Deslustres e desdouros

Um artigo na New Yorker – escrito por Malcom Gladwell e disponível aqui – analisa a figura de Atticus Finch no contexto mais lato do activismo racial durante a era das leis Jim Crow. É uma leitura interessante para quem está familiarizado com a história de To Kill a Mocking Bird, mas assenta num ponto de partida um tanto falacioso: o de segurar Atticus Finch contra o escrutínio (necessariamente contemporâneo) do paradigma anti-racista. O processo é naturalmente injusto numa matéria delicada sobre a qual o espírito da nossa era pratica uma exegese contínua a que nem os mais cuidadosos ou interessados sobrevivem sem mácula. Tais acontecimentos podem ser de notável surpresa para os mais tolerantes – ou ingénuos – de entre nós. Para um exemplo recente, bastará apontar as ilacções raciais que foram retiradas das leituras de Verão de um desses homens muito cuidadosos, o presidente dos Estados Unidos da América (o artigo está notoriamente cônscio do proverbial tongue-in-cheek, mas há verdades que são melhor ditas em tom ligeiro).

Uma das cenas mais importantes do livro é o final do julgamento em que Tom Robbinson (o negro acusado de agredir e violar uma jovem branca) é condenado pelo júri local, muito a despeito da sóbria defesa de Atticus Finch, o único advogado que aceitara representar o acusado da sua livre volição. Gladwell faz uma leitura das reacções de Finch que me parece ignorar o aspecto puramente narrativo de To Kill a Mockingbird, uma dimensão seguramente não despicienda dentro do género de livro que Harper Lee acabou por escrever. Na verdade, entender que a ausência de uma reacção violenta ou de um rosto vociferante imediatamente reconfigura Finch como uma pessoa desinteressada da causa parece-me um tanto rebuscado.

Dificlmente poderia a saída de cena de Atticus Finch comportar maior gravidade dramática, construída como está pela autora. Há ali de tudo um pouco, desde a figura do homem lógico e dialéctico por excelência, reduzido ao silêncio pela ignorância alheia, até à comitiva de negros que – qual coro grego mudo – se ergue premonitoriamente em sinal de respeito pelo homem que defendera um dos seus. Também lá se encontram os filhos de Atticus Finch, e em especial um rapazinho muito jovem, sobre quem a narrativa transfere a indignação emocional que o pai não pode sentir. É um notável fresco impressionista do homem derrotado, pintado com fôlego ímpar em tons oranginos e solares como convém aos finais da tarde no Sul.

E porque não pode ele sentir o rubor da afronta? Porque Atticus Finch é a idealização da justiça processual, e uma única preocupação ilumina a mente calma de um tal homem: garantir uma defesa tão justa quanto a que for constitucionalmente concedida. Nesse aspecto, reconheça-se que Harper Lee compreendeu melhor a deontologia da sua personagem do que a maior parte dos romancistas ou guionistas da sua época, preocupados em oferecer uma imagem do advogado-cruzado ou do advogado-activista em consonância com as novelas de sala de audiências que começavam a pulular nos écrans e raros monitores. Quando no fundo, para Atticus, o facto de Tom Robbinson ser um negro socialmente indefensável era uma dificuldade de grau e não de natureza.

Logo se compreende que o alcance ideológico de To Kill a Mocking Bird e do seu pequeno cruzado Finch é mais reduzido do que o panorama de combate ao ódio racial (apesar de ficar claro que um homem inteligente e racional como Atticus não poderia deixar de pensar de outra forma, no plano substantivo). As limitações de que padece o romance – há algumas, claro – não se concentram na sua mais carismática personagem, mas antes na occasio legis (cof-cof) em que foi escrito, circunstâncias que fatalmente lhe enformam uma parte da sua linguagem e atitudes.

Nesse sentido, e desculpando aquilo que pode ser perdoado, parece-me razoável entender To Kill a Mockingbird como um trabalho que nasceu durante uma fase intermédia de liberalismo racial, e que por isso mesmo sente enormes dificuldades em aplicar um padrão de julgamento valorativo verdadeiramente universal. O Atticus Finch de Harper Lee apenas consegue erguer armas contra a segregação e discriminação precisamente porque adopta um padrão de comportamento que é redutoramente contrário ao ditâme racista prevalente. Por isso é tão importante o desfecho da narrativa, e a dúvida sobre a integridade de Finch que, chamado a aplicar a implacável pureza do due process of law à sua família, consente que a Justiça abra os seus olhos por uma ocasião.

Padrões morais inconsistentes ou fraqueza patriarcal? Melhor será dizer que a redutibilidade na bilateralização rigorosa dos seus imperativos morais se deve ao facto de – para certas causas – Atticus desejar flexibilidade, bom senso, e rapidez na resolução de uma disputa. Talvez na sua mente isto seja consistente com a ideia de uma forma de justiça humana. Mas se admirarmos Atticus Finch por aquilo que ele deve ser efectivamente admirado – enquanto defensor da justiça processual – então esta conclusão é muito mais devastadora do que a simples implicação de que o homem não lutou adequadamente contra o racismo durante a era da segregação.

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