Da utilidade da beleza

The Ugly Duchess

A Duquesa Feia

Quinten Matsijs

Vladimir Nabokov teve oportunidade de catalogar Maupassant como um escritor de fôlego curto, isto é, um artista do conto e do romance breve. Nabokov O Irascível também teve oportunidade de dizer outras coisas muito feias acerca de Maupassant mas, como sempre, só um décimo do que ele escreveu pode ser tomado a sério (normalmente a parcela que achamos mais adequada para o texto que estamos a escrever a cada momento).

Pegando nos trechos que mais me interessam e concordando com a afirmação acima transposta, é óbvio que Guy de Maupassant se revela particularmente  ágil sempre que se dedica à exposição breve das suas personagens e encrencas dentro de um invólucro do conto, deslizando confiantemente ao longo das escassas páginas. Que ele o faça com um verdadeiro fio condutor em L’Inutile Beauté (A Inútil Beleza) (nisto há que discordar de Nabokov com grande veemência, e uma forquilha) é um soberbo prazer adicional e uma oportunidade dourada de encontrar num pequeno volume a centralização de alguns temas vitalícios do autor francês.

À partida, se houvesse que descrever sobre o que versam os contos de L’Inutile Beauté, o tema apareceria evidente: a Mulher. A Mulher misteriosa e bela, a objectificada e a objectificadora, a origem das maiores loucuras, e a raiz dos mais belos encantamentos, o ponto nevrálgico de uma estratificação social complexa, e a simplicidade do seu olhar apaixonado. Tinha de ser um francês a escrever sobre isto, evidentemente. Também não admira que Guy de Maupassant não se consiga decidir por nenhuma das facetas acima descritas; nem sequer precisa, porque a Mulher é tudo isso e muito mais do que ele, ou qualquer outro, jamais compreenderá. O acto de contrição e ignorância transparente é patenteado em cada linha: que não restem dúvidas, parece dizer-nos, que nos encontramos perante um fenómeno de vida que nos ultrapassa e nos conforma, até roçar os contornos de uma verdade mística.

L'Inutile BeautéA magnificência diáfana das mulheres não é assunto de salões de cristal ou cafés da alta sociedade. Ou antes, não apenas: ela também ocorre no campo, ou então no seio de uma farrusca família de pescadores. Depois de Zola, a lição dos naturalistas parece esgotar-se em moralismos bucólicos fáceis: em Maupassant, essa veia adquire um contorno inofensivo que obra na convicção de que a beleza feminina  também se encontra acessível a classes de gentes tão classicamente imerecedoras de contemplação como prostitutas parisienses, ou possivelmente mulheres defuntas de imagem preservada em quadros de óleo sobre ostensivas lareiras e cujo encantamento vai sobrevivendo nos olhares da sua descendência – por vezes exclusivamente masculina – e na retina dos que com ela privam, assombrados! A propósito, o protagonista de um destes contos depara-se com um homem cujo sucesso junto do sexo feminino é digno de um epíteto de Byron. A fonte do seu fascínio é ambígua, e o protagonista ensaia uma amizade interesseira, depurando a origem de tanta beleza. Ao visitar a sua moradia, esbarra com uma tela extraordinária, em que se representava uma mulher assombrosa. Era a mãe do ilustre e tímido conquistador. Afinal, não há verdadeira beleza humana que não provenha de uma mulher, é a lição que Maupassant martela com insistência.

Um dos pontos mais fascinantes deste pequeno livro é a fácil capacidade de Maupassant em urdir uma esfera de situações e constrangimentos que oprimem os homens dos seus contos, enublando a clausura das suas vidas emocionais com promessas de emasculação humilhante. Absurdamente difícil de se alcançar, o menor erro de caracterização neste género de literatura é o suficiente para transformar por completo uma personagem diminuída num monstro ressabiado, homúnculo detestável que subitamente odeia a Mulher, ou então que cega e miseravelmente se odeia a si próprio. O que Maupassant deseja – e alcança – é o espectáculo do homem que sofre na indefinição da incerteza, tão atormentado pela sua insegurança e tão confundido pelo objecto do seu amor que nem se permite as lágrimas purificadoras do desgosto. Ao invés persiste, remoendo, sofrendo, muitas vezes nem se dando conta da extensão da mudança que se vai operando na sua vida por influência daquela sua esposa ou amante. Na maioria dos casos, aliás, como poderia ele saber que amava? Alguns homens começam então a beber – mas não muito, apenas o suficiente para se dizerem mudados – outros iniciam-se no jogo – mas nunca em demasia, ou com o grau de abandono observável numa vítima do vício.

