Cavalheiros: o Senhor Trismegistus

“By this art you may contemplate the variations of the 23 letters.”

Robert Burton

The Anatomy of Melancholy

Part 2, Sect. II, mem. IV

Tristram ShandyQuando se lê The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman (A Vida e Opiniões de Tristram Shandy, Cavalheiro), é perfeitamente normal que o lóbulo pariental do cérebro comece a procurar desesperadamente formas alternativas de ocupação sensorial. Foi durante um tal evento que dei por mim a pensar parietalmente que aquele livro era provavelmente o mais próximo que um ser humano alguma vez chegara em termos de praticar uma variação interminável, gramaticalmente coerente – e tão sintaticamente irrepreensível quanto o permitido pela forma da sua toldada linguagem – de milhares de palavras, expressões, interjeições ou invectivas na língua inglesa. De certo modo, há um pouco de Tristram Shandy neste próprio parágrafo, mas a ideia nem por isso deverá ser obnubilada: a de que não há qualquer conteúdo no livro.

Na Biblioteca, Tristram Shandy seria um livro-atalho, um volume em que as palavras ininteligíveis já tivessem sido reconfiguradas num dialecto cognoscível ao viajante. Um atalho, como tudo na Biblioteca, ilusório e circular, porque ela está recheada de línguas que ainda não se tornaram inteligíveis mas já se encontram consagradas pelos homens que as lerão. Ora, um livro-atalho não está preocupado com o seu conteúdo (ou, então, também esse conteúdo poderá só no futuro tornar-se compreensível). Um tal livro é Tristram Shandy, cujo menor dos seus componentes autónomos (isto é, cada uma das palavras, e não tanto das 23 a 26 letras variáveis do alfabeto) é perfeitamente compreensível até ser lançado para o seio de milhões dos seus furiosos companheiros sinápticos.

Laurence Sterne descreve nesta obra altamente irregular a vida de um fulano cujo nome poderia ser Trismegistus mas acabou por se firmar em Tristram. Para explicar esta simples imprevidência, Sterne enche duzentas páginas da minha edição da Wordsworth (Attn: ymmv), uma conduta que provavelmente merecia uma advertência nas contracapas de modo a informar o potencial leitor que este livro quebra todas as regras da narração convencional, desejando todavia fazer algo de muito peculiar com os estilhaços que ficam estendidos pelo chão (ao contrário dos poemas sobre canecas partidas do José Luís Peixoto). Sterne eleva a exploração de todas as técnicas literárias da época aos seus mais absurdos píncaros, testando todos os limites, invertendo a a ordem da narrativa, escrevendo um prefácio a meio do livro, matando personagens antes de elas nos serem apresentadas (delicioso Alas, poor Yorick!) ou escolhendo empregar páginas em branco, páginas em preto, desenhos toscos ou rabiscos geométricos sempre que isso lhe pareça mais adequado à exposição em curso.

Laurence Sterne é também imperdoável na sua inteligência: ele sabe que nós sabemos que ele sabe que uma palavra tem um duplo sentido, e nós sabemos que ele sabe que nós iremos inevitavelmente procurar o seu sentido mais grosseiro. Ele usa-a à mesma, nós interpretamo-la à mesma, e o resultado narrativo é imprevisível e desconcertante: de uma castanha a arder que cai na braguilha de um tal Phutatorius aprendemos porque motivo as castanhas assadas começaram a ser servidas no final da refeição. Nada disto tem relevância para a vida de Tristram, mas no capítulo seguinte podemos admirar uma descrição sumária das melhores técnicas de tratamento epidérmico das zonas afectadas pelo escaldamento. Como bons porcos que somos, por esta altura já estamos a pensar em tudo menos unguentos e costumes sociais de etiqueta culinária: e Sterne certifica-se que de facto nos encaminhamos para esse outro baixo sentido. No final, ele sabe que nós sabemos que o sentido objectivo tem primazia absoluta sobre a forma, que na realidade o capítulo versa sobre meios de tratamento de queimaduras, mas entretanto ficámos também a saber, envergonhados, que a nossa mente é tão irrequieta que é impossível afastar dos seus corredores todas as pequeninas palavras que nos reclamam mil histórias e sentidos paralelos.

Ou então: nenhum sentido é superior ou mais nobre que qualquer outro. Apenas existem sentidos visados pelo objecto da narrativa – que merecem primeira atenção – e todos os restantes –  que estão, lá, que não podemos afastar, e que não são piores ou melhores. É uma maneira fracturante e intensa de propor a subsunção da forma ao conteúdo, sem ignorar as variações infindáveis da primeira.

Se aceitarmos isto, compreenderemos porque razão Sterne é incapaz de se quedar numa única narrativa. A meio do livro, comecei mesmo a equacionar a possibilidade de tudo aquilo se tratar uma piada de mau gosto. Talvez a língua – instrumento de comunicação babeliana – não tenha sido inventada para isto, pensei. Tristram Shandy está concebido para desinformar através da informação (só por si, isto daria um paralelo brilhante com a nossa própria era tremendamente bem informada e instruída, mas que não faz a menor ideia onde se encontra o saber). Ramificações florescentes de informação interminável escondem um facto relevante num mar de bocejos. É verdadeiramente um livro dos livros ou um livro da areia, uma experiência tão fragmentária que nos leva a crer que mais nada poderia fazer jus às representações minuciosas dos costumes e extravagâncias dos humanos cujas vidas e paixões relata.

E isto é uma crítica? Pessoalmente, acho o livro brilhante. A estas páginas pode reconduzir-se uma miríade de obras literárias dos séculos seguintes, desde o Retrato de Dorian Gray até ao Nariz de Gógol (este com um embrião muito físico no Conto de Slawkenbergius). Goethe poderia ter lido Tristram Shandy antes de decidir inaugurar o seu Grand Tour – e certamente as suas andanças teriam sido mais divertidas. Até mesmo Ulysses bebe desta fonte. O importante é que na na variação infindável de non-sequitura de Tristram Shandy, é como se a vida do homem em narração se desvanecesse, como de resto toda a humanidade. Aqui, uma humanidade com uma diarreia verbal, sem grandes pontos de interesse a narrar. É uma piada, sim, e o olhar arguto de Sterne não nos larga.  Resta saber se conseguimos rir de nós próprios.

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