Até à derradeira sílaba do tempo

Como um sonho de inocência prolongada, mantive sobre alguns mecanismos do mundo uma visão segura e esterilizada. Uma certidão de óbito – eis um exemplo – não era mais que uma necessidade abstracta de jurista que pudesse ser manietada como instrumento acessório a diferendos legais. Documento do mundo formal, produto da ordenação humana da vida e da morte ao arquivismo dos registos. E eu estava muito contente em deixá-lo ali, onde pertencia.

Mas um dia, as minhas cartas a C. começaram a ser devolvidas. Assisti com apreensão aos reingressos iniciais, seguro de que algo se tinha passado, certo de que ela escolhera isolar-se das minhas palavras. A auto-comiseração é o mais repugnante dos egoísmos, e eu sou absolutamente repugnante. Só me dei conta da única tragédia com a terceira missiva. Nela, o selo inconfundível: devolver ao remetente por motivo de falecimento.

Então C. morrera. De algum modo, de alguma forma, a milhares de quilómetros de distância, C. estava morta e eu nada sabia. Sem família e sem amigos a quem apelar. Quis imediatamente colmatar a lacuna humana com a precisão do mundo lógico: o Governo, o Estado, as instituições de lei e ordem  saberiam dizer-me o que sucedera, e uma certidão de óbito colocaria um parágrafo inconstestável às ululantes dúvidas que em mim se amontoavam.

Uma certidão de óbito. Até então não pensara naquilo que estava a pedir. Um papel a certificar que alguém tinha morrido. Que ela tinha morrido. Rodeei-me de listas, indicativos e contactos: do outro lado, entre pulsações telefónicas transatlânticas uma voz anasalada explicou-me a situação. Apenas os parentes ou unidos de facto podiam requerer um certificado. E com a mesma finalidade distante com que arrematava uma sentença, a voz da registral matrona censurava-me o alheamento com que eu tinha vivido a sua morte. Você diz-se amigo e não sabe sequer as circunstâncias do falecimento dela? Não mo disse a matrona subalterna, mas podia tê-lo feito que eu não encontraria resposta aceitável perante o tribunal de remorsos. Desliguei enfim a chamada, lançando a provocação a mim mesmo. Sem resposta.

[Agora uma pausa.

Fui escrevinhando isto ao longo de meses: um rascunho – à espera de revisão – perfilado com as tontices mundanas dos livros que li e das minhas restantes opiniões palermas. Ontem peguei num processo penal no qual fui nomeado como defensor: o imberbe eu, a advogar três arguidos por furto qualificado e  detenção ilegal de arma. Um deles já tinha falecido, conforme certidão de óbito junta a folhas tantas. No meu ombro estava um ávido colega que me soprou: vê lá como ele morreu, vai lá ver na certidão a causa da morte. E eu ri-me, querendo chorar, ao ver que o mundo dos factos funcionava e era cruel.

Continuando]

Nem eu suportaria ver C. clinicamente esparrimada em morte por uma ficha administrativa, verbum ad verbum. Antevia mesmo a consistência pálida do papel amarelado de grossa granulação e com um selo branco no final que eu afagaria com os meus dedos num gesto de última confirmação de legitimidade oficial. Em cima, o nome dela. Idade. Filiação. Derradeiro domicílio. E, especialmente, causa da morte. Naquele Estado, os suicídios eram legalmente seguidos de uma autópsia, o que sempre me daria a possibilidade de ler a sua morte em termos técnicos. Toda uma variação de perfurações balísticas cranianas na têmpora para me causar pesadelos eternos. Uma suspeita apenas sobrevive na incerteza da esperança que a acompanha, e o seu suicídio não podia ser inesperado a alguém que demasiado a conheceu para a ter abandonado. O confidente de inquietações ominosas nada fizera na sombra da sua necessidade. Foi assim que o processo de confirmação da sua morte ganhou os contornos de uma demanda pessoal, sem qualquer possibilidade de redenção, que eu todavia assumi com raiva e fragor póstumos. Pululavam acusações de todas as linhas, com vozes oficiais a resguardar reprovações indizíveis por detrás dos dentes. Que dizer, na verdade, de mim, se  precisava de um documento para esclarecer a morte da minha querida?

Duas pessoas que se amam sabem quando a outra morre: vêem-na, sofrem-na, causam-na. E dois amigos que comungam os caminhos de uma vida ficam estarrecidos quando a morte sobrevém a qualquer um. Têm fotografias e memórias, um património comum para alimentar o luto natural. E eu tinha de obter um papel? Deixara-a sozinha com os seus demónios, e ainda assim eu insistia em mentir-me: eu não tivera qualquer escolha. Mas claro que sempre tive escolhas. Não a abandonar, por exemplo. A qualquer altura podia ter-me enfiado num avião, tê-la visitado depois da operação. 

O modo condicional impera na sua morte: poderia, deveria, tentaria impedir aquela bala distante, a morte solitária, aquela réstia de sentido. Mesmo agora tenho medo que tudo isto seja um exercício de catarse, egoísta e nojento, público como o anonimato, sem qualquer sentido para ambos. Não consigo categorizar ou classificar estas palavras e isso incomoda-me. Tudo isto para falar de uma inefabilidade, para bradar sem voz aquilo que a rasura dos factos mundividentes vai raspando da pele das pessoas. Acabei por não obter a sua certidão de óbito. Como amigo, não precisei dela: lá falei com um dos seus conhecidos, o mesmo responsável pela instrução da polícia. A polícia em sua casa, um documento não requerido numa qualquer gaveta, um amigo inútil do outro lado do oceano. Entretanto, C. está morta, e vai levar algum tempo até que consiga olhar para os meus documentos de trabalho sem pensar nas pessoas que por detrás deles suspiram.

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