O facto de que frequentemente figuras humanamente válidas, mas sem utilidade, diga-se lesivas à sociedade, devam perecer, deverá ser inscrito no balanço de taxas moderadoras da grande transformação da sociedade.
Ou, como eu a encontrei (e porque frais d’entretien é uma coisa arcana para mim):
Le fait que très souvent des figures humainement valables, mais sans utilité, voir nuisibles à la societé, doivent périr, est à mettre sur le compte de frais d’entretien de la grande transformation de la societé.
Reflexões sobre Cervantes e Sholokhov
György Lukács, 1952
Agora como permitir que isto explique o papel de Dom Quixote – como penso que o admiravelmente faz – sem permitir que me explique de igual modo? O horror que isto me provoca é feito de uma combinação entre fatalidade arítmética de um olhar lúcido e aquela dose gélida de razão que assiste aos arautos de uma verdade difícil. Não concordo e não concordo, mas estou demasiado fraco para encetar o raivoso desmantelamento que me pautaria num dia de melhor disposição. Por agora, talvez só me reste ser Sancho Pança.
Curiosos os caminhos do coração que estrangulam a mente. Tenho de aprender a pensar para além da minha carne e da minha mente variável. Mas isto em já nada honra a terrível e certeira observação de Lukács.