Um pesadelo

I'll call him ThursdayAlguns dias antes da sua morte, G.K. Chesterton publica um artigo em que lança um aviso: por muito que desejem interpretar o Homem que era Quinta-Feira como uma alegoria moral de um mundo utópico dividido pelo desentendimento social e político de uma realidade única, não se esqueçam por favor que o título do livro não pára aí, mas prossegue: Um Pesadelo.

As histórias de detectives e investigações criminais primam pela sua organização formal no plano da narrativa: tradicionalmente, é apresentado o crime – ou circunstâncias do delito – bem como as personagens que o tratarão de solucionar. Por vezes, é oferecido ao leitor o conhecimento prévio do autor da infracção com que ele poderá depois confrontar a conduta do herói e extrair motivos de admiração pela sua perspicácia ou desenvoltura. Tudo isto é relativamente flexível, mas relativamente incontornável, pelo suscita alguma estranheza que alguém se proponha a contar uma história deste género do mesmo modo que relataria um sonho.

O desafio à partida é este: demonstrar que a construção de um policial típico e a estrutura de uma rêverie não são incompatíveis. Chesterton, de resto, poupa subtilezas, escolhendo apresentar-nos as primeiras personagens num jardim de contornos fantásticos, sob um poente de arrebatadoras cores. Dois auto-proclamados poetas esgrimem argumentos apaixonados no bordo dos canteiros, e o leitor depressa se apercebe que um deles é um polícia, e o outro um anarquista bombista. Syme – o poeta do progresso, agente da lei – rapidamente se vê envolvido numa teia subterrânea de celerados, embarcando numa missão para desmascarar e prender o seu líder supremo: o homem que se dava pelo nome de código de Domingo, um ser de proporções e configurações tão aterradoras que poderia grosseiramente ser descrito como um cruzamento entre a fusão do intelecto do Professor Moriarty e o físico do Incrível Hulk.

O Homem que era Quinta feira, neste aspecto, é uma história metafísica de polícias e ladrões (ou anarquistas), de sociedades secretas e conspirações mundiais, de lugarejos Vitorianos e resquícios imperiais, dotada de uma linguagem refinada e repleta de segundos sentidos de que Chesterton fez o seu estilo. E o autor é aqui irrepreensível, mastigando e repetindo palavras para sublinhar um ponto mais cómico, povoando uma galeria de personagens com seres fantásticos de nomes deliciosos, e espaçando a acção com igual desenvoltura em terras de França, espaços londrinos, ou palácios improváveis numa qualquer floresta negra de Albion.

Mas embora seja uma rêverie tresloucada e inteligentíssima, the Man who was Thursday: a Nightmare não configura exactamente um whodunnit convencional. Bastará apontar que o crime central da história ainda não foi cometido e já os heróis conhecem a sua maquinação, tal como o local em que será consumado, a identidade dos seus autores materiais e até o horário do comboio para Paris de que os facínoras farão uso. Syme é também um herói pobre, que nos causa mais curiosidade do que interesse, e as personagens secundárias (de nomes invariavelmente apetitosos) sucedem-se até engrossar uma turba-multa de caracteres extraordinários e cacofónicos.

Não me cabe aqui desfiar a sinopse de um livro que ganha muito em ser descoberto privadamente pelo leitor, mas bastará dizer que Syme e os seus confederados sentem dificuldades insustentáveis em impedir o perigoso Sunday porque este representa simultaneamente o mal e os fundamentos que legitimam a erradicação do mal. Ele é agente e vítima – polícia e anarquista – e o seu porte gargantão assegura o paralelo inevitável com um ser demiúrgico e central. Nisto, o Homem que era Quinta-Feira é um conto de relatividades morais: Sunday é a fonte única da ordem e da desordem do mundo, o que implica que todas as maleitas da humanidade derivem de divergências de entendimento de um acervo comum de essências. Numa célebre (e frequentemente mal citada) passagem, Chesterton reafirma a preponderância da autonomia pessoal, que com o seu livre arbítrio de grande escala condutas dissonantes e, ao ver dos outros, maléficas:

“Compared to him, burglars and bigamists are essentially moral men; my heart goes out to them. They accept the essential ideal of man; they merely seek it wrongly. Thieves respect property. They merely wish the property to become their property that they may more perfectly respect it. But philosophers dislike property as property; they wish to destroy the very idea of personal possession. Bigamists respect marriage, or they would not go through the highly ceremonial and even ritualistic formality of bigamy. But philosophers despise marriage as marriage. Murderers respect human life; they merely wish to attain a greater fulness of human life in themselves by the sacrifice of what seems to them to be lesser lives. But philosophers hate life itself, their own as much as other people’s.” 

Ou seja, não há dúvida que, pela apropriação pessoal de conceitos como “propriedade” ou “vida” se podem gerar factos humanos em permanente colisão moral e jurídica entre si, mas a mensagem pode ser mais esperançosa se aceitarmos programaticamente que os entendimentos podem ser realinhados (através da educação, religião, ou outros meios historicamente praticados, e estupendamente prolíficos a desenvolver outras divergências). Agora o que Chesterton não se esquece de apontar, logo no início, é que um tal estado de coisas não seria  particularmente benéfico, mas, afinal de contas, um huis-clos e um pesadelo.

Termino agora com uma lista sumária de conteúdos que o leitor poderá encontrar no Homem que era Quinta-Feira e que deveria constar da capa de qualquer edição prezável (isto está tudo no livro, juro pela minha saúde):

  • Um jardim londrino com ferozes frutos chineses nas árvores e plumas no céu!
  • Um desconjuntado e barbudo polaco chamado Gogol!
  • Uma batalha campal em França entre um coronel, um marquês de nariz destacável, uma populaça com forquilhas, pelo menos vinte cavalos, e um automóvel!
  • Uma perseguição a alta velocidade pelas ruas de Londres envolvendo um paquiderme em cima de um elefante e três caleches tresloucadas!

 

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