Judas e o Mahābhārata

Três foram as maldições lançadas sobre Karna, herói do caudaloso Mahābhārata, que na sua infinita bondade e estoicismo comove e inspira até o mais ocidental dos leitores. Três pragas sobre a sua vida: a primeira pelo seu guru, a segunda por um Brahmin, a última por Bhoomadevi – o espírito telúrico.

Trespassado por uma flecha durante um momento de fraqueza revelada, Karna morre. É o fim de uma vida a lutar contra a adversidade, da aprendizagem perpétua do corpo contra o esforço da vida.

O nome de Karna, aprendo-o num livro com alguma suspeita, ainda hoje é evitado na Índia: poucos são os casais que dariam a um seu filho o nome do herói amaldiçoado. Esquecendo a sua glória, o nome invoca a desgraça. A imagem do homem quedado pela flecha de Arjuna, a guerra de Kurukshetra, o imenso desgosto da vida de Karna e a sua vontade suprema de tudo conquistar com a perseverança são simplesmente demasiado impressivos.

Viragem de 180 graus. Poucos dariam ao seu filho o nome de Judas, traidor – explica o pai de Tristram Shandy diante de uma lareira crepitante ao longo de demorados capítulos. Aquele nome, na tradição do velho continente, representava uma ordem de valores e um estado de fatalidade que era necessário evitar a todo o custo. Baptizar uma alma pura com um nome tão carregado de estigma e história seria condená-la a uma subsistência sombria – precisamente porque era dessa sombra que ele jamais conseguiria sair.

A partir daqui, não levou muito até que o patriarca Shandy gizasse uma hierarquia de nomes. O pior de todos, o mais vil e pérfido, odioso e repugnante, indigno e inglório, detestável, malcheiroso, intolerável nome era Tristram. Nunca nada de bom tinha vindo ao mundo pela mão de um homem chamado Tristram. Todos os Tristrams eram maus. Maléficos pilantras. Pior que maus: os piores.

Era portanto inevitável que a este homem estivesse reservada a maior das partidas, e que por força de um acontecimento fortuito e analfabeto, a que acresceu a materialidade do registo civil e a força de lei divina corroborada pelos Doutores da Sorbonne, o seu filho acabasse com este mui horrível denominativo.

Aqui parodiada, esta teoria fez carreira nas letras. Dickens manuseou-a bem, por exemplo. Outros preferiram especializá-la, laborando na convicção de que era a fisionomia de uma pessoa o resultado visível do seu estado interior de alma. A ligação da vida com a fatalidade sempre se fez com referência a um elemento mundano: um nome, um rosto, uma linhagem.

Seria útil saber se a vida de Tristram foi de facto tão miserável quanto o seu pai temia. Mas temos de ser realistas: um livro chamado A Vida e Opiniões de Tristram Shandy não nos poderá elucidar quanto a esse aspecto. Laurence Sterne não incluiu Karna nos solilóquios parentais. Estou convencido de que ele não ignorava a sua existência, e essas vozes rigorosas que dizem que o Mahābhārata só foi traduzido para prosa Vitoriana muito depois da sua morte fazem-me rir. Incrédulos. Não sabem eles que Tristram Shandy, de resto, só funciona como livro que os seus leitores vindouros estejam preparados a aumentar?

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