O robô mais corajoso do sistema solar

Este domingo, às 20h30, a RTP2 vai retransmitir um documentário sobre o Lunokhod I e II, um programa espacial de exploração lunar robótica promovido pela União Soviética em plena corrida ao espaço. O título: Um Tanque na Lua.

1960-1970: o que resta dessa década áurea da exploração espacial, desenfreada e politizada? Os americanos, em primeira instância, ganharam a corrida à lua. Wernher von Braun aperfeiçoara a série V dos foguetões Saturno a um nível de fiabilidade que os colossais N1 de Sergei Korolióv nunca conseguiram atingir (o alemão sempre se dera bem com a letra V). E as imagens sonorizadas do desembarque de Neil Armstrong e Buzz Aldrin de 1969 ficaram cinzeladas no imaginário popular desde então.

Mas, no ano seguinte, um robô aterrou na lua.

Lunokhod_1

Foi logo em 1970 que o Lunokhod (digam comigo: Луноход – narród) deslizou timidamente do módulo não-tripulado Luna 17, coroando com retumbante êxito o trabalho secreto de quase uma década de engenharia espacial. O veículo era comandado remotamente a partir da Terra, estava equipado com câmaras de filmar de tipo japonês e tinha dois olhos adoráveis. Era movido a energia solar e uma tampa couraçada protegia-o da fria noite lunar. No seu interior, uma bateria de polónio mantinha-o quentinho enquanto a carapaça estava selada. Este Wall-E dormia! O Lunokhod I fora desenhado para funcionar durante três dias lunares (o equivalente a três meses daqui), mas após 320 dias terrestres de operação os pilotos continuavam a guiar pela lua, recolhendo inacreditáveis fotografias.

zpostlkdPerante um feito tão singular, a comunidade científica americana dividiu-se. Façanha mais notável que o Programa Apollo? Golpe propagandístico de perdedores à corrida espacial? O então administrador da NASA, George M. Low, chegou ao ponto de desdenhar publicamente o projecto russo, considerando-o inconsequente em termos de progresso científico. Ironicamente, a pesquisa dos engenheiros soviéticos sobre os meios de locomoção mecânica em ambientes rochosos de gravidade reduzida foi recuperada aquando da construção do Mars Pathfinder que foi lançado pela NASA em 1996 e que nos transmitiu imagens lindíssimas da superfície do planeta vermelho.

A história do Lunokhod não morre aqui. A União Soviética voltou a lançar um segundo caminhante lunar em 1973 que operou sobre uma área mais vasta (e que décadas mais tarde seria comprado – sim, comprado, pelo Lord British – oh ironias do kitsch pós-ismo!). Seguiu-se uma parceria com os franceses – que na altura adoravam irritar a NATO – e em 1986 dois Lunokhods II foram enviados para Chernobyl a fim de escorarem destroços da central nuclear. Sem grande delito de hipérbole, pode-se dizer os aparelhos salvaram a vida a muitos Liquidadores, que naquelas áreas apenas conseguiam trabalhar em turnos de noventa segundos.

Este pequeno texto vem a propósito do quadrigésimo aniversário da missão Apollo 11 que hoje se celebra, bem como do recente lançamento de mais um Space Shuttle com sucesso, duas ocasiões para me fazer erguer o olhar à noite estrelada e pensar nos argonautas do nosso tempo. E é fascinante pensar que, logo em 1970, desembarcava na lua e avançava, destemido, um veículo motorizado com olhos curiosos e lentes perscrutadoras. Comandado a milhares de quilómetros de distância, o pequeno Lunokhod, o robô mais corajoso do sistema solar, iniciava uma viagem admirável, que vale bem a pena descobrir.

 

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