Um conto de Atiq Rahimi

Eis um pequeno conto do escritor afegão Atiq Rahimi, distinguido com o Prix Goncourt de 2008 pelo seu romance Syngué Sabor: La pierre de patience  (Pedra-de-Paciência). Foi escrito para o romance de Yves Simon, La Voix Perdue des Hommes (A Voz Perdida dos Homens), que eu comentei noutro lado. Um exemplo condensado de um dos temas mais caros a Rahimi, exactamente como caberia num livro sobre as vozes perdidas de uma multiculturalismo feroz. A tradução é da minha pobre autoria, mas na caixa de comentários encontra-se o original, para comparação e base de insulto à minha pessoa.

Era a noite, a nona noite.

O guia de homens dissera: A nona noite será a última noite passada na vossa terra.

Silenciosos, caminhávamos clandestinamente em direcção às fronteiras. Estávamos a fugir da nossa terra. Cada um com a sua razão…

Era noite. A nona noite. Chegámos ao cume de uma montanha. O guia de homens gritou: Alto! Olhem uma última vez para a vossa terra!

Olhámos para trás. Na escuridão do tempo, a terra perdia-se aos nossos olhos. Chorámos. Depois começámos a correr em direcção ao outro lado da fronteira. Um de nós afrouxou os seus passos. Era um pequeno homem sem bagagens. Durante a viagem, ele fora o mais lento, o mais cansado e o mais nervoso de todos nós. Afastou-se para se sentar contra um rochedo. Fui ao seu encontro para o ajudar a caminhar.

— Onde poderia eu ir? disse.
— Para o outro lado da fronteira.
— Isso já não faz qualquer sentido!
— Então e toda esta viagem… ?
— Eu parti para salvar as minhas palavras. Queria trazê-las do outro lado da fronteira…

Palavras? Que palavras? Sob o meu olhar perplexo, respondeu:

— Tinha-as escondido nos meus olhos. E assim que toda a gente se pôs a chorar, eu também chorei. As lágrimas levaram as minhas palavras… Caíram por terra, na terra… Sem as palavras, em qualquer lado, serei estrangeiro… Mais estrangeiro que um estrangeiro. Ali, sem a minha terra, poderia ter vivido com eles.

Pus-me a remexer o solo. A terra e as palavras tinham misturado-se. Tomei alguns punhados de terra e coloquei-os na minha sacola. O homem ria. Um riso macabro. Ele disse:

— Como poderei agora separar as palavras da terra? O exílio será como uma folha branca que não poderei encher senão com o passado. O presente do exilado só pode ser escrito nas margens, e em rodapé.

Encostou-se ao rochedo e pedia-me para o deixar sozinho quando o ouvi rir-se novamente, um riso amargo.

— O meu nome é Atiq, disse-me.
— Atiq?! Somos homónimos ou duplos?
— Nem um, nem outro. Tu és apenas o meu nome.

Meteu-me medo. Abandonei-o.

Após alguns passos hesitantes, desatei a correr e desapareci na penumbra, do outro lado da fronteira.

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One thought on “Um conto de Atiq Rahimi

  1. António diz:

    Il était nuit. La neuvième nuit. La plus obscure. La plus silencieuse. La plus pesante. Dans les pénombres du temps, la terre avait perdu ses horizons.
    Il était la nuit, la neuvième nuit.
    Le passeur d’hommes avait dit: La neuvième nuit sera la dernière passée sur votre terre.
    Silencieux, nous marchions clandestinement vers les frontières. Nous étions en train de fuir notre terre natale. Chacun pour une raison…
    Il était nuit. La neuvième nuit. Nous sommes arrivés au sommet d’une montagne. Le passeur d’hommes a crié: Arretêz! Jetez un dernier regard sur votre terre!
    Nous avons regardé derrière nous. Dans l’obscurité du temps, la terre était perdue à nos yeux. Nous avons pleuré. Puis nous nous sommes mis à courir vers l’autre côté de la frontière. L’un d’entre nous a ralenti ses pas. C’était un petit bonhomme sans bagages. Durant le voyage, il avait été le plus lent, le plus fatigué et le plus anxieux de tous. Il est parti s’asseoir contre un rocher. Je suis venu vers lui pour l’aider à marcher.
    — Où pourrais-je aller? dit il.
    — De l’autre côté de la frontière.
    — Cela n’a plus aucun sens!
    — Et tout ce voyage alors… ?
    — Je suis parti pour sauver mes mots. Je voudrais les emporter de l’autre côté des frontières…
    Des mots? Quels mots? A mon regard perplexe, il répondit:
    — Je les avais cachés dans mes yeux. Et lorsque tout le monde s’est mis à pleurer, moi aussi j’ai pleuré. Les larmes ont emporté mes mots… Ils sont tombés par terre, dans la terre… Sans mots, n’importe où, je serai étranger… Plus étranger qu’un étranger. Là-bas, sans ma terre, j’aurais pu vivre avec eux.
    Je me suis mis à remuer le sol. La terre et les mots y étaient mélangés. J’ai pris quelques poignées de terre et les ai mises dans ma besace. Le bonhomme rit. Un rire macabre. Il dit:
    — Comment pourrait-on maintenant séparer les mots de la terre? L’éxil sera comme une feuille blanche que l’on ne pourra remplir que de passé. Le présent de l’éxilé ne peut être écrit que dans les marges, et en bas de page.
    Il s’est adossé au rocher et me pria de le laisser seul quand je l’entendis rire de nouveau, un rire amer.
    — Je m’appelle Atiq, me dit-il.
    — Atiq?! Sommes-nous homonynes ou doubles?
    — Ni l’un, ni l’autre. Toi, tu es juste mon nom.
    Il m’a fait peur. Je l’ai abandonné
    Après quelques pas hésitants, je me suis mis à courir et j’ai disparu dans les pénombres, de l’autre côté de la frontière.

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