Tempestade

Novamente fascinado e atormentado pelo processo do amor. Vejo-o invencível, aniquilado mil vezes pela razão, circunstância ou corpo; vejo-o finalmente imaculado e irredutível e fazendo de mim uma ideia concentrada de desejo, inquieta nuvem de electricidade suspirante cuja vida se resume à chegada e partida de sítios diferentes.

A tua imagem encontra-se perdida nas sombras do horizonte cortante, para além de uma barreira em que o meu olhar se detém – incapaz de franquear os limites da tua banalidade, impotente para te falar à beleza. E desaparece o sentido das jornadas partilhadas de ontem, nas longas horas em que de tudo abdico.

Tenho de obedecer a essa voz da razão que interfere e perscruta com desespero o significado doloroso de um olhar incompreendido ou o alcance de uma palavra inesperada e irreflectida. Mas quando isso sucede já é tarde demais, e o processo acabou de ganhar um ímpeto autónomo. Alimenta-se agora de todas as incertezas. Nada de novo, nada.

Mas calculo-me. Maquino: devo fazer isto, ou então aquilo (mas não ainda). Questiono-me, claro. Que quero? Não queres isto, não a queres. Que parvoíce. Mas é evidente que a quero. Consumo-me: quero desistir.

Compreendes-me, sem me eleger. Como é possível compreender-me sem me eleger?

(toda a minha existência se baseia nesse pressuposto:

que alguém me elegeria, se me compreendesse)

Obrigas a negar-me.

 Melhor que me abandones (e quando digo tu, quero dizer eu). Ocupa o espírito de um coração mais expedito que ainda tenha de ser convertido a essa coisa misteriosa a que por falta de imaginação chamamos amor.

Agora vou fingir. Fingir que não se passa nada, que só escrevi isto porque estava aborrecido. Vou escrever outra coisa qualquer sobre um livro entediante e colocá-la em frontispício, para que não se diga que os meus dedos ociosos se quedaram sob o teclado aquando da conclusão desta entrada. Vou fazer anagramas com o nome dela. Depois vou fazer anagramas com a raiz macedónica do nome dela. Tudo para que não se pense que esta lamentação é uma lamentação, não mais do que uma ocupação melancólica de um espírito desconsolado. Vou escrever pentâmetros iâmbicos, ou brincar com o verso livre, ou então montar um soneto clássico de tipo italiano (e tudo lá colocar, dodecassílabas sem alexandrinos, exposição do tema em duas quadras, conjunção adversativa no nono verso, em abba abba daqui até à eternidade), vou escrever isso e entalá-lo ainda entre outras insignificâncias, para que também isso passe despercebido e pereça o labor excessivo de alguém que não consegue escrever mas se ocupou todavia com essa minuciosa obsessão.

Termina-se com um poema (esse sim, um poema) de Yeats, cuja junção (e não o poema, credo) aproxima a atipicidade deste texto à mediocridade do resto da página, e diz que

I am worn out with dreams;
A weather-worn, marble triton
Among the streams;
And all day long I look
Upon this lady’s beauty
As though I had found in a book
A pictured beauty, (…)

Um dia acrescentarei: for men improve with the years.

And yet,

And yet.

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