Da semântica venusiana

Chloris

Bom, já chega de lamechices. E uma boa maneira de me distrair com aproveitamente desmesurado é regressar à Arte de Amar ovidiana. Pode ser das arrebatantes sabenças de Ovídio e da sua natural irreverência, mas é-me difícil manter o siso perante um homem que afirma, em meticulosa poesia, que o vinho é o melhor dos amigos entre inimigos, entendendo-se evidentemente como inimigos os maridos das amadas. Triste, pois, que o seu legado contemporâneo seja perfilado por esses comuns artistas venusianos e seus malabarismos de rua, pavões pudibundos dos meios televisivos que chegam a instruir as hostes de sequiosos espectadores nos mais fiáveis métodos de sedução. Ovidianos na sua origem, perderam-se algures pelo caminho.

Batei em retirada, homúnculos contemporâneos! Esse não é o jogo indolente que deveríeis estar praticando!

Ovídio não recorre a ofensivas muletas de prestidigitação psicológica ou à objectificação bacoca e mecânica das figuras femininas. Basta relembrar que também dedica conselhos ao sexo oposto; tudo em nome do princípio da igualdade de armas, numa lógica processualista que encheria a Marquesa de Queensbury de jocoso contentamento. Mas se evoco este belo livro é também porque de duas conversas  recentes e tolas resultaram dois apontamentos meta-literários, que eu não tardei a abastardar sob a guisa de uma análise semântica e dramática, como abaixo ficará melhor exposto.

  1. Na primeira conversa falávamos entre amigos de um casal enamorado, jovens bem parecidos, relaxados, sem afectações de monta, mas que contudo surpreendiam toda a gente pela estranha forma como se dirigiam mutuamente: na terceira pessoa do singular. A segunda pessoa do plural seria um delicioso arcaísmo, mas a terceira é só estranha. Como se pode imaginar (nisto somos bastante previsíveis – para não dizer javardos), a conversa rapidamente descambou  para os modos de tratamento entre o casal durante os momentos de intimidade amorosa. O respeito decerto teria de ficar pelo caminho. E daqui resultou o primeiro apontamento ovidiano: o amor enquanto jogo animalesco e instintivo, de corpos suados e emoções cruas, capaz de vencer a linguagem e as barreiras mentais da decência que lhe impomos.
  2. A segunda conversa poderia ter vindo de um antropólogo urbano, mas brotou do facundo peito de um filósofo de meia-tigela que tem a minha idade e ainda não se decidiu por uma profissão. Expunha-me ele a teoria de que os movimentos humanos – particularmente durante o jogo da sedução – eram paralelos aos do reino animal. E exemplificava, com gestos largos e dedos esquemáticos; os machos dirigindo-se à caça, as fêmeas rodeando o óbvio. Enquanto fazia os melhores esforços por ignorá-lo e pedir mais um whisky, concebi o segundo apontamento ovidiano, que é portanto este: o amor como um conjunto de mecanismos tão naturais como a própria natureza, uma força que nem a pretensa sofisticação da sociedade moderna consegue apagar (se é que pretende fazê-lo).

Se Ovídio compreendeu bem toda esta história de de amar, é todavia lícito perguntar se não será a sua obra uma elegia àqueles que – no fundo e verdadeiramente – não amam. A polissemia do amor reúne num único vocábulo as acções de fazer a corte, seduzir, estabelecer comércio sexual (para retomar uma expressão muito cara aos orgíacos romanos pançudos), gostar, adorar, etc. Ovídio arrisca-se mesmo a personificar o primeiro marco da moderna concepção de amor puramente carnal. Se assim for – Beatrices e Lauras à parte e lirismos medievos intercalares – nada terá mudado desde então.

Crendo (ingenuamente, não duvido) num mundo em que o amor é espontâneo, irascível e incontrolável, vejo num manual de amor um livro de instruções para um estado de coisas em que a paixão está ausente. Ora, uma pérola de sabedoria popularucha postula que o amor é uma prisão; assim sendo, aprisionar a prisão num conjunto de linhas explicativas é segurar a chave no trinco sem nunca a poder rodar. O domínio da fechadura anularia o amor e transformá-lo-ia numa escolha, sendo que optar por amar e por seguir um método de corte (ritual normativo típico da Idade Média e do Cristianismo) não é o mesmo que se dizer atingido pela fulguração amorosa.

Ovídio pode não se ter preocupado com os assuntos do Amor Ideal, mas gizou certamente uma tentativa de método dentro da loucura. O louco de amor não é tão louco que ignore o melhor método para a prossecução do seu último objectivo, sem que isso implique uma diminuição de valor nos seus nobre sentimentos. É a única interpretação da Arte de Amar que preserva o mito classicista de amor e preserva o iniciado venusiano como um verdadeiro apaixonado.