Um exemplo claro do que venho a alvitrar é o próprio conto L’Inutile Beauté, cujo valor e sentido, aliás, não são exactamente iguais aos que detinham aquando da sua publicação original. Nesta história, Gabrielle, uma estupenda mulher, uma exageradamente bonita condessa de trinta anos, com um corpo escultural e uma prole de sete filhos embarga todas as relações com o marido – um fulano simpático, agradável e bem-parecido, que a tratava cordialmente e era gentil para todos os filhos. Segundo ela, repugna-lhe ter mais descendência, e sente que essa é a intenção obstinada do marido, de todos os maridos, de todos os homens: fazer filhos depois de as desposarem, usando os seus corpos como cisternas biológicas, num círculo grotesco de procriação social. Enquanto isso, eles mantêm a sua vida relativamente intocada: a forma do seu corpo permanece a mesma, e até o vigor dos seus espíritos decai com menos intensidade enquanto elas deixam de ser apetecíveis para o mundo. Esta é uma visão extraordinária que não sei como reconduzir aos dias de hoje. A título de exemplo e ilustração, poderia falar de algumas das minhas amigas ou conhecidas que desejam ardentemente ter filhos. Nos homens da minha geração, esse parece ser um desejo mais abstracto e eventual. E como ainda não cheguei à idade dos casamentos dos meus amigos – algo que decerto me ofertará outra perspectiva – interrogo-me se as posições entre os dois sexos já revolveram tanto que começam a alinhar-se novamente com este conto oitocentista.

Mais, diz a condessa. Daqueles filhos todos, um não era dele. Mas qual, ao certo, ela não revelará, desejando que ele se roa de conjecturas.

Este conto revela a tentativa do autor em compreender a Mulher através dos seus próprios desgostos, mas acontece que todas essas mágoas imaginadas continuam a ser uma representação masculina daquilo que uma mulher pode ou não vir a sentir. O que sabe ele de uma dor feminina? Maupassant imagina que uma mulher daquelas se pudesse sentir triste por ser encurralada numa vida curta de procriação automatizada. Como se esse fosse o maior pecado em que os homens incorressem! A perspectiva do autor não é egoísta ou maliciosa; não é sequer redutora. É tão somente masculina. A vingança que ele encontra para a mulher é ainda uma retribuição dentro do “abuso” a que os homens a sujeitam. Fazer filhos? Então farei filhos com outrem! A mulher de Maupassant não rompe o casamento, nem ergue escândalos, nem repudia o marido: elege uma represália dentro da prisão contra a qual se rebelia, o que implicitamente equivale a considerar que ela não pretende ou não deseja libertar-se desse mesmo cárcere.

Também o castigo a que o marido é sujeito revela uma lógica estritamente masculina. A emasculação social e íntima é um receio exclusivamente masculino, raramente brandido intencionalmente pelas mulheres enquanto estocada de ataque.

Sejamos justos, há outros pecados masculinos para além de tranformar uma mulher numa espécie de tanque axlotl do século XIX. Os homens dos contos de L’Inutile Beauté têm tantas culpas no cartório que por vezes até existe um cartório (querendo eu com isto dizer que os membros do clero não estão ausentes destas histórias). Alguns são canastrões, mas inofensivos. Outros estão tão apaixonados pela ideia da mulher que se esquecem de amar a mulher em si mesma. Outros são uns celerados repelentes, cortejando delicadamente uma moça e violentando-a assim que o matrimónio se encontra firmado. É assim que um dos mais viscerais contos desta colectânea, Le Noyé (O Afogado) incide sobre a miserável forma de tirania a que tantas jovens, depois de bem namoradas, bem tratadas, e de bem impressionados os seus papás, são durante dez, quinze ou vinte anos maltratadas às mãos de autênticas bestas. Neste conto, o basbaque é um marinheiro que passados alguns longos anos desaparece no mar, sem notícia sequer de tempestade ou naufrágio. A jovem não sabe o que pensar. As vizinhas reconfortam-na, encorajam-na a recuperar a sua vida perdida. Os dias sucedem-se, e eis que se volta a ataviar, que os sorrisos regressam ao seu lindo rosto. Um dia, visita o mercado e compra um papagaio, para companhia e distracção. Sem nunca estar certa de que o seu marido se tinha afogado no oceano profundo, a jovem saboreia essa perda e, por algum tempo, volta a ser feliz.

