Os alimentos terrestres

lispector

Que problemas me causa esta grande senhora. Atribuo à míngua de estudos sobre Clarice Lispector a minha dificuldade crónica em comentar o que ela tão bem escreve. Talvez ajudasse filiá-la numa corrente mais ou menos determinada para depois agarrar um ou outro destroço no meio do naufrágio que a sua leitura me causa. E sobretudo, seria necessário conseguir imiscuir-me nessa membrana cognitiva entre o pensar e o sentir que Clarice Lispector alcança admiravelmente mas que permanece inacessível e mesmo misteriosa para as restantes pessoas.

Já dos temas consigo falar mais abertamente, se ao menos encarar Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres como um manual sonhador para o usufruto de algumas sensações da vida. A história é simples, não poderia ser de outra forma: Lóri e Ulisses são duas pessoas que estão aprendendo a viver. É-nos apresentado o seu interesse romântico mútuo, que nenhum deles tem problemas em subordinar à evolução sentimental que sobre eles impende. Ulisses assume o papel implícito de professor (ele é, aliás, lente de filosofia), mas não o faz com arrogância porque compreende a volatilidade dos modos pensantes. Lóri ou Loreley é uma mulher que de momento se arrasta na vida. Em qualquer outra história poderíamos dizer que ela é um ser que deseja um rumo ou uma definição, um receptáculo de ensinamentos de uma figura fatalmente masculina. Mas Ulisses demonstra-lhe que basta escutar e saborear os prazeres que o mundo imprime sobre o seu ser, não existindo aprendizagem exterior senão aquela que sobre o exterior é projectada. Tudo isto aumentado pelo estilo de Clarice, de que é símbolo aquele perfume emocional carregado, de contornos vagos e essências humanas violentamente óbvias, impossíveis de ignorar.

O livro começa com uma vírgula. Quando falei de Beckett sublinhei que aquele “inominável génio d’um raio” (r) não sentira necessidade de um tal artifício. Clarice também não, mas utiliza-o na mesma. À entrada do livro, um sinal inequívoco de que aquelas personagens são muito maiores do que a encadernação de papel. Lóri tem braços quentes que se abrem para além das páginas, e o olhar de Ulisses não se queda nas esquinas cortantes do papel. Quando as coisas terminam, terminam em dois pontos: o livro é um pequenino quadro, que pela magia da fotografia literária, sorveu um bocadinho daquelas duas vidas, mas apenas um bocadinho.

Isto dito, Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres não é uma versão brasileira dos Alimentos Terrestres, nem Lispector encontra qualquer género de filiação com as revêries classicistas de um Gide que ela nunca conseguiria nem ganharia em ser. O livro é, de certa forma, tão impressionante como as Nourritures Terrestres ou as Nouvelles Nourritures Terrestres, e foi mesmo construído de modo mais subtil. Não encontramos um narrador despersonalizado que exorta e instrui directamente um poroso Nathanaël enquanto lhe pede que desconsidere a sua própria inexperiência de vida (compensada com uma inspiração poética avassaladora). Temos antes o par Ulisses e Lóri, caminhando de mãos dadas numa aprendizagem complexa, ambígua, e isenta de critérios valorativos. Testemunhar a sua epopeia emocional é perceber que não existe um certo ou um errado na aprendizagem da vida; apenas uma teia de rumos orgânicos, sensuais, humanos, e que na imposição de um equilíbrio entre as forças que nos ameaçam rasgar e os impulsos que nos pretendem insuflar reside uma trémula noção de felicidade. Com este lindo texto, Lispector abre um novo capítulo da aprendizagem em que, tal como Lóri, aprendemos a deixar o vento húmido acariciar a nossa fronte, imergir na água salgada e espumante de um mar maior do que nós, ou fazer amor, de verdade, pela primeira vez.

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2 thoughts on “Os alimentos terrestres

  1. kwyzx diz:

    achei tão interessante suas observações sobre meu livro favorito.
    até deu vontade de vir aqui e “dizer” isso.

    Até mais.

  2. […] ‘Os alimentos terrestres’ […]

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