A Europa, segundo Zweig

“Já então, no mais velho livro do mundo, no começo da Bíblia, onde ela fala dos primeiros homens, encontramos num símbolo magnífico a primeira história desse desejo de união criadora da humanidade. É a profunda lenda da Torre de Babel e é o mito admirável que eu quero recordar e explicar. Nessa época, mal saídos do desconhecido, os homens – portanto, a humanidade – encontravam-se agrupados em vista de uma obra comum. Eles viam um céu por cima deles, e, como já eram homens, sentiam já o desejo do sobrehumano e do inacessível, e diziam para si mesmos: «Construamos uma cidade e uma torre, cujo cume atingirá o céu, para que possamos criar um nome para a eternidade». E eles moldaram a argila, cozeram os tijolos e puseram-se a edificar a sua obra formidável.

Mas Deus viu do alto do céu – assim narra a Bíblia – esse esforço ambicioso e deu-se conta da crença grandiosa na obra. Ele reconheceu o poder do espírito que ele mesmo tinha colocado nos homens e a força imensa que existe, irresistível, nessa humanidade, que duraria enquanto permanecesse unida. E para que a humanidade não se enchesse de orgulho e não o atingisse, Ele, o Criador, na sua altura solitária, decidiu impedir a obra e disse: «Que eles se atormentem, e que nenhum compreenda a língua do outro.» Assim, a Torre de Babel, obra comum de toda a humanidade, ficou abandonada e caíu em ruína. Este mito é um admirável símbolo da ideia de que tudo é possível à humanidade, mesmo as coisas mais altas, quando ela se encontra unida, mas quase nada quando ela se divide em línguas, em nações, que não se compreendem mais e que não querem compreender-se.”

O pensamento europeu no seu desenvolvimento histórico

Stefan Zweig, 1932, Florença

Ao contrário do seu contemporâneo e amigo Joseph Roth, Zweig era um optimista, e um proponente entusiástico da união entre europeus. Optimista num sentido negro, claro, pois a sua vida foi marcada  pelo desejo triste de recuperar as referências que ele entendia perdidas já desde a viragem do século, a partir do declínio de uma monarquia austríaca bicéfala tão disforme e confusa que – no absurdo das coisas – ainda serviria de ponto nostálgico das gentes do século XX.

Neste discurso, Zweig traça um percurso europeu da universalidade, os seus caminhos descobertos para escapar ao obscurantismo medieval, e a criação de um diálogo único que unia os povos (nessa altura era o latim comum). Fortemente apaixonado pelas implicações da Weltliteratur – que Goethe, no seu íntimo, pretendia alemã – Zweig fala-nos a partir de um púlpito complexo, no seio de uma europa de ontem, de uma espécie de mundo perdido cuja lenta agonia lhe era insuportável. Mesmo que fosse uma esperança desesperada, Zweig não sabia desligar-se do idealismo europeu, e ansiava por uma reconstrução de que ele era o primeiro a afirmar improvável, impossível. Roth tinha outra visão das coisas, declarando o óbito europeu com maior prontidão. Se o “suicídio da Europa” estava a demorar tanto tempo, isso era apenas porque ela já morrera, e aquilo que eles estavam testemunhando era antes a lentidão e a agonia expectáveis de um tal cadáver suicida.

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