Nessa noite, o papagaio acorda-a a altas horas da noite com os seus guinchos e exclamações disconexas. A pequena está cansada, confusa, e no silêncio do breu julga ouvir a voz do seu marido. Do pássaro parecem provir os mesmos insultos que ele a dedicava. Meu Deus, que aflição! Ele voltara! Ele estava dentro de casa, com a sua voz grossa! Os seus punhos ameaçadores! O corpo dela treme e retrai-se em antecipação. Cega de medo, com o coração palpitando descontroladamente, salta do leito, embrulha o papagaio numa toalha e atira-se contra o solo, rebolando e esmagando aquela coisa mole, quente, que lhe rasga os braços com garras indefesas até que deixa de estrebuchar.

Podia na verdade ficar aqui o dia inteiro a analisar este conto. Mas só queria sublinhar como Maupassant é capaz de criar estas imagens fortíssimas, lançadas com uma linguagem refinada e dura, enfurecedora. Os seus contos nunca infligem letargia (eu sei, extraordinário), mas às vezes estes safanões imprevistos cumprem um propósito de revelação repentina.

Se me atrevo a declarar alto e bom som perante as autoridades fiscais que os contos de Guy de Maupassant não são minimamente entediantes, muito disso se deve ao facto de ele, por esforço próprio, se identificar com as suas personagens – que, por mais que tentem, não conseguem compreender as suas esposas, amantes, ou namoradas. Às vezes são demasiado confiantes, arregaçando as mangas de uma camisa que dá pelo belo nome de fatuité e que poderia servir de subtítulo à colectânea. É assim que o eterno marido, no conto L’Èpreuve (O Teste, que em francês tem o sentido também de provação), ao descobrir que a mulher do vizinho o enganava, afirma triunfalmente para a sua própria mulher que, ao contrário dos outros homens, ele, marido, grande! bom! admirável! aperceber-se-ia seguramente se alguma vez a sua esposa o tivesse traído.

Que lhe responde essa sua esposa? O marido lançara-lhe afinal um desafio. Provavelmente agora o imbecil aguarda uma provocação, uma riposta. Ou um assentimento. Uma negação. Uma luta.

Mas ela, serena, limita-se a sorrir-lhe com elegante malícia, abandona a divisão, e deixa o seu marido entregue às sombras sufocantes dos seus maiores receios.

Só uma mulher consegue fazer isto. E o seu homem, por mais inteligente ou autónomo, não consegue deixar de sofrer com a retirada. Não há sequer aqui qualquer tragédia a que ele se possa agarrar, com glória e choro. Trata-se simplesmente do balanço de factos definidores das nossas linhas existenciais, do funcionamento dos factos da vida. Se um homem não gostar disto, ou antes, se o achar insuportável, então que se suicide ou mude a sua orientação.

O livro reserva ainda outras surpresas e, no geral, ofereceu-me uma das leituras mais agradáveis dos últimos tempos. Diante das suas muralhas estilísticas de tijolo pós-naturalista, talvez se possa atacar a estrutura dos seus contos, pelas suas valas e torreões serem erigidos em torno de uma lição ou ideia a que o escritor subsume tudo o resto. Maupassant não é um brilhante escritor de verdades irreveladas, como o será Tchékhov. Mas é um contador de lições sentimentais, e com este trabalho acabou por nos deixar uma das mais belas confissões da inépcia, confusão, embaraço e completa patetice que continuará a caracterizar as acções dos homens perante as mulheres até ao fim das eras.

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2 thoughts on “Da utilidade da beleza

  1. […] ‘Da utilidade da beleza’ […]

  2. […] por “tetrâmetro trocaico cataléptico“, o que me deixa vagamente perturbado (“fotos de mulheres feias“, “como fazer uma gincana empresarial” e “lunokhod” em cirílico […]

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