O conceito ovidiano de amor é, infelizmente, muito mais complexo. E daí a minha desilusão quando Ovídio vem estragar tudo ao afirmar que o homem – conquistada a senhora – deve comportar-se de modo flexível, falinhando e cedendo quando ela se mostre teimosa. Derrotado em confrontos comezinhos, emerge destarte vencedor nas batalhas decisivas. Eis que o poeta se refere directamente ao engano e à mentira, dois ardis dificilmente conciliáveis com a pureza do sentimento a que se alude.

Para vencer esta dificuldade, vou ter de chamar um Bardo à colação.

Acontece que um dos benefícios mais inusitados do meu actual emprego é o privilégio de conviver diariamente com uma cativante criatura que me recorda incessantemente da The Taming of the Shrew (A Fera Amansada) de William Shakespeare. Sob o signo do seu olhar reluzente e vivaz, nunca se apagam por muito tempo as passagens desta peça em que o jogo de amor se entrelaça com a musicalidade da linguagem que o suporta.

Viajemos de rompão para a primeira cena do segundo acto, em que o protagonista Petruchio se encontra prestes a ver Katherina pela primeira vez. Não é um encontro causal ou cortês: trata-se da temível aproximação a uma linda mulher de intratáveis feitios e beleza estonteante, a mulher que ele deseja tomar como esposa por motivos de dote e estabilidade financeira. Mas atenção, que o misógino Petruchio, de sua arrogância vistosa e lábia poderosa, não é melhor peça no plano das amenidades emocionais.

À medida que aguarda, Petruchio pondera a sua abordagem, sublinhando imediatamente a importância da linguagem. E se não traduzo a seguinte passagem é porque o verso é especialmente eloquente:

PETRUCHIO:

Say that she rail, why then I’ll tell her plain

She sings as sweetly as a nightingale;

Say that she frown, I’ll say she looks as clear

As morning rises newly wash’d with dew;

Say she be mute, and will not speak a word,

Then I’ll commend her volubility,

And say that she uttereth piercing eloquence;

If she do bid me pack, I’ll give her my thanks,

As though she bid me stay by her a week;

If she deny to wed, I’ll crave the day

When I shall ask the banns, and when be married.

But here she comes, and now, Petruchio, speak.

Estamos perante um conquistador de corações e fortunas, trapaceiro e adorável. O género de homem que se habituou a forjar o próprio destino a partir do seu carisma e personalidade. E no entanto, até este portento se encontra nervoso diante de Kate, a fera, incerto da postura a adoptar para a sedução (ou a postura a adoptar tout-court uma vez que esta será a sua derradeira conquista).

Petruchio acaba por não ter hipótese de seguir o plano que tão melifluamente urde no trecho acima (sem que resulte claro que isso se deva a uma possível sideração perante a beleza de Katherina, uma teimosia sua em aventurar-se por territórios improvisados e eloquentes, ou uma mera escolha do sempre brilhante autor). Katherina nega-o a cada volta, ele contradi-la a cada turno, e o seu primeiro encontro é tão agitado, tão cómico e tão sincopado que permanece um dos diálogos mais memoráveis da peça. Embora forçado a batalhar galantemente por isso, Petruchio consegue manter a superioridade linguística e, confiante, encerra o primeiro encontro da seguinte forma:

PETRUCHIO:

No, not a whit, I find you passing gentle:

‘Twas told me you were rough and coy and sullen,

And now I find report a very liar;

For thou art pleasant, gamesome, passing corteous,

But slow in speech, yet sweet as spring-time flowers.

Thou canst not frown, thou canst not look askaunce,

Nor bite the lip, as angry wenches will,

Nor hast thou pleasure to be cross in talk;

But thou with mildness entertain’st thy wooers,

With gentle conference, soft, and affable.

Isto representa a negação da Fera em termos puramente semânticos, desconjuntando a sua essência a partir do interior das mesmíssimas palavras que momentos antes o agrediam. Petruchio adere ao postulado ovidiano, mentindo descaradamente com o intuito de gerir as perdas e alcançar uma vitória futura em que residirá toda a importância. Mas se Ovídio sugere mentir para fazer a donzela pensar que derrotou o pretendente, Petruchio supera mesmo o ardil, forçando Katherina a aceitar que nem sequer houve uma batalha (pois Petruchio a acha bela, afável, consensual, eloquente).

Nenhum destes confrontos verbais prefigura exactamente o ideal de flexibilidade e aquiescência ovidianos, mas Katherina é a grande derrotada destas escaramuças linguísticas. Ovídio sentiria orgulho em acrescentar esta táctica ao seu livro: combater de frente para o adversário e – no final – sonegar as espadas por flores e negar que alguma vez tenham sido outra coisa.

