Ficções atlânticas de 2009

image74_detailsNa minha mente, deparo-me com um viajante temporal que por acidente é projectado contra o asfalto moderno da nossa era. Tresloucado, com os olhos inflamados pela demência, arromba e assalta o primeiro transeunte que vislumbra com um jornal nas suas mãos, ávido por descobrir a data oficiosamente inscrita na publicação.

Soltando um urro de satisfação primordial, aprende que corre o ano de 2006. Ainda vai a tempo de aplicar todas as suas poupanças numa imperdível oportunidade de investimento imobiliário que só implodirá em finais de 2008. Dois anos, portanto, para lavrar uma fortuna e regressar ao seu tempo com os meios financeiros para salvar a sua mulher acamada com leucemia. E duas filhas – acamadas com tuberculose. E um filho (acamado com coma). E um gato coxo. E libertar a tripla hipoteca sobre a sua casa. Já agora, um Mercedes.

Infelizmente para o nosso desgrenhado viajante, o meu método de leitura de revistas e periódicos é completamente caótico, ainda que a sua reiterada compra lamentavelmente não o seja. Há apenas uma minúscula probabilidade cósmica do que ele agora segura nas suas trémulas manápulas apresentar a menor correspondência com as publicações que se encontram nas bancas, tendo em conta que ainda tenho na minha mesa de trabalho revistas de 2005 sobre as quais não deitei um olhar (mas que TINHA ABSOLUTAMENTE DE COMPRAR, evidentemente).

Muito impressionado com a noção de que poderia estar a condenar um infeliz e a sua família à morte ou a um mês de campanha eleitoral, saí à rua com a edição especial de ficção da Atlantic, impecavelmente actualizada para o trimestre em curso. Pavoneei-me demoradamente, mas ninguém apareceu surgido de um rasgão no tecido espácio-temporal das calçadas lisboetas e não me restou senão acabar por ler a revista que – e agora chegamos onde eu queria começar – até tinha algumas coisas interessantes.

Paul Theroux, por exemplo, assina catorze textos (Voices of Love) que nos dias de hoje se classificariam preferencialmente de microcontos, embora a rotulagem dentro da categoria “Concentrado de Lugares-Comuns sobre a Infidelidade Sexual” também não lhes assentaria despropositadamente. Por muito previsíveis que os contos me apareçam, a participação de um escritor experimentado como Theroux coloca em evidência as pequenas lacunas de técnica com que os restantes candidatos nas páginas vizinhas ainda se debatem. O decorrer do tempo ou a descrição sumária de uma personagem, só para dar um exemplo, podem colocar dificuldades a neófitos e veteranos, mas Theroux encaixa instintivamente a passagem de uma década entre duas frases dinâmicas ou finaliza o retrato de uma personagem com um único e simples traço. Tudo boas técnicas que por vezes se confundem como autóctones do género do conto microscópico ou cristalizações de minimalismo literário mas que na verdade são manifestações universais de inteligência narrativa (consideravelmente mais difíceis de se executar e aperfeiçoar). À faceta pedagógica dos trechos de Theroux apenas decresce a necessidade de ler o grosso da revista para apreciar aspectos puramente formais daquele que deveria ter sido um contributo mais corpulento do ponto de vista substantivo (afinal, e lealdades à parte, o nome de Theroux ajudou certamente a mover muitos exemplares desta revista).

Mais neurótica é Jill McCorkle, com um conto intitulado PS, semi-actualização para o decénio da psicanálise banalizada das peripécias conjugais de uma Miss Lonelyhearts que aqui se encontra no lugar do paciente, é feminina, e discursa numa linguagem mais libertina, bamboleando entre o nervosismo e a satisfação. A grande matriz existencial de desencantos com a Nova Iorque ou outra metrópole é abandonada para dar espaço a todos os comezinhos conflitos de uma vida que só em aparência se poderia dizer simples ou plena de sentido. E apesar de não parecer inspirar-se numa fonte de vivência pessoal, a autora consegue escrever com a autoridade de uma biografia ao mesmo tempo que despe qualquer traço de presunção do seu registo (por vezes mesmo pobre). O resultado é um conto crescente e um canto honesto que se repete tantas vezes nos apartamentos das nossas convivências.

Deixando a ficção de lado, por um momento, é possível encontrar nesta edição especial da Atlantic uma sondagem educada sobre o papel e o valor do conceito de Literatura Nacional, uma noção em notável falência desde que a globalização se instalou em termos reais. Sobretudo no campo de literatura anglófona, afirmar que um livro é determinantemente influenciado pela raiz nacional do seu autor, e que portanto lhe deve ser atribuída esta ou outra etiqueta, é um procedimento especialmente desprovido de sentido. “You swiftly realize you’re in the realm of taxonomy informa Margaret Atwood – “a discipline that has befuddled greater minds than yours“.

Perseguindo este raciocínio, só Joseph O’Neill tem a força de uma opinião mais sólida, se não mesmo controversa, acerca do papel legitimador do substrato nacional a partir de onde se escreve:

Because Milan Kundera, say, no longer writes in Czech as an autochthonous Czech (oslovak) about matters Czech (oslovakian), but rather in French as a naturalized French citoyen du monde, his moral authority qua writer is put in doubt, because he is perceived as writing for no legitimizing comunity. (Beckett transcended this problem but, as with Kafka, see under: Genius, nonapplicability of rules to. )

Interrogo-me se não há um aqui juízo transponível para a literatura de viagem que possa mais tarde manietar com fitos maldosos de desvalorização desse subgénero. Suspeito que sim, pelo menos quando o seu hipotético autor insiste em sair do círculo externo de observador escrevente e começa a tentar interagir com a realidade observada (oh Theroux, por que me fazes destas coisas?). É uma questão para outras calendas.

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