro reside invariavelmente na minha dificuldade em ultrapassar os próprios termos em que é formulado (o que me perturba um pouco porque me vejo perfeitamente instalado nessa hoste de young white guys que renunciam ao seu poder, whomever the fuck she means). E como a acusação é proferida por uma pessoa loquaz como Solnit, o meu pasmo inicial é acompanhado da impressão indelével que o meu intelecto acabou de ser varrido pelo chão – e nem sequer com grande delicadeza. Só depois recordo que tudo isto parte da posição de que existe uma ligação hierarquizante entre o objecto poético e a actividade literária, o que implica desconsiderar grande parte do núcleo objectivo tido por irrelevante.

Theodor W. Adorno, que é basicamente quem ela está a parafrasear quando diz que a escolha do caminho apolítico na criação literária é de facto política (“uma obra de arte comprometida anula a magia de uma outra obra de arte que se contenta em ser um fetiche, um passatempo para aqueles que gostariam de dormir durante o dilúvio que os ameaça, num apoliticismo que é na verdade profundamente político”, Compromisso), dedicou-se longamente ao tema do compromisso literário, partindo do Qu’est-ce que la litérature? que Jean-Paul Sartre escrevera em 1947 e criticando o francês pelo esvaziamento operado pela sua noção de compromisso enquanto realização íntima de humanidade. Tendo Sartre chegado à conclusão que a intemporalidade da arte é tanto mais acentuada quanto mais se encontrar desligada da personalidade subjectiva que a criou (e os exemplos históricos abundam), não pode senão concluir que o compromisso, para alcançar relevância intemporal, tem de ser mais do que uma mera escolha pessoal, dele se exigindo que represente um mecanismo de realização interior da humanidade que nos é ínsita. Se aceitássemos isto, no entanto, todo o compromisso seria justificável.

Adorno é também o responsável pelo dictum que fulminou gerações de artistas nascentes e segundo o qual escrever poesia depois de Auschwitz seria bárbaro. A afirmação foi entendida à letra por muitos escritores revoltados e ansiosos por demonstrar a legimitade da sua arte infante, e vários de entre eles, deparando-se, por um lado, com o fracasso do seu génio (que sempre lhes sobreviria) e, por outro, com a imaculada retórica de Adorno, chegaram mesmo a atribuir-lhe a racionalização e origem da sua inglória. A realidade era mais prosaica (grande parte deles eram simplesmente maus, ou leram mal Adorno), mas o que interessa considerar é que mesmo um autor como Günter Grass necessitou de se libertar do famoso julgamento adorniano e encontrar algum meio de justificação da sua arte, motivos que expôs na conferência transcrita em Escrever Depois de Auschwitz.

Grass é franco neste aspecto: depois de Adorno, vívíamos na Ascese – e ascese é nome que ele consagra ao período de raivosa auto-justificação artística durante o pós-guerra alemão. Esses foram anos especialmente difíceis para a chamada Geração Flakhelfer, aqueles jovens alemães demasiado novos para terem conhecido combate oficial mas que tinham sido cegamente arrancados à sua vida normal e imergidos num clima de euforia propagandística e violência militar.  Claro que se Günter Grass tivesse sido verdadeiramento franco, poderia ter adiantado também parte do conteúdo do infame Descascando a Cebolaopera non grata cujo subtítulo poderia ser “estive a moralizar-vos durante todas estas décadas e afinal alistei-me nas Waffen SS de livre vontade“. Escrever Depois de Auschwitz, ainda assim, é uma excelente reflexão sobre a consciência do compromisso e da finalidade da arte no seio de uma geração muito particular, feita por um homem que bebeu das suas inquietações como forma de vencer um momento de Ascese pessoal.

Não quero alongar-me muito mais sobre este tema, até porque a burilação alcançada por Adorno merece reflexão intensa antes de ser contestada ou aperfeiçoada. Por outro lado, Solnit não realiza sequer tacitamente a distinção entre arte de compromisso e arte de tendência, o que pode ainda ter algum mérito. A primeira, desde Sartre, tem vindo a ser descrita como o conjunto de ideias ou acções destinadas a operar uma mudança na realidade exterior, ainda que indirectamente, o que neste contexto pode ser reconduzido ao activismo literário ou até à antiga noção realista de écrivain engagé. A segunda refere-se a um compromisso no sentido final do termo, originando a reflexão atrás resenhada que se tornou agudamente relevante no século de todas as tormentas. Existe ainda a apatia, que na minha opinião não é a mesma coisa que a arte voluptuária (ou em linguagem mais corrente, a arte pela arte, tradicionalmente cara aos franceses). Uma trama de sentidos, como se vê, que ainda está por desfiar.

Seja como for, é precisamente sobre os “urgent matters” a que Solnit alude que a literatura tem mais problemas em legitimar a sua presença (sobre isto, ver a entrada anterior com os excerptos de Compromisso sobre a traição das vítimas face às quais estamos comprometidos). O melhor é encerrar com uma sua tirada mais romântica, para não dizer maravilhosa, em que a mesma senhora revela o seu energético e comovente compromisso.

I still think the revolution is to make the world safe for poetry, meandering, for the frail and vulnerable, the rare and obscure, the impractical and local and small, and I feel that we’ve lost if we don’t practice and celebrate them now, instead of waiting for some ’60s never-neverland of after-the-revolution. And we’ve lost the revolution if we relinquish our full possibilities and powers.

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