Resta então ao jovem fidalgo manter este delicado equilíbrio até ao final, assumindo a desconstrução e anulação de Kate sem nunca a contrariar directamente. Nesse sentido, ele é profundamente sensível às pressões da sua amada, escolhendo antes acolhê-las e repeli-las quase imediatamente, ao abrigo de um semblante firme e palavras judiciosamente peremptórias. Enfim chega o momento em que Kate deixa de possuir uma linguagem própria, vencida pela conquista semântica do já então marido.

PETRUCHIO:

Come, on a’ God’s name, once more toward our father’s.

Good Lord, how bright and goodly shines the moon!

KATHERINA:

The moon! the sun – it is not moonlight now.

PETRUCHIO:

I say it is the moon that shines so bright.

KATHERINA:

I know it is the sun that shines so bright.

Novo confronto. A batalha é especialmente delicada: todos os arrufos anteriores incidiam sobre o carácter de Petruchio ou sobre querelas amorosas de pequena monta, contendas em que o fidalgo se arrogava a bondade de agir ovidianamente e ceder, pelo menos no início de cada diálogo, sem todavia permitir que a sua amada levasse a melhor. Mas esta discussão diz respeito a assuntos de facto: estamos de dia ou de noite? Anular uma realidade fáctica com as palavras seria o derradeiro passo na esgrima linguística. Jamais deverá o fidalgo consentir numa irreverência deste género. Petruchio compreende então que chegou o momento de desferir o golpe final de conquista, e com ele domar Kate, transformando-a numa fofinha “Kate conformable with other household Kates”.

PETRUCHIO:

Now by my mother’s son, and that’s myself,

It shall be moon, or star, or what I list,

Or ere I journey to your father’s house.

— Go on, and fetch our horses back again —

Evermore cross’d and cross’d, nothing but cross’d!

HORATIO:

Say as he says, or we shall never go.

KATHERINA:

Forward, I pray, since we have come so far,

And be it moon, or sun, or what you please;

And if you please to call it a rush-candle,

Henceforth I vow it shall be so for me.

PETRUCHIO:

I say it is the moon.

KATHERINA:

I know it is the moon.

PETRUCHIO:

Nay then you lie; it is the blessed sun.

KATHERINA:

Then God be blest, it is the blessed sun,

But sun it is not, when you say it is not;

And the moon changes even as your mind.

What you will have it nam’d, even that it is,

And so it shall be so for Katherina.

Depois disto, Katherina deixa de existir enquanto unidade semântica, embora conserve no plano dos factos toda autonomia que se esperaria de uma fera. Se Petruchio a conquistou foi na base de uma série de artifícios linguísticos, o que implica que a reputação de Katherina se altere junto daqueles que outrora a consideravam intratável. A vitória de Petruchio dir-se-ia completa não fosse  pelo enigmático discurso final de Katherina que muitos – numa tentativa de desmontar a todo o custo o misoginismo que entendem endémico na peça – interpretam como satírico.

I am asham’d that women are so simple

To offer war where they should kneel for peace,

… o que é uma bela perífrase do ensinamento ovidiano. Quando o poeta romano defende a mentira, mesmo para além da conquista, reafirma que a arte de amar é contínua. Auxiliados pelo exemplo de Kate (simultaneamente vencida da linguagem e detentora de sentimentos muito mais profundos do que os que aparenta) pode concluir-se que este artifício será mais um instrumento que o louco de amor, na sua loucura, poderá querer utilizar se ainda estiver sano para isso. Petruchio e Kate não serão amantes paradigmáticos, mas amam-se ainda assim, e a domesticação da fera – para um coração romântico como eu – só pode representar o despertar de um amor duradouro e não uma subjugação misógina.

Há outras vantagens em manter a doutrina de Ovídio presente, porquanto ela nos oferece uma segunda via interpretativa. Quando Katherina cede – encontro após encontro – não estará afinal a seguir o conselho ovidiano originalmente aplicado apenas aos homens, de modo a encurralar Petruchio no papel do conquistador irrisório? A ela estará reservada a vitória final, a do matrimónio e de uma vida prolongada? Já na primeira cena do quarto acto, Petruchio parece extremamente confiante que assim não é.

Thus I have politicly begun my reign

And t’is my hope to end successfully.

Mas Katherina, a despeito de tudo o que se possa dizer, termina por alcançar exactamente o que deseja: casar-se com um belo homem que se adeque ao seu feitio e não debande apavorado três dias depois da noite das núpcias. Tivéssemos assistido a uma sacarina Kate desde o início e restaria alguma dúvida que o pretendente fugiria logo, diante de tamanha suspeita e doce armadilha? A comédia teatral termina intencionalmente no preciso momento em que se poderia começar a esclarecer a quem pertence a vitória final. Estou convencido que é a Kate.

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