Em contestação da melancolia

Turner

Pensei em vários vencidos da vida e vencidos da morte quando passei os olhos pela resenha de Contra a Felicidade, Em Defesa da Melancolia, na Terceira Noite Bebiana. O livro, escrito por Eric G. Wilson, recupera a posição não inédita na carreira das letras de que uma existência melancólica ou acabrunhada é uma base comprovada de inspiração e produção artística. Nesse sentido, ela seria uma condição salutar, uma espécie de alegre fim em si mesmo.

Raramente se pensa em pessoas como Antonin Artaud quando se faz este género de observações. A apologia intelectual de uma determinada postura em função do nível ou qualidade de um hipotético produto fraqueja diante das realidades, imperceptíveis para nós sorridentes happy few, que atravessa e experimenta um homem que “sofreu muito por causa da sua mente“. Em Van Cogh ou o Suicidado da Sociedade, Artaud não podia ter sido mais claro: “ninguém escreve, pinta, esculpe, modela, constrói ou inventa senão para fugir de facto ao inferno“.

Artaud ultrapassou os limites da melancolia para morrer em profunda demência. Por isso mesmo, é possível que não faça parte faça parte do elenco morno que Eric Wilson quer examinar; ele é uma excepção, uma extremidade afastada da média. No entanto, o dramaturgo foi inquestionavelmente produtivo: ler as suas obras completas, contestando cada palavra como certamente – e cruelmente – ele o desejaria, é tarefa para ocupar uma década de uma vida.

Não cheguemos tão longe, então. Stefan Zweig, um seu contemporâneo que se movia em círculos diferentes, não era certamente atormentado pela angústia mental sináptica de Antonin Artaud (que Derrida reconheceu num lance simulteamente preciso e comovente, ao escrever que “seria certamente calculista fechar os olhos, motivados por um sentimento literário ou um alheamento polido, àquilo que o próprio Artaud veio a descrever como a “perseguição neuropatológica“. De resto, esse género de calculismo seria insultuoso. O homem está doente. “) 

Zweig movia-se outrossim sob um signo de melancolia erudita, e a mesma motivação que febrilmente o levou a recuperar as coordenadas culturais do passado conduziu-o à morte quando, exilado em terras de Vera Cruz, não suportou as moções esse grande suicídio colectivo da Europa. Bate tudo certo, nesta tábua fria de factos: a melancolia, a produtividade, a sensibilidade e desconforto com o mundo em seu redor – nesse caso um Velho Mundo em estado de crisálida, mas que aos contemporâneos e subsequentes gerações não podia aparecer senão como um terrível cataclismo, mergulhando nas trevas.

Eric Wilson pode muito bem ter razão num ponto: a melancolia, ou a insatisfação ou desconforto (a despreocupada noção Romântica do termo faz hoje pouco sentido) perante uma existência contínua e exigente é a grande comichão que faz uma pessoa erguer a pena, escrever uma canção, ou pintar um quadro. Anular esse simples impulso humano com a ilusão da felicidade contida equivale a procurar um meio adicional de anestesia num mundo contemporâneo que infelizmente já contém demasiadas fugas ao nosso próprio engenho. Convém preservar este desassossego urgente, esta insatisfação dilacerante, sem cair no erro juvenil, para não dizer ingénuo, de que se deve sofrer pela arte que se pratica. Quererá ainda o infortúnio que não tenhamos tal escolha.

[Na imagem: Turner. Um pormenor do quadro War, the Exile, and the Rock Limpet, Tate Gallery.]

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